Goiás cria gabinete especial para enfrentar incêndios, estiagem e efeitos do El Niño
27 agosto 2026 às 08h43

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Goiás criou uma estrutura especial para preparar e coordenar a resposta do Estado aos incêndios florestais, à estiagem e aos impactos associados ao fenômeno El Niño durante o ciclo 2026/2027. O Gabinete de Ações Integradas (GAI) foi instituído pelo Decreto nº 10.978, publicado no suplemento do Diário Oficial do Estado, e será articulado pelo Corpo de Bombeiros Militar de Goiás (CBMGO), por meio do Comando de Operações de Defesa Civil.
A criação do gabinete ocorre diante de um cenário climático que preocupa os órgãos de monitoramento. Boletim conjunto do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), Cemaden e outros órgãos federais aponta manutenção e intensificação do El Niño ao longo do segundo semestre de 2026, com elevada probabilidade de que o fenômeno alcance intensidade muito forte entre a primavera e o início do verão.
O que é o El Niño
O El Niño é um fenômeno climático caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. Essa alteração interfere na circulação atmosférica e modifica a distribuição de chuva e temperatura em diferentes partes do planeta.
No Brasil, os efeitos não são uniformes. O fenômeno costuma favorecer chuvas mais volumosas no Sul, enquanto aumenta o risco de períodos secos em áreas do Norte e Nordeste. No Centro-Oeste, a relação histórica com o El Niño é menos direta, mas os estudos apontam uma tendência de temperaturas mais elevadas, especialmente em Goiás, Mato Grosso e Distrito Federal. O aumento do calor no fim do inverno e na primavera pode reduzir a umidade relativa do ar e elevar o risco de incêndios.
A nota técnica elaborada por órgãos como Inpe e Inmet também destaca que os impactos podem variar conforme a intensidade e a evolução do fenômeno. Por isso, os especialistas recomendam acompanhamento permanente das condições atmosféricas, hidrológicas e dos alertas oficiais.
Risco de calor, seca e queimadas
Para o segundo semestre, as projeções nacionais apontam para temperaturas acima da média em grande parte do país. No trimestre julho-agosto-setembro, a previsão indica maior probabilidade de chuvas abaixo da média em boa parte do Centro-Norte, enquanto o Sul apresenta cenário oposto, com maior probabilidade de precipitações acima da média.
A combinação entre calor, baixa umidade e menor volume de chuva é especialmente preocupante para o Centro-Oeste, Norte e Nordeste porque deixa a vegetação mais seca e aumenta a facilidade de propagação do fogo. O Cemaden apontou, para o trimestre julho-agosto-setembro, mais de 6,7 milhões de km² do território brasileiro classificados nos três níveis mais altos de risco de fogo.
Em Goiás, os efeitos já são percebidos durante o período de estiagem. Dados divulgados em agosto apontaram aumento de focos de queimadas em determinados períodos do mês, enquanto grandes incêndios atingiram áreas do Nordeste goiano. Um incêndio na região da APA Serra Geral de Goiás e do Parque Estadual de Terra Ronca chegou a atingir aproximadamente 14,1 mil hectares antes de ser controlado.
O cenário também é agravado pela ação humana. Segundo informações divulgadas pelo Estado durante operações de combate, equipes de fiscalização passaram a atuar para identificar a origem dos incêndios e responsabilizar eventuais autores de queimadas ilegais.
Gabinete terá monitoramento 24 horas
O decreto estabelece que o GAI terá uma Sala de Situação de funcionamento contínuo durante sua vigência. O espaço funcionará no Comando de Operações de Defesa Civil e será responsável por consolidar diariamente informações sobre focos de calor, alertas meteorológicos e relatórios operacionais.
A estrutura deverá reunir dados do Centro de Informações Meteorológicas e Hidrológicas de Goiás (Cimehgo), da Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad) e de outros órgãos de monitoramento. A partir dessas informações, serão elaborados indicadores diários e relatórios periódicos de risco para orientar as decisões do governo.
O gabinete também poderá emitir alertas públicos e campanhas educativas sobre o uso racional da água e os riscos de incêndios. Outra atribuição será produzir avaliações de risco capazes de subsidiar a Defesa Civil na eventual decretação de situação de emergência ou estado de calamidade pública.
Impactos podem chegar à agricultura e aos rios
Os efeitos do El Niño não ficam restritos às queimadas. A alteração do regime de chuvas pode afetar produção agrícola, disponibilidade de água, níveis dos rios e reservatórios e geração de energia.
Na Amazônia, por exemplo, os estudos apontam possibilidade de redução dos níveis dos rios em períodos de déficit de precipitação, com consequências para transporte, abastecimento, pesca, agricultura e geração hidrelétrica. O risco de incêndios também aumenta quando períodos secos se combinam com temperaturas elevadas e baixa umidade.
No Nordeste, o fenômeno pode favorecer condições mais secas e temperaturas elevadas, aumentando o estresse hídrico da vegetação e a vulnerabilidade aos incêndios. No Sul, por outro lado, o El Niño historicamente está associado à possibilidade de chuvas mais frequentes e intensas, o que pode elevar o risco de enchentes, alagamentos e deslizamentos em determinadas situações.
No Centro-Oeste, a preocupação principal é a combinação entre calor, baixa umidade e risco de fogo, embora os efeitos sobre as chuvas sejam menos previsíveis do que em outras regiões. A nota técnica do Inpe destaca especificamente a tendência de temperaturas mais altas em Goiás e a consequente redução da umidade relativa do ar, condição que favorece queimadas.
Saúde também entra no radar
O clima mais quente e seco pode ter reflexos na saúde da população. Além da exposição direta ao calor, a fumaça provocada pelas queimadas pode agravar problemas respiratórios.
Em Goiás, a Secretaria Estadual de Saúde já relacionou o cenário de estiagem, calor intenso, baixa umidade e chuvas irregulares a riscos para doenças transmitidas pelo Aedes aegypti. Até julho, o Estado havia registrado 147.084 notificações de dengue, com 96.174 casos confirmados, além de 13.243 notificações de chikungunya, das quais 11.128 haviam sido confirmadas.
Em âmbito nacional, pesquisadores também alertam que eventos climáticos extremos associados ao El Niño podem pressionar os sistemas de saúde, com impactos relacionados a ondas de calor, chuvas intensas, doenças respiratórias e arboviroses.
Governo não cria orçamento próprio para o gabinete
Apesar de reunir diversos órgãos, o GAI não terá estrutura administrativa, quadro de pessoal ou dotação orçamentária próprios. As atividades serão executadas pelos órgãos participantes, utilizando os recursos humanos, materiais, logísticos e orçamentários já disponíveis.
O decreto também determina que a participação no gabinete não dará direito a gratificação, jeton ou remuneração adicional.
A estrutura permanecerá ativa durante o período de emergência ambiental ou de situação de emergência e poderá continuar funcionando por até 30 dias depois do encerramento do período crítico associado ao El Niño, para consolidar dados, avaliar danos e produzir relatório final.
O que está em jogo para Goiás
A criação do gabinete coloca o Estado em regime de preparação para um segundo semestre marcado pela combinação de estiagem, calor, baixa umidade e maior vulnerabilidade a incêndios. O desafio será transformar o monitoramento em resposta rápida, especialmente nas regiões onde grandes áreas de vegetação já enfrentam incêndios durante o período seco.
O cenário nacional também é desigual: enquanto áreas do Sul podem enfrentar episódios de chuva intensa, partes do Norte, Nordeste e Centro-Oeste podem lidar com calor, seca e maior risco de fogo. Por isso, os órgãos federais recomendam acompanhamento permanente das condições meteorológicas e hidrológicas.
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