Do pequi ao chocolate: como empreendedoras transformam os sabores do Cerrado em negócios de sucesso
11 julho 2026 às 21h00

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O Cerrado costuma florescer em silêncio. Entre árvores de casca grossa, veredas e campos que resistem ao avanço da monocultura, amadurecem frutos que carregam séculos de história: pequi, baru, cagaita, mangaba, buriti, araticum, jatobá. Durante muito tempo, eles permaneceram restritos às cozinhas do interior, às receitas das avós e às mesas das famílias goianas. Hoje, ganham um novo destino. Nas mãos de empreendedores, transformam-se em chocolates premiados, cervejas artesanais, conservas, pastas, queijos vegetais e produtos capazes de cruzar fronteiras sem perder a identidade.
Mais do que uma tendência gastronômica, esse movimento revela uma nova forma de olhar para o bioma. Em vez de enxergar o Cerrado apenas como território a ser explorado, esses empresários descobriram que preservar, valorizar e contar a história de seus ingredientes também pode ser um bom negócio.
Cada produto carrega uma memória. Cada receita nasce de uma experiência de vida. E, antes de existir uma marca, quase sempre existiu alguém disposto a trocar a segurança pelo desconhecido.
Foi exatamente isso que fez Ana Paula Rodrigues.
Até poucos anos atrás, o futuro parecia desenhado. Farmacêutica, líder de equipe em uma indústria onde trabalhou durante 12 anos, ela havia conquistado aquilo que muitos brasileiros buscam durante toda a vida: estabilidade.
Mas, quando chegava o fim de semana, era outra profissão que ocupava seu tempo.
Na sexta-feira, passava uma lista entre os colegas de trabalho. No sábado de manhã, chegava com as encomendas prontas. Primeiro eram 40 pamonhas. Depois, 80. Logo passaram de 200 unidades apenas para os colegas da fábrica.
O dinheiro tinha um destino certo. “Eu paguei a minha faculdade toda vendendo pamonha. Sou farmacêutica formada graças às pamonhas”, lembra.
O que nasceu como complemento de renda acabou revelando um caminho inesperado.

Quando faltavam apenas seis meses para concluir a graduação, Ana Paula precisou tomar uma decisão que muitos adiam por medo. Permanecer na carreira construída ao longo de mais de uma década ou apostar definitivamente no próprio negócio.
A resposta não veio de um plano de negócios sofisticado. Veio dos clientes.
“Eu já sabia que tinha muita gente esperando pelo meu produto. Meus colegas falavam: ‘Ana, abre seu negócio. Você ganha mais aqui vendendo pamonha do que trabalhando aqui’.”
A escolha também tinha um componente familiar. Mãe de três filhos, ela queria estar mais presente dentro de casa e construir algo que pudesse crescer junto com a família.
Nascia, assim, a Pamonharia da Ana.

Hoje, três anos depois da abertura da loja física, o pequeno negócio atende cerca de 2,5 mil clientes por mês, produz aproximadamente quatro mil pamonhas mensais e já supera R$ 700 mil de faturamento anual.
O curioso é que o produto responsável por transformar a empresa não existia no cardápio. Surgiu por acaso, durante um almoço. Enquanto preparava uma costela desfiada, Ana Paula olhou para a panela e imaginou uma combinação improvável.
“Eu pensei: será que se eu colocar essa costela dentro da pamonha dá certo?”
Antes de lançar a novidade, fez apenas um teste. Entregou a receita para uma cliente conhecida pela criticidade e sinceridade.
“Eu falei para mim mesma: se ela gostar, eu coloco no cardápio.”
E ela gostou. Hoje, a pamonha de costela é o carro-chefe da casa. A criação dela é inovadora, sendo a pioneira da pamonha de costela no Estado de Goiás.
“Depois que ela viralizou, virou disparado a campeã de vendas.”
A novidade passou a atrair consumidores de diferentes estados. Encomendas seguem para Brasília, Rio Verde, Goiânia e, todos os anos, uma caixa viaja até Manaus. Há clientes que levam as pamonhas para os Estados Unidos, Irlanda e outros países.
Ana Paula costuma brincar que seus produtos já viajaram mais do que ela. “Tem hora que chegam aqui e falam: ‘Essa pamonha vai para a Irlanda’. Eu penso que minhas pamonhas conhecem mais lugares do que eu.”
Mas o sucesso, insiste ela, não nasceu apenas da criatividade. Nasceu da obsessão pela qualidade.
Na cozinha trabalham apenas três pessoas: ela, o marido e a mãe. Enquanto a cunhada assume o atendimento e as entregas, o trio cuida praticamente de todo o processo de produção.
O milho é selecionado diariamente. As pamonhas nunca são reaproveitadas. Não há produto amanhecido nem reaquecido.
“A gente só trabalha com produto fresco. Faço duas ou três produções por dia porque, se a pamonha ficar muitas horas na estufa, perde qualidade. O cliente percebe.”
Essa transparência virou parte da marca.
Quando o milho muda de textura — algo comum em um produto artesanal — Ana Paula prefere avisar o consumidor antes da compra.
“Eu falo: ‘Hoje ela não está do jeitinho que você gosta’. Transparência é tudo.”
O aprendizado, diz, veio também dos anos na indústria farmacêutica. Foi ali que incorporou processos de organização, controle de qualidade e liderança que hoje aplica dentro da cozinha.
“A indústria me ensinou que qualidade não pode mudar de um dia para o outro.”
Ao mesmo tempo em que administra fornecedores, controla o financeiro, cria novos sabores e grava vídeos para as redes sociais, ela continua sonhando alto.
Depois da pamonha de costela, prepara o lançamento da versão inspirada na chica-doida. Também estuda receitas com pequi, guariroba e até abobrinha.
Porque, para ela, empreender significa imaginar o próximo passo antes mesmo de concluir o atual. “Meu pai fala que eu sou sonhadora. Eu respondo que a gente tem que sonhar grande.”
E faz questão de deixar um conselho para quem ainda hesita diante da própria ideia.
“O não você já tem. Então tenta. Se der certo, maravilha. Se não tentar, nunca vai saber.”
Enquanto milhares de pamonhas deixam diariamente a cozinha da família, Ana Paula ajuda a mostrar que um dos alimentos mais tradicionais de Goiás ainda guarda espaço para inovação — sem abrir mão das raízes que fizeram dele um símbolo da identidade goiana.

Se a pamonha continua sendo um dos maiores símbolos da cozinha goiana, o chocolate parecia um território improvável para contar a história do Cerrado. Afinal, o cacau sequer é produzido em escala em Goiás. Ainda assim, a engenheira de produção Ariana Silva Ribeiro encontrou justamente nesse contraste a oportunidade de criar uma marca com identidade própria.
A ideia nasceu de forma despretensiosa. Um chocolate artesanal trazido dos Estados Unidos despertou sua curiosidade. Até então, ela sequer conhecia aquele tipo de produção.
“Eu comecei a pesquisar e tentei fazer algo parecido em casa. Era um hobby.”
O hobby logo deixou de caber dentro da cozinha.
Primeiro vieram os pedidos da família. Depois dos amigos. Em seguida, pessoas que Ariana sequer conhecia começaram a procurar aqueles chocolates artesanais. Foi nesse momento que ela percebeu que não estava apenas aprendendo uma nova técnica.
Estava construindo um negócio. Antes disso, sua rotina era completamente diferente. Engenheira de produção, também atuava no varejo esportivo. A chocolateria representava uma mudança radical de carreira — algo que exigiria anos de aprendizado, pesquisa e experimentação.
Hoje, instalada no Jardim América, em Goiânia, a C’Alma Chocolate produz o chamado chocolate bean to bar, sistema em que toda a fabricação é controlada pela própria empresa, desde a escolha do cacau até a barra pronta.
“Nós selecionamos o produtor, escolhemos o cacau, fazemos a torra e produzimos o nosso próprio chocolate.”
O cacau vem da Bahia, Espírito Santo, Pará e Acre. Mas é em Goiás que ele ganha personalidade. Enquanto boa parte das chocolaterias busca referências internacionais, Ariana decidiu fazer o caminho inverso: olhar para dentro de casa.

Assim nasceram barras com baru, cagaita, cajuzinho-do-cerrado e até uma receita inspirada no tradicional pastelinho de Goiás.
Não existe fórmula pronta. Cada lançamento começa com uma ideia. Depois vêm dezenas de testes.
“O chocolate tem limitações técnicas. Primeiro pensamos no sabor e depois precisamos descobrir se ele é viável dentro do chocolate.”
Nem sempre funciona. Mas, quando funciona, o resultado surpreende. Hoje, as barras mais vendidas da marca são justamente aquelas que traduzem Goiás em sabor.
A combinação entre café e chocolate tornou-se um sucesso. A barra inspirada no pastelinho de Goiás virou uma das preferidas do público. Frutos do Cerrado passaram a ocupar um espaço antes reservado apenas a castanhas, frutas secas e especiarias tradicionais da confeitaria internacional.
Para Ariana, esse nunca foi apenas um diferencial comercial. Foi uma escolha de identidade.
“Desde o começo, a marca nasceu para valorizar as nossas raízes. Quando usamos ingredientes do Cerrado, estamos valorizando a origem da nossa marca, que é daqui.”
A estratégia mostrou que tradição e inovação podem caminhar juntas. Em poucos anos, a C’Alma ultrapassou as fronteiras goianas.
Hoje, os chocolates estão em empórios e cafeterias de diversos estados brasileiros. Mais do que isso. Conquistaram reconhecimento internacional.
A marca recebeu premiações técnicas em concursos realizados em Londres e nos Estados Unidos, distinções raras para pequenas fabricantes brasileiras de chocolate artesanal.
O caminho, porém, esteve longe de ser simples. “O maior desafio foi explicar para o mercado o que eu estava fazendo.”
Quando começou, praticamente ninguém em Goiânia conhecia o conceito bean to bar. Antes de vender chocolate, Ariana precisou ensinar consumidores sobre fermentação, torra, origem do cacau e diferenças de qualidade.
Foi preciso formar um mercado enquanto construía uma empresa. Hoje, a realidade é outra. As pessoas procuram exatamente aquilo que antes parecia estranho.
E muitas delas levam um pedaço de Goiás para presentear familiares e amigos em outras partes do Brasil — e até do mundo.
“Quando alguém entra aqui dizendo que vai viajar e quer levar um produto genuinamente goiano, eu fico muito feliz. É sinal de que a marca conseguiu representar a nossa identidade.”
Essa relação entre alimento e pertencimento aparece em praticamente todas as histórias dos empreendedores do Cerrado.
Alguns começaram pela tradição.
Outros pela curiosidade.
Há também quem tenha encontrado na própria ciência um novo caminho para empreender.
Foi o caso da bióloga e geneticista Tanise Knakievicz.

Durante boa parte da carreira, Tanise acreditou que sua vida permaneceria ligada exclusivamente à universidade. Pesquisadora, professora e doutora, passou anos dedicada ao ensino e à produção científica.
O empreendedorismo parecia distante. Mas uma sequência de acontecimentos mudou completamente seus planos. Primeiro vieram as restrições alimentares. Ela pensou em uma diversificação da produção agrícola, que não compete com os cultivos que já estão estabelecidos, mas fortalece a agricultura familiar, trazendo diversidade numa mesma área, em uma mesma renda.
“E com esse potencial ainda de atender inclusão alimentar para as pessoas que não conseguem se alimentar, por exemplo, de trigo ou de leite”.
Depois veio a pandemia. Ao mesmo tempo, um desafio de inovação lançado pelo Governo de Goiás reacendeu uma antiga ideia que carregava desde o doutorado: transformar conhecimento científico em soluções para o mercado.
Foi dentro da cozinha de casa, em Niquelândia, que começou a experimentar ingredientes. Tentou diferentes formulações. Nenhuma funcionava exatamente como imaginava. Até que chegou ao baru.
“Quando utilizei a castanha de baru, consegui desenvolver um queijo que deu certo. A partir daí, o produto começou a ganhar forma.”
Nascia o Angatu.
Veja abaixo fotos dos produtos feitos por Tanise.
O nome, de origem tupi-guarani, significa bem-estar, felicidade e equilíbrio.
Também faz referência a uma antiga lenda do Norte de Goiás envolvendo uma indígena chamada Angatu, reforçando a ligação entre o produto e o território onde foi criado.
Mais do que um queijo vegetal, o Angatu representa uma proposta de inovação construída sobre um ingrediente que ainda permanece pouco conhecido fora do Centro-Oeste.
Segundo Tanise, o baru reúne características raras para esse tipo de alimento. Além do elevado teor de proteínas, possui sabor delicado e teor de gordura capaz de conferir textura semelhante à de um queijo tradicional.
“O baru lembra um pouco o sabor do queijo e agradou muito ao paladar.”
Mas transformar um fruto nativo em alimento industrializado revelou obstáculos que vão muito além da cozinha.
O maior deles começa antes mesmo da fabricação. A qualidade da matéria-prima.
“A cadeia produtiva ainda precisa evoluir muito. O armazenamento influencia diretamente na qualidade da castanha.”
Como bióloga e geneticista, Tanise enxerga um enorme campo de pesquisa ainda pouco explorado.
Ela acredita que diferentes árvores de baru podem produzir castanhas com características distintas, assim como ocorre com cafés especiais ou diferentes variedades de cacau.
“Existe muito conhecimento que ainda precisa ser desenvolvido.”
Essa visão científica continua orientando todas as decisões da empresa. Ao lado da pesquisa vieram consultorias, programas de inovação e o apoio do Sebrae, que ajudaram na estruturação do negócio, da identidade visual ao planejamento comercial.
Mesmo assim, Tanise faz praticamente tudo sozinha. Produz. Pesquisa. Participa de feiras. Desenvolve novos produtos. Cuida da burocracia.
Enquanto consolida o Angatu como carro-chefe, já trabalha em outra frente: uma linha de sorvetes feitos com frutos do Cerrado, como jatobá, jabuticaba e maracujá.
A ideia, porém, continua sendo a mesma.
Não competir com a natureza.
Mas revelar seu potencial.
“Precisamos trazer esses frutos para o cotidiano das pessoas. É assim que garantimos a preservação da biodiversidade.”
Em comum, Ana Paula, Ariana e Tanise compartilham algo que vai além do empreendedorismo. Elas descobriram que o Cerrado não é apenas paisagem. É matéria-prima, memória e futuro.
Em comum, as histórias de Ana Paula, Ariana e Tanise têm a coragem de transformar ideias em negócios. Mas, em Mambaí, no Nordeste goiano, o empreendedorismo ganhou outra dimensão. Ali, o sucesso de uma empresa passou a depender também do fortalecimento de dezenas de famílias extrativistas que vivem da riqueza do Cerrado.
Foi nesse cenário que nasceu o Sítio Boca do Mato.
Quando Iasminy de Paula Berquó e o companheiro, Sandro, deixaram a Ilha de Marajó para viver em Goiás, a mudança tinha objetivos pessoais, não empresariais. O casal encontrou em Mambaí um Cerrado preservado, abundante em frutos nativos e paisagens que rapidamente se transformaram em parte da rotina. A ideia de empreender surgiu dentro da própria cozinha, de forma despretensiosa, a partir de um hábito bastante comum entre os goianos: consumir pequi.

O problema era a sazonalidade. Apaixonados pelo fruto, eles queriam levá-lo para a mesa durante o ano inteiro. Sandro começou então a preparar uma pasta de pequi apenas para consumo da família. Bastou que amigos e parentes experimentassem para que a receita começasse a despertar interesse.
“Os amigos vinham visitar a gente e queriam levar aquela pasta de pequi. Foi ali que eu visualizei um potencial negócio”, conta Iasminy.
Naquele momento, ela buscava algo que lhe proporcionasse autonomia financeira. Professora de História e de dança, trabalhava em projetos temporários e desejava construir uma atividade que pudesse crescer ao longo dos anos.
“A vontade era fazer um trabalho que tivesse futuro. A gente estava numa região riquíssima em Cerrado e percebia o interesse das pessoas por aqueles sabores. Pensamos: vamos tentar.”
Sem experiência na área de alimentos, a empreendedora buscou conhecimento em cursos e consultorias, entre eles programas oferecidos pelo Sebrae e pelo Senar. O aprendizado começou pelas etapas mais básicas de um empreendimento: emissão de notas fiscais, identidade visual, rotulagem, precificação e planejamento da produção.

A primeira grande oportunidade surgiu durante a Festa do Pequi, em Mambaí. Uma cooperativa de Brasília conheceu os produtos e propôs uma parceria para distribuí-los nacionalmente. Para Iasminy, aquele foi o momento em que deixou de enxergar a produção apenas como uma atividade artesanal.
“Quando recebemos uma grande encomenda para São Paulo, eu pensei: nosso produto é bom, tem potencial. Pessoas que entendem desse mercado estão valorizando o que estamos fazendo.”
A partir dali, o crescimento aconteceu de forma gradual.
O que antes era apenas uma pasta de pequi ganhou companhia de geleias, molhos, conservas, licores e produtos elaborados com cagaita, gabiroba, buriti, baru, coquinho-azedo e outros frutos do Cerrado. Atualmente, o catálogo reúne mais de 15 produtos destinados à revenda.
Os números ajudam a medir essa transformação.
No início, eram produzidas apenas 24 unidades por mês, dentro da cozinha da própria casa. Hoje, a agroindústria fabrica mais de quatro mil unidades mensais e emprega cerca de dez pessoas, distribuídas entre produção, vendas, marketing e administração.
A expansão, porém, não aconteceu sem dificuldades.
Depois de oito anos produzindo em casa, o casal iniciou a construção da agroindústria própria. A obra coincidiu com a pandemia de Covid-19, justamente quando boa parte dos estabelecimentos que revendiam seus produtos fechou as portas.
“A gente quase foi à falência durante esse período. Foi muito desafiador continuar a construção da agroindústria.”
O projeto sobreviveu.
Cinco anos depois da inauguração da unidade, a empresa já se prepara para um novo salto: a exportação.
Nos últimos anos, os produtos do Sítio Boca do Mato participaram de feiras internacionais na Alemanha, França, Japão, Espanha e Colômbia. Também passaram por consultorias voltadas ao comércio exterior e desenvolveram embalagens específicas para mercados internacionais.
“Nós percebemos que a aceitação foi excelente. Agora estamos nos preparando para realmente começar a fechar negócios e iniciar esse processo de exportação.”
Embora o crescimento da empresa seja expressivo, Iasminy faz questão de destacar que o maior patrimônio do negócio não está dentro da fábrica.

Está espalhado pelas propriedades rurais da região.
Atualmente, cerca de 35 famílias fornecem a matéria-prima utilizada pela agroindústria. Em sua maioria, são agricultores familiares e extrativistas, muitos deles mulheres, que coletam frutos nativos respeitando os ciclos naturais do Cerrado.
Segundo a empreendedora, a relação construída ao longo dos anos ultrapassou a lógica comercial.
“A gente considera esses produtores como amigos. É uma relação construída há mais de seis anos, baseada no diálogo e em preço justo.”
Além da compra dos frutos, a empresa fornece equipamentos de proteção individual e recipientes adequados para armazenamento da produção, buscando melhorar as condições de trabalho das famílias.
Para Iasminy, esse modelo demonstra que conservar o Cerrado também pode gerar renda. “A gente quer fortalecer essas famílias e mostrar para o Brasil inteiro que os sabores do Cerrado têm valor.”
A preocupação com sustentabilidade também aparece dentro da própria agroindústria. A produção utiliza energia solar — sistema conquistado após uma premiação voltada a empreendimentos liderados por mulheres — e toda a equipe da linha de produção é formada exclusivamente por trabalhadoras, reforçando o propósito de fortalecimento da autonomia feminina.
Ao olhar para trás, Iasminy percebe que a maior transformação talvez não tenha acontecido apenas na empresa.
Aconteceu na forma como passou a enxergar o próprio bioma. Aquilo que antes fazia parte da paisagem tornou-se fonte de inovação, renda e identidade. É uma percepção compartilhada também por empresas que já alcançaram outro patamar de mercado.
Ao longo dos últimos anos, o Cerrado deixou de ser apenas inspiração para chefs e cozinheiros e passou a ocupar um lugar estratégico na indústria de alimentos e bebidas. Se pequenos produtores descobriram novas possibilidades para frutos antes consumidos apenas regionalmente, empresas já consolidadas também perceberam que a biodiversidade do bioma poderia se transformar em identidade de marca. Foi exatamente essa aposta que levou a cervejaria Colombina a construir uma das trajetórias mais conhecidas da cerveja artesanal brasileira.
Quando decidiu entrar em um mercado cada vez mais competitivo, a empresa entendeu que precisava encontrar um caminho próprio. Em vez de seguir receitas tradicionais ou buscar referências internacionais, escolheu olhar para aquilo que sempre esteve ao redor.
“Queríamos nos diferenciar no mercado e criar uma marca forte através dessa identidade ligada à nossa cultura e ao nosso bioma. Decidimos seguir por esse caminho, que não era fácil, mas que nos traria diferenciação no longo prazo”, resume Patrícia Mercês, CEO da Colombina.

A decisão transformou ingredientes pouco explorados em protagonistas das cervejas da marca. O pequi e a cagaita foram os primeiros a despertar a curiosidade dos consumidores, justamente por carregarem sabores marcantes e pouco convencionais. Com o tempo, outros ingredientes passaram a ganhar espaço, especialmente a baunilha-do-cerrado e a mutamba, presentes na Romaria, considerada a cerveja mais premiada da empresa.
Produzir com ingredientes nativos, entretanto, exige uma cadeia de fornecimento completamente diferente daquela encontrada na indústria convencional. Para garantir qualidade, regularidade e sustentabilidade, a Colombina mantém uma relação de longo prazo com produtores locais, baseada em planejamento das compras e previsibilidade de produção.
Segundo Patrícia, o consumidor atual também passou a valorizar algo que vai muito além da bebida.
“Acredito que cada vez mais o consumidor compra o propósito da marca e não somente o produto. O pertencimento, os valores e a cultura são traduzidos nas nossas cervejas.”
Essa responsabilidade aumenta quando se trabalha com um dos biomas mais ameaçados do país. Para a empresária, empresas que utilizam frutos do Cerrado também precisam assumir o compromisso de preservá-lo.
“Quanto mais falamos do nosso bioma, mais ele passa a fazer parte das discussões sobre conservação. Sabemos que não existe Colombina sem existir o Cerrado.”
Por isso, além da relação com fornecedores, a empresa adotou práticas como reciclagem de embalagens, uso de energia sustentável e negociações consideradas justas com os produtores que abastecem a cervejaria.
Entre todos os ingredientes utilizados pela marca, Patrícia acredita que dois ainda têm enorme potencial de crescimento nacional.
“A baunilha-do-cerrado e o baru têm potencial para conquistar o Brasil pelo sabor e pela facilidade de aceitação do consumidor.”

Essa percepção é compartilhada por praticamente todos os empreendedores ouvidos pela reportagem. Cada um encontrou um ingrediente diferente para contar a história do Cerrado. Mas todos enxergam nesse patrimônio natural uma oportunidade de desenvolvimento que depende diretamente da conservação da biodiversidade.
Em Caldas Novas, um dos maiores símbolos da gastronomia goiana também nasceu da necessidade, muito antes de se transformar em atração turística.
Quando Tânia Maria Magalhães chegou à cidade, em 2001, trazia pouco mais que coragem. Separada, mãe de três filhos pequenos e sem estabilidade financeira, precisou recomeçar praticamente do zero. Até então, sua experiência profissional não estava ligada à cozinha. Trabalhara durante anos com comércio de roupas em Goiânia. Foi a dificuldade para sustentar a família que a levou a descobrir um talento que sequer imaginava possuir. Ficou três anos vendendo na rua e, em 2004, começou o Empadão da Tânia.
“Às vezes meus filhos não tinham nem o que comer. Eu comecei vendendo minipizzas congeladas de porta em porta, morrendo de vergonha, vencendo o orgulho.”
As primeiras receitas foram preparadas com a ajuda da mãe e de vizinhos, que contribuíram com ingredientes para que ela pudesse testar massas e recheios. Todos os dias, Tânia percorria hotéis, bancos e estabelecimentos comerciais oferecendo seus produtos. Aos poucos, conquistou uma clientela fiel e conseguiu alugar uma pequena lanchonete no centro da cidade.
O espaço era modesto. Um balcão, uma mesa antiga e poucas cadeiras. No cardápio, minipizzas, salgados e algumas empadas. Foi justamente um cliente, arquiteto do Rio de Janeiro, quem enxergou ali algo que ela ainda não percebia.
Depois de provar uma das empadas, sugeriu que o estabelecimento abandonasse o antigo nome, Mini Pizza Maná, e passasse a se chamar Empadão Goiano da Tânia.

“Ele falou: ‘As pessoas precisam saber quem está por trás desse sabor’. Eu ouvi o conselho e mudei tudo.”
Tânia diz que aprendeu a construir seu negócio ouvindo os clientes. Mudou cores da fachada, ajustou receitas, criou novos recheios e transformou críticas em aprendizado.
“O empadão tem um pedacinho de cada cliente.”
O crescimento ganhou força em 2007, quando o Empadão Goiano da Tânia passou a integrar o tradicional Guia Quatro Rodas, principal referência turística do país na época.
“Naquele dia meu sonho se realizou. Eu queria ser conhecida, e de alguma forma passei a ser.”
A fama trouxe turistas de todas as partes do Brasil e do exterior. Com o tempo, a pequena lanchonete se transformou em três unidades e passou a integrar a Rota Além das Águas, iniciativa voltada à valorização da gastronomia e do turismo regional. O negócio também cresceu com apoio de consultorias e capacitações do Sebrae, parceiro da família desde os primeiros anos da empresa.
Mas foi uma decisão tomada dentro da cozinha que consolidou o empadão como símbolo da culinária goiana.
Até então, a receita não levava pequi nem guariroba.
Tânia decidiu incorporar justamente os ingredientes que melhor representam a identidade gastronômica de Goiás, apesar da resistência inicial de muitos turistas.
“Quando eu oferecia o empadão de pequi, muita gente dizia que não gostava. Eu respondia: ‘Experimenta. Se não gostar, você não paga’.”

A estratégia funcionou.
Hoje, o empadão de frango com pequi e guariroba é o carro-chefe da casa e um dos pratos mais procurados por quem visita Caldas Novas em busca de uma experiência genuinamente goiana.
Mesmo administrando três unidades ao lado dos filhos e do neto, Tânia continua acompanhando de perto a produção. Faz questão de preservar a receita original e o padrão de qualidade construído ao longo de mais de duas décadas.
“Eu quero que as pessoas continuem dizendo daqui a muitos anos: ‘O tempero continua o mesmo’. Crescer nunca pode significar perder qualidade.”
Ao olhar para todas essas trajetórias, fica evidente que o ingrediente mais importante talvez não seja o pequi, o baru, a cagaita, a guariroba ou o milho.
É a capacidade de transformar tradição em inovação.
Cada um desses empreendedores encontrou um caminho diferente para valorizar o Cerrado. Uns apostaram em receitas familiares. Outros recorreram à ciência, à pesquisa ou ao desenvolvimento de novos produtos. Há quem tenha levado o sabor goiano para concursos internacionais, quem esteja preparando exportações ou quem receba diariamente turistas interessados em conhecer um prato típico.
O ponto de encontro entre todos eles está justamente na compreensão de que a biodiversidade pode ser mais do que um patrimônio ambiental: pode gerar emprego, renda, fortalecer agricultores familiares, estimular o extrativismo sustentável e criar produtos capazes de competir nos mercados mais exigentes sem abrir mão da identidade regional.
Durante décadas, muitos desses frutos permaneceram restritos às árvores que pontuam a paisagem do Cerrado. Hoje, eles percorrem estradas, cruzam oceanos, chegam às mesas de diferentes países e contam, em cada receita, uma história que começou muito antes de existir qualquer marca.
No fim das contas, mais do que vender alimentos, esses empreendedores mostram que preservar o Cerrado também pode ser um excelente negócio — e que o futuro da gastronomia goiana talvez esteja justamente naquilo que sempre fez parte de sua própria terra.
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