Divórcio grisalho cresce no Brasil e especialistas apontam longevidade, autonomia feminina e redes sociais como fatores
15 julho 2026 às 15h59

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O chamado “divórcio grisalho”, separação de casais com mais de 50 anos, tem crescido de forma consistente no Brasil. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que, em 2022, foram registrados cerca de 420 mil divórcios no país, dos quais 23,27% envolveram homens acima de 50 anos e 31,12% mulheres nessa mesma faixa etária. Há pouco mais de uma década, esse percentual girava em torno de 10%.
Para o presidente da Comissão de Direito das Famílias da OAB-GO, Christiano Melo, o aumento reflete uma mudança no comportamento da sociedade e não apenas aspectos jurídicos. “É nítida essa mudança. Um dos fatores é a longevidade. Hoje as pessoas vivem mais e chegam a uma fase da vida em que querem aproveitar esse período com mais estabilidade”, afirmou ao Jornal Opção.
Segundo o advogado, mudanças culturais também influenciam diretamente esse cenário. Na avaliação dele, relações conjugais passaram a ser encaradas de maneira diferente pelas novas gerações. “Talvez uma geração passada tivesse mais o peso da palavra e dos compromissos. Hoje isso já não existe com a mesma intensidade”, observa.

Outro fator citado por Christiano é a influência das redes sociais, que podem criar expectativas irreais sobre relacionamentos. “Tem também o fator da ‘grama do vizinho’. As pessoas acompanham constantemente a vida dos outros nas redes sociais e começam a acreditar que também poderiam viver aquelas experiências. Muitas acabam desistindo do próprio projeto de vida conjugal”, explica.
Além disso, ele destaca que questões financeiras também contribuem para o aumento das separações. “Num país com as dificuldades econômicas que vivemos hoje, o divórcio acaba sendo uma constante”, acrescenta.
Processo costuma ser mais simple
Do ponto de vista jurídico, porém, não há diferenças significativas entre o divórcio de pessoas acima de 50 anos e o de casais mais jovens. “O procedimento é praticamente o mesmo. O que muda é que, normalmente, esses casais já têm filhos adultos. A ausência de disputa pela guarda facilita bastante o processo”, afirma Christiano.
Segundo ele, muitos casais permaneceram juntos durante anos justamente para evitar impactos emocionais sobre os filhos. “Filhos pequenos costumam ser uma trava para muitos casais. Depois que eles crescem, essa preocupação praticamente desaparece”, continua.
Se por um lado a ausência da discussão sobre guarda simplifica o processo, por outro, a divisão patrimonial pode exigir atenção.
O advogado alerta que muitas mulheres dessa geração dedicaram a vida aos cuidados da família e não participaram diretamente da administração dos bens do casal. “Muitas chegam aos 50 ou 60 anos sem sequer conhecer o patrimônio da família. Elas participaram da construção desse patrimônio de forma indireta, mas nunca administraram empresas ou investimentos” afirma.
Segundo ele, essa falta de informação pode favorecer tentativas de ocultação de bens durante o processo de separação. “Há casos em que patrimônio é colocado em nome de terceiros ou de ‘laranjas’ para dificultar a partilha. Quando há suspeita, a Justiça pode utilizar sistemas de investigação patrimonial e até determinar outras diligências para localizar esses bens”, explica.
Pensão pode ser vitalícia
Outro aspecto frequente nos divórcios envolvendo pessoas mais velhas é o pedido de pensão alimentícia entre ex-cônjuges. “Em muitos casos, a mulher passou décadas dedicada exclusivamente à família e não tem condições de retornar ao mercado de trabalho aos 60 anos. Nessas situações, pode haver até pedido de pensão vitalícia”, relata.
Christiano também lembra que casais que viveram em união estável possuem praticamente os mesmos direitos daqueles que formalizaram o casamento. “Primeiro é preciso comprovar a existência da união estável. Depois disso, aplicam-se, em regra, as normas da comunhão parcial de bens”, explica.
Na avaliação do especialista, o erro jurídico mais comum entre casais que se divorciam após décadas de convivência é justamente o desconhecimento sobre o patrimônio familiar. “A principal recomendação é que ambos conheçam a realidade financeira da família. Delegar completamente essa responsabilidade para apenas um dos cônjuges pode trazer enormes dificuldades no momento da separação”, conclui.
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