De Refugiado a Oráculo visual da capital do futuro: a incrível saga do fotógrafo, Eduardo Bilendjian
17 julho 2026 às 18h39

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Goiânia, a capital do “do fim do mundo”, nasceu, de acordo com uma crônica do imortal Bernardo Élis, envolta em disputas familiares, geográficas e históricas. O escritor chama a atenção para um momento que, segundo ele, é o fato histórico mais importante que se deu nas terras dos Goyases desde a chegada do bandeirante Anhanguera às margens do Rio Vermelho, em 1726: a assinatura da resolução que marca a transferência definitiva da capital do Estado de Goiás para Goiânia.
Na virada do ano, no início de 1937, determinou a construção de um edifício com características de residência no estilo Art Déco, na esquina da Avenida Tocantins com Rua 12, na região central para abrigar a sede do Legislativo. Construído a toque de caixa. Ficou pronto em 45 dias.
Numa cerimônia praticamente anônima, até hoje desconhecida da maioria dos goianos e goianienses, no dia 23 de março de 1937, no segundo andar daquele prédio, sobre uma mesa de madeira de lei, Pedro Ludovico realiza o ato, segundo Bernardo Élis, de maior repercussão em toda história de Goiás: a assinatura do Decreto Estadual 1816, que transfere para Goiânia a capital de Goiás.

O ato só não ficou desconhecido porque o momento histórico foi fotografado. O registro revela, além do interventor-governador, a presença de Irani Alves Ferreira, João D’Abreu, Colemar Natal e Silva [mais tarde, primeiro reitor da Universidade Federal de Goiás], Joaquim Câmara Filho [fundador de “O Popular”], Solon de Almeida, major Benedito de Albuquerque, Belarmino Cruvinel, Manuel Gomes Pereira, Albatênio de Godoi e João Augusto de Melo Rosa.
Nas palavras do imortal Bernardo Élis, “o time mais famoso de Goiás”.
UM ESTRANGEIRO POR TRÁS DA FOTO
Eduardo Bilendjian é o homem que registrou o momento que mudou a história de Goiás. Coube a um ex-refugiado de guerra narrar, através da imagem, o nascimento de Goiânia. Mas até chegar naquela sala da rua 12, Bilendjian percorreu caminhos cheios de percalços e foi testemunha ( talvez esse seja seu maior legado) de ocasiões que alteraram a ordem das coisas, até mesmo sua própria história. Sempre com uma máquina fotográfica em mãos, os registros captados por Belendjian marcam o início da construção de uma capital planejada e são testemunhos de seu sonho de viver em um “lugar do futuro”, em 1935.
Essa é a história do primeiro fotógrafo de Goiânia.

O REFUGIADO QUE GANHOU O MUNDO
Eduardo (Yervant) Bilendjian nasceu em Gaziantep na Armênia, em 15 de setembro de 1907. Aos 15 anos, em 1922, ele e a família fugiram do pais para escapar do primeiro genocídio do mundo moderno: o extermínio do povo armênio pelo Império Turco-Otomano. Sem dúvida, um dos piores momentos da Primeira Guerra Mundial ( 1914-1918).

O Genocídio Armênio ocorreu entre 1915 e 1923, quando o Império Otomano deportou, escravizou e exterminou sistematicamente cerca de 1,5 milhão de pessoas. O fato é amplamente considerado o primeiro grande genocídio do século XX e é reconhecido oficialmente por cerca de 30 países, entre eles o Brasil,enquanto o governo turco, mais de 111 anos depois,continua negando a ocorrência em meio a tentativas de apagamento histórico sobre a assassinato e massacre de um povo em nome de uma vingança e expansionismo territorial.

Ao saírem da Turquia os armênios se refugiaram, inicialmente, em lugares da mesma área geográfica, como na Síria e, depois, no Líbano que naquele tempo constituíam um só país. Para se ter uma ideia da grande concentração de armênios nesses países, que ainda hoje contam com uma população armênia significativa, na cidade de Kessab, na Síria, por exemplo, 80% da população era armênia.
Os Bilendjian se assentaram no bairro armênio em Aleppo, na Síria. Ali o adolescente Eduardo descobriu a paixão pela fotografia ao trabalhar num atelier local. Mas foi em Baalbeck, no Líbano, que ele aprendeu o ofício e se tornou um fotógrafo. Aos 17 anos, ele abriu seu primeiro estúdio: “Foto Souvenir”. Um sucesso na cidade turística libanesa,conhecida por abrigar as ruínas de templos romanos mais importantes e imponentes fora de Roma.

SUSSURROS DO ORÁCULO
Baalbeck é um desses lugares incríveis e misteriosos do planeta. Fica no Vale do Bekaa, sul do Líbano. Seu nome original significa “Cidade de Baal”, em homenagem ao deus fenício da tempestade e da fertilidade. Conhecida durante a Antiguidade Clássica pelos gregos e romanos como o Oráculo de Heliópolis (“Cidade do Sol”), o mais importante local onde os homens buscavam conselhos dos deuses, a cidade é mundialmente famosa por abrigar as ruínas de templos romanos e outros ainda mais antigos e misteriosas, que remontam o período em que a região foi dominada pelos fenícios, povo que criou o alfabeto há mais de 3500 anos.

Certamente foi nesse lugar milenar que Eduardo entendeu o valor histórico de uma imagem, de um registro para posteridade, que ele passou a fazer para turistas do mundo inteiro que visitavm Baalbeck no começo do século XX.
Uma época em que o turismo era feito basicamente por europeus abastados, que buscavam grandes aventuras em viagens para lugares inóspitos como Baalbeck. Alguém que pudesse registrar o momento dessas visitas foi sem dúvida, um ideia genial de Eduardo,que prosperou com a novidade e passou a vender suas fotos como souvenirs. Um sucesso.
O BRASIL COMO DESTINO
Durante a década de 1920, os armênios imigraram para diversas partes do mundo, principalmente para a Europa, América do Norte e América do Sul. Hoje, além da República da Armênia, eles são encontrados principalmente nos Estados Unidos, Rússia, França, Líbano, Síria, Turquia, Irã, Polônia, Canadá, Azerbaijão, Geórgia, Ucrânia, Argentina, Austrália, Alemanha, Bulgária e Brasil
Baalbeck foi apenas uma parte de um longo caminho que levaria Eduardo Billendjian até o cerrado brasileiro. Inquieto e sempre em busca de novas perspectivas, ele deixa o Líbano pra trás aos 19 anos e se muda para a Espanha onde viveu por pouco tempo. No ano seguinte, em 1926, há exatos cem anos, o jovem fotógrafo atravessa o Oceano Atlântico rumo ao Brasil onde pretendia recomeçar a vida, longe da Europa.
Então, o destino o leva para São Paulo. Ao desembarcar no Porto de Santos, Eduardo não falava português, mas sabia que havia uma grande colônia de imigrantes armênios na capital paulista. Logo que chegou, foi acolhido por conterrâneos que ,assim como ele, vivenciaram o mesmo drama.

Em São Paulo-SP, os armênios concentraram-se inicialmente nos bairros da Luz, Santana e na região do mercado Central e Bom Retiro. Trabalharam como mascates, pequenos comerciantes, operários, mas se dedicaram principalmente ao comércio
Eduardo conseguiu emprego como auxiliar fotográfico e posteriormente montou o próprio estúdio. Durante uma década que viveu em São Paulo, ele conseguiu se estabelecer como fotógrafo e casou-se com uma paulistana de origem armênia: Liberta.
Logo vieram as 2 filhas mais velhas e,tempos depois, a família cresceria ainda mais, com a chegada dos outros três filhos; duas meninas e um menino.
A CHANCE DE UM ÚLTIMO RECOMEÇO
O estúdio de Eduardo, em São Paulo, ficava na Avenida São João, a via mais movimentada da metrópole dos anos 30, localizada na região central. A São João era o lugar mais concorrido para quem tinha pretensões de suceder na “cidade grande” e Eduardo conseguiu abrir o negócio bem ali. Eduardo usava o trem para chegar ao trabalho. O desembarque sempre acontecia na Estação da Luz. Foi lá, que ele viu um cartaz divulgando a construção da nova capital de Goyaz (era assim que se escrevia) no Centro Oeste. Aquilo mexeu com ele. Talvez o Oráculo de Baalbeck tenha lhe soprado nos ouvidos um conselho: tomar novos rumos e o caminho era para o oeste.

No mesmo dia, ele voltou pra casa e apenas pediu pra que a mulher arrumasse as malas porque eles iriam mudar para Goiânia. Era 1935, a “cidade do futuro” tinha apenas dois anos de idade e surgia para o armênio como a promessa de um recomeço.
Liberta não gostou da ideia e, em princípio, não quis se mudar para o sertão rumo ao desconhecido. O pai dela também não queria a filha se aventurando à “capital do fim do mundo”. Era assim que os paulistas, por muto tempo, apelidaram Goiânia. Eduardo brigou com o sogro, juntou a família e mudou-se para Goiás.
A viagem de São Paulo até Goiânia foi de trem,e de acordo com o bilhete que foi guardado por ele, durou 48 horas. O mesmo bilhete informava que a nova capital de Goiás contava com somente meio hectare de área urbanizada. Eduardo entendeu que a mudança para cerrado não seria fácil, mesmo assim, ele abraçou o desafio.
O ORÁCULO VISUAL DA NOVA CIDADE
Após a chegada, Eduardo e a família preferiram se instalar em Campinas — a Campininha das Flores. A cidade que virou um bairro de Goiânia era tudo que existia na época. O local, a seis quilômetros distância, deu suporte à construção da nova capital.
Numa casa simples, sem reboco e com tijolos aparentes na Avenida 24 de Outubro, hoje a principal do bairro Campinas, era sua casa e o local de trabalho. O chão era de terra vermelha, não tinha asfalto, nem esgoto, nem eletricidade, nem calçada. Não tinha nada.

Sem emprego certo, de início o fotógrafo pensou em se reinventar e trabalhar em outra área. Imaginava que, como a cidade estava nascendo, surgiriam novas oportunidades. Mas se enganou, porque de fato não havia nada.
Pra se ter ideia, além dos prédios do governo que brotavam na Praça Cívica, margeando o córrego Botafogo, no lado direito, casas de madeira eram habitadas por funcionários públicos, havia uma pensão que hospedava engenheiros, construtores e viajantes. Uma única farmácia funcionava num rancho de palha, um açougue num casebre. O abastecimento fazia-se em minas de água pura e os banhos aconteciam em duchas públicas.
Diante do nada, Eduardo percebeu que seria melhor se lançar como pioneiro no ofício que já sabia fazer e dominava. E assim, ele se tornou o primeiro fotógrafo de Goiânia.Na avenida 24 de Outubro, no mesmo lugar em que morava, o armênio abre o “Goiânia Foto”onde funcionava não só um estúdio, mas também uma loja onde ele revendia equipamentos fotográficos, aparelhos e artigos para fotos em geral.

UM CORPO BOIANDO NO CÓRREGO E O INÍCIO DO TRABALHO DE UMA VIDA
O primeiro trabalho como fotógrafo em Goiânia foi o registro de um corpo que havia sido encontrado no córrego. O delegado precisava do registro e chamou Eduardo para captar a imagem do homem morto que boiava nas águas do Botafogo.
Em seguida, ele começou a fotografar as edificações que iam surgindo em Goiânia. Era o nascimento da nova capital e Eduardo via em cada clique, o pedaço de um futuro em construção. Ele certamente se sentia parte desse projeto de cidade e percebeu que as imagens captadas tinham valor histórico e eram importantes registros. Por isso, ele procurou o interventor em busca de patrocínio para continuar fotografando o início de Goiânia, mas recebeu um não de Pedro Ludovico que argumentou, dizendo que seu governo não tinha recursos para bancar esse tipo de projeto. E não tinha mesmo. Nessa época, Goiás era o estado mais pobre e atrasado do Brasil. O Interventor não mentiu.
Mesmo assim, Eduardo resolveu que ele mesmo bancaria o projeto que ele chamou de VISTAS DE GOIÂNIA e VISTAS DE CAMPINAS. Fez até um anúncio na fachada da loja: “VISTAS DE GOIÂNIA. VENDE-SE AQUI”. Ele numerava as fotos e vendia as cópias para pessoas que tivessem o interesse em adquirir as imagens que marcavam o inicio da construção de Goiânia.
UM GOVERNADOR CORAJOSO E UM FOTÓGRAFO CURIOSO
Eduardo não conseguiu apoio para o projeto “VISTAS DE GOIÂNIA”, mas o encontro com Pedro Ludovico rendeu o interesse do interventor pela sua história de vida. Ficaram amigos. Na época, o fundador de Goiânia queria saber como ele se virou em São Paulo, e ficou admirado quando Eduardo disse que havia largado tudo na capital paulista para ser um dos pioneiros de uma saga que estava apenas começando no sertão brasileiro.
Daí em diante, o armênio passou a receber solicitações do estado e começou a fotografar os fatos que aconteciam na capital, além de registros oficiais para a divulgação da construtora Coimbra Bueno, responsável por erguer a nova cidade. O fotógrafo tinha a preocupação de registrar os prédios governamentais em todo seu esplendor, em ângulos que poucos percebiam.
Suas fotografias estão marcadas na história de Goiânia, especialmente aquelas ligadas à política regional, como a foto oficial da assinatura de transferência da capital e a visita do Presidente Getúlio Vargas. Ao eternizar aquele momento de 1937, ele deu à cidade não só uma imagem, mas um elo entre a memória e o porvir. Também documentou festividades e eventos importantes, incluindo o primeiro carnaval da cidade e o primeiro casamento realizado no Palácio das Esmeraldas.
O SURGIMENTO DA VIDA URBANA NO CERRADO
Com o passar do tempo, Eduardo passou a produzir retratos. Além do trabalho em estúdio que era bastante modesto e possuía laboratório precário, ele registrava casamentos, batizados, formaturas e até falecimentos. Além disso, realizava retoques, foto pintura e a fotomontagem.
Um dos seus produtos favoritos entre os primeiros goianienses era o cartão de Boas Festas. O tema principal era a consrução da nova capital, com as avenidas, edifícios e op surgimento da vida urbana no cerrado goiano.

Eduardo partiu aos 83 anos, em 1991, mas deixou um legado fotográfico que é praticamente a memória visual da Goiânia nascente. Cada foto que fazia, no fundo, era um pedaço do sonho que ele construiu num mosaico de imagens e que permanece vivo até hoje. No fim, sua história se confunde com a da própria cidade, e permanece viva em cada imagem que ele deixou.

É curioso pensar que Eduardo Billendjian transitou de um lugar de oráculos antigos, como Baalbeck, para um Cerrado ainda em promessa. Foi em Goiânia que ele deixou a capa de refugiado para trás e tornou-se, ele mesmo, o Oráculo Visual da nova cidade. Afinal, a história de Goiânia também foi feita por quem a fotografou.








