O mercado de consórcios tem registrado crescimento em Goiás e se consolidado como uma das principais alternativas para quem deseja adquirir imóveis, veículos e outros bens sem recorrer ao financiamento tradicional. O avanço da modalidade ocorre em um cenário marcado por juros elevados, restrição ao crédito e aumento do endividamento das famílias brasileiras.

Segundo dados da Associação de Administradoras de Consórcios (ABAC), em Goiás houve registro de 191.547 vendas de cotas em 2025, com destaque para os segmentos de veículos e imóveis. Esse desempenho acompanha uma tendência nacional de expansão do setor.

 A economista Núbia Simão avalia o crescimento dos consórcios como uma situação diretamente ligada ao financeiro dos consumidores. Segundo ela, o número elevado de pessoas com dificuldades para obter crédito tem levado muitos brasileiros a enxergarem no consórcio uma alternativa viável para realizar a compra de bens. “Hoje, mais de 80% das famílias brasileiras possuem algum tipo de endividamento. Muitas pessoas não conseguem mais acessar linhas tradicionais de crédito e acabam encontrando no consórcio uma possibilidade para adquirir um bem de forma planejada”, explica.

Embora os juros altos tenham contribuído para tornar os financiamentos menos atrativos, a especialista destaca que os próprios custos dos consórcios também sofreram impacto do cenário econômico. “Vivemos um período de inflação e isso também influencia as taxas cobradas pelos grupos de consórcio. Ainda assim, para muitos consumidores, continua sendo mais interessante buscar essa modalidade do que recorrer ao crédito convencional”, afirma.

“O avanço dos consórcios é resultado tanto das dificuldades econômicas enfrentadas por parte da população quanto de uma maior preocupação com o planejamento financeiro.” — Núbia Simão, economista.

Entre a necessidade e o planejamento

De acordo com a economista, o crescimento da modalidade reflete dois movimentos simultâneos. O primeiro está ligado às dificuldades financeiras enfrentadas por parte da população. O segundo revela uma mudança de comportamento de consumidores que preferem se organizar para comprar um bem sem assumir uma dívida tradicional. “O consórcio não cresce apenas por causa da inadimplência. Ele também atrai pessoas que possuem uma visão de longo prazo e buscam uma forma de planejamento financeiro para realizar objetivos futuros”, avalia.

Segundo Núbia, o perfil tradicional dos participantes continua sendo o de consumidores mais conservadores, que evitam financiamentos e preferem construir patrimônio gradualmente. “É aquele consumidor que gostaria de comprar à vista, mas não tem recursos disponíveis naquele momento. Então ele opta por um planejamento de longo prazo para conquistar o bem desejado”, observa.

Atenção ao contrato

Embora as vantagens sejam boas, a especialista faz um alerta importante para aqueles que pretendem aderir a um consórcio: a leitura cuidadosa do contrato.

Segundo ela, muitos consumidores não conhecem as consequências da inadimplência dentro dos grupos de consórcio e acabam enfrentando problemas quando deixam de cumprir com os pagamentos. “O principal cuidado é entender todas as regras do contrato. Dependendo das condições previstas, a inadimplência pode gerar a perda do direito à carta de crédito e comprometer parte dos valores investidos”, explica.

Por esse motivo, a especialista considera o consórcio uma ferramenta importante de educação financeira, desde que o consumidor tenha disciplina para cumprir os compromissos assumidos. “O consórcio obriga a pessoa a se organizar financeiramente e pensar no longo prazo. Isso pode contribuir para uma relação mais consciente com o dinheiro”, destaca.

A expectativa da economista é que o mercado continue em expansão nos próximos anos. Entre os fatores que sustentam essa projeção estão o elevado nível de endividamento das famílias e a busca por alternativas para aquisição de bens duráveis, como imóveis e veículos. Além disso, a possibilidade de contemplação por sorteio ou lance torna a modalidade ainda mais atrativa para parte dos consumidores.

Núbia ressalta, porém, que o cenário pode mudar caso haja uma redução significativa das taxas de juros no país. “Se os juros caírem, o crédito tradicional se torna mais acessível. Nesse contexto, algumas pessoas podem voltar a considerar o financiamento como opção, especialmente aquelas que conseguirem reorganizar suas finanças e recuperar o acesso ao mercado de crédito”, afirma.

Para a especialista, o avanço dos consórcios é resultado tanto das dificuldades econômicas enfrentadas por parte da população quanto de uma maior preocupação com o planejamento financeiro. “É um fenômeno que reúne os dois aspectos. Há consumidores que recorrem ao consórcio porque estão com restrições de crédito, mas também existem aqueles que enxergam nessa modalidade uma estratégia para organizar melhor seus objetivos financeiros”, conclui.

Leia também: Contrato de namoro cresce 827% no Brasil; Goiás registra nove formalizações