Brasil completou 526 anos e o fato não mereceu registro na imprensa nem das autoridades públicas
23 abril 2026 às 16h59

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Terra Brasilis já era habitada por milhões de indígenas e alguns poucos europeus quando Pedro Álvares Cabral (1467-1520 — viveu 53 anos, ou, dependendo da versão, 51 ou 52 anos) avistou o Monte Pascoal em 22 de abril de 1500.
Oficialmente, o fidalgo português é o descobridor do Brasil. Mas, afinal, “quem foi que inventou o Brasil?” — perguntou o compositor e cantor Lamartine Babo em 1934, em sua antológica marchinha (https://tinyurl.com/48kde68z) que os foliões daquela época entoaram pelas ruas e nos bailes daquele Carnaval. “Quem foi que inventou o Brasil? Foi seu Cabral, foi seu Cabral. Foram Peri e Ceci, foram ioiô e iaiá.”
A música de Lamartine Babo sugere que o Brasil é uma invenção dos povos indígenas (Peri e Ceci —personagens do romance indianista “O Guarani”, de José de Alencar), de Cabral (povo europeu) e ioiô e iaiá (povo africano). A rigor, quem inventou o Brasil foi o povo brasileiro. Mas quem inventou Pedro Álvares Cabral, português de Belmonte?
O Brasil que completou 526 anos é o oficial, pois a ilha de Vera Cruz já estava ocupadíssima por indígenas de várias tribos, quer dizer, povos. Mas esqueceram dos indígenas e de Pedro Álvares Cabral. A data, que desde 1930 perdeu o posto de feriado nacional para Tiradentes no dia 21, há muito deixou de ser comemorada, quiçá lembrada.

Pobre Cabral, pobre Brasil, pobre povo brasileiro. No dia 23 de abril, há 526 anos, deu-se o primeiro encontro entre os homens sujos e peludos com os homens limpos e pelados. 23 de abril foi o dia do primeiro contato entre portugueses e indígenas no Brasil — que nem Brasil era. Chamaram a terra de Ilha de Vera Cruz. Ao perceberem que não se tratada de uma ilha, mudaram o nome para Terra de Vera Cruz.
A frota de 13 embarcações estava ancorada há mais de 24 horas, no que hoje é o sul da Bahia, mais precisamente em Porto Seguro.
Ao amanhecer de 23 de abril, Cabral enviou o capitão de uma de suas naus, Nicolau Coelho, para explorar a área e estabelecer o primeiro contato. O encontro inicial, pacífico, envolveu troca de objetos. É o que relata o contador (ou “mestre da balança”) da Companhia das índias, Pero Vaz de Caminha, que acabou por fazer as vezes de Escrivão da missão sobre o “achamento” do Brasil, como os portugueses, até hoje, chamam a chegada ao território que Cabral tinha como missão inspecionar e detalhar ao rei dom Manuel I. Entre seus deveres informar ao monarca sobre como iniciar a exploração da América dita portuguesa.
Trecho da carta de Pero Vaz de Caminha

Escreveu Pera Vaz de Caminha sobre o encontro que mudaria pra sempre a vida dos povos originários (é mantida a grafia portuguesa): “Ali veríeis galantes, pintados de preto e vermelho, e quartejados, assim pelos corpos como pelas pernas, que, certo, assim pareciam bem. Também andavam entre eles quatro ou cinco mulheres, novas, que assim nuas, não pareciam mal. Entre elas andava uma, com uma coxa, do joelho até o quadril e a nádega, toda tingida daquela tintura preta; e todo o resto da sua cor natural. Outra trazia ambos os joelhos com as curvas assim tintas, e também os colos dos pés; e suas vergonhas tão nuas, e com tanta inocência assim descobertas, que não havia nisso desvergonha nenhuma. Todos andam rapados até por cima das orelhas; assim mesmo de sobrancelhas e pestanas. Trazem todos as testas, de fonte a fonte, tintas de tintura preta, que parece uma fita preta da largura de dois dedos. Mostraram-lhes um papagaio pardo que o Capitão traz consigo; tomaram-no logo na mão e acenaram para a terra, como se os houvesse ali. Mostraram-lhes um carneiro; não fizeram caso dele. Mostraram-lhes uma galinha; quase tiveram medo dela, e não lhe queriam pôr a mão. Depois lhe pegaram, mas como espantados. Deram-lhes ali de comer: pão e peixe cozido, confeitos, fartéis, mel, figos passados. Não quiseram comer daquilo quase nada; e se provavam alguma coisa, logo a lançavam fora. Trouxeram-lhes vinho em uma taça; mal lhe puseram a boca; não gostaram dele nada, nem quiseram mais. Trouxeram-lhes água em uma albarrada, provaram cada um o seu bochecho, mas não beberam; apenas lavaram as bocas e lançaram-na fora. Viu um deles umas contas de rosário, brancas; fez sinal que lhas dessem, e folgou muito com elas, e lançou-as ao pescoço; e depois tirou-as e meteu-as em volta do braço, e acenava para a terra e novamente para as contas e para o colar do Capitão, como se dariam ouro por aquilo.”
A carta de Pero Vaz de Caminha foi escrita em 26 de abril e enviada à corte portuguesa em 1º de maio de 1500. A missiva foi levada por Gaspar de Lemos, comandante da nau de mantimentos da frota de Cabral.
Logo que recebeu a mensagem, o rei dom Manuel escreveu uma carta ao rei de Castela para informar acerca da viagem e o sucesso da chegada até a Índia, que é para onde seguiu a missão de Pedro Álvares Cabral, mais precisamente Calicute ou Calcutá. Aí, na Índia, seria aberto uma espécie de escritório comercial de Portugal. Do Oriente vinham as especiarias e cujo monopólio comercial na Europa era português.
No último parágrafo da carta de Pero Vaz de Caminha, o primeiro documento escrito da História do Brasil, o escrivão aproveita para fazer um pedido pessoal ao rei dom Manuel: que libertasse da prisão seu genro, casado com sua única filha, Isabel. Jorge de Osório estava preso na ilha de São Tomé por assalto e agressão.
Eis o pedido do escrivão: “E pois que, Senhor, é certo que tanto neste cargo que levo como em outra qualquer coisa que de Vosso serviço for, Vossa Alteza há de ser de mim muito bem servida, a Ela peço que, por me fazer singular mercê, mande vir da ilha de São Tomé a Jorge de Osório, meu genro — o que d’Ela receberei em muita mercê. Beijo as mãos de Vossa Alteza. Deste Porto Seguro, da vossa Ilha da Vera Cruz, hoje, sexta-feira, 1º dia de maio de 1500”.
A missão capitaneada por Cabral seguiu para a Índia no dia 3 de maio, e aí começam os problemas.
Em 22 de maio de 1500, ao cruzar o Cabo da Boa Esperança, as naus são atingidas por uma gigantesca tempestade que afunda cinco navios de uma só vez. Morreram mais de 300 pessoas.
A missão, que saiu de Portugal com uma frota de 13 navios, ficou resumida a cinco embarcações. Perdidos em alto mar, eles demoraram meses para chegar à Índia e só em setembro de 1500 desembarcam em Calicute, capital do Malabar.
Ali, Cabral tenta negociar com mercadores árabes que tinham grande influência sobre a população local e consegue instalar uma feitoria que dura apenas dois meses após ser atacada por um exército coligado de árabes e indianos. Pero Vaz de Caminha morre no incêndio que destruiu a feitoria portuguesa. Cabral consegue retornar à nau principal e inicia um bombardeio contra Calicute.
Pedro Álvares Cabral: abandonado pelo rei
Ao perceber que nada mais podia fazer, Cabral parte de volta a Portugal. Em julho de 1501, desembarca em Lisboa com apenas quatro dos treze navios que partiram na expedição que ficou conhecida como o “Descobrimento do Brasil”.
Acredite, mesmo com apenas quatro naus, entre elas a Nau Capitânia, o navegador lucrou para o reino mais de 800% com sua missão, porque os navios voltaram abarrotados de especiarias da Índia.
Mesmo assim, o navegador que tinha fama de azarado, é convocado pelo rei dom Manuel para participar da “expedição da vingança” que o levaria a Calicute para lutar contra os mouros em nome da coroa portuguesa.
Quando foi informado que o capitão-mor da missão não era ele, mas Vasco da Gama, Cabral desafiou a ordem real porque não aceitava ser subalterno de Vasco da Gama. Acabou caindo em desgraça. O rei determinou que fosse colocado em exílio. Quase 20 anos depois, morreu aos 52 ou 53 anos de malária, e nunca mais se ouviu falar do notável navegador.
Seu nome desapareceu da história. Somente em 1816, quando a carta de Pero Vaz de Caminha foi redescoberta na Torre do Tombo, em Lisboa, após mais de 300 anos, o Brasil descobriu quem foi seu descobridor (e, antes dele, os indígenas). Assim, Pedro Alvarez Cabral finalmente foi descoberto.

