Bets teriam retirado até R$ 141 bilhões da economia brasileira em 2025, aponta estudo
24 agosto 2026 às 17h34

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O crescimento das apostas esportivas e de jogos on-line no Brasil pode ter provocado um impacto significativo sobre a atividade econômica em 2025. É o que aponta um estudo elaborado pelo economista Guilherme Klein, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pesquisador do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades da Universidade de São Paulo (Made-USP).
Segundo a pesquisa, as chamadas bets teriam retirado entre R$ 120 bilhões e R$ 141 bilhões da atividade econômica brasileira em 2025, montante equivalente a aproximadamente 0,9% a 1,1% do Produto Interno Bruto (PIB) daquele ano. O estudo também calcula efeitos sobre a arrecadação pública e a concentração de renda.
Para dimensionar o resultado, Klein compara a estimativa com o crescimento da economia brasileira em 2025, que foi de 2,3%. Na avaliação do pesquisador, o impacto calculado representaria entre 40% e 50% de todo o avanço registrado pelo PIB no período.
O economista também afirma que o valor seria aproximadamente cinco vezes superior às estimativas divulgadas pelo governo federal sobre o impacto do chamado tarifaço norte-americano sobre a economia brasileira.
Em setembro de 2025, a Secretaria de Política Econômica (SPE), do Ministério da Fazenda, havia estimado que a tarifa de 50% aplicada pelos Estados Unidos a produtos brasileiros poderia reduzir o PIB em 0,2 ponto percentual entre agosto daquele ano e o fim de 2026. O estudo sobre as bets utiliza esse dado como parâmetro de comparação.
Como o estudo calcula o impacto das apostas
A metodologia utilizada por Klein parte de uma estimativa de quanto dinheiro deixa de circular no consumo das famílias em razão das apostas. O cálculo considera a diferença entre o valor apostado e aquilo que retorna aos jogadores em prêmios. Um estudo do Comitê Nacional de Secretários de Fazenda, Finanças, Receita ou Tributação dos Estados e do Distrito Federal (Comsefaz), baseado em dados de pagamentos do Banco Central, estimou essa transferência líquida em R$ 62,5 bilhões em 2025.
A partir desse montante, o pesquisador analisou como os gastos com apostas estariam distribuídos entre diferentes faixas de renda. A avaliação considera que famílias de menor renda tendem a comprometer uma parcela maior de seus rendimentos com o consumo.
Klein então desenvolveu dois cenários, levando em conta diferentes distribuições dos gastos entre as faixas de renda, e aplicou um multiplicador econômico para estimar quanto a redução do consumo poderia repercutir sobre a atividade econômica. O resultado ficou entre R$ 120 bilhões e R$ 141 bilhões. “Fazendo esse cruzamento, chegamos a um efeito entre R$ 120 bilhões e R$ 141 bilhões, um valor bem importante, porque é quase 1% do PIB”, afirmou o pesquisador.
O economista reconhece que estimativas contrafactuais, aquelas que tentam calcular o que teria ocorrido na ausência de determinado fenômeno, possuem limitações. Ainda assim, considera que os números revelam um efeito econômico relevante.
Apostas e endividamento
O estudo também dialoga com pesquisas que apontam efeitos das apostas sobre o orçamento das famílias. Um levantamento da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), divulgado em abril deste ano, estimou que o avanço da inadimplência severa, parcialmente associado aos gastos com bets, teria provocado uma redução de R$ 144 bilhões nas vendas do comércio entre 2024 e 2025.
Segundo a CNC, o montante seria equivalente ao faturamento de aproximadamente dois períodos de Natal do varejo brasileiro.
Além disso, Klein considera que a geração de empregos diretamente relacionada ao setor não seria suficiente para alterar de forma significativa o resultado geral de sua estimativa. Dados de estudo elaborado pela LCA Consultores para entidades do setor apontam aproximadamente 15,5 mil empregos diretos e indiretos relacionados às plataformas de apostas.
Impacto na arrecadação
A pesquisa também estima consequências para os cofres públicos. A lógica utilizada é que uma redução da atividade econômica provoca, consequentemente, diminuição da arrecadação de tributos incidentes sobre o consumo.
Entre os impostos considerados estão o ICMS, o ISS e o IPI, que estão sendo substituídos gradualmente pelo IBS e pela CBS no processo de implementação da reforma tributária.
Klein calcula que uma redução de 1% no PIB poderia provocar uma queda de 0,8% a 1,2% na arrecadação. Com base na carga tributária brasileira e descontando aproximadamente R$ 9 bilhões arrecadados diretamente sobre as plataformas de apostas, o estudo estima uma perda líquida entre R$ 22 bilhões e R$ 46 bilhões.
Na avaliação do pesquisador, o resultado coloca em discussão o argumento de que a expansão das bets necessariamente representa aumento líquido das receitas públicas.
“Isso ocorre basicamente via tributos indiretos, porque cada real gasto com consumo paga imposto”, explicou.
Klein também defende uma tributação maior sobre as apostas, como forma de compensar os custos econômicos e sociais atribuídos à atividade.
Estudo aponta possível aumento da desigualdade
Outro aspecto analisado é a distribuição de renda. Para calcular esse efeito, o economista criou dois cenários. No primeiro, considera que a perda de R$ 62,5 bilhões se concentra entre os 99% da população que não fazem parte do grupo de maior renda.
No segundo, além dessa concentração, considera a possibilidade de transferência dos recursos para o 1% mais rico da população. O próprio estudo trata esse segundo cenário como extremo, já que parte das empresas de apostas possui capital estrangeiro.
Nos dois cenários, a pesquisa estima um aumento da concentração de renda no topo da distribuição entre 0,5% e 2,1%.
Para Klein, os resultados indicam a necessidade de discutir uma tributação mais elevada para o setor. “Não faz sentido nenhum permitir uma atividade que reduz a arrecadação, que aumenta a desigualdade num país já tão desigual, e causa uma série de outros problemas sociais e de saúde”, afirmou.
Entidades do setor contestam metodologia
As associações que representam as empresas de apostas, entretanto, questionam as conclusões da pesquisa e defendem cautela na interpretação dos resultados. A Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) afirmou que as estimativas dependem fortemente das hipóteses adotadas e, por isso, não poderiam ser tratadas como uma demonstração causal do impacto das bets sobre o PIB.
A entidade também considera desproporcional o multiplicador econômico utilizado por Klein e questiona a estimativa de R$ 62,5 bilhões em perdas. Outro ponto levantado é que os gastos com apostas poderiam substituir outras despesas de lazer, como cinema, teatro, streaming e eventos esportivos.
A ANJL também contesta a comparação entre o impacto estimado das bets e o crescimento do PIB em 2025. Segundo a associação, como as apostas já existiam em 2024, seria necessário analisar especificamente a expansão do setor entre 2024 e 2025, e não comparar o efeito estimado de todo o mercado com o crescimento econômico daquele ano.
O Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR) apresenta ressalvas semelhantes. A entidade destaca que os R$ 62,5 bilhões utilizados no estudo são uma estimativa contrafactual, e não perdas efetivamente registradas pelas empresas. O instituto também questiona algumas das pesquisas utilizadas como referência e a hipótese de que os recursos destinados às apostas seriam integralmente direcionados para outras formas de consumo.
Além disso, o IBJR afirma que a pesquisa não teria calculado, com metodologia equivalente, os efeitos econômicos positivos gerados pelo setor regulado, como empregos, fornecedores, tecnologia, publicidade, patrocínios, investimentos e arrecadação tributária.
As entidades ressaltam que as críticas não significam necessariamente a desqualificação do estudo, mas apontam a necessidade de considerar diferentes evidências e aspectos metodológicos na avaliação dos efeitos econômicos e sociais das apostas.
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