Celular vira cassino e preocupa jogadores que tentam escapar das bets com grupo de apoio em Goiânia
22 agosto 2026 às 21h00

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Há quem aposte quando está sozinho. Esconde o celular, apaga mensagens, mente sobre quanto gastou e evita falar sobre o assunto. Há quem prometa que aquela será a última aposta, mas, depois de perder, tente recuperar o dinheiro colocando mais uma vez. O que começa como diversão pode terminar em dívidas, conflitos familiares, culpa, vergonha e até morte. A diferença é que, agora, o jogo não precisa mais de uma máquina, de um bingo ou de um estabelecimento aberto. Ele cabe no bolso.
O celular acompanha o usuário para todos os lugares e, com poucos toques, permite depositar dinheiro, escolher uma aposta e começar outra partida. Para quem já perdeu o controle sobre o jogo, essa proximidade pode transformar o impulso em uma sequência difícil de interromper.
O tamanho do problema começa a aparecer também na procura por ajuda. Mais de 1 milhão de brasileiros já solicitaram o bloqueio voluntário do CPF para impedir o acesso às plataformas de apostas autorizadas. Entre eles, 35% apontaram a perda de controle sobre o jogo como motivo para pedir a autoexclusão. Durante o período da Copa do Mundo, entre 11 de junho e 19 de julho, foram 387.645 pedidos — 38% de todas as solicitações registradas pela plataforma.
Ao mesmo tempo, o Sistema Único de Saúde (SUS) ampliou para até 100 mil a capacidade mensal de teleatendimentos em saúde mental voltados a pessoas com problemas relacionados a jogos e apostas e também a seus familiares. O serviço começou em março, com capacidade inicial de 600 atendimentos por mês, mas foi ampliado diante da procura.
Os números ajudam a dimensionar um fenômeno que, muitas vezes, permanece invisível dentro de casa. O jogador pode continuar trabalhando, convivendo com a família e mantendo uma rotina aparentemente normal enquanto perde, em silêncio, o controle sobre o dinheiro e sobre o próprio comportamento.
É nesse ponto que histórias como a de Luiz Carlos Sobrinho ajudam a entender o que acontece quando a aposta deixa de ser apenas uma aposta.
Quando jogar deixa de ser diversão
Sobrinho conhece o problema por dentro. Integrante do Jogadores Anônimos (JA), ele começou a jogar na década de 1980, quando ainda era necessário procurar máquinas ou estabelecimentos específicos. Começou com o videopôquer, passou pelos bingos e acompanhou a transformação do mercado até a chegada das apostas on-line.
Hoje, ele vê no celular uma das principais mudanças — e também um dos maiores riscos.
“Hoje o celular está no bolso. Só o celular que vai ser jogado. É um cassino o celular”, afirma.
Para quem desenvolve uma relação compulsiva com o jogo, a mudança é significativa. Antes, era preciso sair de casa, encontrar um local e enfrentar algumas barreiras até conseguir apostar. Agora, a aposta está disponível praticamente a qualquer momento.
“Hoje é muito mais perigoso”, avalia.
Sobrinho chegou a experimentar uma recaída depois de anos dentro da irmandade. Segundo ele, voltou a frequentar bingos por curiosidade e acabou apostando novamente.
“Eu não recaí por causa dos bingos. Depois de anos de consciência, eu fui nos bingos para conhecer. E recaí”, relata.
A experiência reforçou uma das principais características do jogo compulsivo: para quem já teve problemas com apostas, a exposição ao ambiente de jogo pode representar um risco.
Uma irmandade para quem quer parar
Foi justamente para pessoas que perderam o controle sobre o jogo que surgiu o Jogadores Anônimos, uma irmandade formada por pessoas que têm ou tiveram problemas com apostas e que buscam interromper o comportamento por meio do compartilhamento de experiências e da participação em reuniões.

No Brasil, a organização começou a atuar em 1993, no Rio de Janeiro. Em abril de 1996, chegou a São Paulo. Depois de perder grupos durante a pandemia, a irmandade voltou a crescer nos últimos anos.
“Nós saímos de 30 salas e estamos com mais de 70 salas. Estamos em 23 estados nesse momento, em várias cidades, também no interior. Então, voltou o número e cada hora chega mais gente. Todo dia tem gente chegando”, afirma Sobrinho.
A organização atribui a redução durante a pandemia principalmente à interrupção das reuniões presenciais e ao fechamento de algumas salas por falta de frequência. Com a retomada dos encontros e o crescimento das apostas on-line, novos grupos começaram a surgir.
“Agora já voltou o crescimento”, diz.
Em Goiânia, existe grupo presencial, segundo Sobrinho. A irmandade também mantém reuniões on-line para pessoas que vivem em cidades onde não há uma sala física.
Os encontros duram aproximadamente duas horas e podem ser fechados, destinados aos jogadores, ou abertos, com a participação de familiares, amigos e pessoas interessadas em conhecer o trabalho.
Não é preciso ter parado para procurar ajuda
Uma das características do JA é que a pessoa não precisa chegar à reunião já sem apostar.
“O único requisito para você fazer parte de Jogadores Anônimos é você ter a vontade de parar de jogar. Só, mais nada”, afirma Sobrinho.

A proposta é diferente de um sistema de fiscalização. A irmandade não controla quanto cada integrante aposta, nem acompanha individualmente suas decisões.
“Nós costumamos dizer dentro da sala: se você quiser jogar, o problema é seu. Se você quiser parar de jogar, o problema é nosso. Nós estamos junto com você, estamos na luta junto”, relata.
O trabalho também não se resume a simplesmente interromper as apostas. A recuperação, segundo Sobrinho, envolve mudanças no comportamento e na maneira como a pessoa lida com a própria vida.
“A irmandade não é só parar de jogar. A irmandade é modificar o teu caráter, modificar os teus defeitos”, afirma.
A literatura do JA recomenda, para quem está começando, uma rotina intensa de participação nas reuniões. Uma das orientações é conhecida como “90 reuniões em 90 dias”.
Sobrinho continua frequentando os encontros regularmente.
“Eu vou em duas reuniões, que são da minha sala. Vou às segundas e às quintas-feiras. E, às vezes, antes, vou na inauguração de outra sala. Então, pelo menos, na média, essas três reuniões por semana”, relata.
O problema que pode permanecer escondido
Um dos obstáculos para identificar o jogo compulsivo é que ele pode não apresentar sinais tão visíveis quanto outras formas de dependência.
“O jogador mente, mas não pula. Aí ninguém descobre”, afirma Sobrinho. Muitas vezes, a família percebe o problema apenas quando as consequências financeiras começam a aparecer. Faltam dinheiro e pagamento de contas. Surgem empréstimos, dívidas e justificativas. Aos poucos, os prejuízos deixam rastros.
“Começa a perceber falta de dinheiro na casa, não paga as dívidas, já tem conta que vence. Começa a juntar e vai criando uma pista”, relata.
Em alguns casos, o comprometimento financeiro pode acontecer em poucas horas.
“Tem gente que trabalha o mês inteiro, ganha o mês inteiro, ganha hora extra, ganha isso, ganha aquilo e gasta esses salários duas horas no jogo”, conta.
A vergonha também pode funcionar como uma barreira para pedir ajuda. É justamente por isso que o atendimento remoto passou a ser uma das alternativas oferecidas pelo poder público.
O serviço do SUS permite que o primeiro contato seja feito pelo celular, de forma sigilosa e sem julgamento. O usuário realiza um autoteste e pode ser direcionado para atendimento psicológico por videochamada.
Entre os sinais de alerta estão mudanças no sono, alimentação ou humor, ansiedade e irritabilidade quando a pessoa não está jogando, dificuldade para reduzir ou interromper as apostas, culpa, vergonha e tentativas de esconder ou mentir sobre o comportamento.
Também merecem atenção o comprometimento do orçamento, dos relacionamentos pessoais ou profissionais e o uso das apostas como forma de lidar com estresse, ansiedade ou frustração.
Veja abaixo alguns relatos de jogadores.
Meu nome é Carlos Alberto, sou um jogador compulsivo em recuperação, de Florianópolis – SC.
Minha adicção foi pelo jogo do bicho. Comecei a jogar com a idade de 17 anos em 1962, quando fui para o Rio de Janeiro. Solteiro ainda e, distante de minha família, comecei a sair com um grupo de amigos e, entre uma cerveja e outra, fazia uma aposta para passar o tempo. Essas apostas foram tomando proporções maiores e, quando dei por mim, já estava tomado pelo vício. Aí, juntou o jogo, a bebida e o cigarro.
Carlos finaliza o relato dizendo que, com a “boa vontade e com a ajuda do Poder Superior”, deixou de jogar, fumar e beber. “Agradeço em primeiro lugar ao Poder Superior e depois à minha esposa que, não deixou, em nenhum momento, de me dar força para eu controlar a minha doença. Aos meus irmãos de grupo, também agradeço por me escutarem todas as vezes que nas reuniões dou o meu depoimento. Essa força é essencial para a minha recuperação”.
Susie – Rio de Janeiro
Há 10 anos entrei para o J.A.. Fui recebida com muito carinho, embora estivesse muito tensa e sofrida, pois não conseguia me livrar do jogo e achava que, para mim não existia mais solução. O Passo lido foi o 1º de Recuperação. Ao ouvir e entender que, o que eu tinha, era uma doença chamada compulsividade, senti um enorme alívio. Eu só ouvia dos meus familiares que, eu era uma sem-vergonha, mentirosa, viciada e que eu não tinha mais limites para distinguir o que era certo ou errado. Que eu não passava de uma pessoa sem caráter. Isto me fazia muito mal, porque na realidade eu não sabia o que se passava comigo. Eu não queria mais jogar e, no entanto, todo dia eu saia para jogar e voltava de madrugada com enorme peso na consciência. Por que eu fazia aquilo? Por que eu não conseguia parar?
As 20 perguntas
Dentro do Jogadores Anônimos, uma das ferramentas utilizadas para provocar essa reflexão é uma lista com 20 perguntas.
A própria pessoa responde ao questionário. Segundo Sobrinho, quem se identifica com pelo menos sete das situações apresentadas pode reconhecer características compatíveis com o jogador compulsivo segundo a literatura da organização.
“Nem nós falamos que ele é um compulsivo. Ele se autoconfirma”, explica.
A lógica é fazer com que o próprio jogador observe o comportamento e perceba se perdeu o controle.
Não se trata, portanto, de um diagnóstico feito pelos integrantes da irmandade, mas de uma porta de entrada para que a pessoa reconheça o problema e procure ajuda.
A aposta que tenta recuperar a aposta
Um dos mecanismos que podem prender o jogador em um ciclo difícil de interromper é a tentativa de recuperar aquilo que foi perdido.
A lógica parece simples: perdeu dinheiro, aposta novamente para tentar recuperar. Se perde outra vez, aumenta a necessidade de uma nova aposta.
A perda, que poderia funcionar como um sinal para parar, passa a produzir o efeito contrário.
É justamente nesse ponto que a experiência de quem viveu o problema encontra uma explicação econômica e comportamental.
Para o economista e pesquisador Flávio Ataliba Barreto, professor da FGV Ibre, não basta analisar as apostas apenas como resultado de uma decisão individual. É preciso observar também a forma como as plataformas são construídas.
“As plataformas de apostas não competem apenas por atenção ou por preço, mas pelo desenho da escolha que o usuário faz a cada instante, explorando deliberadamente vieses cognitivos que tornam essa escolha previsível”, afirma.
A tecnologia por trás do impulso
Bônus, recompensas, notificações, velocidade das transações e facilidade para realizar novos depósitos são alguns dos elementos que fazem parte da experiência digital das apostas.
Isoladamente, eles podem parecer apenas recursos de uma plataforma. Juntos, segundo Ataliba, podem alterar a maneira como o usuário toma decisões.
“Em conjunto, eles formam um sistema orientado para reduzir a deliberação e aumentar a frequência das decisões”, explica.
O economista chama esse conjunto de mecanismos de “arquitetura econômica de dependência”.
A expressão ajuda a deslocar a discussão: o problema não estaria somente no jogador que decide apostar, mas também em um ambiente desenhado para tornar essa decisão rápida, simples e recorrente.
O celular, nesse contexto, deixa de ser apenas o lugar onde a aposta acontece. Ele se transforma na porta permanente de entrada para o jogo.
Quando a plataforma aprende com o jogador
A tecnologia pode tornar esse processo ainda mais sofisticado.
As plataformas acumulam informações sobre o comportamento dos usuários: horários em que entram, valores apostados, frequência, ganhos, perdas e reações diante de diferentes situações.
Com a inteligência artificial, a tendência é que a personalização avance.
O sistema pode identificar quais estímulos são mais eficientes para manter determinado usuário ativo e adaptar a experiência a partir desses padrões.
“O que hoje é uma arquitetura de massa passará a ser uma arquitetura personalizada de dependência”, afirma Ataliba.

A frase aponta para um dos principais desafios do futuro das apostas: não se trata apenas de uma plataforma que oferece o mesmo jogo para milhões de pessoas, mas de sistemas capazes de aprender como cada usuário se comporta.
Para o pesquisador, isso coloca a regulação diante de uma questão que vai além de autorizar empresas, cobrar impostos ou limitar publicidade.
É preciso discutir o próprio desenho da experiência.
O que a regulação ainda não alcança
Na avaliação de Ataliba, o Brasil avançou na regulamentação do mercado de apostas, mas ainda existe uma lacuna quando o assunto é a maneira como as plataformas funcionam.
Ele aponta medidas adotadas ou discutidas internacionalmente, como restrições ao autoplay, intervalos entre rodadas, limites de velocidade e regras para impedir a manutenção simultânea de diferentes jogos.
“O Brasil concentrou seus esforços regulatórios justamente nas categorias para as quais a experiência internacional tem produzido evidências relativamente menos consistentes, e avançou pouco nas categorias, comportamental e sobretudo design, em que a evidência revisada na seção 3 é mais robusta.”
A discussão, segundo o economista, não precisa necessariamente partir da proibição das apostas para adultos. Uma possibilidade seria limitar mecanismos capazes de estimular decisões impulsivas ou aumentar a frequência do jogo.
“A experiência internacional sugere, portanto, uma agenda de três prioridades para o Brasil”, afirma Ataliba.
Entre elas está a criação de regras específicas para a arquitetura das plataformas, envolvendo velocidade do jogo, mecanismos de repetição automática e possibilidade de realizar apostas simultaneamente.
Mais de 1 milhão tentaram sair
Enquanto o debate regulatório avança, parte dos usuários já procura mecanismos para se afastar das plataformas.
Mais de 1 milhão de pessoas solicitaram a autoexclusão do CPF para impedir o acesso às casas de apostas autorizadas. Para 35% delas, o principal motivo foi a perda de controle sobre o jogo.
Outros 15,26% disseram ter tomado a decisão voluntariamente de interromper as apostas. Dificuldades financeiras foram citadas por 11,82%, enquanto 1,32% apontaram recomendação de um profissional de saúde.
Os números mostram que a decisão de sair do jogo nem sempre acontece apenas depois de uma grande perda. Pode vir de uma percepção gradual de que a pessoa já não consegue controlar quanto, quando ou por que aposta.
O próprio SUS passou a oferecer uma porta de entrada para esse momento.
Pelo aplicativo Meu SUS Digital, o usuário pode acessar a opção voltada a pessoas que apostam, realizar um autoteste e solicitar acolhimento. O atendimento psicológico ocorre por videochamada, com sessões de aproximadamente 50 minutos, preferencialmente uma vez por semana. O profissional pode indicar um ciclo inicial de até dez sessões e, posteriormente, avaliar se há necessidade de continuidade ou encaminhamento para atendimento presencial.
Um problema que começa nas bets, mas não termina nelas
Para Sobrinho, a recuperação passa pelo reconhecimento de que o jogo tomou um espaço que não deveria ocupar.
Para Ataliba, o desafio está também em compreender como a tecnologia pode tornar essa ocupação cada vez mais eficiente.
São duas perspectivas diferentes para o mesmo problema.
De um lado, alguém que conhece a compulsão pela experiência de quem já esteve dentro dela. Do outro, um pesquisador que observa como economia, tecnologia e comportamento se encontram dentro da tela do celular.
No meio está o jogador, muitas vezes sozinho, diante de uma decisão que parece pequena: apostar mais uma vez.
O problema é que, quando a perda vira motivo para apostar novamente, quando o aplicativo está sempre disponível e quando a plataforma aprende quais estímulos funcionam melhor para cada usuário, a distância entre o impulso e a aposta diminui.
E é justamente essa distância que a sociedade começa a discutir.
Porque as bets podem ter sido o primeiro grande teste de uma questão que vai muito além do jogo: até onde a tecnologia pode ser usada para influenciar as decisões de quem está diante de uma tela?
“Se o século XX foi marcado pela regulação dos mercados, o século XXI provavelmente será marcado pela regulação da arquitetura das decisões que esses mercados constroem, e as bets são apenas o primeiro teste dessa capacidade.”
A aposta, nesse caso, não está apenas no resultado de um jogo. Está no modo como uma decisão é construída — e no quanto pode ser difícil, para algumas pessoas, simplesmente apertar o botão e parar.
Quando apostar deixa de ser uma escolha
Se o celular aproximou o jogo do cotidiano, a psicologia ajuda a explicar por que, para algumas pessoas, simplesmente decidir parar pode não ser tão fácil.
Para Jéssica Amorim, presidente do Conselho Regional de Psicologia de Goiás, as plataformas de apostas utilizam mecanismos já conhecidos pela psicologia do comportamento para manter o usuário engajado. Entre eles está o chamado reforço intermitente, em que recompensas imprevisíveis tornam determinado comportamento mais resistente a ser abandonado.
A lógica ajuda a entender por que uma sequência de perdas não necessariamente faz o jogador parar. A expectativa de que a próxima aposta pode trazer o dinheiro de volta pode funcionar como combustível para uma nova tentativa.
“A sensação de ‘quase ganhar’ ativa circuitos cerebrais de recompensa de forma muito próxima à do ganho real, o que mantém a pessoa engajada mesmo diante de perdas seguidas”, explica Jéssica.
O problema pode ser potencializado pela própria estrutura das plataformas. Bônus, notificações e apostas realizadas em poucos cliques diminuem o intervalo entre o impulso e a ação. Em vez de haver tempo para pensar sobre a decisão, o usuário pode estar novamente apostando em poucos segundos.
É nesse espaço reduzido entre pensar e agir que mecanismos psicológicos e tecnológicos acabam se encontrando.
Segundo Jéssica, outro fator importante é a chamada falácia do jogador, quando a pessoa acredita que uma próxima aposta poderá compensar aquilo que perdeu. Assim, o prejuízo deixa de ser entendido como motivo para interromper o comportamento e passa a ser interpretado como uma razão para tentar novamente.
Os sinais aparecem antes da dívida
Nem sempre o primeiro sinal de que existe um problema é uma conta atrasada.
De acordo com a psicóloga, a transformação do uso recreativo em comportamento compulsivo ocorre quando a aposta deixa de ser uma escolha e passa a ser uma necessidade. Isso pode acontecer quando a pessoa começa a apostar para lidar com ansiedade, tédio ou frustração, e não mais como uma atividade de lazer.
Os sinais mais graves — como endividamento e conflitos familiares — costumam aparecer quando o problema já avançou. Antes disso, porém, mudanças mais discretas podem indicar que alguma coisa está errada.
Mentir ou esconder quanto e com que frequência aposta, tentar recuperar perdas com novas apostas, ficar irritado ou ansioso quando não consegue jogar e perder o interesse por atividades que antes davam prazer estão entre os sinais de alerta.
O comportamento também pode aparecer na relação com o próprio celular. Uso compulsivo em horários incomuns, inclusive durante a madrugada, e mudanças bruscas de humor relacionadas aos resultados das apostas são situações que merecem atenção.
“Apostar para ‘recuperar’ o que foi perdido” é, segundo Jéssica, um dos comportamentos que devem ser observados.

A orientação é não esperar que a situação chegue ao endividamento, ao isolamento ou à ruptura de relações para buscar ajuda. Esses problemas, explica a psicóloga, são consequências que podem surgir depois que o comportamento compulsivo já está instalado.
Antes que a aposta ocupe tudo
A história dos Jogadores Anônimos mostra o que acontece quando uma pessoa reconhece que perdeu o controle e decide procurar outras que passaram por experiências semelhantes. Os dados de autoexclusão mostram que mais de 1 milhão de brasileiros já deram um passo para se afastar das plataformas. E a ampliação do atendimento psicológico pelo SUS revela que a questão deixou de ser apenas uma discussão sobre entretenimento ou dinheiro.
Mas a prevenção pode começar antes.
Antes da primeira grande dívida, antes da mentira descoberta pela família e antes de uma madrugada inteira diante do celular, existem sinais que podem ser percebidos.
A pergunta, portanto, não é apenas quanto dinheiro alguém perdeu em uma aposta.
É também o que aquela aposta passou a representar na vida da pessoa.
Quando ela deixa de apostar porque quer e passa a apostar porque sente que precisa, o jogo já não ocupa o mesmo lugar.
E talvez seja justamente nesse momento — antes que a próxima aposta pareça inevitável — que pedir ajuda pode fazer a maior diferença.
Para Jéssica, esse olhar antecipado também faz parte do trabalho que o Conselho Regional de Psicologia de Goiás vem levando para debates públicos e para a formação continuada dos profissionais no Estado.
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