De 2016 a 2026, como uma década transformou a relação dos jovens de Goiás com estudo e trabalho
22 agosto 2026 às 21h00

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Há dez anos, terminar o Ensino Médio e pensar no que viria depois era uma decisão cercada por mais dúvidas e menos opções para muitos jovens goianos. A crise econômica que atingia o país naquele período dificultava a entrada no mercado de trabalho, enquanto, dentro das escolas, nem sempre havia preparação ou estrutura para quem queria seguir para a faculdade.
Hoje, o cenário é diferente. Há mais programas de formação, escolas em período integral, acesso à tecnologia e iniciativas que aproximam os estudantes do mercado de trabalho. Isso não significa que os obstáculos desapareceram. A escolha profissional continua sendo uma fonte de pressão e a informalidade ainda atinge uma parcela importante dos trabalhadores.
Os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), ajudam a dimensionar essa mudança. Em Goiás, a taxa de desocupação entre jovens de 18 a 24 anos caiu de 19,7% no segundo trimestre de 2016 para 7,8% no mesmo período de 2026.
Entre os adolescentes de 14 a 17 anos, a redução também foi expressiva: de 42,7% para 24,5%. Mesmo com a queda, a taxa ainda mostra como a entrada no mercado de trabalho continua sendo mais difícil para quem está começando a vida profissional.
A mudança também aparece quando se olha para a relação entre estudo e trabalho. Em 2016, 351 mil jovens goianos de 15 a 29 anos não trabalhavam nem frequentavam escola, curso pré-vestibular, técnico ou de qualificação profissional. Em 2025, esse número havia caído para 239 mil. Ao mesmo tempo, aumentou o grupo que conseguia conciliar trabalho e formação. Eram 247 mil jovens em 2016 e 310 mil em 2025.
Os números ajudam a explicar uma transformação que pode ser percebida nas histórias de quem viveu os dois momentos.
Quando a escola oferecia pouco além da sala de aula
Izabella Guimarães, hoje com 29 anos, terminou em 2014 o Ensino Médio em uma escola estadual que hoje funciona como Colégio Estadual em Período Integral, no setor Novo Horizonte. Quando era estudante, porém, a unidade ainda não funcionava em período integral.
Ela estudou ali desde o Ensino Fundamental ao Ensino Médio. Na época, com apenas 15 anos, ela ainda não trabalhava. Sua preocupação era estudar e conseguir chegar à faculdade. Em relato ao Jornal Opção, ela contou que o problema era que, a própria escola oferecia poucas condições para essa preparação. “Naquela época era bem difícil, porque a gente não tinha condição de ir para um colégio particular”, lembra.
A falta de professores também fazia parte da rotina. Quando algum docente não comparecia, muitas vezes os alunos eram liberados mais cedo. Professores substitutos apareciam poucas vezes e Izabella não se recorda de reposições regulares das aulas.
A preparação para o vestibular acontecia, em grande parte, fora da escola. “Era só a grade curricular mesmo e eram pouquíssimas atividades focadas em ingressar na faculdade”, conta.

Depois de concluir o terceiro ano, ela passou mais um ano estudando por conta própria antes de entrar no Ensino Superior. Ainda tinha dúvidas sobre qual curso escolheria e precisou de mais tempo para tomar a decisão.
Naquele período, a escola também funcionava em três turnos. Izabella estudava de manhã e lembra de uma estrutura que, segundo ela, tinha problemas que hoje são menos frequentes. “Naquela época, tinha muita questão, tipo, a escola era sucateada, tinha muita cadeira quebrada, os banheiros eram insalubres”, relembra.
Dez anos depois, ao observar a escola pública, ela percebe diferenças que considera importantes. Entre elas estão o acesso a computadores, os incentivos financeiros para estudantes e a oferta de atividades que vão além da grade tradicional.
Para Izabella, essa mudança é especialmente importante porque permite que o estudante tenha contato com outras áreas antes de precisar decidir o que fará depois do Ensino Médio. “Se tivesse essas aulas extras e incentivo naquela época, eu acho que teria facilitado muito”, avalia.
A percepção dela encontra eco na trajetória de quem estudou em outra realidade dentro da própria rede pública.
Dez anos depois, a escola passou a fazer parte da preparação para a vida
Maria Eduarda Andrade estudou em período integral de 2021 a 2025, do oitavo ano do Ensino Fundamental ao terceiro ano do Ensino Médio, em Aruanã.
A rotina era mais longa, mas não se limitava a permanecer mais tempo na escola. Havia projetos, aulas de redação, preparação para o Enem, atividades de liderança e momentos de convivência. “No começo, era um pouquinho difícil para me acostumar, mas depois de muito tempo foi algo que se tornou a minha casa, que é um preparatório para a vida”, conta.
A preparação acabou influenciando até a escolha profissional. Maria Eduarda entrou no Ensino Médio sem saber exatamente o que queria fazer. Pensava em cursar Direito, mas ainda tinha tempo para decidir.
A comunicação já fazia parte da rotina dela na escola. Maria participou de projetos e foi líder do acolhimento, atividade voltada à recepção e integração dos estudantes. “Eu sempre gostei bastante dessa área da comunicação”, afirma.
A escolha pelo jornalismo começou a ganhar forma em 2023, quando surgiu uma oportunidade inesperada. Durante as férias, Maria foi convidada para participar de uma reportagem de TV sobre Aruanã. A experiência fez com que ela enxergasse na televisão uma possibilidade profissional que até então não havia considerado. “Foi onde meus olhos brilharam”, lembra.
Depois da reportagem, ela fez outra participação na emissora e também foi convidada para uma reportagem da Record. Hoje, com 18 anos, ela já está no segundo semestre de Jornalismo e ainda aguarda, ansiosamente, o momento de começar um estágio na área.
Para Maria, entretanto, a preparação para essa etapa começou antes da faculdade.
Ela lembra, por exemplo, das aulas de redação e das atividades de apresentação. “Sempre foi repassado para a gente esse ato de escrever da redação. Sempre foi levado muito a sério isso no CEPI”, conta.
A comunicação também era trabalhada nas apresentações e nos projetos coletivos. “A escola foi uma das minhas principais bases para agora, na faculdade e no jornalismo.”
A experiência de Maria mostra uma diferença importante em relação ao relato de Izabella. Enquanto a uma precisava buscar fora da escola uma preparação complementar para o vestibular, Maria encontrou dentro dela atividades que ajudaram a descobrir interesses e desenvolver habilidades que mais tarde seriam utilizadas na faculdade e na profissão.
Não foi, porém, uma preparação que eliminou as dúvidas sobre o futuro. Foi justamente o contrário: a escola ajudou Maria a descobrir o que queria ao permitir que experimentasse diferentes atividades.

Para quem esteve dos dois lados, a mudança é ainda mais clara
Nathan Mendonça conhece essa transformação por uma perspectiva diferente. Ele foi aluno do CEPI Dom Veloso e hoje voltou para a mesma instituição como professor.
Ao comparar as duas experiências, ele percebe que a escola continua sendo um espaço de formação, mas diz que o estudante de hoje tem acesso a ferramentas que não estavam disponíveis quando ele era adolescente. “A realidade é muito diferente”, afirma. Segundo Nathan, os jovens atualmente têm contato muito mais rápido com informações sobre profissões, cursos e possibilidades de formação.
Esse excesso de possibilidades, porém, também traz outro problema. “Existe uma pressão para decidir cedo o que fazer, entrar na faculdade, trabalhar, ter sucesso e apresentar resultados.”
Para ele, as redes sociais aumentaram ainda mais essa cobrança. O jovem passa a acompanhar trajetórias de outras pessoas e pode ter a impressão de que precisa alcançar os mesmos resultados rapidamente.
Nathan acredita que a escola tem um papel importante justamente nesse momento. Na experiência que teve como estudante, ele contou à reportagem que a tutoria foi um dos elementos que mais contribuíram para sua formação. “Antes via meu tutor como ponto de referência. Hoje eu sou o tutor que pode mudar vidas”, expressa.

A passagem de aluno a professor também mudou a maneira como ele enxerga o período integral. Hoje, percebe que a rotina mais longa não servia apenas para aumentar o tempo dedicado às disciplinas. “O período integral contribuiu para desenvolver disciplina, organização e convivência”.
Ele também considera que a preparação para a vida adulta precisa ir além dos conteúdos tradicionais. O estudante precisa aprender a elaborar um currículo, entender como funciona uma entrevista de emprego, conhecer seus direitos como trabalhador e saber organizar a própria vida financeira. “Preparar para o mercado de trabalho não significa apenas ensinar uma profissão”, afirma.
A experiência de Nathan também ajuda a colocar outra questão na discussão: ter mais oportunidades não significa necessariamente ter todas as respostas.
Mais oportunidades, mas também mais pressão
Iago Lima Kreles Prado viveu parte dessa transição. Também ex-aluno do CEPI Dom Veloso entre 2017 e 2020, ele contou que encontrou na escola um espaço para desenvolver atividades que acabaram influenciando sua trajetória.
Durante o período integral, participou de feiras científicas em diferentes estados, foi medalhista em competições e conquistou o primeiro lugar no Prêmio Prudential Espírito Comunitário, entre 1.638 projetos de todo o Brasil.
O dinheiro recebido pelo prêmio foi usado em melhorias na escola e também para uma viagem a Washington, nos Estados Unidos. Hoje, formado em Psicologia e com trajetória profissional ligada à educação pública, Iago olha para aquela experiência de outra maneira. “A escola acabava sendo mais do que o lugar onde eu estudava conteúdos para uma prova. Era também um espaço importante de socialização e de construção de perspectivas sobre aquilo que eu poderia fazer depois do Ensino Médio.”
Para ele, a principal mudança entre sua geração e a atual está na quantidade de informação disponível. “Hoje o jovem tem acesso a um volume de informações e possibilidades muito maior”, garante Iago.
Mas a informação não resolve sozinha o problema da escolha. “Isso amplia horizontes, o que é positivo, mas também pode produzir a sensação de que é necessário decidir tudo muito cedo e obter resultados rapidamente.”
Iago defende que a escola ajude o estudante a construir um projeto de vida sem transformar essa escolha em uma obrigação de ter tudo definido ainda na adolescência. “Escolher uma profissão aos 16 ou 17 anos não significa necessariamente escolher uma identidade definitiva para toda a vida.”

A experiência de Ana Clara Cardoso segue uma linha parecida. Ex-aluna do CEPI Dom Veloso e hoje formada em Fisioterapia, ela conta que a escolha profissional foi amadurecendo ao longo do tempo. A área da saúde entrou em sua vida ainda na infância, quando acompanhou a recuperação da mãe após uma cirurgia. O contato com a fisioterapia durante o tratamento ajudou a construir uma identificação que mais tarde se transformaria em profissão.
Para a jovem, o período integral contribuiu principalmente para desenvolver responsabilidade, organização e disciplina. Mas ela não acredita que o Ensino Médio pudesse prepará-la para tudo o que viria depois. “A faculdade e o mercado de trabalho trazem desafios que só conhecemos quando vivenciamos.”
A frase resume um ponto comum entre os personagens: a escola pode abrir caminhos, mas a trajetória profissional continua sendo construída depois dela.
O primeiro emprego como parte da formação
Se a escola representa uma das portas de entrada para a vida adulta, os programas de aprendizagem passaram a ocupar outro espaço importante nessa passagem.
Geovana Garcia de Jesus Silva entrou no programa Aprendiz do Futuro, do Governo de Goiás, aos 15 anos. Era sua primeira experiência profissional e, naquele momento, havia também uma razão prática para começar a trabalhar: ajudar em casa.
Sua mãe é solo e cria Geovana e outros dois filhos. Parte do dinheiro recebido por Geovana naquela época como aprendiz ajudava a pagar despesas da casa. “Eu comecei a trabalhar também para ajudar na renda de casa”, conta.
O primeiro dia de trabalho veio acompanhado de ansiedade. Geovana não sabia exatamente como deveria agir ou se comunicar em um ambiente profissional. “Eu estava com muita expectativa positiva e, graças a Deus, deu tudo certo.”
A experiência acabou indo além do salário. No programa, ela também fazia um curso semanal de auxiliar administrativo e recebeu um certificado profissionalizante ao final da formação. Foi esse conjunto de experiências que, segundo ela, facilitou sua entrada em outras oportunidades. “Eu me senti muito mais preparada, porque já tinha contato com o ambiente profissional.”
Geovana diz que aprendeu a se organizar, trabalhar em equipe e se comunicar melhor. Quando o contrato terminou, recebeu ofertas de emprego, embora tenha optado por não aceitar nenhuma naquele momento para se dedicar aos estudos e à preparação para o Enem.
O certificado, no entanto, continuou abrindo portas. “Eu consegui receber algumas ofertas que me deram a confiança de que eu estou preparada para seguir em frente com outros empregos”, relata.
A história dela também mostra que o primeiro emprego pode ter um efeito que vai além da experiência profissional. Geovana participou de um processo seletivo que lhe permitiu fazer um intercâmbio. A viagem, segundo ela, mudou a maneira como passou a enxergar o próprio futuro. “Me fez perceber que, através de estudo, dedicação e foco, eu consigo abrir muitas portas.”

O mercado melhorou, mas ainda não está resolvido
As histórias de Geovana, Maria Eduarda, Nathan, Ana Clara, Iago e Izabella ajudam a mostrar mudanças que os números também registram.
Em Goiás, a taxa de desocupação entre jovens de 18 a 24 anos caiu de 19,7% em 2016 para 7,8% em 2026. Entre os adolescentes de 14 a 17 anos, passou de 42,7% para 24,5%. A queda também foi registrada entre pessoas de 25 a 39 anos, faixa que passou de 9% para 3,3% no período.
O rendimento médio habitual recebido pelos jovens de 18 a 29 anos também aumentou. Em 2016, era de R$2.097. Em 2025, chegou a R$2.557, segundo os valores informados pelo IBGE, calculados a preços médios do último ano.
O crescimento aparece também conforme a idade. Entre os trabalhadores de 25 a 29 anos, o rendimento médio passou de R$2.512 para R$3.108. Entre aqueles de 20 a 24 anos, foi de R$1.798 para R$2.232.
Os números, porém, não contam uma história apenas de avanços. A taxa de informalidade entre os trabalhadores de 14 anos ou mais caiu de 39,3% no segundo trimestre de 2016 para 36,1% no segundo trimestre de 2026. A redução foi bem menor que a observada na desocupação.
| Indicador | Goiás – 2016 | Goiás – 2025/2026 |
|---|---|---|
| Desocupação – 14 a 17 anos | 42,7% | 24,5% |
| Desocupação – 18 a 24 anos | 19,7% | 7,8% |
| Desocupação – 25 a 39 anos | 9,0% | 3,3% |
| Informalidade – 14 anos ou mais | 39,3% | 36,1% |
| Jovens de 15 a 29 anos que não trabalhavam nem estudavam | 351 mil | 239 mil |
| Jovens de 15 a 29 anos que trabalhavam e estudavam/qualificavam-se | 247 mil | 310 mil |
| Rendimento médio habitual – 18 a 29 anos | R$ 2.097 | R$ 2.557 |
Isso significa que conseguir uma oportunidade de trabalho não garante, por si só, uma ocupação formal.
É justamente por isso que a experiência de programas como o Aprendiz do Futuro ganha relevância na trajetória de Geovana, por exemplo. Para ela, ter contato com o ambiente profissional ainda durante a adolescência fez diferença não apenas para conseguir trabalhar, mas para entender como se comportar, desenvolver habilidades e conhecer possibilidades que antes pareciam distantes.
Os dados sobre estudo e trabalho também apontam para essa mudança. Em 2016, 247 mil jovens de 15 a 29 anos em Goiás estavam ocupados e, ao mesmo tempo, frequentavam escola, curso pré-vestibular, técnico ou de qualificação profissional. Em 2025, eram 310 mil.
No sentido contrário, o número daqueles que não trabalhavam e também não estudavam ou frequentavam algum tipo de formação caiu de 351 mil para 239 mil.
Não significa que todos esses jovens tenham encontrado uma vaga formal ou seguido uma trajetória linear. Mas mostra que a relação entre estudo, qualificação e trabalho mudou ao longo da década.
O jovem que chega ao futuro sem precisar ter todas as respostas
Quando Izabella olha para a escola onde estudou, enxerga uma estrutura diferente daquela que encontrou quando adolescente. Maria Eduarda, por sua vez, lembra do período integral como uma preparação para a vida adulta. Nathan voltou à mesma escola onde foi aluno e hoje tenta oferecer aos estudantes aquilo que um dia recebeu de seus professores.
As histórias não são iguais, mas se encontram em um ponto: a escola deixou de ser apenas o lugar onde o jovem precisava cumprir uma grade de disciplinas e passou a ser também um espaço para experimentar possibilidades.
Iago, que hoje trabalha dentro da educação pública, resume essa mudança ao falar sobre projeto de vida. “Antes de perguntar apenas ‘o que você quer ser?’, talvez seja necessário ajudá-lo a responder outras perguntas: ‘quem você é?’, ‘o que faz sentido para você?’, ‘quais possibilidades existem ao seu redor?’ e ‘quais caminhos você pode construir para chegar até elas?’.”
Dez anos depois da crise que marcou a juventude de Izabella e Nathan, o jovem goiano chega ao fim do Ensino Médio com mais caminhos possíveis do que aqueles disponíveis para a geração anterior. Há mais informação, programas de formação, experiências profissionais e possibilidades de preparação.
Mas a escolha continua sendo difícil.
A diferença é que, para parte dessa nova geração, ela começa a ser construída antes mesmo de sair da escola, seja em uma aula de projeto de vida, em um curso, em um projeto científico, em uma experiência de liderança ou no primeiro dia de trabalho como aprendiz.
E talvez seja essa a principal mudança dos últimos dez anos: não necessariamente o jovem passou a ter a vida mais definida, mas passou a ter mais ferramentas para descobrir o que pode fazer com ela.


