Salatiel Soares Correia

Especial para o Jornal Opção

Depois de crescer dentro da globalização, a China começou também a procurar influenciá-la e organizá-la segundo seus próprios interesses. Em tempo: a China entrou na globalização ou criou a sua própria globalização?

Durante boa parte do final do século XX, a ascensão econômica chinesa foi apresentada como uma das grandes demonstrações da força da globalização.

Depois de décadas de relativo isolamento, a China abriu suas portas ao capital estrangeiro, recebeu multinacionais, ampliou suas exportações e, em 2001, ingressou na Organização Mundial do Comércio (OMC).

Vista dessa maneira, a história parecia simples: a China havia aceitado as regras de uma economia mundial construída, em grande medida, sob liderança dos Estados Unidos e das potências ocidentais.

Mas o que aconteceu, nas décadas seguintes, tornou essa interpretação insuficiente. A China não apenas entrou na globalização. A transformação começou em 1978, quando Deng Xiaoping iniciou as reformas que mudariam profundamente a economia chinesa.

Depois dos traumas do Grande Salto Adiante e da Revolução Cultural, a liderança chinesa percebeu que o isolamento não levaria o país à modernização. Deng abriu áreas da economia ao investimento estrangeiro, criou Zonas Econômicas Especiais e permitiu a utilização de mecanismos de mercado, sem, contudo, abandonar o controle político exercido pelo Partido Comunista. Surgiu uma combinação peculiar: mercado e planejamento, empresas privadas e estatais, capital estrangeiro e controle nacional, abertura econômica e centralização política.

Globalização precisa da China

Naquela primeira fase, a China precisava mais da globalização do que a globalização precisava da China. O país necessitava de capital, tecnologia, conhecimento empresarial e acesso aos grandes mercados consumidores. Empresas norte-americanas, europeias e japonesas, por sua vez, descobriram as vantagens de produzir em território chinês e exportar para o restante do planeta.

A China começou então a se transformar naquilo que seria chamado de “fábrica do mundo”.

Mas a fábrica cresceu e acumulou poder. Década após década, a China ampliou sua capacidade industrial, construiu infraestrutura, formou mão de obra qualificada, acumulou reservas financeiras e absorveu conhecimento tecnológico.

A entrada na Organização Mundial do Comércio, em 2001, acelerou esse processo. Aos poucos, deixou de ser identificada apenas com produtos baratos e intensivos em mão de obra. Passou a fabricar máquinas, equipamentos eletrônicos, automóveis, trens de alta velocidade, painéis solares, baterias e produtos tecnologicamente mais sofisticados. Surgiram empresas chinesas capazes de disputar mercados internacionais.

É justamente nesse ponto que ocorre uma inversão importante: a globalização inicialmente ajudou a transformar a China; depois, a China adquiriu capacidade para começar a transformar a própria globalização.

A ascensão de Xi Jinping tornou essa segunda etapa mais evidente. Uma potência industrial da dimensão da China não precisa apenas encontrar mercados para aquilo que produz. Precisa também garantir acesso aos recursos necessários para manter funcionando suas fábricas, alimentar sua população e sustentar seu crescimento.

Petróleo, minério de ferro, cobre, soja, carnes e outras matérias-primas chegam ao país depois de percorrer milhares de quilômetros. Segurança de abastecimento, portanto, deixa de ser apenas uma preocupação comercial e passa a fazer parte do cálculo estratégico.

A nova rota da seda

É nesse cenário que deve ser compreendida a Nova Rota da Seda, lançada por Xi Jinping em 2013. Por meio de investimentos e projetos relacionados a ferrovias, rodovias, portos, energia e outras infraestruturas, a China passou a ampliar suas conexões econômicas com diferentes regiões do planeta.

Não se trata apenas de colocar produtos chineses nos mercados internacionais. Trata-se também de participar da construção dos caminhos pelos quais mercadorias, matérias-primas, capitais e energia circulam.

Toda globalização necessita de infraestrutura. Uma tonelada de soja não sai de uma fazenda brasileira e simplesmente aparece numa indústria chinesa. Ela passa por armazéns, caminhões, ferrovias ou hidrovias, portos, navios e centros de distribuição. Quem possui influência sobre essas redes possui também instrumentos de poder econômico. É por isso que portos, ferrovias e corredores comerciais passaram a ocupar posição importante na estratégia internacional de Pequim.

Isso não significa que esteja surgindo uma globalização chinesa completamente separada daquela construída nas décadas anteriores. A China continua profundamente ligada aos mercados norte-americano e europeu e às cadeias internacionais de produção. A mudança é outra: antes, Pequim precisava principalmente adaptar-se às estruturas existentes; agora possui recursos para participar de sua construção e disputar influência sobre elas.

Os oceanos são parte fundamental dessa estratégia. Grande parcela dos recursos consumidos pela economia chinesa vem do exterior e chega ao país por navios. Petróleo do Oriente Médio, minério brasileiro e soja sul-americana atravessam enormes distâncias marítimas. Portos e rotas oceânicas, portanto, deixam de ser apenas assuntos de empresas transportadoras e passam a possuir dimensão geopolítica.

É nesse sentido que Hugues Eudeline, ao estudar a dimensão marítima da ascensão chinesa, chama atenção para a transformação da China numa potência cada vez mais dependente — e consciente — da importância dos mares.

E é justamente nesse ponto que o Brasil entra nessa história. Para a China, o país não é apenas um mercado consumidor. É também um importante fornecedor de alimentos e matérias-primas. Soja, minério de ferro, petróleo, carnes e celulose brasileiros abastecem diferentes segmentos da economia chinesa. No agronegócio, essa relação tornou-se particularmente visível.

Uma saca de soja colhida no interior de Mato Grosso ajuda a mostrar a dimensão dessa nova globalização. Depois da colheita, o produto segue para armazéns, percorre rodovias e ferrovias, chega aos portos brasileiros, atravessa oceanos e finalmente desembarca na China.

Uma decisão de compra tomada a milhares de quilômetros de distância pode influenciar preços, investimentos e decisões de plantio no Cerrado brasileiro. Pequim, nesse sentido, tornou-se uma variável presente no cotidiano econômico de produtores de Mato Grosso, Goiás, Mato Grosso do Sul e Tocantins.

A relação, entretanto, funciona nos dois sentidos. Uma quebra de safra brasileira, um problema climático ou uma interrupção logística também pode afetar compradores chineses. Existe uma evidente interdependência. O problema é saber se essa interdependência ocorre em condições equilibradas. Para o Brasil, a concentração das vendas em determinados produtos e em um grande mercado representa uma extraordinária oportunidade comercial, mas também exige atenção para os riscos de dependência.

É nesse ponto que a discussão deixa de ser apenas sobre a China e passa a ser também sobre o Brasil. Pequim parece possuir uma visão bastante clara da relação entre comércio, infraestrutura, tecnologia, segurança alimentar e interesse nacional. A pergunta é se o Brasil possui estratégia igualmente clara para aproveitar sua posição.

A China, portanto, não criou a globalização contemporânea. Entrou numa ordem econômica internacional que já existia, aproveitou suas oportunidades, recebeu capitais e tecnologias, conquistou mercados e transformou-se numa potência industrial. Mas seu crescimento alterou a posição que ocupa nessa mesma ordem. Hoje, já não é apenas passageira de um trem conduzido por outros. Procura participar da definição da rota, construir alguns dos trilhos e decidir quais estações serão estratégicas.

Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja saber se a China está substituindo uma globalização ocidental por uma globalização chinesa. O fenômeno é mais complexo. A China entrou numa globalização que não havia criado, cresceu dentro dela, tornou-se indispensável a ela e agora procura reorganizar partes dessa globalização de acordo com seus próprios interesses.

Para o Brasil, a conclusão conduz inevitavelmente a outra pergunta. Se a China sabe o que pretende obter de sua presença no mundo, o que o Brasil pretende obter de sua relação com a China?

Salatiel Soares Correia é engenheiro, administrador de empresas, mestre em energia pela Unicamp. Membro titular do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás. Autor de 10 livros relacionados aos assuntos energia, política, desenvolvimento regional e economia.

Nota sobre uso de IA

O planejamento desse artigo, inteiramente imaginado pelo autor, contou na composição do processo histórico com algumas consultas a Inteligência artificial.