Muito além do frango de corte: avicultura de Goiás diversifica produção e amplia mercados
15 agosto 2026 às 21h00

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A avicultura goiana tem se consolidado como uma das atividades econômicas mais relevantes do Estado, movimentando cerca de R$ 11 bilhões por ano. O setor é dividido em dois grandes segmentos: o de corte e o de postura, cada um com características próprias e mercados distintos. Goiás já ocupa posição de destaque na produção de frango de corte, sendo o quarto maior produtor do Brasil e o quinto maior exportador, com presença em mais de 70 países.
Ao Jornal Opção, Marcos Café, professor de Avicultura da Universidade Federal de Goiás (UFG) e presidente da Associação Goiana de Avicultura (AGA), aponta que, hoje, Goiás já é um destaque na produção da avicultura de corte. “Exportamos para mais de 70 países, somos o quinto maior exportador do Brasil, temos mercados em mais de 70 países. É um sucesso”, afirma. Ele explica que o Estado passou recentemente São Paulo e Minas Gerais, ficando atrás apenas das três unidades federativas do Sul.

No segmento de ovos, Goiás ocupa a nona posição nacional. Apesar disso, a produção local é suficiente para abastecer 100% do mercado interno e ainda gera excedente de 20% a 30% que é comercializado em outros estados. “Nossa produção de ovos abastece 100% do nosso mercado interno. Não que não tenha ovos oriundos de outros estados para Goiás, mas a nossa produção é suficiente para abastecer 100% do mercado interno e ainda gera um excedente de em torno de 20% a 30% que exportamos para outros estados. A gente vende para o Distrito Federal, vende muito para o Pará e outras praças”, afirma.
Ele também destaca a produção de aves natalinas, como o Chester e o Fiesta, que são colocados no mercado no final do ano e que passam a ser criadas a partir de agora. “Essa história começou lá com o Peru da Sadia, no passado. A Perdigão lançou o Chester, que é nada mais que um frango de corte um pouco melhorado e abatido mais tardiamente para ter uma carcaça maior. Cada empresa tem a sua marca comercial para esse mercado específico de final de ano. Normalmente são machos que ficam mais tempo no campo, ganham mais peso e atendem esse mercado de festas natalinas. Às vezes, já são temperados, mas nada mais é do que um frango que eu seguro mais no campo e ele ganha mais peso”, aponta.
No mercado de ovos, além dos tradicionais ovos de galinha, há também espaço para os ovos de codorna. “Você tem os ovos brancos, produzidos por aves de cor branca, muito produtivas, normalmente criadas em sistema de gaiola. Tem os ovos de cor marrom, que nutricionalmente são iguais ao branco, só que a casca é marrom e a ave come um pouco mais, sendo um ovo um pouco mais caro. E também tem o ovo de codorna, que algumas empresas exploram. É um mercado com procura muito grande pela população. Algumas empresas vendem já cozido e embalado, outras in natura, depende da embalagem. Cada empresa trata isso de uma forma”, explica.
Sobre a produção de perus, Marcos Café lembra que Goiás já foi um grande produtor, mas deixou de atuar nesse segmento. “O peru é uma outra espécie, normalmente de grandes agroindústrias. O mais famoso é o da Sadia. Goiás era um grande produtor, mas parou de se produzir aqui. Hoje, a maioria dos perus são produzidos no Sul do país. É tudo muito focado para que tudo seja feito da melhor maneira possível”, afirma.
Ele ressalta que a mudança foi uma estratégica comercial. “Mineiros era um centro específico para perus logo no começo. Depois passaram para frango e deixaram. O mercado de perus no Brasil não é tão grande como o de frango. É mais final de ano. Claro, tem os industrializados de peito de peru para seguir produzindo o ano todo, mas é estratégia comercial. Basicamente, só a Sadia que produz, que é a BRF”, lembra.
Marcos Café também comenta sobre a segmentação do mercado e as preferências internacionais. “A concorrência entre eles é muito grande, são grandes empresas. Como o Brasil é o maior exportador há mais de 10 anos, vendemos para mais de 150 países. Abastecemos bem o mercado interno e ainda exportamos. Normalmente a exportação é de cortes. Alguns mercados preferem peito, outros miúdos. A China aprecia muito pé de frango, vale muito dinheiro, é o corte que eles mais pagam melhor”, aponta.
O professor também abordou os desafios sanitários enfrentados pelo setor. “A grande maioria das doenças clássicas de avicultura são muito bem controladas com vacinas e estratégias de medicação. O grande perigo, a grande ameaça e o grande desafio é a influenza aviária. Até dois anos atrás não existia no país. Hoje, esse vírus está no país. O grande medo do setor da avicultura é isso entrar na avicultura comercial”, comenta.
Ele explica que, quando o vírus acomete criações de subsistência, não há impacto significativo, mas, em granjas comerciais, o prejuízo pode ser enorme. “Imediatamente o estado para de exportar, os acordos sanitários disparam alertas e isso causa um prejuízo enorme para a avicultura brasileira. O que a gente faz é medidas de biosseguridade para evitar a entrada dessa doença nas granjas comerciais”, afirma.
Marcos detalha que as medidas são rigorosas. “Hoje, por exemplo, se você pedir para visitar uma propriedade avícola, se for autorizado, você vai ter que tomar banho, trocar de roupa até chegar e ver as aves. São medidas de biosseguridade. Hoje o pessoal leva isso muito a sério exatamente para prevenir a influenza. O vírus está no Brasil, circulando principalmente entre aves silvestres. A possibilidade de isso entrar num galpão comercial existe. Por isso, tomamos essas medidas para evitar o máximo possível uma contaminação”, explica.
Ele destaca, com estusiasmo, as persperctivas da avicultura em Goiás. “O Estado tem um clima muito bom para aves, tem uma logística boa, tem grãos, milho e soja. A avicultura goiana tem tudo para crescer ainda mais. A hora que vierem novos investimentos, principalmente de empresas do exterior, como da China, Goiás, com certeza, vai estar entre os candidatos a receber investimentos bastante significativos para aumentar e melhorar ainda mais a nossa avicultura, que já é muito boa”, finaliza.
Apuração de bastidores do mercado
O Jornal Opção enfrentou dificuldades para ouvir produtores locais durante a apuração, conforme informações obtidas por bastidores. Muitos deles se mostraram relutantes em conceder entrevistas por medo de represálias de grandes grupos do setor. O receio é de que, ao revelar o volume de produção, concorrentes de estados como São Paulo e Espírito Santo lancem produtos a preços reduzidos na região, o que poderia inviabilizar a atividade de pequenos e médios produtores goianos.
A reportagem apurou ainda que o temor é reforçado por experiências anteriores em que marcas menores foram absorvidas ou eliminadas por grandes empresas, o que alimenta a desconfiança e explica a resistência em aparecer publicamente. A percepção de vulnerabilidade diante da força de grandes players do mercado faz com que muitos produtores optem pelo silêncio, mesmo tendo participação relevante na economia local.
Fabiano responsável pelo Criatório Goyaz em Pirenópolis
Ao Jornal Opção, o criador Fabiano Costa Rodovalho, responsável pelo Criatório Goyaz, em Pirenópolis, iniciou sua criação de aves em 2020, durante a pandemia. Segundo ele, o isolamento foi o ponto de partida para se dedicar ao manejo. “Como não podia sair de casa, eu comecei a criar. Eu sigo alguns perfis do agronegócio no Instagram e, naquela ocasião, chegou um vídeo para mim da Bahia, onde me deparei com uma galinha muito pesada e muito grande. Eu não titubeei em andar 3.800 km para comprar essas galinhas”, conta.

As aves criadas por Fabiano Costa são conhecidas como Galinha Sertaneja Balão, ou Balão de Baixa Grande, originárias da Bahia. “São galinhas eminentemente brasileiras. Elas foram forjadas sob clima severo. Receberam esse nome porque são aves redondas, melhor distribuídas no eixo”, explica.
Ele lembra que os quintais do Brasil foram povoados por aves oriundas das rinhas de galo, mais esguias e finas, mas a Balão se diferencia por sua robustez. “Essa ave existe há mais de 100 anos. Pessoas de 80, 90 anos relatam que seus avós já criavam a Balão. No sertão da Bahia havia a cultura de capar essa ave para fazer canja para mulher grávida”, relembra.
Fabiano Costa destaca o porte avantajado da espécie. “As fêmeas pesam de 4 kg a 6 kg e os machos de 6 kg a 8 kg. Uma galinha caipira convencional pesa no máximo 1,8 kg. Para ter noção do tamanho da Balão, é preciso comparar com um botijão de gás ou um galão de 20 litros de água. Elas chegam a ser três, quatro vezes maiores”, afirmou. Ele reforça que são aves caboclas, endêmicas da região de Baixa Grande, criadas soltas e alimentadas de forma natural. “Elas comem um cisquinho, uma pedrinha, um besourinho qualquer e chegam nesse peso”, explica.
O criador vê na espécie uma oportunidade de impacto social. “Eu percebi que era uma boa oportunidade de melhorar o perfil das aves de quintais do Brasil. Elas poderiam reovoar os quintais, gerando acesso mais rápido à proteína para as famílias. Têm um apelo socioeconômico muito grande, porque os pequenos produtores rurais poderiam ter mais carne numa ave de quintal”, afirma.
Sobre o manejo diário, Fabiano Costa diferencia a Balão das aves de granja. “Aqui fugimos totalmente da galinha de granja. A galinha de granja foi cruzada geneticamente a ponto de se desenvolver tão rápido que, se cair, precisa de funcionário para levantar, senão morre. Em menos de 30 dias já está pronta. A caipira não. Ela anda muito, demora mais a formar a musculatura. Por isso dá uma carne mais saborosa e firme”, explica.

“Se você apertar a carne do peito de um frango de granja, ela vai esponjar e sair entre os dedos. A carne caipira é consistente, mais escura e mais próxima da sua ancestralidade”, compara.
Fabiano Costa também chama atenção para o domínio das grandes empresas sobre a genética das aves de granja. “Existe um lobby muito forte. As avós e bisavós das aves estão na mão de cinco grandes empresas mundiais. Ainda que seja Sadia, Perdigão ou Superfrango, elas não têm acesso a essa genética. Essas empresas dominam a base da cadeia da proteína no mundo”, diz.
Ele lembra que a carne de frango e peixe são as proteínas mais vendidas globalmente, seguidas pela carne bovina.
Já a galinha caipira, segundo o criador, é de domínio popular. “Todo quintal pode ter. Ela come escorpião, pequenos insetos e limpa o quintal de uma casa. Come até carrapato. No Brasil temos quase 6 milhões de propriedades rurais, mais de 60% estão até 15 km dos grandes centros. Estamos falando de mais de 4 milhões de pequenas propriedades”, apontou.
Fabiano Costa ressalta que a criação também se integra ao cotidiano dos pequenos produtores. “Esse produtor está ali tirando o leite. Onde tem essa atividade diária de tirar o leite, vai ter uma vaquinha, uma galinha comendo o carrapato daquela vaca. Então você tem acesso à produção de proteína para variar. Ele tem o leite, o ovo, a carne de frango, a carne de porco. É uma atividade familiar”, diz.
Ele explica que sua atuação está voltada para a distribuição da genética da ave. “Quando chegou a mim essa publicação do Instagram, eu vislumbrei uma oportunidade comercial de distribuir essa genética de ave caipira para todo o Brasil. Fui o primeiro criador de Goiás da galinha Balão. Hoje, aves do meu plantel estão na Argentina e no Uruguai. Por estar em Goiás, tenho uma facilidade logística melhor do que quem está na Bahia. Chego mais rápido em São Paulo, Mato Grosso, Brasília, Mato Grosso do Sul e Rio de Janeiro”, afirma.
O criador detalha o processo. “Trouxe alguns exemplares dos principais reprodutores da região de Baixa Grande e distribuí ovos férteis. O objetivo foi montar as baias, as famílias, fazer a seleção genética optando pelos melhores exemplares conforme aquilo que se deseja na ave, para vender os ovos fecundados. Eu mando em caixa de isopor. Tem toda uma estratégia comercial”, explica.
Ele acrescenta que atende tanto criadores de aves ornamentais quanto pequenos produtores que desejam melhorar a genética de seus quintais. “No mercado, o perfil dela é uma ave para corte porque cresce muito, ficando bonita. Então tem gente que quer ter só no quintal”, diz.
Fabiano Costa também descreve o fluxo de vendas. “Existe toda uma cadeia de produção. Eu vou criando e vendendo ovos férteis, selecionando esses ovos. À medida que vamos produzindo, coloco pintinho para nascer. Tenho chocadeira, viveiros e vou criando. Disponibilizo ao mercado ovos, pintinhos, franguinhos e até aves adultas. Quando chegam adultos, faço uma seleção por qualidade. Para não colocar coisa ruim no mercado, abato aqueles que não são selecionados para reprodução e vendo para a vizinhança de forma artesanal. Então tenho de ovos a aves adultas e, aquilo que não vendo como ave viva, eu abato”, conclui.
A diversificação da avicultura em Goiás
A avicultura goiana, tradicionalmente marcada pela força do frango de corte, começa a abrir espaço para novas espécies e mercados diferenciados. Ao Jornal Opção, o zootecnista Gustavo Milanez, instrutor do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural de Goiás (Senar-GO) na área de Avicultura de Precisão, especialista em gestão e empreendedorismo rural, detalhou os caminhos dessa diversificação.

O frango continua sendo o protagonista, mas outras aves ganham espaço. “Estamos observando oportunidades de diversificação, principalmente com codornas, patos, marrecos, perus, galinhas-d’angola e aves especiais, incluindo aquelas destinadas ao mercado de final de ano. Entre elas, eu destacaria a codorna, sobretudo para produção de ovos, porque é uma atividade que já possui presença comercial mensurável em Goiás. O IBGE acompanha anualmente tanto o efetivo de codornas quanto sua produção de ovos”, aponta.
“Outra categoria que merece atenção são as chamadas aves natalinas. O exemplo mais claro é o peru. Também existem aves especiais de linhagens selecionadas para maior peso, rendimento de peito e coxas, comercializadas sob diferentes marcas. É importante fazer uma distinção. Chester, Felicita, Fiesta e denominações semelhantes não são novas espécies de aves. São produtos ou linhas comerciais desenvolvidos por empresas. O peru, por sua vez, é efetivamente outra espécie. O que vejo surgindo, portanto, é uma segunda avicultura. Menor em volume, mas potencialmente maior em diferenciação e valor agregado”, explica.

Sobre regiões de destaque, o zootecnista alerta que a realidade de cada uma vai variar de acordo com as espécies. Ele exemplica que, com as codornas, é possível trabalhar melhor com dados oficiais, mas com outras aves, como o pato, marreco e peru, é mais complicado devido à inexistência de uma série anual que ajuda a fazer um comparativo com as cadeias tradicionais.
“Em termos econômicos, considero particularmente interessante o eixo Goiânia–Anápolis e as regiões com acesso ao mercado consumidor do Distrito Federal, justamente pela concentração de consumidores, restaurantes, supermercados, distribuidores e logística. Mas Goiás possui uma vantagem que vai além da localização”, aponta.
“Estamos em um Estado com uma cadeia consolidada de grãos e de produção animal. Isso é extremamente importante porque milho e soja são componentes fundamentais do custo da alimentação das aves. Então, para essas produções alternativas, a pergunta não deve ser somente onde é possível produzir, mas, principalmente, onde consigo produzir próximo do alimento, do processamento e do consumidor”, completa.
Os números reforçam o potencial. “Para mostrar a força da avicultura brasileira, os números da ABPA são impressionantes. Em 2025, o Brasil produziu 15,289 milhões de toneladas de carne de frango, exportou 5,324 milhões de toneladas, obteve aproximadamente US$ 9,8 bilhões com essas exportações e abateu 5,706 bilhões de frangos. O consumo chegou a 46,7 quilos por habitante. E a informação mais recente, divulgada no último dia 28 de julho, é ainda mais interessante. A entidade projeta para 2026 entre 16 e 16,15 milhões de toneladas de carne de frango, crescimento de até 5,6%. As exportações podem atingir 5,875 milhões de toneladas, alta de até 10,3%”, explica.
“Isso mostra uma cadeia avícola extremamente forte, dentro da qual as aves alternativas podem encontrar tecnologia, conhecimento e infraestrutura. Para Goiás, a estatística oficial também demonstra a importância da avicultura. Em 2023, o Estado possuía aproximadamente 104,7 milhões de aves e registrou cerca de 489,3 milhões de aves abatidas, representando aproximadamente 7,8% do abate brasileiro naquele levantamento. No caso da codorna, Goiás produziu cerca de 10,07 milhões de dúzias de ovos em 2023, contra 8,79 milhões em 2022, mostrando a dimensão que essa atividade já alcançou no Estado”, acrescenta.
O destino da produção ainda é majoritariamente interno. “Nas aves alternativas produzidas em Goiás, o mercado interno ainda deve ser considerado prioritário. Supermercados, atacadistas, restaurantes, hotéis, buffets, empórios, distribuidores e consumidor final. Mas, quando olhamos para o cenário brasileiro, o mercado internacional está abrindo oportunidades muito interessantes. Um marco ocorreu em maio de 2025, quando a China autorizou a importação de carne brasileira de pato e carne de peru, além de miúdos de frango. Só para dimensionar essa oportunidade”, aponta.
“Em 2024, a China havia importado mundialmente aproximadamente US$ 50 milhões em carne de peru e US$ 1,4 milhão em carne de pato. Segundo declaração do presidente da ABPA, Ricardo Santin, as novas oportunidades envolvendo essas proteínas avícolas poderiam representar mais de R$ 1 bilhão em receita cambial para o Brasil. Além disso, em setembro de 2025, a União Europeia reabriu o mercado para carne brasileira de peru e frango após as restrições relacionadas à influenza aviária. Portanto, o mercado dessas aves está deixando de ser exclusivamente doméstico”, completa.
As diferenças de manejo são marcantes. “O frango industrial é provavelmente uma das produções animais mais tecnificadas do mundo. Trabalhamos com genética extremamente selecionada, nutrição de precisão, ambiência, ventilação, aquecimento, iluminação e monitoramento constante. A codorna possui como vantagens o tamanho reduzido, precocidade e possibilidade de produzir bastante em pequena área. Em sistemas de corte, podemos trabalhar aproximadamente na faixa de 35 a 42 dias, dependendo da genética e do objetivo”, descreve.
“Já o pato exige atenção muito maior ao manejo da água. É uma ave que pode aumentar bastante a umidade da instalação. Por isso, qualidade da cama, drenagem, bebedouros e ventilação tornam-se pontos críticos. O ciclo também tende a ser maior que o do frango. Dependendo da genética e do sistema, podemos falar aproximadamente em sete a 12 semanas ou mais. E existe uma regra econômica importante. Quanto mais tempo uma ave permanece alojada, mais ração consome e mais tempo ocupa a instalação. Por isso não podemos comparar apenas o preço de venda do pato com o preço do frango. Precisamos calcular custo por quilo produzido, conversão alimentar, mortalidade, mão de obra, processamento e preço efetivamente recebido”, acrescenta.
O investimento em outras aves é visto como estratégia de diferenciação. “Principalmente por diversificação e agregação de valor. O objetivo não deve ser substituir o frango. O frango possui uma eficiência produtiva e uma cadeia industrial extraordinárias. Mas o pequeno e médio produtor dificilmente conseguirá competir com a indústria apenas em escala. Nas aves alternativas, ele pode competir em diferenciação. Uma codorna, um pato, uma galinha-d’angola ou uma ave especial podem atender gastronomia, mercados premium, restaurantes e consumidores dispostos a pagar por produtos diferenciados. Eu costumo inverter a lógica. Primeiro identificamos o mercado. Depois escolhemos a ave. Produzir porque determinada ave possui preço elevado pode ser um erro. Precisamos saber quem compra, quanto compra, com qual frequência e quanto está disposto a pagar”, comenta.
Os desafios são claros. “Eu colocaria quatro grandes desafios. Mercado, escala, processamento e biosseguridade. O frango possui uma cadeia completa. Genética, incubatório, fábrica de ração, assistência técnica, integradoras, frigoríficos e exportadores. No pato, codorna e outras aves, essa estrutura é muito mais limitada. Então podemos ter um excelente produtor que enfrenta dificuldade justamente depois que a ave está pronta. Existe também a questão sanitária. O episódio brasileiro de influenza aviária em 2025 demonstrou claramente que biosseguridade não é apenas uma questão dentro da propriedade. Ela interfere diretamente no comércio internacional. A União Europeia, por exemplo, suspendeu e posteriormente reabriu as importações brasileiras de frango e peru. Portanto, quanto mais diversificarmos a avicultura, mais profissional deve ser nosso controle sanitário”, aponta.
Os ciclos de produção variam. A codorna de corte, por exemplo, registram aproximadamente 35 a 42 dias para ficaram “no ponto”. Frango de corte aproximadamente 40 a 50 dias; marreco de Pequim em torno de 7 semanas em determinados sistemas; pato cerca de 10a 12 semanas, com variações importantes; galinha-d’angola geralmente acima de 12 semanas; peru tem ciclo muito maior, frequentemente se aproxima entre 14 e 20 semanas ou mais, conforme sexo e peso de mercado. No caso das aves natalinas, segundo Gustavo Milanez, o planejamento se torna particularmente importante porque é necessário fazer o peso final coincidir com uma janela comercial muito específica. “Não adianta termos a ave ideal pronta depois do Natal”, afirma.
A rentabilidade depende de múltiplos fatores. “Eu evitaria dizer que são simplesmente mais rentáveis. Elas podem apresentar maior preço por unidade ou maior valor agregado, mas isso não significa automaticamente maior margem. O frango possui margens estreitas compensadas por enorme eficiência e escala. As aves especiais trabalham com volume menor e preços maiores, mas também podem ter ciclo mais longo, ração mais cara, processamento específico e menor número de compradores. Para pequenos e médios produtores, vejo essas atividades inicialmente como uma excelente diversificação de renda. Mas uma criação de codornas, por exemplo, pode perfeitamente tornar-se a atividade principal quando existe escala, processamento e mercado. O princípio econômico é não olhar quanto custa a ave no supermercado. Olhar quanto sobra depois de produzir e comercializar”, explica.
A segmentação de mercado para as aves alternativas é bastante diversificada. “Ovos de codorna vão muito para supermercados, atacadistas, restaurantes, bares, buffets, hotéis, indústria de conservas e consumidor doméstico. Codorna de corte atende a gastronomia: restaurantes especializados e mercados premium. Pato e marreco vão para restaurantes de gastronomia oriental e europeia, hotéis, empórios e consumidores de carnes diferenciadas. Peru e aves natalinas vão para supermercados, atacadistas, indústria de alimentos, food service e consumidor doméstico, com grande concentração sazonal no final do ano. E o peru possui ainda um mercado internacional relevante. A abertura da China para a carne brasileira de peru e pato em 2025 é um exemplo de como essas cadeias podem ganhar outra dimensão”, comenta.
A inovação tecnológica também está presente na criação dessas aves. “Existe e esse talvez seja um dos pontos de maior potencial. Podemos aplicar conceitos de avicultura de precisão também às aves alternativas. Sensores podem acompanhar temperatura, umidade, qualidade do ar e consumo de água. Sistemas automatizados podem controlar alimentação, iluminação e ventilação. Câmeras e inteligência artificial podem futuramente auxiliar na identificação de alterações comportamentais, distribuição das aves e sinais precoces de problemas”, afirma.
“Na codorna, automação da coleta e classificação dos ovos é particularmente interessante. No pato, tecnologias para manejo da água, drenagem, ventilação e controle da umidade da cama ganham importância. E existe ainda uma inovação que não necessariamente aparece dentro do galpão. Rastreabilidade e gestão de dados. Produzir sem medir significa tomar decisões com base em percepção ou achismo. A avicultura moderna precisa trabalhar com indicadores e clareza nas informações”, completa.
As perspectivas de crescimento para essas espécies são positivas. Entretanto, ele faz uma ponderação.“Precisamos interpretar corretamente o mercado. Eu não acredito que pato, codorna ou peru vão competir com o frango em volume. Esse não deve ser o objetivo. A oportunidade está na diversificação do consumo e no valor agregado. A própria ABPA mostra a dimensão do crescimento da avicultura brasileira”, aponta.
“Para 2026, projeta-se até 16,15 milhões de toneladas de carne de frango, até 5,875 milhões de toneladas exportadas e consumo de até 48,1 kg por habitante. Para 2027, a primeira projeção já chega a 16,6 milhões de toneladas de produção e 6,05 milhões de toneladas exportadas. Nos ovos, a ABPA projeta 64,8 bilhões de unidades em 2026, contra 62,253 bilhões em 2025, e consumo de 301 ovos por habitante. Esse crescimento da cadeia avícola cria conhecimento, fornecedores e tecnologia que também podem favorecer segmentos menores. Para Goiás, vejo oportunidade especialmente em codornas, aves especiais, processamento e abastecimento do mercado regional do Centro-Oeste”, conclui.
Vicente Carvalho completa 19 anos na avicultura de corte com a SSA
O produtor Vicente Carvalho, de 63 anos, atua há quase duas décadas na avicultura de corte em parceria com a São Salvador Alimentos (SSA). Ele trabalha nas cidades de Petrolina de Goiás, Itaberaí e Heitoraí e destaca a rotina intensa e os cuidados necessários para manter a sanidade e a qualidade da produção.

Ao Jornal Opção, Vicente Carvalho explica que o sistema funciona em ciclos: são seis lotes por ano, cada um com duração de dois meses, incluindo o período de limpeza, desinfecção e preparação para receber novos pintinhos. Ele afirma que a genética das aves só é conhecida no momento da chegada, registrada na nota fiscal. “O frango não espera. Não dá tempo de segurar uma semana para resolver um problema. O animal é extremamente exigente e a ambiência dentro do aviário é uma das coisas mais importantes”, diz.
Segundo ele, a avicultura exige atenção especial tanto dos funcionários quanto da equipe técnica da SSA. “A equipe de sanidade, formada por veterinários, acompanha constantemente os aviários. Também há equipes especializadas em manutenção. É uma preocupação constante”, afirma.
O produtor de aves compara com a suinocultura, área em que já trabalhou, e ressalta que a avicultura é mais peculiar e demanda cuidados rigorosos.
A sanidade é apontada como o ponto mais crítico da criação intensiva. “Sem sanidade não temos condições de produzir frango. O cuidado com a higiene da granja e do pátio é o que garante passar um lote tranquilo do início ao fim”, explica.
Ele acrescenta que os funcionários circulam diariamente pelos aviários para observar as aves, verificar equipamentos e coletar animais mortos ou refugos. “O funcionário precisa ter o olho clínico para identificar problemas”, diz.
Vicente destaca que a SSA é rigorosa nos protocolos de biossegurança. “Chega a ser até em excesso, mas se não fizer isso o prejuízo é muito grande. Estamos falando em milhões de reais em qualquer problema que surgir”, afirma.
Ele reforça que o frango é a proteína animal mais barata e presente na mesa do mundo inteiro, o que aumenta a responsabilidade dos produtores. “Alguns países não têm produção suficiente e buscam em países que têm tradição. O Brasil se enquadra com tranquilidade nesse nicho e a SSA é privilegiada pelo alto cuidado na produção”, diz.
O produtor ressalta que o frango da empresa passa por inspeções sanitárias municipais, estaduais e federais, incluindo o Ministério da Agricultura. “A SSA é extremamente rigorosa. O frango é diferenciado e não traz implicações para o consumidor”, afirma.
Com 19 anos de parceria, Vicente celebra a expansão da produção. “Estamos firmes e acreditando. Estamos inclusive expandindo para aumentar a escala e contribuir mais um pouco”, conclui.
Abate de frangos e produção de ovos no Brasil e em Goiás no 1º trimestre de 2026
O Brasil registrou, no 1º trimestre de 2026, o abate de 1,71 bilhão de frangos, o número representa alta de 3,6% em relação ao mesmo período de 2025. Na comparação com o 4º trimestre de 2025, houve uma pequena queda de 0,5%. Apesar da leve redução frente ao trimestre anterior, o peso das carcaças aumentou 2,2% e alcançou 3,73 milhões de toneladas, recorde para o período. O peso médio das carcaças também avançou de 2,12 kg para 2,19 kg na comparação anual. Março se destacou com o maior volume mensal de abate de frangos de toda a série histórica, somando 594,89 milhões de cabeças, 9,3% acima de março de 2025.
Em Goiás, o desempenho foi superior à média nacional. Foram abatidos 135,66 milhões de frangos contra 126,68 milhões no mesmo trimestre de 2025, crescimento de 7,1%. A produção de carcaças chegou a 309,3 mil toneladas, avanço de 10,5%. O aumento corresponde a aproximadamente 8,98 milhões de aves, colocando o Estado entre os principais responsáveis pelo crescimento nacional. O IBGE destacou Goiás entre os estados com maiores acréscimos no abate no período. A pesquisa estadual apresenta apenas a comparação entre o 1º trimestre de 2025 e o 1º trimestre de 2026 e não informa o 4º trimestre de 2025, o que impede o cálculo da variação trimestral estadual.
A produção brasileira de ovos de galinha alcançou 1,215 bilhão de dúzias no 1º trimestre de 2026. O resultado representa crescimento de 0,4% sobre o 1º trimestre de 2025 e queda de 3,5% em relação ao 4º trimestre de 2025. Em termos absolutos foram produzidas cerca de 4,7 milhões de dúzias a mais que no 1º trimestre de 2025. Frente ao 4º trimestre de 2025, houve recuo de aproximadamente 44,2 milhões de dúzias. A redução em relação ao trimestre anterior reflete comportamento sazonal da produção enquanto na comparação anual o setor manteve crescimento moderado. São Paulo liderou a produção com 24,6% do total nacional seguido por Minas Gerais, Paraná e Espírito Santo.
Em Goiás, a produção de ovos ficou praticamente estável. Foram 65,4 milhões de dúzias no 1º trimestre de 2026 contra 65,66 milhões no mesmo período de 2025, o que representa queda de 0,4%. Assim como no caso dos frangos, a tabela estadual não apresenta o 4º trimestre de 2025 e não permite calcular diretamente a variação trimestral do estado.
Frangos ornamentais entram no radar dos produtores goianos
Segundo o zootecnista Gustavo Milanez, a criação de frangos ornamentais começa a despertar interesse entre produtores de Goiás. A busca por diversidade genética e novas alternativas de renda tem colocado essas aves como opção diferenciada dentro da avicultura regional. Selecionadas ao longo dos anos por características estéticas únicas, elas representam patrimônio cultural e genético da avicultura mundial.

Essas aves preservam raças raras e antigas, contribuindo para a manutenção da biodiversidade. Também participam de exposições e concursos de beleza, onde o padrão racial é avaliado e valorizado. O temperamento dócil e tranquilo faz com que sejam apreciadas como animais de companhia e lazer, ampliando seu papel além da produção.
O manejo exige cuidados específicos para garantir sanidade e bem-estar. Instalações limpas e bem ventiladas, alimentação balanceada, vacinação e controle de parasitas são práticas fundamentais. A seleção de reprodutores e o registro genealógico ajudam a manter o padrão racial e evitar cruzamentos indesejados, assegurando a pureza genética.
A aquisição pode ser feita junto a criadores especializados, associações e feiras agropecuárias. Embora não seja necessária licença específica para criação doméstica em pequena escala, é preciso seguir normas municipais e cumprir exigências sanitárias estaduais e federais. Para transporte ou participação em eventos, a emissão da Guia de Trânsito Animal é obrigatória.
Raças como Sedosa Branca, Brahma, Cochin, Sebright e Polish estão entre as mais conhecidas. Cada uma apresenta características próprias, como plumagem diferenciada, porte imponente ou produção de ovos coloridos. Entidades especializadas definem padrões oficiais para cada raça, garantindo uniformidade e valorização nos concursos.
As finalidades da criação incluem conservação genética, participação em exposições, reprodução seletiva e educação ambiental. A comercialização de ovos férteis, pintinhos e aves adultas de qualidade abre espaço para geração de renda no mercado especializado, fortalecendo o setor.
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