23 de novembro de 2015. “A partir das 8h da manhã não é para ter ninguém na rua, senão o negócio vai pegar.” Com essa frase, cerca de 12 mil pessoas viveram um dia em completo silêncio e medo. Toque de recolher. Por mais que o nome não fosse bancado pelas autoridades na época, foi assim que os moradores do Residencial Real Conquista, em Goiânia, entenderam aquela situação.

Medo: essa será a palavra que você mais lerá neste texto. Afinal, foi assim que os entrevistados descreveram a sensação de revisitar essa situação. Comércios fechados, escola esvaziada, posto de saúde trancado, ruas vazias. O cenário era como se o bairro tivesse se transformado em um verdadeiro deserto.

Nessa época, César Moraes tinha um salão de beleza no Real Conquista. Voltado ao atendimento do público masculino, o profissional trabalhava de segunda a sábado, das 9h às 20h, sempre tirando duas horas de almoço em sua própria casa, já que morava perto do ponto comercial.

Naquele dia em específico, o morador decidiu abrir o salão por volta das 7h30, já que teria que sair mais cedo para resolver questões pessoais fora dali. Porém, logo ao retirar o restante de cabelo que havia ficado amontoado do dia anterior, ele viu um adolescente entrar no estabelecimento e dar o recado.

Oh, tio! Tão mandando fechar o comércio porque, se não fechar, o negócio não vai ficar bom, não’. Foi isso que ele me disse e já saiu de lá. Não tinha como a gente ficar porque não sabia o que ia acontecer. Fechei e vim embora

Segundo César Moraes, assim como ele, vários outros comerciantes do bairro decidiram obedecer àquela determinação com medo de algum tipo de represália. Ele conta que, mesmo em casa, onde tecnicamente estaria protegido, o clima de apreensão não passou. “Sinceramente, eu desci, mas eu fiquei com muito receio do que poderia acontecer. Mesmo em casa, a gente ficou com medo porque não se sabe o que passa na cabeça de bandido. Não sabia se poderia fazer algum mal pra mim ou pra minha família”, destacou.

“Nunca tinha visto isso acontecer”

Questionado se sabia o que era toque de recolher, a resposta foi direta: “Nunca tinha visto isso acontecer. Ouvíamos falar no Rio de Janeiro, o que era algo bem distante da nossa realidade. Me senti como se estivesse em um daqueles morros, onde o tráfico dominava”, afirmou.

O ato de fazer com que todos ficassem em casa teria sido motivado pela morte de um jovem que, na ocasião, tinha 23 anos. Ele teria sido supostamente morto por um grupo criminoso rival, e integrantes do grupo do qual fazia parte teriam determinado o fechamento dos estabelecimentos em “respeito” ao homicídio.

César Moraes conta que a situação de insegurança no bairro não foi algo exclusivo daquele dia. Ele relembra que a filha chegou a ser assaltada na porta de casa enquanto ia para a escola meses antes.

Era assalto à luz do dia. Minha filha estava com o celular na mão e uma moto chegou com duas pessoas e tomaram dela. A gente não tinha um dia de paz

A sensação de insegurança à época pode ser traduzida em números. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2016, elaborado com base em dados referentes a 2015, Goiás registrou 2.651 homicídios dolosos, com uma taxa de 40,1 por 100 mil habitantes. Ou seja, a cada 100 mil habitantes, cerca de 40 eram assassinados. Os latrocínios contabilizaram 137 ocorrências naquele ano, enquanto os casos de lesão corporal seguida de morte somaram 25. O Estado era o quinto mais violento do país.

Ainda de acordo com o Anuário, somente em Goiânia foram contabilizados 553 assassinatos, além de 30 latrocínios e três casos de lesão corporal seguida de morte. Roubos e furtos de veículos somaram 11.613 ocorrências.

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Avenida Real Conquista: via ficou complemente vazia durante toque de recolher em 2015 | Foto: João Paulo Alexandre/Jornal Opção

“Fiquei com medo de quebrarem a minha loja”

Moradora há 17 anos, Áurea Oliveira conta que tinha uma loja de utilidades no bairro na época do toque de recolher. Assim como César, ela também chegou a abrir o estabelecimento, mas logo foi avisada de que deveria fechar o comércio para não “sofrer as consequências.”

“Eu sempre abria minha loja cedo para pegar aquelas pessoas que muitas vezes estavam indo para o trabalho. Ao abrir, já fui abordada por um menino que me disse que era pra fechar e, se não obedecesse, a minha loja seria toda quebrada. Fiquei com muito medo e obedeci”, relata.

Mesmo ao chegar em casa, a sensação de insegurança não passou. Segundo ela, apesar da presença policial no bairro, ninguém quis ir contra a ordem dada mais cedo.

Eu fiquei quietinha em casa, mas com muito medo porque minha filha tinha ido para o trabalho e meu filho estava saindo para o dele quando foi mandado voltar

Ela conta que chegou a ver um helicóptero sobrevoando o bairro naquele dia. Nem isso, para ela, trouxe paz. “O medo fica ainda maior porque a gente imagina coisa grande acontecendo. Precisar de um helicóptero? Eu fiquei ainda mais temerosa e com receio de uma troca de tiros”, contou.

Áurea Oliveira destaca ainda que o toque de recolher foi uma situação grave, mas acredita que foi desencadeada por recorrentes casos de violência. Segundo ela, era praticamente um assassinato por dia registrado no setor.

“Confesso que já vi muito sangue escorrer à beira do meio-fio aqui no Real Conquista. Teve uma vez que eu estava retornando para casa, isso já à noite, e um cara tava correndo atrás do outro com uma arma. Eu corri. Vi um dos caras pulando o muro para tentar se salvar e o outro com o revólver na mão. Foi horrível”, relembra.

Posto de saúde no bairro em funcionamento. Situação diferente da registrada naquele dia 23 de novembro | Foto: João Paulo Alexandre/Jornal Opção

“Foi estranho ter que descer no meio do caminho para poder entrar no seu setor”

Maria da Conceição foi uma das pessoas que viram a situação acontecer de um jeito diferente. Trabalhando como doméstica, sempre saía pela madrugada para pegar um dos primeiros ônibus que passavam pelo setor. Como parte de sua rotina, ela seguiu esse rito, mas acompanhou a situação pelo jornal.

Eu estava trabalhando e vi passando na televisão que o meu setor estava todo fechado. Eu tinha conseguido sair, mas a minha preocupação era saber como eu iria voltar para casa. Eu fiquei muito apreensiva

Ela relembra que a tensão aumentava à medida que se aproximava do setor. Ao chegar ao Terminal Garavelo, de onde sai a linha 326, que liga a estação ao bairro, ela conta que, assim como ela, todos estavam apreensivos. Afinal, quem estava ali também havia saído antes de tudo acontecer.

“Todo mundo estava muito tenso. Ninguém sabia como seria. Eu lembro que, ao chegar na baixada, tinha muitos policiais. Nós tivemos que descer do veículo, quase para uma revista, depois entrar no veículo de novo e seguir para dentro do setor”, relata.

Ela destaca que foi naquela data que viu a maior quantidade de policiais no setor. “Eu nunca tinha visto tanto carro de polícia. Para falar a verdade, ter um carro de polícia aqui no bairro era a coisa mais difícil de acontecer. Acho que por isso aconteceu esse toque de recolher”, reforça.

Naquele dia, as ruas ficaram completamente vazias. Quem chegava já ia direto para casa. Afinal, nada funcionava. Mesmo com a presença da polícia, ninguém quis arriscar.

Escola municipal ficou sem funcionar na época por causa da violência no bairro | Foto: João Paulo Alexandre/Jornal Opção

Dia seguinte

No dia 24 de novembro, um dia após o toque de recolher, a sensação de insegurança ainda não havia passado. A polícia continuou no bairro, o comércio voltou a funcionar, mas com receio do que poderia acontecer. Depois daquela situação, a única certeza que os moradores tinham era a incerteza sobre como seria o dia seguinte.

“Não foi fácil superar, não. Eu lembro que abri o salão, mas fiquei com muito medo do que poderia acontecer. E a gente não sabia até quando a polícia ia ficar ali”, reforça César.

“Confesso que sempre tinha visto acontecer em locais onde o tráfico dominava, mas sentir na pele foi uma sensação muito ruim. É uma incerteza constante que tomou conta da gente naquele dia”, afirma Áurea. “No outro dia, eu fui trabalhar com medo mesmo. As contas não param de chegar e não podia ficar parada”, conta Maria da Conceição.

Não se consolidou como um toque de recolher

O delegado Gilberto da Silva Ferro, titular do 20º Distrito Policial à época e nos dias atuais, conta que a ameaça feita por criminosos para que comerciantes não abrissem os estabelecimentos no setor não chegou a se consolidar como um toque de recolher. Na época, forças de segurança atuaram de forma conjunta para impedir que grupos criminosos ampliassem o controle sobre a região.

“Fizemos um trabalho em conjunto porque não tinha espaço para esse tipo de coisa. Aí os comerciantes continuaram da mesma forma, abrindo um pouco temerosos, mas continuaram”, explica.

Ainda de acordo com o delegado, a ação policial contribuiu para enfraquecer a presença de traficantes no bairro. Apesar do medo provocado pelas ameaças, a determinação para que o comércio permanecesse fechado não chegou a funcionar efetivamente.

Foi desaparecendo. Tinha muito tráfico de droga lá, parece que os traficantes foram vazando de lá e não teve mais problema, não. No toque de recolher não chegou a funcionar, não. Só amedrontou as pessoas

O delegado relacionou parte dos homicídios registrados em áreas marcadas pelo tráfico às próprias disputas entre criminosos. Para exemplificar, relembrou a experiência que teve quando trabalhava na investigação de homicídios em outra região de Goiânia.

“Isso existe muitas vezes. […] Eu trabalhava no homicídio e investigamos muitas mortes que eram entre os próprios criminosos. Eu fiz muito homicídio lá. O próprio progresso vai chegando no local, e esses criminosos vão se refugiando.”

Mas qual é a sensação hoje?

Questionados, os três entrevistados foram unânimes em dizer que a situação da segurança no bairro melhorou muito. César Moraes afirma que até a resposta da corporação em caso de necessidade tem sido mais rápida.

“Nossa, hoje a gente vê que melhorou muito. Hoje, trabalho em um posto de combustível e a gente nem vê menção de assalto, essas coisas que eram muito recorrentes antes. É perceptível que a segurança melhorou bastante”, destaca.

Áurea Oliveira conta que voltou a fazer algo que não fazia havia algum tempo: sair à noite pelo setor.

“Não tenho receio de andar pelo setor. Em qualquer horário. Seja de manhã ou pela noite. A sensação de segurança tá muito maior. A gente vê até mais polícia na rua”, reforça.

Maria da Conceição completa: “Eu vejo que a segurança tá melhor em qualquer lugar da cidade. A gente vê mais polícia, não tem mais roubo dentro de ônibus, arrastão, que era coisa que foi moda aqui em Goiânia naquela época. Graças a Deus, muita coisa mudou”, crava.

Segundo os moradores, a situação no bairro está complementamente diferente do que há 11 anos | Foto: João Paulo Alexandre/Jornal Opção

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