Avaliado como “um equívoco”, painel do Bicicleta Sem Freio será retirado do Niemeyer

Secretária Raquel Teixeira anunciou decisão do governo durante audiência pública, marcada pela ausência de artistas e fortes críticas de profissionais 

Superintendente Aguinaldo Coelho, secretária Raquel Teixeira e o diretor do CCON, Nasr Chaul durante a audiência | Foto: Alexandre Parrode / Jornal Opção

Superintendente Aguinaldo Coelho, secretária Raquel Teixeira e o diretor do CCON, Nasr Chaul durante a audiência | Foto: Alexandre Parrode / Jornal Opção

A audiência pública realizada pela Secretaria de Cultura, Esporte e Lazer (Seduce) na noite desta terça-feira (26/5) para debater o painel instalado no Centro Cultural Oscar Niemeyer foi marcada pela ausência da dupla autora do projeto, Renato Reno e Douglas Castro (do Bicicleta Sem Freio), e por duras críticas de profissionais presentes.

Comandado pela secretária Raquel Teixeira, o superintendente de Cultura, Aguinaldo Coelho, e o chefe do Gabinete Gestor Centro Cultural Oscar Niemeyer, Nasr Chaul, o evento contou com cerca de 40 participantes, que debateram sobre a permanência da obra, bem como sua legitimidade.

Já na fala de abertura, Chaul reconheceu publicamente que a alteração da obra do arquiteto Oscar Niemeyer foi “um equívoco”, mas que não foi intenção do centro, nem tampouco do governo, em criar uma celeuma acerca do tema. Mesmo porque o projeto, desde o início, foi que a obra seria retirada.

E assim será feito, como confirmado em coletiva de imprensa — e também a todos os presentes — pela secretária: o painel será retirado no dia 20 de junho. “Vamos retirar, para tristeza de muitos, entendo, mas cumprindo o contrato com o Bicicleta Sem Freio, faremos a remoção”, garantiu Raquel.

Entre os argumentos apresentados pelos contrários à obra do Bicicleta Sem Freio, está o fato de que a interferência utilizou como suporte o próprio edifício. “A fim de proteger sua integridade, é recomendável que se utilize estruturas anexadas a ele, como paineis móveis ou outros suportes”, defende o Conselho de Arquitetura e Urbanismo — em documento público entregue durante o evento.

Além disso, a socióloga e produtora cultural Isis Soares Brandão — crítica ferrenha ao painel — alertou para uma possível perda de direitos do centro de utilizar a marca Oscar Niemeyer. De acordo com ela, a fundação que cuida do legado do arquiteto já teria sido informada sobre a alteração na obra e teria se reunido para notificar oficialmente o Governo de Goiás.

“A instituição que a comprou [o governo] deveria estar ciente de todo o procedimento em relação aos direitos do autor. O que eu quero chamar atenção é que, a partir do momento que compramos esse projeto, temos que zelar por ele. Grafite é para se expressar em muros e nas praças”, criticou Isis, que completou: “É uma agressão à obra de Niemeyer. A Fundação não vai aceitar essa intervenção”.

Audiência pública não contou com representantes da arte urbana e do grafite | Foto: Alexandre Parrode / Jornal Opção

Audiência pública não contou com representantes da arte urbana e do grafite | Foto: Alexandre Parrode / Jornal Opção

Sobre tal ameaça, Raquel Teixeira nega que tenha conhecimento do ocorrido. “Amanhã mesmo vou entrar em contato com eles, pois temos total interesse em caminhar juntos pela manutenção do nome. É fundamental para Goiás tê-lo”, explicou ela.

Participação

A defesa da obra do Bicicleta Sem Freio partiu, principalmente, de jovens que estavam presentes. Embora poucos, três estudantes pediram a palavra para relatar a relevância do painel para a juventude e enfatizaram a expressão da arte urbana no espaço. O vereador Thiago Albernaz (PSDB) também tratou de apresentar um documento com a assinatura de 34 vereadores de Goiânia solicitando a permanência.

Professor da UFG, José César Clímaco (o ZèCésar) engrossou o coro dos defensores, deixando claro que discussões como a qualidade e técnica do trabalho da dupla são superadas. “O conceito de arte é indiscutível. É uma manifestação artística que se difunde cada vez mais no mundo e tem deixado as ruas para entrar nas galerias”, destacou. Segundo ele, a obra deveria ficar ali até que se “apague” com o tempo.

ZèCésar até tentou explicar o porquê dos artistas não terem ido ao evento, sob a alegação de que “não estão acostumados com locais fechados”. No entanto, a secretária Raquel Teixeira garantiu que o objetivo da audiência pública foi alcançado, mesmo sem eles. “Eu queria ter começado o debate com uma exposição deles”, revelou ela.

A secretária sugeriu, ainda, que, a partir da discussão do painel, fosse criado um conselho gestor do Oscar Niemeyer — que cuidaria, justamente, de questões relacionadas ao uso do espaço e também da marca. O objetivo, claro, seria evitar que “equívocos” como o painel do Bicicleta Sem Freio ocorressem novamente. “Podemos ser mais cuidadosos”, arrematou Raquel.

16
Deixe um comentário

12 Comment threads
4 Thread replies
0 Followers
 
Most reacted comment
Hottest comment thread
15 Comment authors
Elma Carneiro

Concordo 100% com a retirada do painel que desconfigurou a fachada original do prédio do nosso arquiteto- mor Oscar Niemeyer em sinal de respeito cívico e a arquitetura do complexo cultural.

rdrg

Tem que retirar mesmo. Os caras estão acostumados com Miami, Los Angeles, não precisam ficar se preocupando com debate besta sobre um painel dentro de um CCON onde os responsáveis estão mais preocupados na retirada do painel, que “desconfigurou” a fachada original e trouxe mais beleza, em vez de resolver o problema da “biblioteca” que não funciona. Vamos manter o padrão de Goiânia e deixar ela uma cidade cinza, já que estão tirando palmeiras das nossas avenidas.

Allprint Serigrafia

Ótimas palavras!

Amauri Garcia

De que fachada falamos? De um quadradão com 3 janelas, de cor clara? Deve haver em Goiânia umas cem mil fachadas como esta, mas que não levam a assinatura de ON. Uma pena ver a arte ser analisada por mentes tão conservadoras.

Jordão Vilela

Quero ver agora se esse conselho gestor do “Oscar Niemeyer” vai apurar a questão dos espaços inutilizados deste centro cultural.

Frederico

Que discussão idiota.

Marck Al

Atestado de nossa condição de jeca tatu.

Bruno Abdala

Bando de desocupados. Ainda bem que os artistas não foram, endossariam esse circo bairrista e vergonhoso. Goiânia causa repulsa em qualquer bom senso.

Parede doNiemeyer

Melhores opões para painel no CCON: parededoniemeyer.tumblr.com

Parede doNiemeyer

Melhores opões para painel no CCON: parededoniemeyer.tumblr.com

Marlos Japao

Realmente essa trupe de imbecis nos dão vergonha! Se pelo menos trabalhassem… Q vergonha!

André LDC

Que linda essa “ameaça” de retirarem a marca Oscar Niemeyer do CCON! Sra. Isis, torço imensamente para que sua reclamação aos riquíssimos herdeiros do Sr. Niemeyer, “o humanista”, seja exitosa. Mas com uma condição: que o CCON, caso venha mesmo a perder o direito de uso dessa grife, passe a ser um centro cultural em pleno funcionamento. Que tenha um museu aberto ao público todos os dias, ou pelo menos de segunda a sábado, e em período integral. Que conte com uma linha de ônibus eficiente e decente, pois arte não é coisa só para quem pode pegar a GO-020… Leia mais

Lucas Bastos

Deviam preocupar em tirar os milhões de espaços publicitários que infestam essa cidade. Outdoors, painéis de led que chegam ardem os olhos com tanta luz, front-lights etc. Alguns desses espaços estão em prédios que seria lindo se fossem ocupados por obras de grafiteiros. Mas não, a galera ta preocupada de mais em pintar uma parede branco, em noticiar algo que não leva ninguém a lugar nenhum.

seuoliva

CARETICE

Denise

Quanta bobagem e cabeça pequena nesse meu Goias. Grande coisa continuar e fazer de tudo para que o nome “Oscar Niemeyer” continue, ele que morreu rico e com muito dinheiro no bolso do Governo de Goias. Governo esse que até hoje nao colocou essa obra 100% operacional e que da um fora com o Bicicleta sem freio. Inteligentes foram os autores que nao compareceram a esse circo armado onde pseudo-intelectuais acham que arte mesmo é um pedaço de cimento com tinta branca, sem alma, sem serventia. Goiânia esta ainda muito longe de evoluir. Muito.

Marcus Maria Branquinho

Deveriam responsabilizar o curador que deixou-se inebriar por tal expressão, essa obra deveria estar localizada dentro do museu de arte contemporanea e com data definida para sua retirada, e aproveitando, na minha opinião deveriam-se apresentar mais as obras de artistas que moram e trabalham aqui na cidade e perderem esse “ar de colonizados” que habita os pulmões de nossos gerentes dos espaços públicos.