Augusto Cury, as pérolas aos porcos, o milho aos pombos
02 setembro 2026 às 10h05

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Há exatamente 6 décadas, o Brasil perdeu um craque apto a, na Copa daquele ano, proteger Pelé contra as malvadezas de Bulgária e Portugal. Com ele em campo, talvez poderíamos ter conquistado o tri que só viria em 1970. Nasceu em Rodeiro e cresceu para brilhar nos gramados, mineiro como Tostão (de Belo Horizonte), Piazza (de Ribeirão das Neves) e o próprio Rei (de Três Corações).
Porém, antes de o tricordiano ser atropelado nas 4 linhas dos 4 cantos da Inglaterra e praticamente perder os joelhos no mundial de 1966, nosso herói estava num ônibus que bateu de frente com uma carreta na Rio-Bahia quando ia de casa para São Paulo. Escapou, mas ficou mais de ano internado, tempo em que, como nos versos de Benito Di Paula, se revelou cantor, já que não pôde ser jogador de futebol. Pelé & Cia. perderam um companheiro, o Brasil ganhou excelente músico.
Com tanta notícia grave pipocando a cada minuto, por que é mais relevante falar de nosso misterioso personagem? José Geraldo Juste se agiganta como filósofo exatamente por dar a medida exata de cada peso:“Enquanto esses comandantes loucos ficam por aí/ Queimando pestanas organizando suas batalhas/ Os guerrilheiros nas alcovas preparando na surdina suas mortalhas/ A cada conflito mais escombros/ Isso tudo acontecendo e eu aqui na praça/ Dando milho aos pombos”.
Mesmo que não conheça a poesia de Zé Geraldo, o eleitor está cansado de viver nos escombros produto dos conflitos. Quer paz. Pode estar aí a justificativa para o médico Augusto Cury (Avante), famoso por escrever livros de ajuda às pessoas, subir tanto nas pesquisas presidenciais. Nunca na história deste país o escritor campeão nacional de vendas concorreu a chefe do Executivo. Proclamar esse ineditismo é minha forma de proteger as costas de Cury, pois as porretadas lhe chegarão de todos os lados.
Na verdade, outro autor, com 64 livros publicados (Cury já passou de 70), tentou a Presidência da República. Foi um romancista, membro da Academia Paulista de Letras, participante da Semana de Arte Moderna de 1922, integrante do trio formado com Menotti Del Picchia e Cassiano Ricardo no Movimento Verde-Amarelo e no Grupo da Anta, morou com Tim Maia num barraco, fundou jornal com Augusto Frederico Schmidt, com quem trabalharia no governo de Juscelino Kubitschek. Seu romance mais conhecido, elogiado por Monteiro Lobato, é homônimo de um sucesso de Albert Camus – só que o dele fez centenário agora e o do argelino é de 1942. Não teve o êxito de vendas conquistado por Cury, mas sua participação no meio literário repercutiu bem mais. Seu nome vai dar arrepios em diversos sentidos: Plínio Salgado. Sim, o do integralismo.
Salgado teve 8,28% dos votos válidos em 1955, quando JK ganhou. Cury acaba de alcançar 11%, ultrapassou Renan Santos (Missão), Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo). Apenas Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) o superam. Mesmo que os adversários queiram medir Cury com a régua do integralismo, Plínio tinha admiração da esquerda, que depois o execrou, e ele passou a ser ícone da direita. Os bolsonaristas adotaram seu slogan, “Deus, pátria e família”.
Caso critiquem Cury, que não seja equiparando-o aos camisas verdes – e a referência não é a torcedores de Palmeiras, Goiás, Uberlândia, Guarani, Coritiba, Juventude, Chapecoense. Era a vestimenta dos integralistas. Em seus vídeos e no debate da Band, Renan Santos exibe o Livro Amarelo de sua campanha. Em 1956, ano seguinte a sua derrota para presidente, Salgado publicou “Livro Verde da Minha Campanha”. A roupa que cabe em Cury é a de quem deseja o bem, nunca desista de seus sonhos, seja autor(a) da própria história, me chamo milagre, lidere sua mente, controle o estresse, projeta sua emoção, você é insubstituível e filho do homem mais inteligente da história, fique 365 com o mestre dos mestres.
Se Cury tiver lido apenas as próprias obras, como as dos títulos acima, será um raríssimo caso de presidente do Brasil que atravessou 70 livros de capa a capa. Desde que o trio Pelé-Garrincha-Vavá ganhou a 1ª Copa para o Brasil e veio o trio JJJ (JK, Jânio Quadros e João Goulart), apenas outro trio (José Sarney, Fernando Henrique Cardoso e Michel Temer) leu mais do que o número de volumes da bibliografia do candidato do Avante.
É improvável que Cury mantenha nas próximas pesquisas crescimento tão acentuado, mas seria ótimo ter um escritor na Presidência. Ainda que seja de autoajuda. O Brasil está precisando de palavras de carinho, de frases que abraçam, da fantasia que consola. Após a Covid 19, há epidemia de solidão, de doenças mentais, de pensamentos ruins, de negatividade. Por isso, e sem trocadilho com seu partido, desejo que Cury vá avante.
Ah, diria um, por que não recomenda a leitura de Machado de Assis? Recomendo sempre. Mas se a candidatura de Cury servir apenas para despertar determinado público para as letras já terá servido mais ao país que muitos detentores de mandato. Comecei nos gibis da infância e na juventude estava consumindo Dostoiévski, depois de passar por Machado e outros brasileiros, como os poetas da MPB. Entre eles, Zé Geraldo. Ao contrário de atirar pérola aos porcos, vá para a praça, dê milho aos pombos e vote em quem escreve ou, for exigir muito, em quem ao menos leia.
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