O escritor e palestrante Augusto Cury, do Avante, foi, de longe, a grande surpresa da nova pesquisa BTG/Nexus sobre a corrida presidencial. Em apenas uma semana, o candidato passou de 2% para 11% das intenções de voto, um crescimento de nove pontos, e assumiu a terceira posição, logo abaixo de Flávio Bolsonaro (PL) – de quem, aliás, o escritor parece ter puxado muitos votos.

No cenário estimulado de primeiro turno do levantamento, Lula recuou de 41% para 39%, enquanto Flávio caiu de 37% para 33%. Conforme análise da própria Nexus, quatro dos nove pontos conquistados por Cury teriam migrado de eleitores que, na rodada anterior, declaravam voto em Flávio Bolsonaro. Outros dois pontos teriam vindo de Lula. Há ainda um outro fator que talvez seja mais importante pra entender o fenômeno: Cury parece ter começado a capturar uma parcela do eleitorado que procura uma alternativa à polarização entre os dois líderes.

Mas o que aconteceu entre uma pesquisa e outra que levou Cury a ter um crescimento tão impressionante? Uma das (prováveis) respostas passaria por outra figura da corrida presidencial, o goiano Pablo Marçal. Embora ambos sejam candidatos ao Palácio do Planalto, Marçal está inelegível e a tendência é que a Justiça Eleitoral indefira sua candidatura. Enquanto isso, nos bastidores, há informações de que ele pode estar ajudando Cury justamente no terreno em que demonstrou grande capacidade na eleição paulistana de 2024, que são as redes sociais.

Claro, oficialmente, a campanha de Augusto Cury não confirma uma participação de Marçal em sua estratégia digital. E o marqueteiro Sérgio Lima também diz que não houve contratação de influenciadores, o que é vedado pela legislação. Contudo, publicamente, os sinais de aproximação estão aí, claros como a luz do dia.

Os dois já se conhecem e mantêm uma relação de respeito e admiração. Recentemente, Cury compartilhou um vídeo elogioso no qual Marçal afirma que o escritor “pode contar com ele”. E Cury respondeu:

“Receber uma mensagem como essa do Pablo Marçal me toca profundamente, sobretudo porque ela fala de algo que considero raro na vida pública: reconhecer o outro mesmo quando nossas trajetórias, ideias e formas de enxergar o mundo não são exatamente as mesmas. Obrigado, Pablo, pelo carinho, pela confiança e por suas palavras tão generosas. Recebo cada uma delas com gratidão e, acima de tudo, com senso de responsabilidade”, escreveu.

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Em suma: se a candidatura de Marçal encontrar uma barreira definitiva na Justiça Eleitoral, Cury pode surgir como destino quase que natural de pelo menos parte do capital político e, principalmente, digital construído pelo empresário.

Um cientista político ouvido pelo Jornal Opção vê indícios dessa influência na própria comunicação do candidato do Avante.

Marçal tem todas dificuldades legais dele, mas a estrutura por trás de Augusto Cury é profissionalizada, para as redes sociais, tem todas as digitais do Marçal

Para o especialista, isso está nas entrelinhas das redes sociais de Cury. A comunicação muito direta e numa linguagem clara (quase radical), os cortes curtos, o discurso antissistema e a exploração de frases de impacto reproduzem elementos de uma linguagem na qual Marçal é fluente. “As redes de Cury tem as digitais de Marçal”, comentou.

Depois do debate da Band, por exemplo, Cury ganhou cerca de 2 milhões de seguidores no Instagram, enquanto vídeos com suas falas passaram a inundar as redes sociais. Não falta quem acredite na entrada de Marçal nessa engrenagem, o que, inclusive, teria ajudado na mobilização digital pra ampliar o alcance desse conteúdo.

Entretanto, mesmo com o crescimento vertiginoso, Cury ainda é visto como um candidato cru. Nas sabatinas de que participou até agora, demonstrou dificuldades ao tratar de temas elementares da administração pública, especialmente nas áreas fiscal e de segurança. A proposta de utilizar drones no combate ao feminicídio, por exemplo, acabou virando meme. Ao falar de arcabouço fiscal, o candidato sinalizou que nem ao menos sabia o que era.

Para o cientista político ouvido pela reportagem, existe uma estratégia clara por trás da ascensão, mas ela tem teto: “A subida dele tem método, mas não deve se sustentar”.