Enio Pazini Figueiredo

No mês passado eu estava trabalhando em Atenas. Coincidentemente, o presidente da França, Emmanuel Macron, visitava a cidade para reforçar o apoio Europeu à soberania da Grécia frente aos avanços da influência norte americana sobre o oriente médio. A Grécia é um dos países europeus mais próximos do conflito entre Estados Unidos e Irã. É simbólico que Macron se pronunciasse na cidade onde Péricles argumentava, defendia e propagava suas ideias na Ágora ateniense. Péricles foi um dos principais líderes democráticos da cidade-estado durante o apogeu de Atenas e um dos maiores influencers políticos da sua época.

Na Atenas do século V a.C., a Ágora era o coração pulsante da pólis. Cidadãos — homens, livres, nascidos ali — reuniam-se não apenas para comercializar, mas para o exercício máximo da liberdade: o debate. Era o berço da democracia direta, onde a palavra era a arma e o melhor argumento, o escudo. No início sem regras, pouco a pouco os debates foram sendo organizados, respeitando o princípio da isonomia de tempo de fala.

Hoje, milênios depois, o chão de pedra da Ágora foi substituído por telas de Touchscreen e Liquid Crystal Display e o ar livre de Atenas por fluxos de dados na rede mundial. A internet, em suas redes sociais, redesenhou a antiga Ágora, transformando-a em uma praça digital de discussões e argumentações sem muros e quase sem controle.

A semelhança é inevitável e quase poética. Assim como na Ágora grega, o ambiente virtual permite que qualquer pessoa se aproxime, opine e traga à tona questões sociais, políticas, religiosas ou econômicas. A distância entre o cidadão e a decisão parecia, finalmente, ter se estreitado de novo, resgatando a democracia participativa. Um grito no Twitter, guardada as proporções, ecoa com a mesma velocidade que a oratória de Péricles ecoava no passado, sendo capaz de derrubar ou elevar pautas em segundos.

No entanto, a Ágora Digital carrega paradoxos. Enquanto a Ágora clássica era um espaço físico de confronto real de ideias, a internet tende a organizar os cidadãos em bolhas de afinidade. O algoritmo, esse oráculo moderno, muitas vezes nos poupa do contraditório, mostrando apenas o espelho de nossas próprias opiniões. O debate rico dá lugar ao cancelamento e à polarização no tribunal das redes sociais.

Apesar do caráter social excludente da Acrópole ateniense, a Ágora, situada aos pés da Cidade Alta, era tida como um espaço democrático. Na rede, a democratização das opiniões trouxe também a desinformação que, frequentemente, se disfarça de verdade. Robôs fingem ser cidadãos, manipulando o consenso.

Ainda assim, a promessa de uma ciberdemocracia continua viva. A internet é uma Ágora mais ampla, diversa, vibrante e atual, mas que, assim como a Ágora, parece necessitar de regras. A essência das duas é a mesma — a necessidade de participar e falar em espaço público —, mas o corpo da internet é outro: digital, rápido e muitas vezes voraz. A internet nos desafia a tornar nossas relações mais democráticas e o espaço cibernético mais humanizado.

Por Enio Pazini Figueiredo

Professor Titular Livre – UFG

Doutor e Mestre em Engenharia Civil

Pós-Doutorado – Universidade da Noruega

Doutor Honoris Causa – UCP – Perú

Leia também: Macron critica liberdade de expressão das big techs e chama argumento de “pura besteira”