Após sede histórica, Jóquei teme perder também o hipódromo da Lagoinha em meio a dívida milionária e negociação com Prefeitura
26 maio 2026 às 19h03

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A possibilidade de Goiânia perder não apenas a sede histórica do Jóquei Clube, mas também o hipódromo da Lagoinha, passou a preocupar dirigentes, urbanistas e representantes do setor imobiliário após o avanço das negociações entre o clube e a Prefeitura de Goiânia.
Com uma dívida tributária estimada em cerca de R$ 280 milhões, grande parte relacionada ao IPTU do hipódromo, a atual gestão afirma que tenta evitar que o espaço siga o mesmo caminho da sede do clube, alvo de desapropriação pelo município.

A presidente do Jóquei Clube de Goiás, advogada Nívea Cristina Ribeiro de Paula, afirma que a diretoria trabalha contra o tempo para impedir a perda definitiva do patrimônio. “Nós não queremos que aconteça com o hipódromo a mesma coisa que aconteceu com a sede: que ele seja desapropriado ou retomado para pagamento da dívida”, afirmou.
Segundo ela, a atual diretoria assumiu o clube já em situação crítica.“Nós assumimos o clube com uma dívida de aproximadamente R$ 280 milhões com o município.”
Hoje, o principal foco das negociações é o chamado “encontro de contas” entre clube e Prefeitura, principalmente em relação aos valores de IPTU cobrados ao longo dos anos.
“Nós não concordamos com os valores que foram apresentados. Por isso, estabelecemos uma comissão técnica para tratar especificamente da questão do IPTU.”
IPTU milionário tornou permanência inviável
Um dos principais argumentos apresentados pela direção é a inviabilidade financeira de manter o hipódromo nas condições atuais.
Segundo Nívea, o IPTU anual do espaço hoje gira em torno de R$ 10 milhões, mas já chegou a R$ 20 milhões por ano. “Hoje é inviável para o Jóquei Clube manter um imóvel com IPTU de R$ 10 milhões por ano. Essa conta simplesmente não fecha”, disse.
A presidente afirma que a ideia de construir um “novo Jóquei” surgiu antes mesmo da desapropriação da sede.
“Desde que a nossa diretoria assumiu, nós já tínhamos como objetivo construir um ‘Jockey Novo’.”
Segundo ela, a região da GO-020 aparece como prioridade para um possível novo empreendimento esportivo. “Ali já existem equipamentos esportivos, como autódromo, golfe, wake park e atividades ligadas ao triatlo. Então, essa é a região que nos interessa.”
Apesar disso, a dirigente afirma que ainda não há definição concreta. “Nada está concretamente definido.”
Patrimônio afetivo versus crise financeira
A proposta de mudança e as negociações envolvendo o patrimônio histórico do clube provocaram reações negativas nas redes sociais e entre antigos frequentadores.
Nívea reconhece o valor simbólico do hipódromo para a cidade, mas afirma que a situação financeira impõe decisões difíceis.“Se fosse apenas uma questão de escolha, nós gostaríamos de permanecer onde estamos. É um patrimônio histórico do clube.”
Ela afirma, porém, que o clube corre risco real de perder tudo caso não haja uma solução. “Se ficarmos apenas apegados ao patrimônio sem resolver as dívidas e o IPTU, vamos acabar perdendo tudo.”
Segundo a presidente, nem mesmo a manutenção parcial do hipódromo resolveria o problema financeiro se o atual modelo tributário continuar.
“Mesmo que consigamos resolver parte da dívida com uma negociação envolvendo o hipódromo, ainda permaneceria um IPTU anual de R$ 10 milhões.”
A dirigente também revelou que o clube enfrentava problemas administrativos graves. “O Jóquei sequer possuía regularidade cadastral. O CNPJ estava em situação de ineptidão.”
Entenda em que fase está a desapropriação
O tributarista Frederico Medeiros, representante da Academia Goiana de Direito Tributário (AGET), explicou que o processo segue o rito previsto no Decreto-Lei nº 3.365/1941.

Segundo ele, a desapropriação possui cinco fases e o caso atualmente está na etapa judicial.
“A Prefeitura avaliou o imóvel em R$ 55 milhões e 400 mil. Porém, alegou deterioração do imóvel e uma depreciação nas benfeitorias de cerca de R$ 26 milhões.”
Com isso, o valor apresentado ao clube caiu para cerca de R$ 29 milhões. “A presidência do Jóquei não aceitou esse valor.”
Segundo Frederico, após a tentativa frustrada de acordo, a Prefeitura ingressou com ação de desapropriação em 2025. “Essa ação está correndo na 3ª Vara da Fazenda Pública Municipal de Goiânia.”
O especialista afirma que a solução ideal envolveria uma avaliação considerada justa do imóvel e a extinção dos débitos tributários.“Para os representantes do Jóquei, o melhor cenário seria o recebimento de uma justa indenização pela desapropriação.”
Ele explica que, caso a Prefeitura assuma o imóvel, os débitos de IPTU deixariam de existir. “Todo esse débito de IPTU, com a Prefeitura assumindo a propriedade do imóvel, seria extinto.”
Centro de Goiânia pode ganhar novo complexo cultural
Além da discussão tributária, a desapropriação também integra um projeto mais amplo de revitalização do Centro de Goiânia.
Frederico afirma que a intenção da Prefeitura seria instalar um equipamento cultural na área. “Pelo que me consta, a Prefeitura pretende dar uma destinação pública ao imóvel, construindo um palácio cultural.”
A proposta também é defendida pelo presidente do Secovi Goiás, Antônio Carlos da Costa.
Segundo ele, o espaço pode se tornar um marco da recuperação urbanística da região central.
“O Jóquei é um equipamento urbano que, se revitalizado, pode trazer muita vida para o Centro e se tornar o ponto de partida da revitalização que aquela região precisa.”
O dirigente afirma que existe expectativa de integração do espaço com outros projetos públicos já em andamento.“O Estado já adquiriu o prédio da antiga Caixa Econômica naquela região.”
Segundo ele, a ideia seria criar um polo de atividades culturais e urbanas no Centro da capital.

Hipódromo também entra em debate ambiental e tecnológico
Antônio Carlos afirma que o hipódromo da Lagoinha não deve ser analisado apenas sob o aspecto imobiliário.“Ali existe uma nascente relevante para Goiânia, que precisa ser preservada e requalificada ambientalmente.”
Ele defende que o espaço possa unir preservação ambiental, revitalização urbana e desenvolvimento econômico.
“Pode ser pensado como um centro tecnológico ou algo semelhante, que gere impacto positivo para toda a região.”
O representante do Secovi também afirma que a permanência do hipódromo dependerá de sustentabilidade financeira. “Acredito que seja possível manter o equipamento do hipódromo, desde que exista viabilidade econômica para isso.”
Assembleia deve decidir futuro do clube
A direção do Jóquei afirma que qualquer decisão definitiva dependerá dos sócios.
Hoje, o clube possui cerca de 1.750 sócios remidos aptos a participar das deliberações. “Nosso estatuto determina que todas essas decisões precisam passar por assembleia geral.”
A expectativa da diretoria é concluir a primeira etapa das negociações com a Prefeitura nos próximos 60 dias.
“Eu acredito que em cerca de 30 dias já teremos novidades.”
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