Após acordo com UE, Ficomex 2026 desembarca em Lisboa e conecta Goiás ao mercado europeu
29 abril 2026 às 17h08

COMPARTILHAR
A Associação Comercial, Industrial e de Serviços do Estado de Goiás (Acieg) e a Faciest realizaram, nesta quarta-feira, 29, a apresentação oficial da Ficomex 2026, que pela primeira vez será realizada fora do Brasil. O evento está confirmado para Lisboa, Portugal, nos dias 28 e 29 de maio e 1º de junho, marcando um novo capítulo na história da maior feira de comércio exterior do país.
Em entrevista exclusiva ao Jornal Opção, o secretário de Indústria, Comércio e Serviços de Goiás, Joel de Sant’Anna Braga, falou sobre as oportunidades abertas com a assinatura do acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia. Segundo ele, o momento é de superar os desafios regulatórios e preparar as empresas goianas para conquistar novos mercados.
“O acordo finalmente saiu. Agora vai ser de empresa para empresa para fechar esse negócio, e país por país também, porque a França precisa normatizar, regular. Nós precisamos ainda achar esse mecanismo de conversação”, afirmou.

Ele ressaltou que o Governo Estadual já trabalha em conjunto com a Frente Parlamentar da Câmara dos Deputados voltada para União Europeia e Mercosul, envolvendo empresas da Itália, Alemanha e França. “Essas empresas são as maiores interessadas em fazer essas trocas e abrir o mercado tanto para eles aqui quanto para nossos produtos goianos”, revelou.
Joel de Sant’Anna explicou que a Secretaria de Indústria, Comércio e Serviços (SIC), em parceria com a Apex, vem capacitando empresas por meio do programa PEIEX. “Mais de 100 empresas estão sendo treinadas para poder exportar. É importante que médias e pequenas empresas se capacitem para atender às normas regulatórias dos países. Por exemplo, a roupa precisa da etiqueta correta; o alimento precisa da certificação exigida na França, em Portugal, na Alemanha”, disse.
O secretário destacou que o cenário internacional favorece a abertura de novos mercados. “É uma oportunidade muito grande, principalmente agora com os Estados Unidos colocando tarifaços. A Europa precisa abrir seus mercados e isso adiantou o tratado da União Europeia que estava travado há tantos anos”, apontou.

Sobre a resistência de agricultores europeus, especialmente franceses, ele minimizou o impacto para a economia francesa. “É pequeno, menos de 5% do PIB francês. Eles têm força política, mas não têm uma proporção tão grande dentro do mercado para impedir as tratativas. Para o povo francês é muito melhor fazer o acordo do que fechar o mercado por conta da agricultura”, disse.
Joel também explicou sobre a preocupação crescente com sustentabilidade. “As empresas estão preocupadas com o uso de bioinsumos para que o agronegócio tenha alimentos mais saudáveis. Supermercados fora só vendem produtos sem insumos químicos. Temos que treinar nossos produtores na agricultura, no comércio, na confecção, nos queijos e doces. Temos produtos competitivos que podem entrar na Europa e ser um diferencial”, contou.

Questionado sobre a feira internacional, o secretário disse que o mais importante é abrir portas. “Portugal é a porta da Europa, tem a língua mais fácil para os empresários. É uma oportunidade de mostrar o que Goiás tem de logística, empresas, minérios. Somos o único estado que exporta terras raras. Essa feira vai colocar Goiás dentro desse espectro que o governador Daniel Vilela está preparando, com estudos para abrir escritórios e representações fora”, disse.
Ele destacou ainda o pioneirismo do estado. “Outros estados participam de feiras fora, mas Goiás saiu na frente no que concerne ao acordo de livre comércio com a União Europeia. Foi chancelado pelo Presidente da República e pelo Mercado Comum Europeu em menos de 40 dias. É uma oportunidade única de mostrar a cara do estado de Goiás para a Europa e aumentar nossas exportações no Mercosul”, finalizou.
Entidade parceira
Em entrevista exclusiva ao Jornal Opção, Rubens Fileti, o presidente da Acieg e da Faciest, falou sobre os impactos do acordo de livre comércio para Goiás. “A primeira coisa que nós temos que fazer é preparar o empresário. Às vezes o empresário tem a vontade de fazer uma importação ou uma exportação de algum produto ou serviço, mas ele não está preparado legalmente para que isso aconteça”, disse.

“Então, nós vamos dar todo o apoio necessário para que o empresário efetivamente possa fazer todos os negócios com segurança jurídica, com lucratividade, para que assim nós não tenhamos nenhum tipo de problema”, completou.
Ele destacou o papel das entidades parceiras na preparação desses empresários. “Então, a primeira ação que a Acieg já vem fazendo há bastante tempo, e agora com essa edição da feira, é efetivamente dar esse apoio ao empresário. E trazer as entidades que sempre nos apoiaram. Como o Sebrae para apoiar a micro e pequena empresa, as prefeituras também para trazer ali o que elas têm de melhor dentro de cada município e atração de investimento para dentro da sua cidade, o que que ela tem de melhor para levar para a Europa”, contou.
“Então é um trabalho muito forte, muito robusto e que nós temos uma expectativa muito grande que o empresário fique preparado aí e se capacite para os próximos passos”, completou.
Sobre a regulação europeia, Fileti reforçou a necessidade do empresário se preparar. “Ele tem que se preparar. Se ele chegar lá e ver que tem uma oportunidade e não está preparado para fazer a venda, isso consequentemente vai travar qualquer tipo de negociação e frustrar até o empresário para que ele possa fazer uma ação comercial para fora do Brasil”, disse.
“Então a expectativa é que realmente vai ter alguns problemas acontecendo nesse início desse acordo, algumas burocracias não previstas, alguns selos que algum país precisa, algumas certificações que alguns países precisam, mas do nosso lado nós vamos preparar as empresas para que elas estejam preparadas para um determinado tipo de exportação”, completou.
“Olha, eu só posso chegar para fazer uma exportação de um determinado produto se eu estiver cumprindo todos os requisitos da área de saúde alimentar em determinado país. Então a Acieg vai orientar e vai encaminhar os empresários com o apoio do governo do estado de Goiás, com o apoio dos municípios, com o apoio do Sebrae e várias as outras entidades, da Codego, que está fazendo um trabalho muito bacana junto conosco nesse projeto. Então é uma via de mão dupla aqui dentro do estado de Goiás, poder público e o privado, para que nós possamos ter resultado na atração de investimentos para o nosso estado”, disse.
Questionado sobre resistências históricas ao acordo de livre comércio, que há resistência de dois países. “Existem dois países que declaradamente tem algum tipo de resistência, que é a Polônia e a França”, contou. O entrevistador lembrou: “Especialmente a França e o Macron”.
Fileti respondeu: “Isso. Tem dois grandes problemas, mas tudo que é novo gera uma certa resistência. Então, quando começar a clarear, como ficar mais transparente tudo o que está sendo colocado em papel, eu acho que isso vai mostrar que tanto para o lado de lá quanto para o lado de cá vai ser economicamente bom, tanto para os agricultores do lado da Europa quanto do lado de cá. E essa resistência ela vai sendo diluída ao longo do tempo”, finalizou.
Empresário
Na entrevista exclusiva ao Jornal Opção, Marcelo Pinheiro de Lima Abreu, diretor-geral da Mapila Alimentos, empresa que completa 40 anos em 2026, falou sobre as expectativas diante do novo cenário. “Olha, a expectativa nossa é muito boa. Porque Portugal é uma excelente porta de entrada para os produtos brasileiros. Primeiro que é um país que fala a nossa língua”, disse.

“Segundo que o Governo Federal terminou de assinar e já entrou em vigor agora no último dia 26 o livre comércio, que é o início, né, de um livre comércio entre União Europeia e o Mercosul. São 5 mil produtos com isenção total de importação. Então isso abre para nós uma perspectiva de mercado em um dos maiores mercados do mundo”, completou.
Os produtos brasileiros são mais baratos que os europeus, o que representa uma oportunidade inédita. “Apesar do ‘custo Brasil’, como as nossas exportações são isentas, nós temos um preço competitivo. Não é todo segmento, mas no nosso segmento específico, que é o de alimentos, que nós da Mapila Alimentos trabalhamos na área de molhos, temperos, condimentos e conservas, nós acreditamos sim que nós temos um preço competitivo. Mas além do preço, nós temos um produto de altíssima qualidade devido à oferta de frutas na elaboração dos nossos produtos”, apontou.
Questionado sobre investimentos e projeções de negócios, Marcelo lembrou da experiência recente da empresa. “A nossa empresa começou o processo de exportação dela no ano passado, exportando para um país que tá a 13 mil quilômetros do Brasil, que é a Índia. E para nossa alegria, nós fechamos mostrando qualidade para o país que mais entende de tempero e especiaria do mundo, que é a Índia”, contou.
“Então eu acho que a distância não é o problema. Eu acho que o que nós precisamos ver é realmente estudar cada mercado, cada país, buscar aquele nicho do mercado consumidor que vai receber o nosso produto, que vai consumir o nosso produto, para que nós possamos ter êxito. Eu acredito muito que nós teremos êxito também no mercado europeu”, completou.
Sobre as diferenças culturais e de consumo entre países, Marcelo explicou que a feira terá a participação de vários países. “Lá na Ficomex, em Portugal, nós não vamos ter só Portugal participando. Nós vamos ter mais outros países. Eu acho que tem país que consome mais condimento, consome mais, no nosso caso, os molhos de pimentas que nós fabricamos. Nós temos o único molho de pimenta do mundo que não é fabricado com vinagre químico”, disse.
“O nosso vinagre é feito de polpa de limão desidratada. É uma fórmula própria que nós desenvolvemos ao longo de 30 anos, pois nossa marca esse ano tá fazendo 40 anos. E nós levamos isso como uma inovação. Então, nós sabemos que o mercado europeu é muito exigente em relação aos ingredientes. Como o nosso produto, o nosso sal é zero, o nosso vinagre é natural e nós temos quatro vezes mais polpa de fruta do que qualquer outro concorrente, nós temos um produto quase que imbatível. E o nosso preço também é mais barato do que o líder mundial nessa área”, explicou.
Sobre a regulação europeia, Marcelo afirmou que a empresa dele já conhece a lei europeia. “Já sabemos quais são os ingredientes que eles aceitam e que não aceitam. Nossos produtos estão todos adequados para a entrada. Agora, nós não deixamos de esbarrar em uma burocracia ou outra. A burocracia é você registrar cada produto desse na Europa, que tem um custo, mas tem algumas vantagens”, apontou.
“Por exemplo, cada produto que eu for vender na Europa vai me custar 360 euros junto à regulação do Ministério da Agricultura para que eu tenha esse produto homologado para venda. Mas em contrapartida ele já fica homologado em 29 países da União Europeia. Então o mercado se abre de uma forma extraordinária para que nós possamos comercializar em todos esses países na medida que nós formos prospectando”, completou.
Sobre a resistência histórica ao acordo de livre comércio, especialmente por parte de agricultores europeus. “Eu acho que no nosso caso específico, que nós trabalhamos com temperos, nós temos uma vantagem. Porque no nosso caso específico, os principais produtos que nós queremos exportar são os apimentados. E pimenta, ela dá em clima tropical, e o clima da Europa é temperado. Então, nós temos essa vantagem. Não vamos disputar com os agricultores de lá porque lá eles não plantam pimenta. Então, eu acredito que teremos um sucesso grande nisso aí”, contou.
Institucional
A edição internacional da Ficomex ocorre após o sucesso da Ficomex 2025, realizada em Goiânia, que alcançou a projeção de R$ 2,8 bilhões em negócios prospectados. A ApexBrasil realizou cerca de 340 reuniões entre empresas brasileiras e compradores internacionais, ampliando significativamente as oportunidades comerciais.
A edição também se destacou pelo Espaço Global, que reuniu mais de 40 apresentações de embaixadas, câmaras de comércio exterior, estados e municípios.
A Ficomex 2026 promete ampliar ainda mais o alcance, reunindo empresas, instituições e especialistas para fomentar o comércio exterior e fortalecer a internacionalização de negócios entre Brasil e Europa.
Leia também:
Ucrânia propõe aliança tecnológica com Goiás em drones e terras raras após reunião estratégica
Mabel anuncia pacote de R$ 1 bilhão em obras; mobilidade e infraestrutura lideram investimentos

