O mês de abril, marcado pela conscientização sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA), reforça a importância do diagnóstico precoce e do acesso ao tratamento especializado ainda na infância. No Brasil, cerca de 2,4 milhões de pessoas estão no espectro, segundo dados do IBGE, cenário que evidencia a necessidade de ampliar políticas públicas e iniciativas de cuidado.

Nesse contexto, o Instituto de Assistência Familiar e Amparo Social dos Trabalhadores do Setor de Serviços (Iafas) oferece atendimento psicológico gratuito voltado a crianças de 0 a 12 anos, faixa etária considerada decisiva para intervenções com maior potencial de desenvolvimento.

De acordo com a psicóloga Alinne Morato, o diferencial do atendimento está na abordagem individualizada. “Nosso foco é justamente esse período, por ser o momento em que a intervenção tem maior impacto e potencial de mudança”, afirma. Segundo ela, o trabalho começa com uma escuta aprofundada, que vai além do diagnóstico formal. “Na prática, começa-se entendendo profundamente a criança, não só o diagnóstico, mas o comportamento no dia a dia e as dificuldades reais.”

A partir dessa avaliação, é estruturado um plano terapêutico específico para cada paciente. “Construímos um plano totalmente individualizado, com objetivos claros, como desenvolver comunicação, autonomia e habilidades sociais, além de reduzir comportamentos que prejudicam o desenvolvimento”, explica a especialista.

A principal metodologia utilizada é a Análise do Comportamento Aplicada (ABA), reconhecida cientificamente pela eficácia no desenvolvimento de habilidades em crianças com TEA. “A ABA atua diretamente no ensino de habilidades sociais, comunicativas, acadêmicas e de autonomia, além de reduzir comportamentos que possam prejudicar o desenvolvimento”, destaca Alinne. Em alguns casos, o acompanhamento também pode incorporar estratégias da Terapia Cognitivo-Comportamental, conforme as necessidades identificadas.

O processo terapêutico, no entanto, não se restringe ao ambiente clínico. A participação da família é considerada fundamental para a evolução da criança.

“O acompanhamento é contínuo e a família participa ativamente. O resultado não acontece só na clínica, ele precisa acontecer na vida real”, afirma. Segundo ela, esse envolvimento contribui para mudanças na rotina e na dinâmica familiar. “Quando a criança começa a evoluir, toda a dinâmica familiar se transforma. A família passa a compreender melhor os comportamentos e aprende estratégias para lidar com os desafios.”

Apesar do avanço na conscientização, o acesso ao tratamento ainda é um dos principais desafios. A demanda por atendimento especializado tem crescido, mas nem todas as famílias conseguem arcar com os custos ou encontrar suporte adequado.

“Existe uma procura constante de famílias em busca de avaliação e intervenção, o que evidencia o quanto esse serviço é necessário e, ao mesmo tempo, ainda insuficiente diante da realidade atual”, pontua.

Entre os obstáculos mais frequentes, a psicóloga destaca a sobrecarga emocional e as limitações financeiras. “As principais dificuldades estão relacionadas à falta de orientação adequada e ao custo de um tratamento especializado, que ainda é um grande impeditivo. Muitas crianças deixam de receber a intervenção justamente no momento mais importante do desenvolvimento.”

“Mais do que oferecer terapia, essas ações promovem inclusão, dignidade e uma oportunidade real de desenvolvimento”, completou Alinne Morato.

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