Faltam 198 dias para acabar o ano. Se você tivesse que escolher um dia do ano para ser um dia comum, qual seria? Um desses em que quase nada acontece. Modorrento, arrastado, desses que fazem a gente perguntar se a vida não é só isso mesmo: um acontecer sem importância aparente. Daqueles dias que já chegam pedindo desculpa por existir.

Não se trata de pessimismo, nem de buscar o espaço vazio do copo como filosofia de vida. Não é nada disso. Na verdade, todos os dias da vida deveriam ser maravilhosos de se viver. Mas há uns dias que, francamente, nos torturam. O café esfria. O relógio dispara, ou simplesmente empaca. A gente perde o ritmo. Nenhum clímax, nenhuma trilha sonora.

Para o escritor irlandês James Joyce, esse dia era 16 de junho. Foi nessa data, em 1904, que Leopold Bloom, personagem do romance Ulisses, sua obra-prima, resolveu dar um rolê pela cidade. Acorda, sai de casa, toma café, compra rim de porco no açougue, vai ao correio, anda sem pressa pelas ruas, vai a um velório, almoça um sanduíche de gorgonzola, vai à biblioteca, caminha pela praia, passa por alguns botecos, dá um pulo na zona e volta para casa de madrugada. Normal, um dia normal. Nada de heroico. Um dia comum em Dublin.

Mas quem disse que o singelo não pode se tornar único? Em 1950, o Brasil decidiu mostrar ao mundo que era grandioso e moderno, que podia sediar um evento global, e inaugurou, no dia 16 de junho, o que seria então o maior estádio de futebol do planeta: o Maracanã, com capacidade para 200 mil pessoas.

Era uma sexta-feira, e a seleção do Rio de Janeiro derrotou a de São Paulo por 3×1. A plateia viu o jogador Didi, o “Folha Seca”, marcar o primeiro gol naquele que seria, mais que um estádio, um projeto de nação. Para muitos, ele se tornaria o espaço do cotidiano onde o domingo nunca mais se desvencilharia do futebol e da arquibancada. Uma prova de que a vida não se organiza apenas em grandes feitos, mas nos presenteia com momentos inesquecíveis.

O dia 16 de junho também marcou o nascimento de Ariano Suassuna, em 1927. A criança cresceu e se tornou dramaturgo, romancista, ensaísta e professor. Sua obra mais conhecida é O Auto da Compadecida (1955). Uma grande lição que Ariano nos deixou talvez seja esta: o épico mora no cotidiano. O extraordinário está nas miudezas da vida, na feira, na conversa despretensiosa na calçada, no riso besta provocado por uma bobagem qualquer.

Se James Joyce transformou um dia comum de Dublin na literatura visceral que se tornou seu romance, Ariano fez o mesmo com o sertão, seus heróis populares, personagens improváveis e tragédias cômicas. Em ambos, o dia só parece comum para quem não aprendeu a escutar suas histórias.

Nada melhor do que um historiador para contar histórias. Assim era Marc Bloch, historiador francês que dedicou a vida a buscar não as histórias oficiais, repletas de heróis e feitos gloriosos, mas os homens e mulheres comuns, aqueles que, em silêncio, exercitam suas crenças, seus hábitos e rotinas. Para ele, era no cotidiano que a história se decidia. Em 1944, quando o fascismo já havia tomado as ruas, os corações e as mentes, Bloch não se refugiou em seu gabinete. Entrou para a Resistência. Preso pela Gestapo, foi torturado e fuzilado num 16 de junho que poderia ter sido apenas mais um dia qualquer.

E há a tartaruga marinha, que também tem seu dia celebrado em 16 de junho. Essa criatura ancestral, que atravessa séculos repetindo trajetos, enfrentando predadores, correntes marítimas e nós, humanos descuidados com a preservação do planeta.

Talvez a imagem da tartaruga seja a chave que faltava para acompanhar o ritmo desse percurso. Ela nos ensina que o tempo não se mede por eventos espetaculares, mas pelo trabalho silencioso e persistente. A história avança devagar, persiste, como quem caminha ao lado de Leopold Bloom por Dublin ou de Ariano Suassuna levantando poeira no sertão. Sim, dias comuns importam e é preciso aprender a andar no tempo deles, escutar sua pulsação e não apressar o passo.

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