Com mais de 30 mil cavernas no Brasil, pesquisadores testam impactos do turismo; Goiás concentra 1,1 mil delas
28 junho 2026 às 12h34

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Pesquisadores brasileiros estão desenvolvendo metodologias inéditas para avaliar os efeitos da visitação em ambientes subterrâneos. O trabalho começou no Parque Nacional da Furna Feia, no Rio Grande do Norte, e integra o Plano de Ação Nacional para a Conservação do Patrimônio Espeleológico, coordenado pelo Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Cavernas do ICMBio.
O país possui mais de 30 mil cavernas registradas e estima-se que o número possa ultrapassar 300 mil. Só em Goiás, há mais de mil cavernas.
O desafio é equilibrar o interesse turístico com a preservação de ecossistemas sensíveis. As pesquisas buscam fornecer subsídios para definir quais áreas poderão ser abertas ou restritas ao público, apoiando políticas de conservação e gestão.
Um dos diferenciais do estudo é a realização de simulações de visitação antes da abertura oficial ao turismo. Essa prática, pouco comum no Brasil, deve ajudar a estabelecer parâmetros de manejo desde o início das atividades. Minas Gerais, estado com maior concentração de cavernas, também será contemplado com análises comparativas entre locais visitados e não visitados.
Segundo Marconi Sousa Silva, pesquisador da Universidade Federal de Lavras e articulador da ação, alterações sem planejamento podem comprometer gravemente esses ambientes. Estudos já identificaram mudanças em temperatura, umidade e concentração de CO₂, além de impactos como pisoteio e compactação de sedimentos. Esses fatores afetam principalmente invertebrados exclusivos das cavernas, que não existem em outros ambientes.

Um outro risco é a introdução de materiais externos, que favorecem o crescimento de fungos e microrganismos associados à presença de luz artificial. Esses processos podem danificar formações rochosas que levam séculos para se formar.
As metodologias combinam análises biológicas e monitoramento ambiental. Entre os parâmetros avaliados estão CO₂, temperatura e umidade, obtidos por sensores automáticos ou medições em campo. Também são aplicadas técnicas de amostragem da fauna e caracterização dos micro-habitats, incluindo o tamanho dos grãos dos sedimentos, fator que influencia o impacto do pisoteio sobre espécies de baixa mobilidade.
Na primeira expedição experimental, pontos amostrais foram delimitados em áreas visitáveis e adjacentes da caverna. Após quatro dias de visitação simulada, com cerca de 45 pessoas por dia, foram coletados dados sobre abundância e diversidade de invertebrados, além de informações microclimáticas. O fluxo considerado equivale a até 90 visitantes, número próximo da capacidade máxima estimada.
Diego Bento, analista ambiental e coordenador da Base Avançada do Cecav no Rio Grande do Norte, explicou que a hipótese é de redistribuição da fauna entre áreas visitadas e não visitadas, sem redução da riqueza total. O objetivo é verificar se os impactos permanecem dentro de níveis aceitáveis para a conservação.
A Furna Feia ainda não recebe turistas, o que permite a realização de estudos prévios ao início da visitação. A região, que inclui os municípios de Felipe Guerra e Governador Dix-Sept Rosado, é considerada um hotspot de biodiversidade subterrânea e vem sendo estudada há duas décadas por instituições como a UFLA, o Cecav e a Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Do ponto de vista científico, é uma das áreas mais relevantes da América do Sul.
Os resultados devem ampliar o conhecimento sobre os impactos da visitação em cavernas e apoiar a definição de critérios técnicos para o uso sustentável desses ambientes.
Em Goiás
O estado de Goiás conta com 1,1 mil cavernas registradas, o que o coloca entre os cinco estados brasileiros com maior concentração desses ambientes, representando 4,36% do total nacional.
Embora esteja atrás de Minas Gerais, Pará, Bahia e Rio Grande do Norte, o estado guarda um patrimônio subterrâneo significativo, ainda pouco explorado para fins turísticos e científicos.
E conforme já noticiado pelo Jornal Opção, o Anuário Estatístico do Patrimônio Espeleológico Brasileiro revelou que quase metade das cavernas conhecidas está no bioma Cerrado (12.008), incluindo grande parte das cavernas goianas.
O levantamento também indica que 8.322 cavernas estão dentro de unidades de conservação, sendo 57% em áreas de uso sustentável e 43% em proteção integral. Além disso, 11.397 cavernas (43,76% do total) estão localizadas em regiões pleiteadas pela mineração, o que reforça a importância de políticas públicas para conciliar preservação e uso econômico.
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