Uma entrevista via WhatsApp: “Vamos nos aproximar das instituições indígenas do mundo”

Um dos articuladores dos Jogos Mundiais diz que o esforço para realizar o evento já chamou a atenção de 43 países

indio

Terena concedeu uma entrevista exclusiva ao Jornal Opção via WhatsApp

Gilson Cavalcante

O Comitê Intertribal dos I Jogos Mundiais das Populações Indígenas (JMPI) fará o lançamento oficial do evento, no próximo dia 23, em Brasília, junto com o Ministério dos Esportes. Os jogos, que acontecem em Palmas no mês de outubro, vão reunir indígenas de mais de 20 países, de acordo Marcos Terena, membro do Comitê Intertribal, na condição de articulador Indígena Internacional. Terena concedeu uma entrevista exclusiva ao Jornal Opção, via WhatsApp, abordando o assunto e destacou alguns aspectos que o evento deve apresentar.

Tocantins conta com uma população indígena de cerca de 10 mil pessoas, de sete etnias, com cultura e tradições preservadas. Com o lema “Em 2015, somos todos indígenas”, a primeira edição do evento será a “celebração da cultura nativa, diversidade, arte e tradição”, adianta o coordenador do Comitê Intertribal. A programação conta com esportes indígenas, que se dividem em jogos tradicionais demonstrativos e jogos nativos de integração, além dos esportes ocidentais competitivos, que também têm a característica de unificação das etnias e povos indígenas. Idealizador dos JPMI, Terena destacou que 43 nações já demonstraram interesse em participar do evento. “Até o Vaticano pretende enviar representante; não sei se os indígenas argentinos querem envolver o papa Francisco na história para ganhar os Jogos”, brincou ele.

“Esse foi um desafio lançado em 2013 por representantes de 16 países indígenas que estiveram em Cuiabá, no Mato Grosso. Nós tínhamos a meta de trabalhar com 22 países e hoje, temos em torno de 43 países, com quatro observadores, inclusive o Vaticano. Isso é uma tarefa de grande responsabilidade”, acrescentou.

Como estão os preparativos para os Jogos Indígenas a se realizarem em Palmas, no mês de outubro?
Depois que nós do Comitê Inter­tribal fizemos o lançamento dos JMPI na sede da ONU em Nova York, nossas demandas aumentaram em muito devido ao interesse institucional nacional e internacional, imprensa, etc. Com isso, as nossas tarefas como idealizadores do Evento ficaram mais evidentes. Pensamos em fazer dos JMPI um exemplo de evento desportivo capaz de mostrar a força holística, cultural, física e espiritual do Homem/Natureza. Nos próximos dias, com apoio do governo federal, vamos fazer o lançamento oficial em Brasília com a presença de várias autoridades, artistas e líderes indígenas do grande conselho dos JMPI, seguido de um Congresso Técnico Prepa­ratório, e tudo isso, apesar do entusiasmo, dá um trabalho danado.

As comunidades indígenas estão sendo ouvidas?
As comunidades da chamada Geografia Indígena do cenário nacional e internacional têm sido a base de todo esse entusiasmo. A reação positiva da grandiosidade desse trabalho fez com que vários Ministérios e Agên­cias da ONU passassem a observar que movimento é esse. Por exemplo, uma força-tarefa do governo federal tem atuado para construir um cenário, uma retaguarda muito eficiente num modelo moderno, tecnológico, ambi­ental e humano, mas tudo com base na presença da diversidade indígena e seus biomas. Não dá para contemplar a todos os 350 milhões de indígenas existentes no mundo, mas o cenário será feito com nossa força de refletir como o grande evento mundial antes das Olimpíadas de 2016.

A prefeitura de Palmas tem auxiliado na organização do evento?
A gente tem que reconhecer o papel de todos os setores auxiliares e institucionais para que o Evento tenha esse alcance. No início, tínhamos como referência na Prefeitura de Palmas, a Fundação de Esporte que fez todo o lobby para levar o evento para essa cidade, mas depois o prefeito Amastha criou uma Secretaria Especial e específica. Porém, os JMPI são um evento de domínio indígena internacional. Durante os JMPI teremos um Fórum Social Indígena quando serão abordados temas como a tecnologia da informação, mudan­ças climáticas, direitos da mulher, soberania alimentar e até o artesanato como fonte saudável de renda, mas tudo está sendo feito, debatido com lideranças indígenas envolvidas nesses temas e com apoio institucional do Ministério do Esporte, Ministério do Desen­volvimento Agrário, Ministério da Justiça, Ministério da Cultura, Igualdade Racial, Ministério das Relações Exteriores e até da Casa Civil, lembrando também que empresas como Sebrae, Correios, que criou um Selo Especial, e a Infraero vão estar no circuito dessa ação.

Quais os maiores problemas enfrentados hoje pelas comunidades indígenas, principalmente do Tocantins?
As questões indígenas se transformaram em problemas quando o primeiro homem branco apareceu nas nossas aldeias. Depois disso, principalmente pelas mentiras e falsas promessas, a vida do índio passou a ser um risco. Ninguém tinha consideração e respeito aos nossos valores, inclusive até hoje. No Tocantins, onde vamos realizar os JMPI existe um Conselho Indígena em formação, mas sabemos que para que sejam ouvidos e respeitados devem lutar não com agressão ou quebra-quebra, pois isso não é um modelo das tradições indígenas. O governador Marcelo Miranda, que foi eleito depois do lançamento dos JMPI, tem nos procurado para pedir orientação de como proceder para criar sua plataforma indígena, mas como não somos do Tocantins, sempre recomendamos que incorpore assessores indígenas nas várias pastas de seu governo, não apenas como política de boa vizinhança, mas com indígenas que tenham méritos para superar desde o preconceito até poder chegar às mesas de negociação dos avanços da modernidade sobre os territórios indígenas.

As comunidades indígenas não querem aproveitar os jogos para fazer algum manifesto, como mostrar a verdadeira realidade das tribos e aldeias do Brasil?
O governo federal tem feito várias consultas pelo Brasil afora para a construção de uma Conferência Nacional, que vai acontecer em novembro deste ano. Nós, por exemplo, nunca fomos convidados para assistir a alguma ou participar como interlocutores ou assessores, apesar de nossa experiência. Então, está em pauta uma mesa de negociação e debates: com o principal responsável pelas politicas sociais, ambientais e de desenvolvimento do governo federal de um lado; e de outro, com algumas organizações não governamentais e organizações indígenas, pois ao final dessa Conferência, certamente haverá alguma deliberação sobre a política indigenista oficial, como o tema dos índios isolados, os índios urbanos, a juventude, a mulher indígena e os avanços e desafios dos novos tempos. Nos JMPI temos uma pauta cheia e as sondagens que têm aparecido são somente de pesquisadores e jornalistas que querem assistir ao evento, promover notícias e realizar pesquisas para teses de mestrados e doutorados.

O que esperar como resultado desse evento?
Depois de 12 eventos como Jogos dos Povos Indígenas no Brasil, sempre tendo como parceiro o Ministério do Esporte, chegou a hora de lançarmos essa experiência para outros países indígenas da África, Ásia, Oceania e as Américas. Temos uma meta programática de atingir 24 países e 43 já demonstraram interesse, mas nosso compromisso tem como base a força do índio do Brasil. Cultura e esporte. força física e força espiritual. Por isso, no dia 20 de outubro, queremos convidar os povos de Palmas para um abraço de irmãos. Vamos colocar o nome de Palmas no cenário internacional, mas queremos mostrar a cara e a força dos povos que compõem essa sociedade. Durante mais de 500 anos fomos os grandes mudos da história, mas agora somos, com nossos corações, os protagonistas de um novo cenário em que terra é vida, ou seja, se não tivermos terra, não teremos esportes indígenas e deixaremos de existir. Vamos executar um trabalho de aproximação com as universidades indígenas dos Estados Unidos e de estreitamento de laços com o presidente Evo Morales, da Bolívia. Preci­sa­mos nos aproximar de Evo Morales para apresentar a grandiosidade do que será o Mundial Indígena, pois ele é o único presidente indígena no mundo, e também trocar experiências com instituições americanas indígenas de ensino superior para a formatação desse conhecimento em nosso país.

Qual a expectativa em termos de participação?
Para o mundial indígena são esperadas etnias de 30 países e a participação de cerca de dois mil atletas guerreiros. Entre as instalações a serem implantadas na aldeia do mundial indígena estão alojamento das etnias brasileiras, Oca Digital e dos Saberes, praça de alimentação com comidas típicas, refeitório, museu do índio e feira de artesanato. Instalações esportivas, como campo de beisebol, raia olímpica e arena.

Marcos Terena é índio do Pantanal do Mato Grosso do Sul, filho da tradição Xumono dos Terena. É piloto comercial de aviões, escritor indígena e membro do Comitê Intertribal, na condição de articulador Indígena Internacional.

Como estão os preparativos para os Jogos Indígenas a se realizarem em Palmas, no mês de outubro?
Depois que nós do Comitê Inter­tribal fizemos o lançamento dos JMPI na sede da ONU em Nova York, nossas demandas aumentaram em muito devido ao interesse institucional nacional e internacional, imprensa, etc. Com isso, as nossas tarefas como idealizadores do Evento ficaram mais evidentes. Pensamos em fazer dos JMPI um exemplo de evento desportivo capaz de mostrar a força holística, cultural, física e espiritual do Homem/Natureza. Nos próximos dias, com apoio do governo federal, vamos fazer o lançamento oficial em Brasília com a presença de várias autoridades, artistas e líderes indígenas do grande conselho dos JMPI, seguido de um Congresso Técnico Prepa­ratório, e tudo isso, apesar do entusiasmo, dá um trabalho danado.

As comunidades indígenas estão sendo ouvidas?
As comunidades da chamada Geografia Indígena do cenário nacional e internacional têm sido a base de todo esse entusiasmo. A reação positiva da grandiosidade desse trabalho fez com que vários Ministérios e Agên­cias da ONU passassem a observar que movimento é esse. Por exemplo, uma força-tarefa do governo federal tem atuado para construir um cenário, uma retaguarda muito eficiente num modelo moderno, tecnológico, ambi­ental e humano, mas tudo com base na presença da diversidade indígena e seus biomas. Não dá para contemplar a todos os 350 milhões de indígenas existentes no mundo, mas o cenário será feito com nossa força de refletir como o grande evento mundial antes das Olimpíadas de 2016.

A prefeitura de Palmas tem auxiliado na organização do evento?
A gente tem que reconhecer o papel de todos os setores auxiliares e institucionais para que o Evento tenha esse alcance. No início, tínhamos como referência na Prefeitura de Palmas, a Fundação de Esporte que fez todo o lobby para levar o evento para essa cidade, mas depois o prefeito Amastha criou uma Secretaria Especial e específica. Porém, os JMPI são um evento de domínio indígena internacional. Durante os JMPI teremos um Fórum Social Indígena quando serão abordados temas como a tecnologia da informação, mudan­ças climáticas, direitos da mulher, soberania alimentar e até o artesanato como fonte saudável de renda, mas tudo está sendo feito, debatido com lideranças indígenas envolvidas nesses temas e com apoio institucional do Ministério do Esporte, Ministério do Desen­volvimento Agrário, Ministério da Justiça, Ministério da Cultura, Igualdade Racial, Ministério das Relações Exteriores e até da Casa Civil, lembrando também que empresas como Sebrae, Correios, que criou um Selo Especial, e a Infraero vão estar no circuito dessa ação.

Quais os maiores problemas enfrentados hoje pelas comunidades indígenas, principalmente do Tocantins?
As questões indígenas se transformaram em problemas quando o primeiro homem branco apareceu nas nossas aldeias. Depois disso, principalmente pelas mentiras e falsas promessas, a vida do índio passou a ser um risco. Ninguém tinha consideração e respeito aos nossos valores, inclusive até hoje. No Tocantins, onde vamos realizar os JMPI existe um Conselho Indígena em formação, mas sabemos que para que sejam ouvidos e respeitados devem lutar não com agressão ou quebra-quebra, pois isso não é um modelo das tradições indígenas. O governador Marcelo Miranda, que foi eleito depois do lançamento dos JMPI, tem nos procurado para pedir orientação de como proceder para criar sua plataforma indígena, mas como não somos do Tocantins, sempre recomendamos que incorpore assessores indígenas nas várias pastas de seu governo, não apenas como política de boa vizinhança, mas com indígenas que tenham méritos para superar desde o preconceito até poder chegar às mesas de negociação dos avanços da modernidade sobre os territórios indígenas.

As comunidades indígenas não querem aproveitar os jogos para fazer algum manifesto, como mostrar a verdadeira realidade das tribos e aldeias do Brasil?
O governo federal tem feito várias consultas pelo Brasil afora para a construção de uma Conferência Nacional, que vai acontecer em novembro deste ano. Nós, por exemplo, nunca fomos convidados para assistir a alguma ou participar como interlocutores ou assessores, apesar de nossa experiência. Então, está em pauta uma mesa de negociação e debates: com o principal responsável pelas politicas sociais, ambientais e de desenvolvimento do governo federal de um lado; e de outro, com algumas organizações não governamentais e organizações indígenas, pois ao final dessa Conferência, certamente haverá alguma deliberação sobre a política indigenista oficial, como o tema dos índios isolados, os índios urbanos, a juventude, a mulher indígena e os avanços e desafios dos novos tempos. Nos JMPI temos uma pauta cheia e as sondagens que têm aparecido são somente de pesquisadores e jornalistas que querem assistir ao evento, promover notícias e realizar pesquisas para teses de mestrados e doutorados.

O que esperar como resultado desse evento?
Depois de 12 eventos como Jogos dos Povos Indígenas no Brasil, sempre tendo como parceiro o Ministério do Esporte, chegou a hora de lançarmos essa experiência para outros países indígenas da África, Ásia, Oceania e as Américas. Temos uma meta programática de atingir 24 países e 43 já demonstraram interesse, mas nosso compromisso tem como base a força do índio do Brasil. Cultura e esporte. força física e força espiritual. Por isso, no dia 20 de outubro, queremos convidar os povos de Palmas para um abraço de irmãos. Vamos colocar o nome de Palmas no cenário internacional, mas queremos mostrar a cara e a força dos povos que compõem essa sociedade. Durante mais de 500 anos fomos os grandes mudos da história, mas agora somos, com nossos corações, os protagonistas de um novo cenário em que terra é vida, ou seja, se não tivermos terra, não teremos esportes indígenas e deixaremos de existir. Vamos executar um trabalho de aproximação com as universidades indígenas dos Estados Unidos e de estreitamento de laços com o presidente Evo Morales, da Bolívia. Preci­sa­mos nos aproximar de Evo Morales para apresentar a grandiosidade do que será o Mundial Indígena, pois ele é o único presidente indígena no mundo, e também trocar experiências com instituições americanas indígenas de ensino superior para a formatação desse conhecimento em nosso país.

Qual a expectativa em termos de participação?
Para o mundial indígena são esperadas etnias de 30 países e a participação de cerca de dois mil atletas guerreiros. Entre as instalações a serem implantadas na aldeia do mundial indígena estão alojamento das etnias brasileiras, Oca Digital e dos Saberes, praça de alimentação com comidas típicas, refeitório, museu do índio e feira de artesanato. Instalações esportivas, como campo de beisebol, raia olímpica e arena.

Marcos Terena é índio do Pantanal do Mato Grosso do Sul, filho da tradição Xumono dos Terena. É piloto comercial de aviões, escritor indígena e membro do Comitê Intertribal, na condição de articulador Indígena Internacional.

Uma resposta para “Uma entrevista via WhatsApp: “Vamos nos aproximar das instituições indígenas do mundo””

  1. Avatar disse:

    Gilson, percebi o seu esforço para que Marcos Terena falasse explicitamente do que espera de infraestrutura oferecida pela Prefeitura de Palmas, mas pareceu-me que o líder não tem o dizer, pois não viu o que não está pronto. E tu? O que achas? O projeto que ganhou vai sair? Há tempo? Preciso publicar sobre isso, mas não quero fazer agenda negativa….

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