O calor intenso registrado em Goiânia na última semana não afeta apenas o conforto da população. As altas temperaturas, associadas à baixa umidade, também podem comprometer o funcionamento do sistema imunológico e aumentar a vulnerabilidade a doenças. Ao Jornal Opção, o professor e pesquisador da Universidade Federal de Goiás (UFG) Helioswilton Sales, conhecido como Ton Sales, explicou como o calor extremo pode afetar as defesas do organismo.

Segundo o pesquisador, os diferentes sistemas do corpo humano estão interligados. “Muito embora a gente fale de tudo separado, o nosso corpo não existe em caixinhas. Está tudo conversando simultaneamente”, afirmou.

Ele destacou que períodos de calor intenso e baixa umidade provocam uma série de alterações no organismo. “Dentro desse pacote, o sistema imune acaba sendo afetado também”, disse.

A hidratação insuficiente e a exposição ao sol sem proteção estão entre os fatores que podem provocar problemas como insolação e desencadear respostas do sistema imunológico. A baixa umidade também favorece o ressecamento das mucosas das vias aéreas superiores, reduzindo uma das barreiras naturais do organismo contra agentes infecciosos.

Professor e pesquisador da Universidade Federal de Goiás (UFG), Helioswilton Sales | Foto: Arquivo Pessoal

Sobre a desidratação, Ton Sales explicou que os efeitos vão além da perda de líquidos. “Ela leva a alterações importantes que podem impactar até mesmo a atividade de alguns hormônios. Nesse contexto, o sistema imune acaba sendo impactado também”, afirmou.

Diante da necessidade de preservar funções essenciais, o organismo passa a direcionar energia para sistemas considerados prioritários, o que pode reduzir a eficiência da resposta imunológica.

O sono é outro fator afetado pelas altas temperaturas. Noites muito quentes podem dificultar o descanso adequado e, consequentemente, interferir no funcionamento das defesas do organismo.

“Essa privação do sono leva a uma maior produção de cortisol, um hormônio associado ao estresse. Esse aumento tem atividade deletéria sobre as células do sistema imune, fazendo com que elas funcionem menos ou sejam menos eficientes”, explicou.

O estresse provocado pelo calor constante, somado a fatores cotidianos, como trânsito intenso e noites mal dormidas, também pode contribuir para uma resposta imunológica menos eficiente.

Alimentação e hidratação exigem atenção

Os hábitos alimentares também podem mudar durante períodos de temperaturas elevadas. Segundo Ton Sales, refeições pesadas e ricas em gordura tendem a provocar maior desconforto.

“É perceptível que alimentos muito pesados e gordurosos se tornem de digestão mais difícil. É fundamental que, durante esse período, as pessoas busquem se alimentar com alimentos mais leves, frutas, vegetais, legumes e carnes leves, além de reforçar a ingesta de líquidos, especialmente água e sucos naturais”, recomendou.

Crianças e idosos exigem atenção redobrada durante períodos de calor extremo. “São faixas etárias em que o sistema imune ainda não está completamente formado ou já não funciona tão bem. Isso por si só já gera um cuidado adicional”, afirmou.

Entre as medidas recomendadas estão reforçar a hidratação, priorizar alimentos leves, evitar a exposição ao sol sem proteção e realizar lavagem nasal com soro fisiológico para ajudar a preservar a umidade das vias aéreas superiores.

“É muito importante fazer isso para evitar que essa solução de continuidade, que gera proteção para a gente, seja rompida e essas pessoas fiquem mais expostas à ocorrência de doenças”, disse.

Suplementos não substituem cuidados básicos

Ton Sales também comentou sobre produtos que prometem aumentar a imunidade, como multivitamínicos e suplementos de vitamina C. Segundo ele, não há garantia de que o consumo desses produtos após o aparecimento de sintomas resulte em melhora mais rápida.

“É muito difícil dizer: vai funcionar ou não vai funcionar. Por muito tempo se acreditou que, quando você fica resfriado, se tomar vitamina C vai melhorar mais rápido. Isso não é bem uma verdade. O que se sabe é que, para ter uma proteção um pouco aumentada, esse consumo precisaria ser regular e prévio. Mas não é isso que acontece, as pessoas lembram de fazer isso somente na hora”, explicou.

O pesquisador ressaltou que a suplementação deve ocorrer com acompanhamento profissional, especialmente quando houver deficiência identificada por exames.

“Se não existe deficiência, não há necessidade de suplementar. Além disso, é muito importante que as pessoas sigam se vacinando, que é a forma mais segura de se protegerem, evitando principalmente que evoluam com gravidade e possam parar no hospital ou até mesmo evoluir para óbito”, destacou.

Cuidados durante o calor

O pesquisador também listou hábitos que podem ajudar a preservar a saúde durante períodos de temperaturas elevadas. Entre eles está evitar o consumo excessivo de bebidas alcoólicas.

“São hábitos que ajudam a nossa saúde de uma maneira geral. Manter bons hábitos, evitar o consumo excessivo de álcool, porque o álcool desidrata e, diante dessa exposição ao calor, pode piorar e não melhorar”, afirmou.

Além da hidratação, Ton Sales recomenda manter uma alimentação baseada em frutas, legumes e verduras, reduzir a exposição desnecessária ao sol e buscar alternativas para aumentar a umidade dos ambientes.

“Manter a ingesta de frutas, legumes, verduras, alimentação mais leve, evitar exposição desnecessária e desprotegida ao sol, redobrar os cuidados com relação à ingesta de água. Se tiver condições, utilizar um umidificador; se não tiver, deixar sempre um balde com água ou uma toalha molhada próxima à cama ou ao local de trabalho. Isso vai ajudar a amenizar todo esse cenário e permitir que a pessoa consiga ficar um pouco melhor diante desse calorão e da baixa umidade que temos enfrentado”, concluiu.

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