Dificuldade para cumprir prazos, esquecer compromissos, fazer compras por impulso e enfrentar conflitos nos relacionamentos podem estar entre os impactos do Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) na vida adulta. Os prejuízos podem aparecer em diferentes áreas da rotina e, quando se tornam recorrentes, merecem atenção.

Ao Jornal Opção, a psicóloga Caroline Dias, especialista em terapia cognitivo-comportamental e neuropsicologia, explicou, nesta segunda-feira, 24, como o transtorno pode afetar a vida profissional, financeira e pessoal.

Segundo a especialista, no ambiente profissional, alguns dos sinais podem aparecer na dificuldade de permanecer por longos períodos no mesmo emprego, cumprir prazos, lembrar compromissos e concluir projetos.

Psicóloga Caroline Dias, especialista em terapia cognitivo-comportamental e neuropsicologia | Foto: Acervo Pessoal

“É aquele cliente ou aquela pessoa que não consegue, muitas vezes, parar num emprego, porque está o tempo todo fazendo mudanças. Ela não consegue sustentar uma durabilidade ali de um serviço. Ou uma pessoa que está numa empresa e começa a atrasar as entregas, esquecer compromissos profissionais e ter dificuldade de terminar projetos”, afirmou.

Para Caroline, uma das explicações está na busca por recompensas mais imediatas, característica que pode tornar projetos de longo prazo mais difíceis de sustentar.

“Projetos longos acabam sendo mais difíceis”, apontou.

Dificuldade para administrar o tempo

A psicóloga destacou que problemas relacionados à administração do tempo estão entre as dificuldades que podem aparecer na rotina de adultos com TDAH.

“Quando a gente pensa no TDAH, temos um prejuízo importante das funções executivas. É justamente essa capacidade de gerenciar o tempo, organizar prioridades e sustentar desconfortos sem desistir dos projetos no meio do caminho”, explicou.

Essas dificuldades podem se refletir em diferentes situações cotidianas, como atrasos, esquecimento de compromissos, procrastinação e problemas para estabelecer prioridades.

Vida financeira também pode ser afetada

No campo financeiro, Caroline explicou que dificuldades de autorregulação e impulsividade podem contribuir para compras não planejadas, endividamento e decisões tomadas sem considerar adequadamente as consequências.

“A vida financeira normalmente começa a ficar comprometida porque, como há dificuldade de autorregulação, muitas vezes o adulto com TDAH acaba sendo irresponsável em algumas escolhas. Ele deseja algo e tem dificuldade de analisar as consequências, de postergar. Às vezes acaba fazendo compromissos financeiros que não consegue arcar ou compras excessivas sem necessidade prática”, disse.

Os impactos também podem chegar aos relacionamentos. Segundo a especialista, uma das principais fontes de conflito está na divisão das responsabilidades do cotidiano.

“Do ponto de vista de relacionamento, o que mais incomoda para as pessoas próximas são os compartilhamentos de obrigação. O TDAH tem dificuldade de planejar o tempo, perde compromissos importantes, se atrasa e muitas vezes não realiza atividades domésticas que são compartilhadas. Essa é uma queixa muito frequente”, relatou.

Atrasos no pagamento de contas e a procrastinação de tarefas domésticas estão entre os exemplos citados pela psicóloga.

Sintomas podem ser confundidos com preguiça

Caroline também chamou atenção para a interpretação equivocada das dificuldades enfrentadas por pessoas com TDAH, que podem ser vistas como preguiçosas ou irresponsáveis.

“Muitas vezes a pessoa não tem conhecimento. O TDAH é um transtorno do neurodesenvolvimento, já presente na infância. Quando não há diagnóstico, a criança cresce ouvindo que não dá conta, que é preguiçosa ou fracassada. Isso consolida crenças negativas que chegam à vida adulta”, explicou.

A psicóloga citou como exemplo uma comparação frequentemente feita quando uma criança apresenta dificuldade para estudar, mas consegue permanecer concentrada por horas em jogos ou outras atividades de interesse.

“É preguiça, porque para estudar meia hora não consegue, mas para jogar fica até quatro horas prestando atenção”, exemplificou.

Segundo ela, essa interpretação desconsidera as diferenças entre atividades que oferecem uma recompensa mais imediata e aquelas que exigem a manutenção do foco por períodos prolongados.

Diagnóstico exige avaliação

A especialista ressaltou que dificuldades de atenção, organização ou impulsividade, isoladamente, não significam que uma pessoa tenha TDAH. Outras condições podem provocar manifestações semelhantes, o que torna necessária uma avaliação profissional.

“A avaliação do TDAH é clínica e longitudinal. É uma condição que começou na infância. Quando você faz algumas investigações, percebe que era uma criança que já demonstrava problemas de regulação emocional, de lidar com frustração, de postergar recompensa”, apontou.

Segundo Caroline, também é necessário observar se os sintomas aparecem em diferentes contextos e se provocam prejuízos significativos na rotina.

“São sintomas em mais de uma área da vida, não apenas isolados. Pelo menos cinco sintomas da classe de desatenção ou cinco da classe de impulsividade e hiperatividade, mais prejuízo funcional em duas ou mais áreas da vida”, explicou.

Tratamento pode envolver terapia e medicamentos

Entre as possibilidades de tratamento, Caroline destacou a terapia cognitivo-comportamental, que pode auxiliar na criação de estratégias para organização da rotina, administração do tempo e estabelecimento de prioridades.

“São muitas as estratégias. Entramos com autorregulação, organização do tempo, organização de agenda, planejamento de prioridades. Além disso, trabalhamos padrões emocionais e crenças como ‘eu sou incapaz’ ou ‘não dou conta’”, disse.

“Passando por essa reconstrução cognitiva e com técnicas práticas, conseguimos bons resultados. Em alguns casos, dependendo da gravidade, é necessário encaminhar para a psiquiatria, porque a pessoa pode precisar de acompanhamento medicamentoso”, acrescentou.

Para a psicóloga, o momento de procurar ajuda profissional é quando essas dificuldades deixam de ser episódios ocasionais e passam a provocar prejuízos recorrentes em diferentes áreas da vida.

“A partir do momento que percebe disfuncionalidades na vida. Seja na área profissional, financeira ou pessoal. Quando isso não é ocasional, mas um padrão que sustenta a vida. Se a pessoa toma consciência, tenta modificar e não consegue, esse é o momento de buscar ajuda. Não é preguiça, é um padrão que traz prejuízo funcional. A ajuda será fundamental na vida dessa pessoa”, concluiu.

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