Em entrevista ao Jornal Opção, Jessica Amorim, presidente do Conselho Regional de Psicologia de Goiás (CRP-09), comentou, nesta segunda-feira, 20, sobre o Parecer nº 6/2026 do Conselho Federal de Enfermagem (Cofen), que reconhece a legitimidade do uso da terapia cognitivo-comportamental (TCC) por enfermeiros. Segundo ela, a medida gera insegurança jurídica e invade atribuições que deveriam ser privativas da psicologia. 

“Hoje é uma briga, já tem algum tempo, da psicologia de que a psicoterapia seja uma prática restrita da psicologia, e também, da medicina, o que hoje não é. O parecer avança os limites da profissão e acaba trazendo, inclusive, uma insegurança jurídica também para dentro dos limites da própria psicologia, de quem tem que exercer ou quem é que pode exercer cada função”, contou. 

A presidente do CRP-09 destacou a diferença de formação entre psicólogos e enfermeiros. “Eu sou psicóloga, sou formada há 10 anos, fiz 5 anos de graduação e fiz mestrado, fiz especialização, inclusive em terapia cognitivo-comportamental [TCC]. Mas eu posso, imagino que facilmente, abrir o meu computador aqui, procurar um curso de curativos, por exemplo, e faço aí um curso de 2 horas, às vezes nem presencial, e a partir disso começar a falar que não, eu sou psicóloga, mas se você precisar eu também trabalho com curativo. Então, esse é o entendimento”, explicou. 

Ela reforçou que a psicologia exige uma formação aprofundada para lidar com adoecimento mental e psicopatologia. “Nós temos um estudo muito mais aprofundado, um estudo que nos permite ter uma visão de homem, uma visão do adoecimento, uma visão da psicopatologia e, por consequência, a visão do tratamento de uma maneira muito mais profunda, muito mais integrada e não só com uma mera aplicação de técnicas”, disse. 

Jéssica também comentou sobre o movimento da Cofen em avançar em áreas que não seriam específicas da enfermagem. “Eu vejo isso como extremamente perigoso, porque não existe uma formação adequada de base para que esses profissionais tenham a possibilidade de exercer essas outras atividades profissionais que não são da enfermagem e são de outras profissões”, afirmou. 

Segundo ela, esse avanço do Cofen gera dúvidas sobre os interesses envolvidos. “Eu até fico me perguntando se de fato é uma vontade da categoria ou se o Conselho Federal de Enfermagem age a partir de interesses próprios. Alguns enfermeiros dizem que não existe muito interesse da própria categoria para exercer essas funções, até porque é um acúmulo de funções e para o profissional é muita coisa”, disse. 

A presidente do CRP-09 ressaltou que outros conselhos regionais de psicologia também estão se movimentando contra o parecer, mas criticou a ausência de posicionamento do Conselho Federal de Psicologia (CFP).  

“Dentro do movimento do sistema conselhos, hoje, o CFP ainda não se pronunciou em relação a isso. O CRP-09 tem aí o protagonismo em fazer essa ação e notificar o Cofen. Existem outros conselhos que também estão se movimentando frente a isso, mas são conselhos regionais. O nosso federal ainda não se pronunciou”, pontuou. 

“Não é uma área que eles têm formação adequada para poder exercer”, resumiu a questão. 

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