Taxa de desemprego alcançará pico no segundo semestre deste ano. Entenda o porquê

Desocupação profissional do brasileiro pode chegar a 10% em novembro e Goiás deverá ser bastante atingido, uma vez que é o Estado que tem apresentado maior queda de consumo

A alta procura por empregos no Brasil, aliada à pouca oferta, tem aumentado as taxas de desemprego

A alta procura por empregos no Brasil, aliada à pouca oferta, tem aumentado as taxas de desemprego

Marcos Nunes Carreiro

“Nos últimos 12 meses minha empresa precisou dispensar cerca de 500 dos mil funcionários que tinha, isto é, 50%. Isso é sinal de alerta”. A fala de Ilézio Inácio Ferreira, da Consciente Construtora, em matéria publicada pelo Jornal Opção na edição 2073 (29 de março a 3 de abril de 2015) foi acertada: o sinal era e continua sendo de alerta.

Uma parte disso diz respeito à inflação. De acordo com o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo-15 (IPCA-15) – uma prévia do IPCA –, a inflação acelerou entre maio e junho, indo de 0,60% para 0,99%. Esse aumento se deve, em grande parte, ao preço dos alimentos.

Essa taxa não alcançava este índice nesse período do ano desde 1996, quando foi registrada uma alta de 1,11%. Isso não apenas mantém a inflação acumulada acima do teto da meta de 6,5%, como impacta diretamente o mercado no que concerne aos empregos.

O início desta reportagem pode parecer um tanto catastrófica, mas a intenção não é pregar o caos; ao contrário, é apontar algo que deverá acontecer neste ano, mas do qual pouco tem se falado: o desemprego. Afinal, é discutindo uma questão que se pode entendê-la; e é entendendo-a que se pode modificá-la.

Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), divulgados pelo IBGE em maio deste ano, mostram que a taxa média de desemprego medida nos 26 Estados e no Distrito Federal ficou em 7,9%. Essa taxa diz respeito ao primeiro trimestre de 2015 e é a maior desde março de 2013, quando o percentual de desemprego chegou a 8%.

Esse número, embora não fique muito abaixo de 7% já há algum tempo, subiu em relação ao primeiro trimestre do ano passado, quando a taxa era de 7,2%, e também em relação ao último (6,5%). Em números mais objetivos, isso quer dizer que a população desempregada no Brasil era de 6,4 milhões no fim de 2014 e de 7,9 milhões no fechar dos três primeiros meses de 2015. O índice é superior ao previsto pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) em janeiro e deve aumentar ainda mais, de acordo com os economistas e pesquisadores.

No País, a região com o maior contingente de desemprego é a Nordeste: 9,6%. O Estado com maior quota no período é o Rio Grande do Norte (11,5%), seguido por Bahia (11,3%) e Alagoas (11,1%). Do outro lado da moeda está a região Sul, cuja taxa de desocupação ficou em apenas 5,1%. Mulheres e jovens são os mais afetados pelo desemprego.

Economista Jeferson de Castro: “O desemprego provoca a retração da economia, no geral”

Economista Jeferson de Castro: “O desemprego provoca a retração da economia, no geral”

Todos esses números são para apontar algo que parece óbvio – em um primeiro momento: a razão desse aumento em relação ao fim do ano passado é, em grande parte, devido à menor oferta de empregos pelo mercado de trabalho, que tem gerado menos postos. Isso, aliado a uma maior procura por trabalho, gera o crescimento dos números apontados pelo IBGE.

Contudo, essa não é razão para o alerta gerado pela fala de Ilézio no começo da reportagem, nem para o título da matéria, pois o temor que atinge o mercado agora não são as não contratações, mas as demissões. A previsão, de acordo com economistas e empresários, é que o segundo semestre deste ano deverá ser marcado por uma “onda” de demissões, sobretudo no comércio e no setor de serviços.

Isso se dá, em um primeiro momento, devido à adequação de mercado, quando o preço dos produtos e a forma de os empresários fazerem negócios começam a se adaptar à nova realidade. No Brasil, o novo cenário financeiro-econômico é de reajuste, palavra que tem assombrado muita gente. O que pode explicar a antecipação da fala de Ilézio é o fato de a construção civil, setor que mais cresceu no Brasil recentemente, ter sido o primeiro a receber o impacto da crise brasileira – o que pode explicar também, de alguma forma, os números deste início de ano, visto que a construção civil foi uma das áreas da economia que mais contratou.

A crise demorou um pouco, mas também chegou aos demais setores da economia.

As razões

O ex-ministro da Fazenda e economista Delfim Netto disse recentemente que o aumento do desemprego será muito maior do que todos estão imaginando, e apontou que sua rapidez deverá surpreender. Mas quais as razões para isso?

Em uma primeira análise, a questão remete ao seguinte quadro: mesmo que o setor agropecuário ainda esteja dando alguma sustentação à economia – visto que é responsável por grande parte da exportação brasileira –, há uma clara desaceleração no comércio, no setor de serviços e na indústria. Isso resulta na queda do Produto Interno Bruto (PIB), o que torna difícil segurar os empregos, que representavam, até o momento, o único dado positivo da economia brasileira.

Por isso, o economista Jeferson de Castro Vieira aponta: “Se hoje o IBGE mostra que a taxa de desemprego está em quase 8%, acredito que ela deve fechar o ano em 9% ou 9,5%. Talvez chegue a 10% em novembro”. Pesquisadores goianos chegam a apontar que, na região metropolitana de Goiânia, essa taxa pode chegar a 11% já no primeiro semestre.

Um número alto, portanto, e que deverá agravar ainda mais a situação econômica do País, uma vez que corrobora o seu desaquecimento. Segundo ele, uma explicação para esse possível aumento do desemprego está no modelo econômico adotado pelo Brasil desde o primeiro governo Lula, que era baseado no consumo das famílias. Isso porque:

1) “Esse modelo econômico movimentou a economia, mas deixou para trás algo importante: os investimentos”;
2) “O consumo das famílias no primeiro trimestre deste ano caiu, assim como as taxas de investimento em máquinas e equipamentos, o que acaba repercutindo na questão do emprego”;
3) “A revisão de questões como o seguro desemprego, que garantiam, de alguma maneira, a continuidade desse consumo, sobretudo pela nova classe C, derrubam os mecanismo do próprio consumo”;
4) “O grau de endividamento aumento da população, que era de aproximadamente 25% no governo Fernando Henrique Cardoso, agora está em uma faixa de 54%”. Isso foi bom enquanto as pessoas tinham dinheiro para pagar as contas. Agora, além do aumento da taxa de endividamento, cresceu também a de inadimplência;
5) “A intenção do governo agora é justamente diminuir o consumo, pois tem aumentado as taxas de juros e desaquecido a economia. Então, essa lógica do consumo se esgota em 2015. Por isso, a tendência é que o desemprego aumente”.

Contudo, segundo o economista, o quadro deve mudar em 2016, sobretudo a partir do segundo trimestre. “Vai depender dos ajustes que estão sendo feitos. Acredito que a pior fase deve ser sofrida neste ano e a tendência para o ano que vem é que a economia volte a crescer um pouco, o que deverá reascender a taxa de emprego”, afirma.

Goiás é o Estado com maior retração de vendas e comércio já não consegue segurar funcionários 
Empresária e presidente da Acieg, Helenir Queiroz: “O ajuste fiscal não está controlando a inflação, o que provoca recessão”

Empresária e presidente da Acieg, Helenir Queiroz: “O ajuste fiscal não está controlando a inflação, o que provoca recessão”

“Os setores de comércio e serviço são a ponta da economia. Eles puxam a indústria. Então, quando se tem queda de vendas no varejo, isso gera um efeito dominó sobre a distribuição, logística e, consequentemente, sobre a indústria. Quando as empresas têm uma venda abaixo do que elas conseguem suportar, é preciso enxugar custos. O instinto do empreendedor é para crescer e ampliar seus negócios. A última coisa que ele faz é demitir”.

A fala é de Helenir Queiroz, presidente da Associação Comercial, Industrial e de Serviços do Estado de Goiás (Acieg). A justificativa para a preferência por não demitir é simples: a demissão de funcionários de salário mais baixos não afeta muito as contas da empresa. Porém, quando o empresário demite os de salários mais altos, há a desestruturação da empresa.

Ou seja, “é uma decisão difícil de tomar e é a última que o empresário toma. Primeiro, ele corta outras coisas, repensa o marketing, assim como seu mix de produtos. Apenas quando não tem mais jeito é que o empresário, por uma escolha de sobrevivência, tende a demitir”, analisa Helenir. A questão é: “Como estamos vendo agora os indicadores de venda caindo, é possível prever que as empresas terão que se adequar e, provavelmente, demitir”.

Os indicadores citados pela empresária são os divulgados pela Pesquisa Mensal do Comércio, feita pelo IBGE, na semana passada e que dizem respeito ao mês de abril. De acordo com a pesquisa, as vendas no varejo sofreram variação média de -0,4% em abril, com queda de sete das dez atividades pesquisadas, a saber: combustíveis e lubrificantes; supermercados; vestuário e calçados; móveis e eletrodomésticos; artigos farmacêuticos, médicos, de perfumaria e cosméticos; materiais para escritório, informática e comunicação; livros, jornais e revistas; artigos de uso pessoal e doméstico; veículos; e materiais para construção.

Apenas “veículos”, “supermercados” e “artigos farmacêuticos, médicos, de perfumaria e cosméticos” não terminaram o mês no negativo. E esse volume negativo de vendas foi visto pelo terceiro mês consecutivo. Nesse quadro, Goiás foi o Estado que apresentou a maior queda de vendas no varejo: -11,2%, muito distante da média nacional que foi de -3,5%. Em contrapartida, apenas cinco Estado ficaram com percentuais positivos: Acre (15,2%), Roraima (4,6%), Sergipe (4,3%), Santa Catarina (1,4%) e Mato Grosso do Sul (0,5%).

Todos esses números são para mostrar que as pessoas não estão mais comprando, principalmente em Goiás. E, quando compram, não o fazem mais a crédito. Isso se deve, segundo pesquisadores ouvidos pela reportagem, ao fato de que praticamente todas as famílias de Goiás já têm alguém desempregado e, por isso, têm diminuído suas despesas, o que afeta diretamente o comércio e, por consequência, o índice de desemprego. “É um ciclo”, diz um pesquisador.

Inadimplência

Porém, há outro fator que tem impactado diretamente na queda do setor comercial e de serviços: a inadimplência. Se o leitor sobreviveu à leitura desta reportagem até este ponto, há de se lembrar da fala do economista Jeferson Vieira a respeito do aumento da taxa de endividamento do brasileiro, que, embora tenha um lado positivo, abre caminho à inadimplência, o bicho-papão dos empresários. Bem, veja a afirmação de Helenir Queiroz: “Vivemos agora algo que há muito tempo não víamos: a inadimplência na pessoa jurídica. Antes, essa inadimplência estava muito concentrada na pessoa física”.

A questão é deveras simplificada: a inadimplência da pessoa física gera a da pessoa jurídica e isso tem causado problemas, pois tem como resultado o fato de algumas empresas precisarem entrar com processo de recuperação judicial. “O próprio setor público tem ficado inadimplente”, diz. Dados da agência Serasa Experian dão conta de que 55,6 milhões de brasileiros estão inadimplentes atualmente, o que representa 36% da população. Porém, esse número tem aumentado.

A Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e o Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) informam que o número de consumidores inadimplentes aumentou 4,79% em maio deste ano, em comparação com o mesmo período de 2014. Dessa forma, a taxa de atraso nas contas, acumulada nos primeiros cinco meses de 2015, ficou em 4,63%, em grande parte porque o percentual de maio foi o maior do ano: 4,8%.

Por inadimplência, considera-se o atraso nas contas por mais de 90 dias. E isso, segundo analisam os economistas, é consequência direta do aumento do desemprego, sendo também parte de sua consequência, como mostrado até aqui. Logo, a previsão para que haja um contínuo aumento do desemprego até que ele alcance seu age no segundo semestre é justamente devido ao fato de que o brasileiro não está consumindo e quem está não tem condições de pagar por falta de renda. Isso prejudica o comércio, que, por sua vez, afeta a indústria e tudo isso resulta em desemprego.

Uma resposta para “Taxa de desemprego alcançará pico no segundo semestre deste ano. Entenda o porquê”

  1. Avatar Carlos Spindula disse:

    Tempos sombrios, de colher o que foi plantado anteriormente. Tempos de mudanças de lado do dinheiro, mudança de mãos.

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