Sem Lula, Ciro Gomes tende a crescer

Pré-candidato do PDT é tido como um dos mais preparados para exercer o cargo de presidente

Em um cenário sem o ex-presidente petista, Ciro Gomes aparece em segundo lugar nas pesquisas de intenção de voto | Foto: Roosewelt Pinheiro/Agência Brasil

A condenação em segunda instância de Lula da Silva (PT) pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região em razão dos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro referente ao caso do tríplex do Guarujá, em São Paulo, ainda não é suficiente para cravar que o petista não será candidato ao Planalto em 2018.

Em tese, a Lei Ficha Limpa impediria a candidatura do ex-presidente. Entretanto, existe uma brecha que dá o direito à defesa de Lula da Silva de requerer uma liminar no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o que permitiria que a campanha ocorresse enquanto o processo não for analisado pelo Supremo Tribunal Federal (STF), última instância em que o petista pode recorrer — por meio de embargos de declaração, mecanismo utilizado para questionar algum trecho da decisão.

Tabuleiro

Um dia após o julgamento no TRF4, o PT lançou Lula da Silva como pré-candidato do partido às eleições. Apesar disso, há um consenso entre especialistas de que a candidatura está mais longe do que nunca — note-se que não há, aqui, nenhuma afirmação de que ele será ou não candidato, e sim uma constatação de que a situação está mais difícil. Neste sentido, vale questionar quem tende a herdar os votos do ex-presidente, que é líder das pesquisas. Por isso, ausência do petista no pleito altera, e muito, o tabuleiro político.

A presidente nacional do PT, senadora Gleisi Hof­fmann, diz não haver plano B. Mas, com Lula da Silva inelegível, será que o partido não lançaria outro nome à Pre­sidência? A lógica sugere que sim, pois o PT não parece disposto a se “diminuir” a ponto de não ter candidato próprio.

O ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad surge como um dos favoritos. Ele certamente herdaria boa parte dos votos de seu correligionário. Mas não todos. Há quem vote em Lula da Silva por pura ideologia — e esses migrariam para quem o ex-presidente resolvesse subir no palanque — e há quem vote por ter boas lembranças de seus governos, principalmente os que foram beneficiados por programas sociais e que não ligam para ideologia. Nesta situação, o jogo está aberto para qualquer um dos pré-candidatos, ou seja, leva quem tiver o discurso e as propostas que mais agradam tal parcela dos eleitores.

Há ainda aqueles que estão em busca de um Messias, ávidos por uma eventual resolução imediata dos problemas, e que tampouco se importam com direita e esquerda. São os que, em um cenário sem Lula da Silva, votariam em Jair Bolsonaro (ainda filiado ao PSC). O oposto também existe, isto é, quem vota no deputado federal e tem o petista como alternativa — 6% dos eleitores no primeiro caso e 13% no segundo, de acordo com pesquisa do instituto Datafolha divulgada no início de outubro do ano passado. Por outro lado, pode ser que o parlamentar fluminense perca fôlego, haja vista que, sem o ex-presidente, não teria a polarização, que lhe dá força.

Abrindo um rá­pido parêntese, ca­be lembrar que Jair Bolsonaro já protagonizou ou­tra situação capaz de “quebrar a ca­be­ça” de cientistas políticos, quando, em 2014, foi cam­peão de vo­tos para deputado fe­deral no Rio de Janeiro, en­quanto Marcelo Freixo (Psol) foi quem mais obteve sucesso para deputado estadual e houve quem declarou ter votado em ambos.

Ciro Gomes

Voltando à “herança” de Lula da Silva, é impossível não lembrar de Ciro Gomes (PDT), ex-deputado estadual, ex-deputado federal, ex-prefeito de Fortaleza, ex-governador do Ceará, ex-ministro da Fazenda no final do governo Itamar Franco (PMDB, que, à época, tinha o “P”) e ex-ministro da Integração Nacional no primeiro mandato de Lula da Silva.

Ciro Gomes já declarou que retiraria seu nome da disputa se o ex-presidente for candidato, o que, para ele, seria um “desserviço” ao Brasil.

O currículo do pedetista não gera dúvidas em relação ao seu preparo para governar o País. Afinal, foi chefe executivo muito bem avaliado e já exerceu cargos legislativos. Em outras palavras, sabe como funciona o Congresso e é capaz de obter a governabilidade. Além disso, possui uma excelente leitura do cenário político — previu, logo após a reeleição de Dilma Rousseff (PT), em 2014, que ela não terminaria o mandato e chamou o ex-presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha (MDB) de “picareta-mor” antes mesmo do emedebista se tornar infame.

Do ponto de vista econômico, os liberais quase sempre irão discordar do pré-candidato do PDT, que é keynesiano assumido. Contudo, não há como negar que, mesmo por pouco tempo, Ciro Gomes fez um ótimo trabalho frente ao Ministério da Fazenda durante a implementação do Plano Real.

Soma-se a isso o fato de que, entre as 100 melhores escolas públicas do Brasil, segundo o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), 77 estão no Ceará. E Ciro Gomes pretende “exportar” o modelo educacional de seu Estado para o restante do País.

Ademais, destaca-se que o presidenciável, em 36 anos de vida pública, nunca respondeu a um inquérito por corrupção e recusou receber três aposentadorias vitalícias. “Ah, mas ele é desequilibrado.” Bom, é preferível um “desequilibrado”, mas preparado, como Ciro Gomes, a um frio, e corrupto, como Eduardo Cunha ou a outro desequilibrado, e inexperiente, como Jair Bolsonaro, que, para se gabaritar à Presidência, poderia tentar resolver a crise do Rio de Janeiro elegendo-se governador.

O cearense de criação — nasceu em Pindamonhangaba, no interior de São Paulo, mas mudou-se para Sobral, no Ceará, aos 4 anos de idade — esteve em Goiânia em julho de 2017 para uma palestra na Universidade Federal de Goiás (UFG), que sediou o Encontro Nacional dos Estudantes de Economia (Eneco).

Na oportunidade, perguntei a ele o que pensava de seu baixo desempenho nas pesquisas de intenção de voto. A resposta foi simples: “Tem que melhorar, mas pesquisa reflete o momento e, agora, esse desempenho é normal” — dando a entender que confia em uma conjuntura melhor no futuro.

Em outra pesquisa do Da­ta­folha, de 2 de dezembro, Ciro Gomes aparece em segundo lu­gar, atrás somente de Jair Bol­sonaro, em um cenário sem Lula da Silva. A tendência é clara: caso o PT não lance candidato, é ele quem mais deve crescer.

No tocante à vice, Ciro Gomes já expressou o desejo de compor chapa com Fernando Haddad. Para o pedetista, seria o “dream team”. Contudo, tem dito que não quer nem espera apoio do PT em virtude de ter sido traído por Lula da Silva, segundo ele, em pleitos passados. Mais recentemente, passou-se a notar fortes sinais de aproximação do PDT com o PSB, especialmente a ala pernambucana.

Em suma, Ciro Gomes é um candidato para ficar de olho. A sua candidatura é, sim, viável.

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Frank Santos

Ciro Gomes é o candidato mais preparado e até agora tem meu voto para presidente do Brasil.