Qual será a reação do eleitor?

A divulgação das delações dos dirigentes da Odebrecht levantou a maior poeira da história do Brasil. Mas, e depois que tudo se acalmar?

Na Itália, a indignação do eleitor com a sujeira descoberta pela operação Mãos Limpas gerou Silvio Berlusconi | Foto: Reprodução

Afonso Lopes

No mundo dos militantes e simpatizantes, as delações dos executivos e ex-executivos da maior empreiteira do Brasil, a Odebrecht, dentro de acordo na operação Lava Jato, serve para liquidar com pré-candidaturas desde já colocadas para 2018, desacatar quem foi favorável ao impeachment da então presidente Dilma Roussef (PT), eleger previamente quem aparentemente escapou — ou pelo menos não apareceu diretamente na tal lista de Janot/Fachin, mas também gastou dinheiro doado pelo grupo Odebrecht — e mais uma porção de previsões muitas das vezes antagônicas, dependendo do lado que se está. Que os estragos foram imensos não há como duvidar, mas será necessário esperar todo o poeirão baixar para enxergar o que vai sobrar disso tudo e, principalmente, como o eleitor vai reagir, já no ano que vem, quando for convocado para votar.

O pior de tudo é que não existe registro de situação assemelhada como essa que o país vive para traçar um paralelo que projete ao menos uma tendência dessa reação que o eleitorado adotará. No máximo que se pode avançar é estudar como os italianos — que também são latinos — reagiram no pós-operação Mãos Limpas, a Lava Jato de lá. Existem valores culturais imensamente diferentes entre os italianos e os brasileiros. A operação na Itália simplesmente significou o fim de toda a linhagem política do pós-Segunda Guerra. Dificilmente, pelo menos não é uma tendência neste momento, acreditar que algo parecido possa ocorrer por aqui. Os dois maiores partidos italianos, o Socialista e a Democracia Cristã, que se revezavam no poder, viraram pó. Obedecidas as proporções, seria como liquidar com PT, PSDB, PMDB, PP, DEM e mais uma porção de partidos e criar outros, com caras e nomes novos.

Salvador da pátria

Em relação aos políticos, quase todos eles envolvidos com corrupção, não sobrou muita coisa na Itália da década de 1990. Será essa a reação também do eleitor brasileiro? Pode ser que sim. O problema foram os efeitos colaterais que os italianos enfrentaram com a mudança radical e instantânea dos políticos. Foi exatamente aí que surgiu Silvio Berlusconi, um empresário ambicioso que se apresentou aos olhos do eleitor italiano como o salvador da pátria enxovalhada. Ficou 20 anos no comando da Itália até cair processado em 2013 pelos mesmos motivos que derrubaram os anteriores que ele substituiu.

Essa poderá ser uma tendência do eleitorado de uma forma geral: acreditar em algum político novo, que surja e se consolide como o sujeito que irá comandar uma grande mudança para levar o Brasil para um novo e justo patamar. O brasileiro sempre teve um certo viés de adoração em relação aos salvadores da pátria. E o duro é saber que, invariavelmente, políticos assim, embora vendam uma imagem democrática, são quase sempre duros o suficiente para governar democraticamente. Eles próprios se imaginam perfeitos e infalíveis, e se for necessário impõe sua maneira de pensar ditatorialmente.

Dentro da imprevisibilidade total de como o eleitor irá reagir no ano que vem, talvez essa tendência rumo ao candidato “Sassá Mutema, o salvador da pátria” seja a mais forte dentre todas possíveis. Outro aspecto que poderá marcar também é a desilusão total com a solução dos problemas via eleição. Nas últimas vezes em que foram convocados, cada vez menos brasileiros atenderam ao chamado. A Lava Jato poderá provocar um aumento ainda mais rápido na tendência à abstenção ou ainda o voto branco ou nulo – conjunto que se convencionou chamar de alienação eleitoral.

Quem vai parar em pé?

A pergunta foi feita pelo jornalista Roberto D’Ávila, no seu programa semanal na Globo News, canal 100% dedicado ao jornalismo com a maior audiência do país, ao se referir à continuidade da operação Lava Jato. A resposta a essa dúvida poderá indicar que, sim, haverá vida política após o caos devastador provocado pela confissão de décadas de relações promíscuas entre empreiteiros — principalmente, mas não apenas — e o poder político.

Em seu depoimento à Justiça, Emílio Odebrecht, filho do fundador da empreiteira, Norberto, e pai de Marcelo, que permanece preso em Curitiba, disse que a prática existe há mais de 40 anos. Disse mais: que todo mundo sabia que era assim que as coisas funcionavam no andar superior, e terminou elogiando o trabalho desses “jovens procuradores”, que oferecem uma oportunidade para o Brasil mudar.

Voltando à pergunta de Roberto D’Ávila sobre quem vai parar em pé, é difícil saber, mas se o brasileiro ficar em pé, então a mudança que está sendo oportunizada ao país será boa, como jamais poderia ser se fosse de outra forma.

Quem ganhou e quem perdeu eleitoralmente com a divulgação das delações da Odebrecht fica para de­pois que a poeira baixar. Aí, sim, poderá haver alguma brecha que permita uma análise sem devaneios provocados pela emoção da torcida.

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