PMDB: o pior aliado político

No momento em que Paulo Garcia governa com mais autonomia e sem amarras, o principal aliado do PT, de olho em 2016, tenta fragilizar o prefeito. Apesar das críticas à gestão petista, cargos chaves da administração municipal são ocupados por peemedebistas

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Frederico Vitor

Na política, o senso co­mum diz que dois aliados devem caminhar juntos para usufruir os benefícios, mas também para compartilhar os ônus. Em Goiânia, onde a coalizão PT e PMDB ganhou a prefeitura nas eleições de 2008 e de 2012, não é o que está acontecendo. A aliança está abalada e há indicativos de que ela não po­derá se repetir em 2016. Termi­na­do o pleito do ano passado, o prefeito Paulo Garcia (PT) tem imprimido seu estilo de administrar, ou seja, está livre das amarras e dos compromissos que o impediam de fazer deslanchar sua gestão à frente da capital.

Nesta nova fase, Paulo Garcia tem desagradado ao PMDB, que, ultimamente, aumentou o tom das críticas ao petista. Apesar disso, cargos chaves da gestão municipal, contraditoriamente, estão nas mãos de peemedebistas. Ou seja, o prefeito tem um aliado do qual não se sabe se está em posição de parceria ou de oposição. Na realidade, o partido tem um histórico corrosivo para quem o tem como aliado de primeira hora. A legenda sempre se utilizou de uma tática que remete na máxima de “se o aliado está bem, critique; se estiver ruim, tripudie”.

Para entender melhor a relação dúbia que o PMDB mantém com o PT à frente da prefeitura de Goiânia, é preciso voltar atrás, ainda nas administrações de Iris Rezende. O líder peemedebista assumiu o Executivo municipal após vencer as eleições de 2004, ao derrotar o ex-prefeito Pedro Wilson (PT). Em sua reeleição, em 2008, Iris Rezende venceu novo pleito, já tendo como seu vice Paulo Garcia, selando assim uma aliança a nível municipal orientada pelo que ocorria em esfera federal.

Prestigiado e concentrando altos níveis de popularidade, em razão de sua gestão muito bem avaliada a frente do Paço Municipal, Iris Rezende passou o comando da prefeitura para Paulo Garcia, para se candidatar ao governo nas eleições de 2010. Naquele pleito, o decano peemedebista acabou derrotado pelo governador Marconi Perillo (PSDB), mas PT e PMDB permaneceram como gêmeos siameses e caminharam juntos na reeleição do petista na corrida eleitoral municipal dois anos depois. E é inegável que o apoio total de Iris ajudou Paulo a ser eleito ainda em primeiro turno.

De 2012 a 2014, o prefeito petista teve de contemplar e responder ao PMDB irista. Era evidente que Iris tinha poder de influência nas principais deliberações da Prefeitura. Os primeiros desgastes que Paulo teve de contornar tinham raiz nas administrações passadas, quando o líder peemedebista detinha o poder. Mas o petista teve de assumir o ônus para não comprometer o padrinho político, can­di­dato (novamente der­rotado) ao go­verno nas elei­ções do ano passado.

Crises na gestão de Paulo tiveram raízes na administração de Iris

Um exemplo de sério desgaste de Paulo Garcia foi a crise do lixo no início de 2014. Em 2005, quando Iris Rezende substituiu Pedro Wilson no Paço, ao tomar posse, adotou o discurso de retomada da limpeza urbana da cidade por ação direta do setor público. Para complementar os quadros de servidores, foi realizado concurso público para efetivação de mais de mil garis, pois passava a ser responsabilidade da Comurg 100% da varrição de ruas e avenidas.

Seguindo a política de municipalização, foi lançada em 2005 uma licitação com o objetivo de adquirir 56 novos caminhões equipados com coletores compactadores de lixo, que substituiriam a frota terceirizada a serviço de Goiânia desde as administrações de Darci Accorsi (PT), Nion Albernaz (PSDB) e Pedro Wilson. Mas, no decorrer das administrações de Iris Rezende (2005/2009 e 2009/2010), não houve planejamento prévio para substituição dos caminhões adquiridos em 2006. Resultado: a frota se deteriorou, não conseguiam mais sair das garagens e, sem operar, o lixo se acumulou nas ruas provocando uma crise sem precedentes.

A relação do PMDB com Paulo Garcia é muito parecida com o que ocorre em esfera nacional e envolve a presidente Dilma Rousseff (PT). O ex-presidente Lula está para Iris da mesma forma que Paulo está para Dilma. A presidente precisou do líder petista para se eleger, assim como Paulo teve Iris por perto para vencer o pleito municipal de 2012. Ocorre que, para que Lula pudesse governar — e o mesmo no caso de Dilma —, foi necessário trazer o PMDB para o governo, inclusive com um peemedebista como vice. No caso, Michel Temer, que atualmente tenta apagar os incêndios do partido como ministro-chefe da Secretaria de Articulação Política.

Tanto Dilma como Paulo tiveram de superar crises e desgastes em seus respectivos governos, que tinham resquício nas gestões de seus antecessores. Atualmente, tanto o Planalto quanto o Paço estão experimentando autonomia de gestão, mas com uma pedra no sapato que atende pelo nome de PMDB.

Iris é o Lula de Paulo

Ambos (Dilma e Paulo) delegaram cargos chaves de suas administrações a quadros peemedebistas. Em troca, ao invés de haver demonstrações de parceria e alinhamento incondicional ao projeto político a que fazem parte, a realidade tem sido cruel. Críticas corrosivas, desgastes e declarações públicas negativas têm dado o tom da relação tanto em Brasília quanto em Goiânia. O PMDB não tem sido o tipo de aliado em que se pode confiar — e muito menos contar — em momentos delicados.

Paulo Garcia teve em Iris Rezende seu “Lula” e agora governa mais livre | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Paulo Garcia teve em Iris Rezende seu “Lula” e agora governa mais livre | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Ao contrário do que ocorre com Paulo Garcia e Dilma, o governador Marconi sempre teve aliados de primeira hora, mesmo em momentos de crise ou desgaste. Nenhum dos principais aliados do Palácio das Es­me­raldas, como PSD, PP e PTB, re­gistrou histórico de rebelião ou fizeram críticas tão duras que desestruturassem o governo. Pelo contrário, houve de fato antecedentes de descontentamento, mas foram casos pontuais, isolados, e que em nada comprometeram a gestão do tucano.

Partido, como aliado, é um ótimo oposicionista

Paulo Garcia vive um momento inédito desde que passou a ocupar o 5ª andar do Paço Municipal. Como o petista não pode mais ser candidato, ele tem conseguido administrar mais com sua cara e jeito de governar do que anteriormente. E justamente essa forma nova de governar tem gerado descontentamento no PMDB municipal. Afinal de contas, o que os peemedebistas querem é crescer em cima das fragilidades da Prefeitura — ou seja, precisam do “quanto pior melhor”, sem que os desgastes os atinjam, apesar de fazerem parte da administração.

Obras como o BRT (Corredor Norte-Sul) trarão dividendos políticos à gestão | Foto: Edilson Pelikano

Obras como o BRT (Corredor Norte-Sul) trarão dividendos políticos à gestão | Foto: Edilson Pelikano

O partido assumiu o papel de oposição sem ser oficialmente oposição. É justamente aí que está a tônica da questão. Os peemedebistas precisam tripudiar a gestão de Paulo para crescer e assumir papel protagonista no processo eleitoral de 2016. A tática de bater e afagar é perigosa. Ao contrário do senso comum, a cara nova da gestão de Paulo Garcia já começou a render dividendos. Há um volume expressivo de obras a serem lançadas, executadas e inauguradas até o final do ano que vem e, sem sombra de dúvidas, essa folha de serviços vai ser transformada em capital político e capilaridade eleitoral.

As obras do BRT — Corredor Norte-Sul —, por exemplo, já se iniciaram e é possível observar que a Avenida Goiás Norte, em seu trecho do Setor Urias Magalhães ao Terminal Rodoviário, tornou-se um canteiro de obras. O empreendimento, considerado um marco histórico na capital, com mais de 22 quilômetros de extensão e investimento superior a R$ 320 milhões, vai proporcionar aos goianienses ganho de até 40% no tempo de deslocamento.

O sistema funcionará por meio de via exclusiva, segregada por canaletas, por onde os ônibus equipados de ar condicionado e tecnologia para informação de horários, vão percorrer a cidade com velocidade entre 25 e 28 quilômetros por hora, o dobro da registrada atualmente. Os veículos, que operacionalizarão em quatro linhas, devem transportar 15 mil passageiros em horários de pico e, ao todo, 120 mil passageiros por dia.

Educação e saúde

Além do sistema no BRT, Paulo implementa corredores exclusivos nas principais avenidas da capital (T-63, 85 e T-7), o que tem resultado em melhor fluidez ao trânsito. Outros equipamentos públicos importantes, como o Parque Macambira-Anicuns, já tem 20% de suas obras concluídas, no trecho que começa abaixo da Avenida Rio Verde, no Setor Faiçalville. Na saúde, área no qual Paulo nomeou para ser seu secretário, o peemedebista Fernando Machado, houve investimentos de 25% do orçamento, valor superior aos 19% previsto por lei.

Em breve, o prefeito dará ordem de serviço para o início da construção do novo Hospital da Mulher e Maternidade, no Conjunto Vera Cruz. O chefe do Executivo municipal já disponibilizou recursos para este projeto, que será maior do que o Hospital da Mulher e Mater­nidade Dona Iris.

Na educação, outro ponto nefrálgico de qualquer município brasileiro, Paulo abriu 12 mil novas vagas na rede municipal de ensino, entregou 10 escolas e 24 Cmeis. Outras nove unidades estão em construção, na qual oito serão entregues até dezembro deste ano. Paulo já distribuiu quase 15 mil uniformes, com kits escolares e tênis, além de ter entregado 36 novas quadras poliesportivas, e está construindo outros 18 novos centros esportivos, 12 deles entregues até o final do ano.

Como pode ser observado, a prefeitura tem trabalhado. Apesar dos contratempos e do fogo amigo desferido pelos peemedebistas, Paulo ainda é ligado a Iris Rezende e o tem como principal parceiro político. Os petistas querem a permanência da aliança para 2016, mas a mesma vontade não pode ser identificada no outro lado.

Existe a impressão que durante o processo eleitoral do ano passado, junto com o desgaste nacional do PT, o PMDB foi empurrado e estaria inclinado a bancar uma aliança com o DEM do senador Ronaldo Caiado no processo eleitoral de 2016. Ainda é muito cedo para afirma que PMDB e o DEM caiadista estarão juntos no mesmo palanque, do mesmo modo que não se pode considerar o PT fora do radar peemedebista para o ano que vem.

Secretarias e cargos no primeiro escalão da prefeitura ocupado por quadros do PMDB

A presença do PMDB em cargos no primeiro escalão da prefeitura demonstra que o partido tem loteado e ocupado cargos chaves da administração municipal. Tal fato deixa clara a importância da legenda nas principais deliberações da Prefeitura, mesmo após a reforma administrativa implementada recentemente pelo prefeito Paulo Garcia, que marcou sua nova fase “independente” à frente do Paço. Além do vice-prefeito Agenor Mariano, sete secretarias ou agências municipais são comandados por peemedebistas. Veja quem são eles e conheça a história de cada um na gestão.

andrey_azeredo1Andrey Azeredo — Secretaria Municipal de Trânsito, Trans­por­te e Mobilidade (SMT)
Andrey Azeredo é filho da jornalista e ex-deputada pelo PMDB, Raquel Azeredo. A­tuou no Tribunal de Contas dos Municípios (TCM) entre os anos de 1993 a 2004, exercendo as fun­ções de presidente da Comissão de Li­ci­ta­ção, Superintendente Jurídico, Coor­de­na­dor do Núcleo Especial de Estudos e Pes­quisas, dentre outras atri­buições. Filiado ao PMDB, em 2005 durante a gestão de Iris Rezende, assumiu o cargo de auditor-geral do Município e em 2008 exerceu a chefia da Controladoria Interna da administração.

Em 2009 foi controlador-geral do Mu­nicípio e em 2011 foi nomeado secretário mu­nicipal de Compras e Licitação, per­manecendo no cargo até fevereiro de 2012. Em março do mesmo ano foi no­meado secretário municipal de Co­mu­nicação. Em 2014, assumiu a Secretaria da Casa Civil até maio de 2015, quando se tornou Secretário Municipal de Trânsito, Transportes e Mobilidade (AMT).

murilo_guimaraesMurilo Guimarães Ulhôa — Companhia Me­tropolitana de Trans­porte Coletivo (CMTC)
Murilo Guimarães Ulhôa foi diretor ad­mi­nistrativo-financeiro da CMTC desde 2013. Foi assessor do ex-senador Mauro Mi­randa, entre 1995 e 1998, e chefe de ga­binete do então governador Maguito Vi­lela, atualmente prefeito de Aparecida de Goiânia. Entre 1998 e 2006, também a­tuou como assessor especial no Senado durante o mandato de Maguito. É for­mado em Administração de Empresas.

paulo_borges (1)Paulo Borges — Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico, Trabalho, Ciência e Tecnologia
Paulo Borges é vereador, mas deixou o cargo no começo de julho para assumir a recém-criada Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico, Trabalho, Ciência e Tecnologia, ficando em seu lugar o suplente Eudes Vigor. O peemedebista foi vereador em quatro mandatos, dois deles ocupou o cargo como suplente e nas outras duas eleito. Na última eleição municipal, em 2012, Paulo Borges recebeu 7.664 votos, ficando na 4ª colocação, atrás apenas de Virmondes Cruvinel Filho, Clécio Alves e pastor Rogério Cruz.

sebastiao_peixotoSebastião Peixoto — Agência Municipal de Turismo e Lazer (Agetur)
Entre os anos de 1976 e 1982, Sebas­tião Peixoto, pai do deputado estadual e presidente da co­missão provisória que comanda o Diretório Metropolitano do PMDB, Bruno Peixoto, exerceu o cargo de vereador de Goiânia nos anos 1970. Em 1982, assumiu cargo de carreira no governo de Iris Rezende no Estado, como advogado do quadro técnico desportivo.

Foi presidente da antiga Companhia Municipal de Obras (Co­mob), e, em 2008, já na gestão de Iris Rezende, assumiu a presidência do Instituto de Assistência à Saúde e Social dos Servidores Municipais de Goiânia (Imas). Atualmente, além de presidente da Agetur, também é integrante do Sindiposto.

ubirajara_abudUbirajara Abud — Coordenador Executi­vo da Unidade Exe­cutora do BRT
Ubirajara Abud foi assessor da pre­si­dên­cia e diretor geral do antigo De­par­tamento de Estradas de Ro­da­gem do Município e da Com­panhia de Pa­vimentação (Dermu/Com­pav). Também exerceu os cargos de diretor de obras do antigo De­par­ta­mento de Estradas de Rodagem de Goiás (Dergo), chefe do 12ª Distrito Rodoviário e diretor de engenharia do Departamento Nacional de Estradas e Rodagem (DNER).

Até 2010, foi diretor de infra­es­trutura da Agência Municipal de Obras (Amob), quando assumiu o cargo de diretor de projetos da Agência Municipal de Trânsito, Transportes e Mobilidade (AMT). Foi presidente da Amob entre março e dezembro de 2012 e assumiu a presidência da CMTC em janeiro de 2013.

fernando_machadoFernando Machado — Secretaria Muni­ci­pal de Saúde
A frente de uma das secretarias com maior orçamento na administração muni­cipal, Fernando Ma­chado é servidor pú­blico municipal efetivo desde 2007. Em 2009 foi diretor de Regulação, Avaliação e Controle da Secretaria Municipal de Saúde. Nos anos de 2005 e 2006, na gestão do ex-prefeito Iris Rezende, foi diretor do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu).

ormando_jose_pires (111)Ormando Pires — Companhia de Ur­ba­nização de Goiânia (Comurg)
Ormando Pires é funcionário da Co­murg há 26 anos, onde já exerceu os cargos de Diretor de Planejamento e Chefe do Departamento de Coleta. Ele fez parte da equipe que elaborou o plano de Coleta Seletiva na cidade de Goiânia, quando o ex-deputado estadual Wagner Siqueira (PMDB) presidia o órgão.

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