O jogo em que perdem os dois

Na política, prolifera o acirramento do discurso do ódio, do incentivo da barbárie ideológica custe o que custar

Adhemar Santillo, Pedro Sahium e Antônio Gomide: ex-prefeitos homenageados pelo prefeito João Gomes

Adhemar Santillo, Pedro Sahium e Antônio Gomide: ex-prefeitos homenageados pelo prefeito João Gomes

De onde estou, vejo uma série de conflitos. Na política, que não consegue ser mais do que um reflexo bastante fiel do que é a sociedade, proliferam entre profissionais de impressa, assessores e políticos, o acirramento do discurso do ódio, do incentivo da barbárie ideológica custe o que custar. E, neste momento que passamos, o que está em risco é o desenvolvimento econômico nacional, é a manutenção das conquistas já obtidas no passado.

Tanto no passado de FHC, quanto de Lula. E talvez seja por isso tanto desespero pela carnificina. Na internet, através das redes sociais, há duas grandes hordas bárbaras. E não são agrupamentos defensores de uma ideologia, pelo menos não majoritariamente. Para defender, atacam fortemente o outro. Portanto, são grupos de ataque ao PT e a Lula e grupos de ataque ao PSDB. Com isso, há uma união comportamental no qual pensamentos díspares se encontram em sintonia pelo ódio.

E a idiotice resultante do ódio é a pior possível entre os humanos.

É fácil compreender isso quando se observam as análises e comentários que remetem a este coliseu que tem se transformado o debate político nacional. Dois fatos próximos são precisos para compreender um pouco deste cenário. O primeiro deles é sobre a atuação de Marconi Perillo junto ao governo Dilma. Com interesses políticos, sim, mas principalmente por decência em reconhecer que só há verdadeiros avanços em Goiás com o auxílio do governo federal, o governador não entra na mesmice zumbi de quem é contra o governo Dilma e destoa o discurso até mesmo do próprio partido, que o condena.

A presidente – é ainda necessário que se ressalte – tem o dever de investir em todos os Estados brasileiros, independentemente da referência partidária os gestores, mas tem feito em Goiás o que muitos outros deixaram de fazer por anos. E o gesto de Perillo em reconhecer isso publicamente e retribuir o gesto blindando a presidente da crítica cega é digno de nota.
Mas eis que não somente os tucanos-mestres brasileiros, que têm feito um arremedo de reprimenda a Marconi, mas também os adeptos menores, da Direita, ou adversários ideológicos do PT, agora deram para se dizer decepcionados com a postura de Marconi Perillo. E é esta a burrice a qual estamos falando e lamentando. A postura de ódio tem-nos obrigado e nos posicionar na linha de frente do embate, da briga: falar e, sobretudo, ouvir, é para os fracos. A moda do momento é resolver no grito e na porrada.

O governador de Goiás não deixou de ser crítico do PT e das gestões do governo federal, mas ao dar uma pausa na agenda de ataques generalizada, torna-se quase que um “vira-folha”.
Na última semana, outro fato reforça a ideia de que o mesmo acontece do outro lado. O prefeito de Anápolis, João Gomes, concedeu a Comenda Gomes de Souza Ramos a 32 personalidades que de alguma forma deram a sua contribuição no desenvolvimento da cidade. A honraria faz parte das comemorações do aniversário da cidade desde 1981 e é entregue a todo e qualquer profissional cuja trajetória incidiu no avanço da cidade em alguma área.

Nesta edição, três ex-prefeitos foram condecorados: Adhemar Santillo, hoje no PSDB, mas com uma longa história e toda a carreira feita no PMDB, Pedro Sahium, e o último prefeito antes de Gomes, Antônio Gomide. Além deles, no segmento político o governador Marconi Perillo foi igualmente reconhecido.

Foi o bastante para que a faísca das opiniões raivosas surgisse. Quase sempre cega e mal fundamentada, a análise de que, com o gesto, Gomes ofendeu um pretenso perfil de petista ideal ganhou as ruas ou as redes sociais. Assim como Perillo reconhece a atuação de Dilma no sucesso da parceria que tem feito Goiás crescer, João Gomes condecorou a maior autoridade política de Goiás, o governador. E, sem dúvidas, que um gestor com tanta penetração na cidade como é Perillo tem uma lista de ações e realizações promovidas no município.
Mas isto não conta para quem quer ter ódio.

E então, neste sentido, ambos os lados por Goiás tem manifestado sua ferocidade política. São parte-integrante de uma parcela significativa e crescente da população que torce para o pior sem se dar conta de que neste caso o pior atinge a ele mesmo. É como a história do passageiro do avião que por não gostar do comandante faz de tudo para que este cometa um erro e seja criticado ou demitido. O que ele não se dá conta é de que ao estar no mesmo voo, o erro do piloto pode custar a própria vida.

Pelas redes sociais, percebemos a disposição dos cidadãos comuns em ver o governo Dilma afundar em crises, escândalos ou erros de gestão. Torcem para que as medidas que tentam fazer com que o Brasil volte ao que foi há poucos anos sucumbam e que nada dê certo. Preferem ter razão no discurso de preconceito e discordância a ver seu país e sua própria vida funcionando. Este tipo de atitude e comportamento nos revela como cidadãos ao nos apresentar como figuras imaturas do ponto de vista político. Estamos muito mais acostumados a sermos torcedores de arenas de disputa de futebol a sermos cidadãos que vivem sob o regime democrático. Portanto, preferimos inconscientemente torcer pela derrota do adversário ao esperar que, ao se recuperar, ele – o adversário – também nos ajude a levantar novamente.

A veracidade desta conduta pode ser vista ao contemplarmos a penetração popular de discursos de políticos raivosos, cuja base de sustentação oral é a da ofensa sob a manta da crítica oposicionista. A Câmara dos Deputados, sob o comando de um insano Eduardo Cunha (PMDB), é palco de embates neste nível, no qual os interesses estratégicos e genuínos da sociedade brasileira ficam relegados a planos inferiores para que as votações se tornem numa imensa queda de braço. O conceito de “derrotar o governo para mostrar força” está muito à frente que representar e garantir a vontade do povo brasileiro nas câmaras legislativas.

Estamos uniformizados. Vestimos uma camisa triste de time e nos comportamos com a educação de uma torcida organizada. O que nos falta compreender – e não o fazemos porque não somos capazes – é que neste “jogo” não há lados, tampouco vitoriosos. Quando se torce pela derrota, perdem os dois.

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