Waldir Soares é polêmico e tem demonstrado isso nos últimos anos devido a sua atuação na Polícia Civil. Agora ele quer levar sua experiência para a política e, segundo analistas, pode surpreender e conseguir uma das vagas à Câmara Federal nas eleições deste ano

Waldir Soares: “Ao longo dos anos, adquiri muito conhecimento na área de segurança e quero compartilhar isso” / Fernando Leite/Jornal Opção
Waldir Soares: “Ao longo dos anos, adquiri muito conhecimento na área de segurança e quero compartilhar isso” / Fernando Leite/Jornal Opção

Marcos Nunes Carreiro

Casado e pai de três filhos, o paranaense Waldir Soares tem, atualmente, mais do que o título de cidadão honorário goianiense. Delegado da Polícia Civil de Goiás desde 1999, ele se filiou ao PSDB em 2009 a fim de disputar uma cadeira de deputado federal nas eleições do ano seguinte. Não foi eleito, mas conseguiu mais de 40 mil votos, o que o deixou como suplente. Nessas condições, o delegado chegou a assumir o mandato e, mesmo que tenha ficado por um breve período, chegou a apresentar projetos na Casa. Este é um dos motivos para que o tucano seja apontado como um dos candidatos que podem surpreender na corrida pela Câmara dos Deputados nestas eleições.

Uma das armas de Waldir para conseguir se eleger é sua forte presença na internet. O delegado se considera um estudioso do assunto e, avaliando que a internet chegou com força no Brasil, resolveu investir nela. Em 2010, a principal ferramenta de Waldir nas eleições foi o YouTube. Mas àquela época também foi iniciado um trabalho nas redes sociais, primeiro com o Orkut, depois com o Facebook, rede em que o alcance de Waldir é muito maior.

O delegado acredita que ganhou muitos seguidores rapidamente devido às suas postagens verdadeiras, sobretudo em relação à segurança pública. Isso, somado às polêmicas repercussões de seu trabalho como delegado nos meios de comunicação nos últimos anos, fez com que sua presença online fosse alavancada. Prova disso, segundo ele, é que hoje possui mais de 300 mil seguidores na rede.

A reportagem acompanhou a página do candidato no Facebook durante alguns dias. Na terça-feira, 22, a página tinha 317.785 curtidas. Na tarde de sexta-feira, 26, o número havia aumentado para 321.101. Um número alto. A título de comparação: todos os candidatos ao governo do Estado – Marconi Perillo (PSDB), Iris Rezende (PMDB), Antônio Gomide (PT), Vanderlan Cardoso (PSB), Marta Jane (PCB), Weslei Garcia (PSol) e Alexandre Magalhães (PSDC) –, até a manhã de sexta, 26, somavam 228.867 curtidas.

O número de curtidas no perfil do delegado só é superado se somarmos ao número dos governadoriáveis as curtidas nos perfis dos três principais candidatos ao Senado — Ro­naldo Caiado (DEM), Vil­mar Rocha (PSD) e Marina Sant’Anna (PT) –, que juntos somam 145.740 curtidas. O resultado seria 374.607. Mas se levarmos em consideração que há muitos usuários repetidos em todas as páginas, teremos um número aproximado entre essa soma e as curtidas no perfil de Waldir.

Contudo, mesmo tendo um trabalho impressionante nas redes sociais, a internet não representa garantia de voto. Isto é, 320 mil curtidas não significam 320 mil votos. Segundo lideranças políticas – não apenas da base –, estima-se que o delegado consiga entre 60 mil e 70 mil votos apenas em Goiânia. Nas eleições passadas, o candidato conseguiu 40.448 votos. Neste ano, com um trabalho mais intensivo de visita às cidades do interior, e sendo mais conhecido do eleitorado, é possível que o candidato rompa a barreira dos 100 mil votos e se eleja com a ajuda da legenda.

Mas conseguir tantos votos não é uma tarefa fácil, tendo milhares de seguidores nas redes sociais ou não. E Waldir sabe disso. No dia da entrevista ao Jornal Opção, o repórter chegou antes do horário combinado ao prédio em que o delegado mora no Parque A­mazônia e ele não se encontrava. Passados alguns minutos, Waldir chegou de paletó na mão e se juntou à reportagem no sofá da recepção, onde a conversa se estendeu por mais de uma hora.

O candidato estava chegando de uma reunião com funcionários de uma fábrica, em Goiânia. Sentado, Waldir logo abriu o zíper da bota de couro preto para aliviar um pouco os pés, que o sustentaram pelos 12 mil quilômetros que percorreu durante o último mês de campanha. Foi a terceira bota usada nesta campanha. “A primeira eu aposentei e a segunda está no sapateiro”, aponta. E é nesse tom que a entrevista co­meça. Em uma fala inicial do delegado, é possível resumir tanto sua atividade intensa nas redes sociais quanto suas visitas a todas as regiões do Estado: “Minha intenção é interagir com as pessoas. Eu adquiri, ao longo do tempo, um grande conhecimento na área de segurança pública e acredito que devo compartilhar isso com a população”.

Nascido em Jacarezinho (PR), Waldir perdeu o pai logo cedo. Foi trabalhando como zeladora que sua mãe cuidou dos cinco filhos sozinha. Quando os irmãos mais velhos se mudaram para as cidades maiores à procura de melhorar de vida, Waldir e sua irmã mais nova precisaram ajudar no sustento da família. De engraxate a pedreiro, o futuro delegado passou por várias profissões, mas nunca deixou de estudar. “Estudei em escola estadual e percebi que a única forma de ter uma vida mais tranquila era por meio do estudo”, ressalta.

Waldir conta que, estudando por conta própria, passou no concurso da Polícia Civil do Paraná, o que lhe garantiu uma leve melhora de vida e possibilitou que continuasse estudando para passar no vestibular de uma universidade pública. “Não tinha condições de pagar por uma faculdade particular, então, quando consegui entrar no curso de Direito na Universidade Estadual do Norte do Paraná (Uenp), fiquei muito feliz.”

Entretanto, durante o curso, houve uma greve na polícia, em que Waldir teve um papel central. Tal atuação lhe custou uma transferência de Jacarezinho para outra cidade no interior do Paraná. “Eu não aceitei a punição e pedi transferência para Curitiba, onde, para terminar o curso, tive que ir para uma universidade particular, a PUC [Ponti­fícia Univer­sidade Cató­lica]”, lembra. Além de ter que pagar para estudar, Waldir perdeu um ano de curso. Formou-se aos 34 anos, “uma idade já avançada, sim, mas formei”.

Formado, ele já tinha condições de tentar alcançar seu objetivo principal: o sonho de ser delegado. Conseguiu passar no concurso de Goiás, em 1999. Começou com uma atuação firme no Entorno do Distrito Federal. Passou por Novo Gama, Luziânia, Águas Lindas de Goiás e Planaltina, cidade que guarda na memória como uma de suas melhores atuações: “Gosto de fazer uma relevância em Planaltina porque, quando cheguei lá, a cadeia tinha 40 presos. Fiquei na cidade por dois anos e deixei a cadeia com 180 presos. A cidade era muito violenta e nossa atuação era pesada”.

Desde então, em Goiânia, Waldir fez fama de polêmico. Em sua primeira atuação no comando da região Noroeste da capital, por exemplo, prendeu 22 traficantes, inclusive mulheres grávidas e cadeirantes. Ele também foi o delegado responsável pelo levantamento da situação no Setor Parque Oeste Industrial, a maior invasão urbana do país à época. E foram muitas atuações nesse sentido. Por isso, ele diz que sua história está fortemente vinculada à periferia: “Quando fui investigar o Parque Oeste Industrial eu coloquei uma bermuda e um par de chinelas de dedo. Eu preciso vivenciar as situações. Eu participo das ações. Não sou delegado de gabinete. Como eu posso falar de segurança pública, se eu nunca vivenciei aquilo?”.

E esse jeito polêmico de ser não deverá ser deixado de lado, caso Waldir consiga uma vaga na Câmara Federal. “Tenho me preparado para buscar espaço”, diz ele. “Se preparado como?”, é a pergunta inevitável. E resposta não tarda: “Fiz curso de crime organizado e lavagem de dinheiro no Distrito Federal; qualifiquei-me em inteligência na Abin [Agência Brasileira de Inteligência]; sou especialista em gerenciamento em segurança pública; especialista em direito e processo penal; sou capacitado contra crimes cibernéticos, além de ser o único delegado de Goiás que tem curso de repressão ao crime urbano”. Se tudo isso contará para que ele seja eleito, apenas as urnas dirão.