Na Maratona de Boston, a reafirmação da identidade nacional americana

É impossível caminhar por qualquer região da cidade e não encontrar referências ao espírito de resistência e ao patriotismo desencadeados pelo atentado terrorista

Na rota da Maratona de Boston, morador coloca placa de homenagem a vítimas de atentado: reverência

Na rota da Maratona de Boston, morador coloca placa de homenagem a vítimas de atentado: reverência

Roberson Guimarães
Especial para o Jornal Opção

Quando se entra em um dos ônibus com destino a Hopkinton é fácil reconhecer a eficiência e a organização dos americanos. Não é uma tarefa simples transportar ao mesmo tempo cerca de 30 mil corredores – entre eles, pouco mais de 100 brasileiros – para um subúrbio situado a cerca de 38 quilômetros do centro de Boston. É lá, em Hopkinton, que ocorre a largada da mais tradicional e longeva de todas as maratonas. No último dia 20 de abril ocorreu a 119ª edição consecutiva da Maratona de Boston. E eu estava entre os corredores que desafiaram os duros 42 quilômetros entre Hopkinton e Boston, incluídos aí as “colinas de Newton” e a temida “Heartbreak Hill”.

Nesse trajeto Boston–Hopkin­ton, percorrido em cerca de 45 minutos num ônibus escolar tipicamente americano (daqueles amarelos, dos filmes da “Sessão da Tarde”), pude refletir a respeito do significado de tudo que testemunhei naqueles dias. A cidade é “invadida” por uma horda de corredores que injetam US$ 181 milhões em sua economia. Para os corredores, Boston significa algo muito especial. Não basta querer para poder participar. A Maratona de Boston exige um desempenho prévio, o famoso “Boston qualifying time”, que serve como passaporte para corrê-la. Em razão disso, é considerada a reunião dos “corredores amadores de elite”. E os moradores são sabedores disso. Tratam os corredores como visitantes muito especiais. Compreendem os esforços necessários para ter chegado até ali. E traduzem esse reconhecimento sempre com um sorriso e um cumprimento de boas-vindas.

Corredores largam para o percurso de mais de 42 quilômetros

Corredores largam para o percurso de mais de 42 km

Desde 2013 a tradicional corrida de Boston passou a ter um significado ainda maior para os americanos. Muito além do impacto econômico e da alegria de receber corredores de todo o mundo, a corrida serve agora como um momento de reafirmação do orgulho e do patriotismo americanos.

Convém recordar. O dia 15 de abril de 2013 estava perfeito para uma corrida. Ar fresco, sol brilhante e temperatura agradável. Cada participante, a seu modo, alinhava-se para a largada com as emoções típicas de um dia de maratona: ansiedade, excitação, nervosismo e um animador espírito de perseverança. Até as 11 horas da manhã, todos os 27 mil corredores já haviam largado. Às 13h36, os vencedores de cada categoria já tinham sido anunciados. Mas o coração de uma maratona não são os seus vencedores. Em Boston especialmente, o coração da maratona é representado pelos milhares de corredores anônimos e suas vitórias pessoais; pelas centenas de milhares de espectadores que vão às ruas para torcer e apoiar os corredores; é a livre manifestação do espírito de comunidade, de compromisso e de sacrifício — e, bem representativo, em pleno feriado do “Patriot’s Day”, dia em que a cada ano se realiza a Maratona de Boston.

Às 14h49, daquele dia a corrida de Boston mudou para sempre. Dois artefatos caseiros explosivos foram detonados na Boylston Street, a poucos metros da linha de chegada. As explosões ceifaram as vidas de três expectadores: Martin Richard, de 8 anos; Krystle Campbell, de 28; e Lu Lingzi, de 23. Mais 264 pessoas ficaram feridas, muitas delas criticamente.

Esse trágico evento desencadeou respostas imediatas dos serviços de segurança e saúde públicas, como também da comunidade médica, e culminaram com a morte de um dos suspeitos pelo atentado e com a prisão do outro. A semana que se seguiu foi marcada por atos de bravura e heroísmo, como também de renovação do espírito comunitário, e passou a ser celebrada com o slogan “Boston Strong”.

É impossível caminhar por qualquer região de Boston e não encontrar referências ao espírito de resistência e ao patriotismo desencadeados pelo atentado terrorista. Cartazes espalhados pelos postes de iluminação, jarros de flores em pontos comerciais e prédios públicos, camisetas das mais variadas cores, todos ostentando a pequena frase “Boston Strong”.
Durante a maratona, sob frio e chuva, milhares de pessoas saíram às ruas para apoiar os corredores e reafirmar “Boston Strong”. Em vários momentos pude ouvir o coro “USA! USA! USA!”

Roberson Guimarães, com a medalha após completar prova

Roberson Guimarães, com a medalha após completar prova

Ainda que numa escala menor, a resposta às bombas em Boston tem significado para aquela comunidade o mesmo que significou a reação aos milhares de mortos no 11 de setembro de 2001, quando da derrubada das torres do World Trade Center em Nova Iorque: a reafirmação da identidade nacional.

Reagir e assegurar a manutenção da Maratona de Boston parece significar para eles a reconstrução da autoimagem como membros de uma comunidade política com sua história, mitos, símbolos, linguagem e normas culturais — algo que pode-se traduzir como “nação”. Ou ainda uma forma específica de identidade coletiva que simultaneamente marca a inclusão que proporciona um limite em torno de “nós” como também a exclusão que nos distingue e diferencia “deles”.

Muitos enxergam nessa distinção arrogância. Mas, ali de perto, pareceu-me que a identidade nacional americana é mesmo algo singular. Os presidentes americanos, desde George Washington, têm articulado a singularidade americana e a fundamentado em um conjunto de características cívico-religiosas e crenças, sempre ancorados em valores de liberdade, de igualdade e do autogoverno. Burke (1992) descreve estes ideais democráticos como “a mitologia da liberdade individual na América”.

Embora, ao longo da história, muitas dessas liberdades individuais não tenham sido respeitadas, esses valores permanecem como pilares centrais na edificação da identidade americana. Além disso, como superpotência econômica, militar e cultural, os Estados Unidos da América derivam muito de sua identidade da contraposição “vis-a-vis” com outras nações. Basta recordar a “guerra fria” e o combate ao comunismo patrocinado pelos sucessivos governos americanos.

O fato é que, enquanto terminava de repassar mentalmente a estratégia para a corrida, a poucos minutos da largada para a minha Maratona de Boston, perguntei para o americano ao meu lado, visivelmente emocionado, o que significava aquilo tudo. Em meio ao frisson provocado pelo hino nacional americano cantado ao vivo, a resposta ainda me causa arrepios: “We are not heroes, but we are in the company of heroes” [“Não somos heróis, mas estamos na companhia de heróis”].

Roberson Guimarães é médico mastologista.

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Antônio Dirceu Pinheiro

Parabéns, Roberson, pelo excelente artigo!