A mulher está pronta para o mercado. O mercado nunca esteve pronto para ela

São muitos os programas que incentivam a capacitação feminina para atividades profissionais. Elas se aprimoram. Mas, mais de um século após a instituição do Dia Internacional da Mulher, onde estão as adequações das empresas para recebê-las?

A mulher no trabalho, retratada em pintura dos anos 40: condições pouco favoráveis ainda nos dias de hoje | Foto: Ruby Loftus Screwing a Breech Ring, pintura de Laura Knight (1943)

A mulher no trabalho, retratada em pintura dos anos 40: condições pouco favoráveis ainda nos dias de hoje | Foto: Ruby Loftus Screwing a Breech Ring, pintura de Laura Knight (1943)

Elder Dias

Um dos questionamentos mais idiotas que podem sair da boca de alguém surge geralmente no início de março: “Mas por que então não existe o Dia do Homem?” A existência de quem ainda faz essa indagação é a própria razão de existir o Dia Internacional da Mulher, no dia 8 de março: um marco contra a ignorância sobre a necessidade de garantia dos direitos femininos em geral e, em especial, no mundo do trabalho (em tempo, existe, sim, o Dia Internacional do Homem, em 19 de novembro, celebrado em 44 países, inclusive no Brasil).

Se hoje a lembrança do Dia da Mulher se dá com leque amplo, pela busca de direitos em várias áreas, foi a partir das dificuldades enfrentadas pela mulher para conciliar sua rotina antiga com a novidade de sua inserção no mercado capitalista que a data foi idealizada. E mesmo hoje essas barreiras estão longe de ser ultrapassadas. Na verdade, a corrida das mulheres pela prevalência de sua singularidade nos tempos modernos tem sido uma carreira perdida contra os donos dos bens de produção: quem as emprega cede muito pouco e, quando parece ceder, na maioria das vezes é para, na verdade, tê-las de uma forma mais aprimorada ao que lhe interessa.

Desconfie, então, quando empresas promovem, por exemplo, treinamentos de capacitação profissional voltados às mulheres. Basta ver o quanto há de “programas de qualificação da mão de obra feminina”. É pouco privilégio e muita estratégia: ora, quem vai usufruir dessa qualificação direcionada? No fim das contas, obviamente e em primeira instância, a própria empresa.

E o que realmente vai ao encontro dos interesses das mulheres? Suas necessidades peculiares — das quais a maternidade é a maior —, estão sendo de fato atendidas pelo mercado? Não é o que parece e os exemplos são vários. Para citar um caso que é rotineiro: trabalhando em um órgão da administração pública em Goiânia, uma assessora teve recentemente um choque com seu chefe. Sua colega de sala havia viajado e ela se viu obrigada a se ausentar durante o período da tarde, para cuidar do filho, pequeno e que estava doente sem ter com quem ficar. O patrão ficou furioso porque não havia ninguém para atender às demandas.

Peculiaridade feminina é isto: quando a família tem o chamado “núcleo tradicional”, na grande maioria dos casos é a mulher quem abre mão do trabalho para cuidar das crianças. E quando o caso é de filhos de pais separados, a guarda, com seus bônus e ônus, geralmente fica com a mãe. Mas, se o caso for de faltar a um horário no expediente para cuidar de um filho, mesmo com a guarda, dificilmente o homem estará lá, pajeando a cria: será a avó, a babá ou outra mulher de sua confiança. Mas uma mulher.

O que, então, o mercado dá de volta para a mulher? Aliás, o que esse mesmo mercado — criado e moldado por homens — sabe sobre o que quer a mulher trabalhadora? Parece que muito pouco, haja vista as muitas demandas que elas mostram ter, quando podem se queixar. Um exemplo é a jornada de trabalho: por que homens e mulheres, depois de tanto tempo e tantas peculiaridades, ainda têm jornadas inflexíveis? Indo mais além, além de inflexíveis, será que os turnos de expediente deveriam ser distribuídos da mesma forma para ambos os sexos?

Mais um questionamento, então: o que o empresariado goiano faz de diferente para a mulher? Não para que ela se adeque ao trabalho, mas para que o trabalho se adeque a ela?Não exatamente nesses termos, mas sob o mesmo ângulo, essa pergunta foi enviada à Federação das Indústrias do Estado de Goiás (Fieg). E o que se constatou: não há nada de grandes novidades para atender aos interesses femininos no mundo profissional por aqui. O referencial, quase único, é o trabalho do Grupo Mabel, em Aparecida de Goiânia, que pratica já há algum tempo uma série de políticas que beneficiam seus empregados e, de modo mais especial, as mulheres. A creche integrada ao trabalho, em que a empresa foi pioneira, é também benefício concedido por duas empresas no Distrito Agro­industrial de Anápolis (Daia), a alimentícia Granol (em parceria com o Sesi) e a farmacêutica Teuto.

Se a mulher quer aproveitar uma temporada de benesses, aí está março. A última semana foi pródiga em “espaços-mulher”, como toda comemoração tradicional sobre o Dia da Mulher: uma sala, um quiosque, um estande, enfim, um lugar disponibilizado por algumas empresas de médio porte acima para que as trabalhadoras tenham seu “momento princesa”, com direito a massagens, tratamento facial, manicure, enfim, um salão de beleza completo à disposição.

Beleza se pondo à mesa

Mas ocorre que a própria beleza feminina (ou sua falta) está também direcionada ao mercado e condicionada por ele. É fácil fazer o teste de como isso funciona. Vá a um shopping center e entre em uma loja qualquer. Você verá garotas bonitas, de “boa aparência”, para atender os clientes. O objetivo não é colocado claramente, mas pode-se deduzir que haja um interesse em fazer com que o público masculino não tenha pressa de ir embora, sejam eles clientes ou acompanhantes de clientes. Obviamente, a presença de rapazes simpáticos também fixa certa clientela por mais tempo no estabelecimento.

Praticamente o inverso se dá em outro ramo: o das redes de supermercados. Em algumas delas, a quase totalidade de atendentes nos caixas é de mulheres. Geralmente com uniformes nada femininos, que escondem sua beleza, quesito que não é critério para seleção — pelo contrário, quem for muito bonito corre risco maior de ser vetado no processo de seleção. É que o interesse da empresa passa a ser que o fluxo se desenrole o mais rapidamente possível. Moças e rapazes bonitos, para essas redes, acabam sendo fatores que causariam perda de tempo e produtividade no exercício da função.

Em pleno século 21, com mais de cem anos de celebração do primeiro Dia da Mulher, ainda pouco foi feito por elas. O homem continua hegemônico, seja no meio político-legislativo, seja nas empresas. Em geral, não se pensa o mercado, ainda, com cabeça feminina. E quem mais paga preço alto são as mulheres mais pobres, que, se não acham vagas em creches para os filhos, veem sua situação familiar precarizada, tendo de improvisar, às vezes de forma pouco digna, para trabalhar e ver seus filhos sob cuidados — ou pelo menos ter uma ilusória sensação de que assim eles estão.

Há luz no fim do túnel? Quando algum patrão mais visionário abre as portas, sim. Uma colega jornalista conta que, tempos atrás, visitou uma pequena fábrica de pão de queijos em que as funcionárias podiam levar filhos para o ambiente de trabalho. Lá elas os alimentavam e, nos intervalos, brincavam com seus pequenos. Crianças nem sempre atrapalham o ambiente de trabalho: às vezes podem, em verdade, humanizá-lo. E ter esse contato é, isso sim, uma percepção verdadeira do que o mercado pode abrir mão de seus preceitos para privilegiar a mulher.

 

 

O que quer a mulher?

Na semana dedicada à mulher, o Jornal Opção propôs um questionamento que desafiou o próprio Freud: afinal, o que quer a mulher?

Profissionais bem-sucedidas, assim como alguns homens, ousaram responder. Veja abaixo trechos dos depoimentos:

O QUE ELAS DIZEM

HELOIZA AMARAL, jornalista
“Compreensão, respeito, companheirismo e amor. Acho que ficamos satisfeitas com esse pacote básico.”

CAROLINA ZAFINO, professora, jornalista e assessora parlamentar
“Acho engraçado essa pergunta. As mulheres querem o que todos querem: ter direitos garantidos e também aqueles que sua própria função social e diferença de gênero a desiguala dos homens, como a licença-maternidade. E que lutem juntos conosco por isso.”

ADRIANA RODRIGUES, locutora e apresentadora
“A mulher quer segurança, sempre. Por mais que seja independente, no fundo quer se sentir segura, quer ter um porto seguro. E ela busca essa segurança no parceiro, nos filhos
ou trabalho.”

GREICE GUERRA, economista
“Muitas vezes a mulher é extremamente capaz, mas sofre preconceito e desvalorização, como a remuneração mais baixa. Quer ser valorizada, respeitada, amada e estimada no sentido familiar, social, profissional e também sentimental. Quer um companheiro que não queira competição, mas que partilhe sua vida com ela, ainda que sem compromisso jurídico — hoje em dia as mulheres modernas não buscam isso mais, o padrão mudou muito em relação a nossas mães e avós: preferimos o companheirismo, a constância e a
lealdade de caráter.”

JÔ SAMPAIO, escritora
“Eu desejaria ter minhas lacunas preenchidas nos três planos: físico, mental e espiritual. Este é, para mim, o triângulo perfeito e a forma do verdadeiro equilíbrio. Eu acrescentaria o direito de dizermos a verdade sem sentimentos de culpa. Camuflar palavras é sempre uma forma de autoagressão.”

LARISSA MUNDIM, jornalista e escritora
“Primeiro, acho que a mulher não quer: ela deseja. E isso faz toda a diferença. A mulher deseja viver de forma plena, como qualquer ser humano — independente do gênero e da orientação sexual —, com oportunidades iguais. Isso significa trabalhar com salário equiparado a profissionais do sexo masculino; sair para trabalhar com a certeza de que os filhos estarão seguros; se vestir como gosta sem sofrer assédio sexual; ter uma vida sexual mais livre, saudável e intensa sem preconceitos; decidir se será mãe. Enfim, muitos são os exemplos.”

MÁRCIA ALVES, médica obstetra
“Dividi essa questão com amigas, de várias idades e profissões. Acabei me surpreendendo: a primeira palavra que todas citaram foi respeito. Isso engloba desde ter o trabalho reconhecido a ser tratada da mesma forma que o homem. E todas fecharam com outro desejo: ser feliz —
o que na verdade é o que todo mundo quer.”
O QUE ELES DIZEM

ALISSON AZEVEDO, escritor e servidor público
“A primeira premissa é que estou solteiro, o que prova minha abissal ignorância sobre o tema (risos). Mas, dito isso, penso que a mulher, pelo menos a mulher que me interessa, quer num homem o amálgama entre firmeza e delicadeza, entre inteligência e intuição, entre o cuidado com a vida de fora (segurança financeira, saúde, corpo) e com a vida de dentro (conversa, uma taça de vinho, um poema).”

MARCELO HELENO, jornalista
“Essa é daquelas perguntas que deveriam ser respondidas com outras duas. John Donne, poeta irlandês, escreveu, traduzido para o português e musicado por Péricles Cavalcante, que ‘somente a alguns a que tal graça se consente é dado lê-la’. Há sempre um ar de mistério em torno da figura feminina. Essa vontade está muito explícita no jogo de conquista, compreensão e determinação.”

RAFAEL VIEIRA, padre redentorista
“As mulheres querem o melhor do mundo para elas e para os homens! São verdadeiros poços de generosidade!”

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