Iris Rezende e a visão além do alcance

Ex-prefeito pode estar de olho na sua vice, bancada por um nome de inegável apelo: Adriana Accorsi

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Peemedebista Iris Rezende volta a ver o PT como um aliado preferencial | Foto: Fernando Leite/ Jornal Opção

Henrique Morgantini 

Saber se comunicar, construir ideias numa explanação sobre qualquer tema, é uma premissa para se tornar um político decente. Os bons exemplares, quando se pronunciam, conseguem mandar seus recados e deixar no ar suas intenções mesmo não citando nomes ou efetuando declarações mais evidentes. O suspense é um charme da política que às vezes o cinema e a literatura pegam emprestado. Mas somente os mestres da política conseguem criar um discurso de antítese que mais revela sobre o que ele não disse do que sobre o que é abordado. É quase como uma variação da máxima do “atirou no viu, acertou no que não viu”. Neste caso, é como atirar num alvo para fazer a bala ricochetear e chegar em outro.
Calma, vou explicar.

Nesta semana, um dos mestres na arte do discurso político e na geração de charme e suspense, voltou à cena, pelo menos publicamente. Iris Rezende esteve em encontro prestigiado com lideranças petistas estaduais, incluindo – é claro – seu pupilo, o prefeito Paulo Garcia. E, mesmo sem pronunciar uma única palavra acerca do principal tema que o ronda, a aliança com Ronaldo Caiado, Rezende disse tudo. Ou, mais sutilmente, deixou muito à mostra.

Ao ser questionado pelo Opção Online sobre a aliança com o PT visando as eleições de Goiânia no ano que vem, o ex-governador e ex-prefeito saiu-se com esta: “Quando consolidamos a aliança com o PT e outros partidos não a fizemos por um dia. Fizemos com o objetivo de melhorar a vida do povo de Goiás e de Goiânia. Enquanto permanecermos na política o objetivo será esse. E enquanto a aliança proporcionar resultados positivos para a população não tem porque desfazer”.

Ao falar do PT, de Paulo Garcia e a disposição perene em manter a união das duas legendas, Iris Rezende deu indícios para a resposta que toda a crônica política quer saber: a vontade de se aliançar com o DEM do senador Ronaldo Caiado diminuiu, recuou. Rezende foi, depois, questionado sobre o DEM. Uma pergunta direta, sem sutileza (o jornalismo, muitas vezes, não demanda tal artifício mesmo). E então, saiu pela tangente, como uma dama pressionada por um pretendente: “não posso falar disso agora, um ano antes da eleição. Seria um desatino da minha parte”. Seria, sim, mas isto não impediu que ele já desse o recado na resposta anterior.

Ao retomar este flerte, Rezende – tido como candidatíssimo a prefeito e, logo, o nome a ser batido na capital – ainda ensaiou o lançamento da pré-candidatura da deputada estadual Adriana Accorsi. Segundo especula-se, o interesse para esta sugestão é para que Adriana faça a defesa da gestão de Paulo Garcia durante a campanha. E esta estratégia pode ter duas interpretações. A primeira é ter o foco desviado para as eventuais críticas à gestão de Garcia.

Com uma candidatura própria, o PT responderia por si só sobre as reclamações da gestão de Garcia. Só que, neste caso, não haveria a tal aliança “que não foi feita para durar um dia”.
Mas o que Iris pode mesmo estar de olho é na sua vice, bancada por um nome forte, cuja presença possui inegável apelo: Adriana tem sobrenome, tem atuação, tem presença, é uma representante das mulheres e possui um histórico de lutas bem engendradas com a sociedade. Além disso, como agente política, é fruto da renovação e oriunda de um setor que no momento tem grande apelo e clamor popular, a segurança pública.

Melhor impossível.

Mas ainda cabe mais para se desvendar na aparição de Iris junto ao PT, ao lado de Paulo Garcia e Rubens Otoni, e ainda proferindo importantes frases. A principal pergunta é: onde os olhos de Iris Rezende foram parar até que ele enxergasse que o cansado e esfarrapado PT era, novamente, o importante aliado de primeira hora? Iris não viu e tampouco ressaltou o desgaste injusto e até mesmo burro que a legenda que comanda o Brasil há 13 anos vem sofrendo pela mídia e inflamada pelas redes sociais. Do contrário, passou a elogiar Paulo Garcia – outro nome que vem sendo bombardeado em Goiânia.

Muito possivelmente, a visão além do alcance do líder peemedebista chegou até os aportes cujo montante se aproxima a R$ 1 bilhão vindos do governo federal para Goiás. Segundo o prefeito, o dinheiro chegará conforme combinado e será usado de forma a en­tregar as o­bras de in­tervenção na infraestrutura de Goiâ­nia no pra­zo estipulado.

Esta é a salvação de Paulo Garcia. É a sua chance de dar a volta por cima depois de mais de um ano de ataques, críticas e de mãos atadas para realizado algo na capital. E este é, também, o alicerce de Iris Rezende para fundamentar sua campanha. Afinal, ele bancou Paulo Garcia e pode dizer, com tranquilidade no ano que vem, que sua aposta não foi em vão e seu “menino” soube fazer na cidade o que ele mesmo é capaz de fazer: tocar obras.

Iris tem 1 bilhão de razões para defender que a aliança do seu PMDB com o PT seja perene.
Nada demais, a política é assim mesmo.

Enquanto isto, em arrondissements mais distantes, o senador Ronaldo Caiado volta ao status de isolamento político em sua busca por alianças que sejam sua credencial para 2018. Sem o compromisso com Iris, perde o PMDB e sua capilarização estadual que oportunize fazer uma campanha maciça e popular para o governo de Goiás. Sem muito o que oferecer já que sua legenda não possui qualquer estrutura e ele próprio não tem prestígio junto a qualquer governo – seja municipal, estadual ou o federal – Caiado só teria a ofertar sua imagem pessoal em 2016. Sair de mãos dadas com Iris pelas ruas de Goiânia em um momento em que seu discurso de ódio ganha tantos adeptos na sociedade goianiense seria seu principal atrativo.

Pode ser tentador, mas não vale 11 bilhão.

Como desgraça pouca é bobagem, já diria a minha e a sua avó, Caiado ainda vive sob a ameaça de outra má notícia que se avizinha: a vontade de seu colega de Senado e de partido deixar o DEM em busca de outra agremiação que melhor lhe aproveite. Wilder de Morais não é lá um exemplo de político e de senador, mas a perda de um espaço como este para um já cambaleante DEM é mesmo um murro no estômago. Não que Ronaldo Caiado nunca o tenha levado – afinal, sua história recente mostra que os murros vêm de todos os lados e muitas vezes porque ele mesmo se dá este golpe através de sua postura – mas este é definitivamente um item complicador para suas projeções em 2018.

Por enquanto, no mundo da sedução política, o PT goiano reage na corte para 2016 e ganha a atenção do objeto mais disputado. Além disso, ou até mesmo independentemente da confirmação desta aliança com o PMDB, o investimento na cidade no valor divulgado representa a volta por cima de Paulo Garcia. E isto também pode naturalmente se transformar na criação das bases lógicas para o lançamento de uma candidatura com reais chances de aceitação popular.

Neste mundo das possibilidades, como diria Iris, pode ser “menina Accorsi” pinte por aí.

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Regenildo Rios

Antes de Iris 2005, Goiânia era admirada como cidade grande relativamente tranquila; depois, estamos entre as 20 mais violentas do planeta. É mais disso que você quer, goianiense / goiano ? [email protected]