Heróis no combate à Covid são vítimas de violência no front

Hostilidade a agressões contra profissionais médicos se agravaram durante a pandemia. Medo e insegurança passaram a ser rotina nos atendimentos

A violência contra os profissionais de saúde não é resultante da pandemia do coronavírus, mas é evidente que a crise sanitária causada pela Covid-19 potencializou as agressões a quem está no front. A contaminação segue avançando e dentre os inúmeros impactos que ela traz consigo, estão a fragilidade e a insegurança para quem trabalha salvando vidas.

No começo da pandemia foram muitos os vídeos que mostravam aplausos para os profissionais da saúde. Com toda a razão, receberam títulos de heróis. Porém, esse não é o tratamento que recebem cotidianamente.

A violência se faz presente em todos os cantos e em  diferentes  contextos, mas os postos de saúde e pronto-atendimentos ficaram mais suscetíveis, justamente por serem “portas de entrada” de quem acessa serviços de saúde.

Segundo a Organização Mundial de Saúde, 8 em cada 10 profissionais de saúde já foram vítimas de algum tipo de agressão física ou verbal. Esse dado antecede a pandemia e por isso os relatos dos profissionais que estão atuando no enfrentamento a Covid, nos leva a crer que esse cenário conseguiu atingir um estágio ainda mais grave.

Na última semana um casal invadiu uma sala do Cais do Bairro Goiá para agredir um médico – que naquele momento estava entubando um paciente que tinha dificuldades em respirar. Aos gritos a mulher, que havia sido classificada como de baixo risco de urgência, exigia o atendimento, pois estava em busca de um encaminhamento para fazer teste para Covid-19.

No vídeo gravado por um celular observa-se o quanto de violência a mulher e o companheiro usaram para tentar ganhar na “unha” a prioridade na fila para consulta. O médico ficou com várias marcas de arranhões no pescoço. Segundo colegas de trabalho,  essa foi a terceira agressão que ele sofreu enquanto trabalhava. Cansado de ser vítima desse tipo de violência, o profissional pediu demissão.

Na primeira semana de julho um outro caso ocorrido em Minas Gerais revelou as reações que os protocolos exigidos para os casos da Covid podem provocar em pacientes e familiares. Uma policial civil invadiu o Hospital da Baleia, em Belo Horizonte. Armada, ela ameaçou todos os profissionais e pacientes que estavam na recepção, com o objetivo de ver o irmão, que morreu em decorrência do novo coronavírus. Em casos assim o protocolo impõe que familiares não tenham acesso ao corpo. A policial só foi contida com a chegada de colegas da delegacia em que ela trabalhava. 

Agressões rotineiras

Cais do Bairro Goiá | Foto: reprodução

“Ficou mais perigoso para o profissional trabalhar. As pessoas chegam bem nervosas e tensas. As ameaças são o tempo todo. Acho que é uma forma que as pessoas veem de colocar a culpa do isolamento e da Covid em alguém. Encontram nas enfermeiras, atendentes, médicos e até o pessoal da limpeza, como um alvo.” O relato é uma profissional de saúde que trabalha no Cais do Bairro Goiá, que por medo pede o anonimato.

Ela diz há muitos anos trabalha no atendimento à saúde e que sempre houve ameaças, alguns casos terminavam em agressões físicas. Mas ela avalia que desde o começo da pandemia isso se tornou mais frequente e intenso.

Testemunhos de agressões em unidades de saúde de Goiânia sempre deságuam no Sindicato dos Trabalhadores do Sistema Único de Saúde no Estado de Goiás (Sindsaúde). E lá as queixas aumentaram no período relacionado pandemia. A vice-presidente do sindicato,  Luzinéia Vieira dos Santos, confirma que sempre houve muitas reclamações de agressões e que de fato os casos se agravaram nos últimos três meses.

“Além do profissional estar submetido a uma carga de trabalho excessiva, tem a questão da saúde mental que também fica abalada. O nível de estresse é muito elevado”, diz a sindicalista. “Temos vivenciado a escassez de testes (de Covid) nas unidades de saúde, então muitas vezes as pessoas chegam numa angústia para saber se são portadoras da Covid. Querem ser testadas. Quando não encontram, partem para agressão”, completa.

Luzinéia afirma que a pandemia exacerbou a violência contra os profissionais de saúde e cobra que haja atenção para a segurança. “Precisa ter a presença do guarda nas unidades. É clara a falta de compreensão das pessoas aos protocolos que as impedem de se despedir de um parente que morreu por Covid, porque precisa ficar isolado ou mesmo porque tem que usar máscara. Tudo isso gera um atrito que pode terminar em violência”, avalia. 

“Os profissionais estão amedrontados e se sentindo desprotegidos”

A constatação de que a violência aumentou contra os profissionais de saúde também foi feita pelo Sindicato dos Médicos do Estado de Goiás (Simego). Segundo a presidente da entidade, Francine Leão, o alerta sobre a situação de risco dos médicos já foi feito às autoridades.

“Definitivamente não está fácil trabalhar no front nesses últimos meses. A pandemia exacerbou as fragilidades do sistema de saúde e o esgotamento dele. A população que encontra-se mais impaciente e emocionalmente fragilizada, não colabora com os profissionais para melhor assistência nesse momento. Temos vivenciado agressões verbais diariamente. Agressões físicas com frequência. Insinuações de incompetência ou de corrupção ocorrem por vezes.”

Francine aponta que os profissionais médicos chegaram a exaustão e que a população tem se mostrado cada vez mais impaciente. “Além da dificuldade de terem empatia diante do distanciamento, temos dificuldade com a comunicação, já que as pessoas não entendem os protocolos”, afirma.

Segundo a presidente do Simego, quando a Covid resulta na morte do paciente, esse se torna o momento mais crítico dentro das unidades de saúde. “É quando sofremos mais acusações. Precisam culpar alguém. Os profissionais estão mais próximos e indefesos.”

Impaciência é maior com o SUS

Foto: Marcello Casal/Ilustrativa/Agência Brasil

A Prefeitura de Goiânia reconhece que a violência contra os servidores da saúde aumentou e que as agressões estão relacionadas a pandemia. Para o superintendente de Gestão de Redes de Atenção à Saúde, Silvio José de Queiroz, a impaciência que resulta em violência é maior nas unidades públicas. 

“As pessoas pagam caro por uma consulta particular e esperam por horas. Isso sem se queixar. Infelizmente no SUS quando espera por uma hora quer bater na enfermeira ou quebrar a unidade”, indica Silvio.

O superintendente diz ter a percepção de que na maioria das vezes o agressor é um paciente que não necessita de um atendimento urgente, mas mesmo assim deseja ter prioridade. “O caso da agressão no Cais do Bairro Goiá ilustra isso. A pessoa aparentemente não precisava de um atendimento de urgência e emergência. Ela fez a ficha na recepção e foi direto buscar atendimento com o médico, que ele estava entubando um outro paciente. Ela queria um pedido de exame PCR para Covid.” 

Sobre a garantia de segurança para os profissionais de saúde nas unidades geridas pela Prefeitura, Sílvio diz que tem sido feito o possível junto a Guarda Civil Metropolitana de Goiânia. No entanto, a corporação também foi impactada pela pandemia e teve seu quadro reduzido.

“Há mais de um mês os guardas foram retirados das unidades de saúde de urgência, também das de saúde mental e as unidades básicas. Nós temos tentado através do diálogo retornar, mas a Guarda informa que estão com déficit de pessoal. Muitos são do grupo de risco e tiveram que ser afastados e outros foram positivados e também não podem trabalhar. Isso tem deixado inviável eles darem apoio para gente”, relata.

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