Governo anuncia fim da recessão, mas mercado não parece tão otimista

Com a divulgação dos dados do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro no primeiro trimestre de 2017, presidente Michel Temer tentou passar a imagem de que País caminha no rumo certo, o que ainda gera muitas dúvidas

Crescimento de 1% no PIB do primeiro trimestre em relação ao último do ano passado foi puxado pela boa safra de milho e soja

Augusto Diniz

A semana foi marcada pelo anúncio do resultado do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro no primeiro trimestre, o intervalo entre janeiro e março de 2017. Com crescimento de 1% depois de oito períodos anteriores de queda no PIB, que amargou dois anos ladeira abaixo, o presidente Mi­chel Temer (PMDB) anunciou na quinta-feira, 1º, em sua conta no Twitter que a crise econômica começou a ser superada. “Acabou a recessão! Isso é resultado das medidas que estamos tomando. O Brasil voltou a crescer. E com as reformas vai crescer mais ainda.”

Com um crescimento de 13,4% em comparação com o último trimestre de 2016, a agropecuária ajudou e muito para que a verificação do resultado do PIB trimestral do início deste ano fosse fechada em alta de 1%. As já aguardadas grandes colheitas na agricultura, com expectativa de 113 milhões de toneladas de soja e 92,8 milhões de toneladas de milho na safra 2016/2017, fizeram a economia respirar ares de recuperação e propiciaram o cenário de otimismo anunciado pelo governo federal.

Depois de uma sequência de quedas no ano de 2016, a exportação de bens e serviços também registrou alta. Nesse setor, a comparação do primeiro trimestre de 2017 com o último do ano passado aponta para um salto de 4,8% no que foi vendido para outros países. Enquanto as importações subiram 1,8% em um momento de contenção de gastos e redução de investimentos.

Outro número positivo vem da balança comercial, com superávit de US$ 7,66 bilhões em maio, superior aos US$ 6,43 bilhões do mesmo mês em 2016 e confirmado como um recorde para qualquer mês desde 1989 pelos dados do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (Mdic). Entre janeiro e maio de 2016, esse saldo positivo era de US$ 19,68 bilhões. No igual período deste ano, o superávit já chega a US$ 29,03 bilhões, com crescimento de 47,5% em comparação com os quatro primeiros meses de 2016.

O problema é que esse otimismo com a recuperação da economia brasileira esbarra em números preocupantes. A série de trimestres de retração da indústria brasileira teve uma pausa com crescimento das atividades do setor em 0,9% no primeiro trimestre em comparação com os últimos três meses do ano passado. Mas isso dentro de um cenário de queda de 2,4% no acumulado dos quatro trimestres mais recentes.

A nação enfrenta um grave problema de desemprego com um crescimento tímido na oferta de vagas no mercado de trabalho e um número que chegou a cerca de 14 milhões de desempregados. O consumo das famílias brasileiras sofreu queda de 0,1% no primeiro trimestre de 2017 ao lado do consumo do governo, que retraiu 0,6%.

Nó da crise

O agravamento da crise política, a partir da deflagração da Operação Carne Fraca no final de março deste ano, aumentou a incerteza do mercado financeiro e do produtivo a cerca da confiança em investir. Com a divulgação na noite de 17 de maio do áudio da conversa do presidente da Re­pú­blica com o empresário Joesley Batista, da JBS, no Palácio do Jaburu, em Brasília, ocorrida em 7 de março, o clima de desconfiança do setor econômico foi ampliado.

Tanto que no dia 31 de maio, o Comitê de Política Monetária (Copom) resolveu manter o corte na taxa básica de juros (Selic) na ca­sa de um ponto porcentual. O mer­cado aguardava uma redução mais agressiva, que pudesse chegar a um mínimo de 1,25 ponto. Mas o momento obrigou o Banco Central (BC) a adotar uma postura econômica mais conservadora, principalmente pela incerteza aumentada no mercado financeiro e produtivo a partir da ampliação da crise política no governo federal.

O que o ministro da Fazenda Henrique Meirelles definiu como a saída da “pior recessão do século”, em declaração dada na quinta-feira após o anúncio do crescimento do PIB, pareceu para os economistas mais uma tentativa de criar um discurso de confiança e dar sustentabilidade ao governo. É bom lembrar que o século XXI começou em 2001 e tem apenas 16 anos e cinco meses. O século ao qual se refere Meirelles tem pouco mais de uma década e meia.

Esse discurso de confiança e superação do governo federal entra em choque com a previsão de crescimento do PIB em 2017 revisada pelo Instituto Brasileiro de Economia da Federação Getúlio Vargas (Ibre/FGV) na última sexta-feira, 2. O Ibre/FGV reduziu a expectativa de alta do Produto Interno Bruto brasileiro de 0,4% para 0,2% de janeiro a dezembro deste ano. Outro instituto que analisa o desenvolvimento econômico, o Comitê de Datação de Ciclos Econômicos (Codace), também não arrisca comprar as palavras de Temer e Meirelles como definitivas e diz que é prematuro concluir que a recessão acabou.

Variação lenta

Economista Nathan Blanche diz que expectativa de recuperação das finanças ainda está nos nomes da equipe econômica

Para o economista Nathan Blanche, da Tendências Consul­to­ria Integrada, os dados têm variado lentamente. “A resposta da economia vem com um trabalho um mês após o outro. A previsão de crescimento para este ano varia de 0% a 0,3% neste momento. A situação torna difícil apresentar qualquer cenário de curto ou longo prazo.”

Blanche lembra que o mercado tem atuado como um equilibrista de circo, que tenta sobreviver desde o início da série de quedas no PIB ainda no governo Dilma Rousseff (PT). “O que há de expectativa de crescimento da economia vem dos nomes colocados na equipe econômica do governo federal e o avanço gerado pela aprovação da PEC do teto de gastos no final do ano passado pelo Congresso”, explica.

Sem a aprovação das reformas trabalhista e da Previdência, o economista avalia que o governo federal pode chegar a uma situação de insolvência e se aproximar do estado de calamidade enfrentado por Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul. “Sem elas, de um a três anos o balão estoura. E aumentar tributos não gera aumento do PIB.”

Como em 2016 as grandes e médias empresas quase não registraram faturamento, pontua Blanche, a não resolução da crise política traria um impacto total na esperança que o mercado ainda tem na saída da recessão. “Se espera muito da equipe econômica. Mas a grande variável é a solvência fiscal se não quisermos voltar para a década de 1970. A política depende da economia e a economia depende da política.” O economista volta a criticar o governo Dilma, que teria assumido o poder com 51% na relação do tamanho da dívida pública com o valor do PIB e que teria saído do cargo com essa conta acima de 70%.

Tudo dependerá da economia, inclusive a eleição de 2018 passa primordialmente por esse resultado, seja lá qual for. “O desemprego precisa diminuir, a taxa de juros precisa continuar a cair. Mas já vemos piora nos fundamentos do corte da Selic.” A imagem que o governo construirá no processo eleitoral, na visão de Blanche, será um efeito do que a equipe econômica tiver feito até lá.

“Nós percebemos alguns investimentos sendo feitos, mas muito pouco capital de fora tem sido investido no Brasil. E até 2018 só a política pode recuperar a economia e acabar com esse momento de incerteza”, declara. Blanche demonstra medo de que o sucessor de Temer possa assumir um discurso demagógico e desconstruir a política econômica aplicada pela atual gestão. “A aposta do mercado é de que, caia o Temer ou não, precisa haver a sobrevivência da equipe econômica.”

Os tempos dos incentivos dados às famílias e às empresas com crédito subsidiado sem lastros acabaram, de acordo com o economista. “O recado da atual equipe é de que não há milagre mais. Não tem mais dinheiro. Se abrirem o BNDES para dar crédito vão explodir a inflação.” Apesar de ver falhas no controle financeiro brasileiro, Blanche afirma que o Real é uma “fita métrica que acaba com empresários ineficientes e governos demagógicos”, o que mostra que a moeda adotada em 1994 estabilizou de alguma forma os equívocos monetários do País.

“Vejo com tristeza e pesar essa bomba que aconteceu no País”

Deputado Giuseppe Vecci (PSDB) afirma que sinais claros de recuperação da economia podem ser abalados pela crise

A economia brasileira, na análise do economista e deputado federal Giuseppe Vecci (PSDB), já dava sinais visíveis, mesmo que graduais, de um início de recuperação. “Tínhamos o cenário da boa balança comercial, a geração mesmo que pequena de emprego, a grande safra e a queda da inflação. Eu vejo com tristeza e pesar essa bomba que aconteceu no País”, afirma Vecci ao comentar a gravação da conversa entre o presidente Temer e o empresário Joesley Batista, da JBS.

Mas vê com bons olhos o registro do primeiro PIB positivo depois de dois anos com queda nos números brasileiros. “O governo, mesmo com toda impopularidade, começou a aprovar uma agenda programática de reformas que ajudam a dar fôlego à economia, como a PEC do teto de gastos, a discussão das estatais e a tramitação das reformas trabalhista e da Previdência.”

No momento em que a tramitação das reformas do trabalho e da Previdência caminhava bem, segundo Vecci, veio a preocupação do mercado com a instabilidade política, o que pode atrapalhar a recuperação do País. “É preciso que se defina o que vai acontecer. Já estamos quase 20 dias nessa situação”, alerta.

O deputado lembra que se aguarda muito o dia 6 de junho, quando o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) pode definir os rumos do processo de cassação da chapa Dilma/Temer. “Não acredito que teremos uma definição nesse dia. Mas temos que dar suporte ao governo.” Em seguida, Vecci afirma que, seja com a continuidade do presidente ou a decisão por um novo nome no cargo, é preciso que o problema seja resolvido o quanto antes.

“Se a crise política não se resolver, teremos a reversão de todas as expectativas e investimentos feitos até agora com a crença na recuperação econômica ainda existente. Mas acredito que, apesar dos pesares, o País vai criar condições de definir esse impasse.” O tucano se mostra otimista com o empurrão que a agricultura deu na economia, o que teria dado condições para voltar a falar em recuperação. “O Brasil hoje é um carro embalado. E ele tinha que ser embalado por algo, que foi a grande safra de soja e milho. O problema é quando o carro ainda está parado. A agricultura deve puxar a retomada do crescimento dos outros setores com os seus resultados.”

Esse processo de alavancagem da economia por meio da colheita de soja e milho acaba por atingir outros setores, avalia Vecci. “Os indicadores são positivos. Só que eles vão depender dos desdobramentos da crise política. Se tiver o processo de impeachment do presidente Temer a solução virá. Mas uma solução mais rápida seria uma resposta melhor para a economia”, observa.

Paulo Afonso Ferreira, da CNI, diz que crescimento do PIB é uma boa sinalização do momento econômico

Para Paulo Afonso Ferreira, primeiro diretor secretário da Con­federação Nacional da Indústria (CNI), o Brasil não saiu da recessão. “Mas essa é uma sinalização extremamente positiva. Nós da CNI olhamos com cautela para esse resultado trimestral do PIB, mas comemoramos um bom número depois de tanto tempo no vermelho.” Ele defende uma política mais agressiva na queda de juros para criar um ambiente favorável aos novos investimentos.

“As reformas são imprescindíveis e dão um sinal muito bom para o mercado.” Ao reconhecer a agricultura como o principal vetor de recuperação da economia, Paulo Afonso destaca que é preciso fazer o dever de casa para que a indústria, mesmo que ainda de forma tímida, siga esse caminho de retomada do crescimento. “Houve um aumento baixo, mas houve, de empregos”, destaca.

O diretor secretário da CNI afirma que o primeiro passo precisava ser dado. Mas isso pode ser afetado pela crise política, que tem afetado, inclusive, a tramitação das reformas no Congresso. “O que nós precisamos é fazer com que a base política entenda que temos uma equipe econômica muito boa e precisamos seguir as orientações dadas por ela para buscar a recuperação do País.”

Pagando para trabalhar

Para o empresário Marduk Duarte, discurso de Temer é jogada para tentar sobreviver com base na economia

O empresário Marduk Duarte comanda duas empresas, a Ardrak, de produtos à base de gengibre, e a Matha Florestal, de tratamento de eucalipto. Nos últimos dois anos, ele foi obrigado a reduzir o quadro de funcionários contratados pelas duas empresas. Em uma, a queda de empregados foi de aproximadamente 30%, e na outra o corte chegou a 15%.

Com 66 funcionários contratados pelas duas empresas, Marduk informa que a queda no quadro de empregados precisou ser bem trabalhada, já que a produção precisava ser mantida no mesmo ritmo. “Era preciso fazer tudo isso dentro do possível para continuar com o mesmo trabalho. E para isso a gente está tirando do bolso para trabalhar.”

Ainda na espera do reflexo do resultado positivo do PIB no primeiro trimestre, o empresário relata que houve uma melhora nos números. “De novembro do ano passado a janeiro deste ano as áreas de madeira e alimentação praticamente pararam. A partir de fevereiro começou a dar uma melhorada. Em seguida a economia sentiu o baque da gravação envolvendo o presidente.” Marduk diz que o mês de maio foi o melhor desde a crise agravada a partir de outubro de 2016.

Ele afirma não acreditar que a recessão tenha acabado, com disse o presidente. “É mais jogada do Temer para se segurar no cargo com base nos números da economia. Nós só vamos sair da recessão quando o desemprego começar a diminuir.” Ele defende que o fiel da balança foi mesmo a agropeuária, que, mesmo com todos os problemas de logística e infraestrutura, segurou o crescimento do PIB. “Isso em um momento em que o valor de mercado para a carne está muito ruim”, ressalta.

A dúvida que fica é se as reformas terão cenário para serem aprovadas. “O País não tem outra opção a não ser fazer essas reformas. Por um lado vemos que a Previdência está quebrando o Brasil. E de outro temos de 2% a 3% dos empregados do mundo e 80% das ações trabalhistas mundiais.” Para ele, é preciso estabelecer uma relação mais dinâmica e correta entre empregadores e funcionários na legislação. “Temos casos de o valor das ações superarem o faturamento de uma empresa, o que quebra qualquer atividade”, reclama.

Sobre a situação delicada de Temer, o empresário afirma que é o momento de aceitar o governo e continuar com a agenda das reformas até o final de 2018 ou tirar o presidente logo do cargo e colocar alguém sério no lugar. “Quem está quebrando o País são os líderes no Congresso.” Marduk defende que a população deixe de lado brigas ideológicas e passe a se unir para que juntos a crise seja superada. “O brasileiro precisa de deixar de lado seus ladrões de estimação.”

Já o deputado federal e economista Thiago Peixoto (PSD) diz que a recuperação econômica é uma tendência forte que depende de ações do governo federal, principalmente a aprovação das reformas e a queda da inflação para dar condições de gerar novos empregos. “Tudo isso depende da continuidade da agenda econômica”, afirma.

Momento incerto traz para o mercado o pior cenário, o da imprevisibilidade, diz o deputado Thiago Peixoto (PSD)

“O esforço do governo estava em aprovar as reformas e agora está em manter o Temer no poder. Não há condições hoje de avançar nas reformas. A aprovação da reforma da Previdência já era. Talvez a trabalhista, como já foi aprovada na Câmara, consiga ser aprovada.” Thiago lembra que a instabilidade do governo coloca a economia em seu cenário mais preocupante. “Não há nada pior para a economia do que o imprevisível, tanto no setor produtivo quanto para o mercado financeiro.”

O parlamentar define o momento como muito frágil para imaginar qualquer solução. “Está todo mundo esperando o que vai acontecer. Não é possível saber se amanhã teremos um novo escândalo revelado pelas investigações. Tanto que o Banco Central e o Copom já ficaram mais conservadores na redução da taxa de juros”, observa o deputado do PSD.

Para ele, a discussão com base na agenda econômica precisa ser mantida. “O debate se prende hoje em nomes e bandeiras. Deveríamos ter uma política de estado, com continuidade, não uma política de governo.” Thiago critica o momento de polarização em que a pessoa se mostra favorável ou contrária a decisões de acordo com quem as toma: “Se fulano é a favor então eu vou ser contra. Isso é muito prejudicial”.

Sobre os resultados da agricultura, o pessedista lembra que esse é um setor que pode sofrer muito com o efeito JBS. “Outro problema que nós temos é que a indústria depende do consumo, mas como imaginar o poder de compra das pessoas aumentar com 14 milhões de desempregados?” Para Thiago, pela imprevisibilidade do momento político, a dependência que a economia tem da política deixa a situação muito ruim. “A perspectiva é bem negativa”, conclui.

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