Após mais de três décadas arrastando-se pelos tribunais, o Caso Evandro chegou, enfim, ao seu desfecho judicial em abril de 2026, quando o Supremo Tribunal Federal (STF) reconheceu o trânsito em julgado do processo. Para o país, era o encerramento formal de uma das histórias mais emblemáticas e controversas da crônica policial brasileira. Para Beatriz Abagge, porém, não se tratava apenas do fim de um processo — era o fechamento tardio de uma vida inteira marcada pela dor.

Para quem acompanhou o caso à distância, a trama parecia saída de um roteiro sombrio dos anos 1990: desaparecimento de uma criança, acusações de ritual satânico, histeria coletiva, personagens elevados à condição de vilões e reviravoltas que atravessaram décadas. Mas, para Beatriz e sua mãe, Celina Abagge, sequestradas e torturadas pela Polícia Militar do Paraná para confessar crimes que jamais cometeram, a história teve outro peso: o de uma existência rasgada pelo Estado.

Em entrevista exclusiva ao Jornal Opção, Beatriz relembrou os anos em que viveu sob o peso de acusações falsas, violência institucional e humilhações públicas. Hoje, aos 62 anos, ela fala sobre o caso não apenas como quem sobreviveu, mas como quem transformou o trauma em resistência.

Foi um processo muito longo. Eu tinha 28 anos e hoje estou com 62. Então foi uma vida toda em volta desse caso, mas sempre lutando. Sou uma pessoa que nunca desisto — a vida inteira lutei pela verdade.

Mesmo com a decisão definitiva da Justiça, Beatriz afirma que a batalha está longe de acabar. Para ela, ainda é necessário responsabilizar aqueles que cometeram os abusos para que o caso não desapareça da memória coletiva.

Celina e Beatriz Abagge em 2026 | Foto: Arquivo pessoal

Atualmente, é servidora pública como terapeuta ocupacional pela Prefeitura de Guaratuba (PR). Ela também construiu uma trajetória no Direito Criminal e afirma que pretende atuar na área na defesa de vítimas de violações de direitos humanos.

O caso não pode morrer. Temos legislação contra a tortura, mas isso não adiantou nada para mim. Este caso tem que servir de exemplo para que ninguém sofra nas mãos do Estado.

O desaparecimento de Evandro e a queda da família Abagge

No fim dos anos 1980 e início da década de 1990, o Paraná vivia sob o fantasma de uma série de desaparecimentos de crianças. Ao menos 28 pequenos sumiram naquele período, e a maior parte dos casos jamais foi esclarecida.

Mas o pânico coletivo ganhou contornos ainda mais intensos em 1992, com os desaparecimentos de Leandro Bossi e Evandro Ramos Caetano, ambos em Guaratuba. Diferentemente de outros casos, restos mortais atribuídos aos dois meninos foram encontrados pouco tempo após os desaparecimentos — embora, no caso de Leandro, a confirmação da identidade só tenha ocorrido em 2022, três décadas depois.

Filho de Ademir Batista Caetano e Maria Ramos Caetano, Evandro desapareceu em 6 de abril de 1992, a menos de 150 metros da escola onde estudava, ao retornar para casa para buscar um objeto. A demora chamou a atenção da mãe, funcionária da própria instituição, que acionou a polícia. Cinco dias depois, o corpo foi encontrado em um matagal próximo à rua Engenheiro Beltrão, em uma região pouco habitada do município.

Evandro Ramos Caetano tinha seis anos quando morreu em 1992 | Foto: TVGlobo / Auto do processo

O corpo foi encontrado em estado avançado de putrefação e sem diversos órgãos, escalpelado, e com as mãos e dedos dos pés amputados. O pai o reconheceu por uma mancha nas costas e por objetos na cena, como as chaves da casa.

Dossiê da Polícia Civil do Paraná sobre o Caso Evandro | Foto: PCPR / Autos do processo

O que veio em seguida foi uma investigação paralela conduzida por Diógenes Caetano, primo da família da vítima e rival político dos Abagge. O dossiê produzido por ele foi entregue à Polícia Civil (PC) e ao Ministério Público (MP) e apontava Beatriz e Celina como mandantes de um suposto “ritual satânico” devido às condições do cadáver.

Documentos de Diógenes e do MP apontam que o assassinato teria acontecido na serraria da família Abagge. Já o ritual mencionado se trataria de “trabalho espiritual” de oferenda a Exu (entidade das religiões de matriz africana), que os acusados praticavam.

Contudo, Beatriz rebate, afirmando que nunca foi achada qualquer prova material sobre o homicídio do menino dentro ou nas imediações do imóvel, como sangue ou restos humanos. As evidências defendidas pela promotoria e pelo MP eram ferramentas que poderiam ser utilizadas para assassinar e esquartejar um corpo, mas nenhuma prova de DNA foi encontrada nestes itens.

Por isso, os nomes de conhecidos da família na época foram incluídos no relatório como executores do assassinato do menino, sendo Osvaldo Marcineiro (pai de santo), Vicente de Paula Ferreira (pintor e pai de santo) e Davi dos Santos Soares (artesão). Segundo eles, as duas teriam contratado os outros investigados para fazer estes “trabalhos”.

Serraria da família Abagge onde a polícia apontou que o “ritual” foi executado | Foto: Reprodução / TV OM

Da mesma forma que a execução na suposta serraria, outros levantamentos apontados por Diógenes, e sustentados pelo MP e Polícia Civil, apresentam incongruências e faltas de provas substanciais. Isso inclui o álibi da própria Beatriz pela secretária de sua mãe, Maria José, que a viu em casa dormindo até tarde no dia do desaparecimento de Evandro, como era seu costume habitual.

Ainda assim, o material serviu de base para a Operação Magia Negra, conduzida com participação do Grupo ÁGUIA, da Polícia Militar do Paraná, que seria mais tarde protagonista das torturas e outras graves violações de direitos humanos contra os investigados.

O cárcere e a tortura

Nos dias 1º e 2 de julho de 1992, Beatriz e Celina foram presas junto a outros acusados sem apresentação de mandados judiciais. A notícia desencadeou um pânico moral que tomou conta do Paraná. A imprensa ajudou a consolidar a imagem das duas como as “Bruxas de Guaratuba”, em uma narrativa que se espalhou rapidamente.

Beatriz lembra que, no primeiro momento, não acreditava estar nas mãos da polícia. “Quando eles colocaram a gente no carro e nos cegaram com capuz, eu tinha certeza de que estávamos sendo sequestradas por bandidos. Nunca ia imaginar que aquilo era obra da polícia.”

Mãe e filha foram levadas para um local secreto no interior de Guaratuba, em uma chácara identificada pela imprensa como pertencente ao pai de Diógenes. Os homens presos no caso foram levados para outro imóvel, conhecido por ter pertencido ao ditador paraguaio Alfredo Stroessner.

O objetivo era arrancar confissões com o uso de violência extrema. A divulgação das fitas originais dos interrogatórios revelaria anos mais tarde o que aconteceu ali: sessões de tortura, ameaças, choques elétricos, gritos abafados e confissões ditadas pelos próprios policiais.

Não sabíamos por que estávamos sendo torturadas e nem o que eles queriam que falássemos. Eles foram ditando, e, se a gente errava, era choque elétrico.

Beatriz relata que permanecia vendada enquanto ouvia os gritos da mãe sendo torturada no quarto ao lado. O seu sustento durante este tempo, segundo ela, foram os pensamentos na crença e na família que a ajudaram a persistir.

Contudo, esse mesmo local de força foi utilizado pelo Grupo ÁGUIA com ameaças cruéis contra o pai e os três filhos de Beatriz. “Naquela situação, você fala aquilo que eles mandam, porque você tem certeza de que vão te matar e matar a sua família. Eles falavam que estavam com meu pai e com meus filhos e que iriam matá-los.”

Segundo ela, a família precisou fugir do Paraná para proteger as crianças que possivelmente estavam na mira da PM. “Minha irmã teve que fugir com os meus filhos porque os policiais foram batendo de porta em porta para sequestrá-los.”

No desespero, enquanto lutava para sobreviver as agressões, Beatriz tentava deixar rastros de que estava sendo coagida. Jogava peças íntimas no lixo, interrompia frases com expressões de hesitação e inseria sinais e afirmações de que não falava espontaneamente.

Eu sempre falava ‘hã, o quê’, para dizer que eles estavam me mandando falar.

Em alguns momentos, dizia frases como “eu estou inventando isso” e “meu Deus, isso não é verdade” em meio aos interrogatórios — trechos cortados nas versões editadas das fitas apresentadas nos julgamentos.

Foi um pensamento tão rápido na hora do desespero. Na época, eu tinha certeza de que a gente ia morrer.

O julgamento e as reviravoltas

Com as confissões forjadas e a pressão pública consolidada, o caso seguiu para julgamento.

Beatriz relata que, após o inquérito terminado e antes do primeiro júri, em 1998, o então secretário de Segurança, Moacir Favetti, teria demonstrado não apenas conhecimento das torturas, mas apoio a métodos ainda mais violentos. Segundo ele, Beatriz estava “contando tudo”.

“Mesmo com os meus advogados juntos, o secretário de segurança disse para o delegado, na frente deles, que ele ‘deveria ter torturado mais essa cadela, porque agora ela está contando tudo’.”

“O delegado deu risada.”

Os advogados Roberto Machado e Luiz Cláudio, segundo ela, recusaram-se a assinar as atas sem ressalvas, alegando que os depoimentos não haviam sido fielmente registrados.

O julgamento começou em 23 de março de 1998, em São José dos Pinhais, e durou 34 dias — o mais longo da Justiça brasileira à época.

Imagens do primeiro julgameno de Celina e Beatriz Abagge, em 1998 | Foto: Reprodução/RPC

Durante o primeiro dia da sessão, uma fita da confissão de Beatriz foi exibida. Em determinado momento, alguém da plateia gritou: “Olhe o braço dela!”

Era a imagem de um policial militar torcendo o braço de Beatriz para forçá-la a falar.

Nossos advogados ainda não tinham visto essa fita. Depois que alguém apontou aquilo, pediram para rebobinar.

A situação já evidenciou desde o início as violações de direito presentes na confissão, mas o detalhe foi totalmente ignorado pelo judiciário paranaense.

Ao fim do julgamento, Beatriz e Celina foram absolvidas pelo júri, que entendeu não haver prova de materialidade. Mas a decisão foi anulada pelo Tribunal de Justiça do Paraná (TJPR) em 2003.

Em 2011, Beatriz foi condenada a 21 anos e 4 meses de prisão, podendo recorrer em liberdade. No mesmo ano, ingressou no curso de Direito no Centro Universitário Campos de Andrade (Uniandrade), em Curitiba. Em 2016, ela recebeu um indulto baseado em um decreto presidencial do ano anterior. A mãe não foi condenada porque já tinha mais de 70 anos de idade, o que que levou à prescrição dos crimes para ela.

Segundo julgamento da família Abagge, em 2011 | Foto: Ivonaldo Alexandre / Gazeta do Povo

No mesmo ano, teria terminado o curso de Direito e ingressado no exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) para receber o registro da ordem. A sua meta é atuar na área para lutar contra violações de direitos semelhantes às que sofreu.

Reviravolta

A grande reviravolta do caso veio em 2018, dois anos depois, quando as fitas originais dos interrogatórios foram reveladas pelo jornalista Ivan Mizanzuk, no podcast do Projeto Humanos. Com as novas provas, a 1ª Câmara Criminal do TJPR revisou a sentença em 2023 e anulou a decisão da corte anterior, abrindo caminho para uma indenização civil pelo Estado.

Mesmo assim, o MPPR deu seguimento e ingressou com recurso para prender Beatriz, mesmo sendo revelados os áudios evidenciando torturas submetidas em interrogatório policial. As decisões, entretanto, foram confirmadas pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) e pelo Supremo Tribunal Federal (STF), em 2025 e 2026, respectivamente, encerrando definitivamente o caso e a uma odisseia dolorosa e impedindo novas fases e recursos jurídicos envolvendo a família Abagge.

Diante da anulação, o Estado do Paraná divulgou um pedido de perdão oficial pelo secretário da Justiça, Família e Trabalho (SEJUF), Ney Leprevost, pelas dores e sofrimentos perpetrados contra os acusados. Para Beatriz, isso representa um “momento histórico”, que nunca acontecera devido às enormes provas de crimes contra os direitos humanos cometidos pelo Executivo Estadual.

“A Justiça tardia ainda é uma vitória”

Para Beatriz, o fim do processo não representa um encerramento absoluto, mas o início de uma nova etapa.

Ela afirma que pretende buscar responsabilização criminal dos envolvidos nas torturas e levar o caso à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH). A intenção é obrigar o Estado brasileiro a identificar e responsabilizar cada policial torturador. “Sei o nome de todos os envolvidos, dos vivos e dos que já morreram. Por incrível que pareça, um é pastor de uma igreja evangélica.”

Beatriz e Celina Abagge, em 2021 | Foto: Divulgação

Além disso, diz que atua na execução de sentença por indenização civil e que o processo segue na Justiça paranaense.

Apesar da violência sofrida, Beatriz diz que não perdeu a fé na Justiça e segue firme na sua carreira. Outro ponto que pretende fazer é criar a Fundação Aldo Abagge de Direitos Humanos para trabalhar com presos e suas famílias.

Fiquei bem admirada com a Justiça e acho que ela está funcionando. Mesmo que digam que a Justiça é tardia, é uma grande vitória para alguém como eu, que viveu lutando e conseguiu no final.

Para Beatriz, a atuação do MP é descrita com profunda decepção, afirmando que o órgão falhou em seu dever constitucional de proteger a sociedade e os cidadãos. Ela afirma que o órgão cometeu um “equívoco enorme” e um erro histórico ao sustentar as acusações por décadas, recusando-se a voltar atrás mesmo diante de evidências de irregularidades.

Ao mesmo tempo, se diz indignada pelo fato de o Ministério Público, mesmo após o reconhecimento da tortura pelo STF e pelo Tribunal de Justiça, não ter aberto nenhum procedimento para identificar e responsabilizar os policiais envolvidos nas agressões.

Para ela, o pânico satânico serviu apenas para fabricar culpados e dar uma resposta rápida à imprensa. “O Estado decidiu prender e torturar a minha família, e todos os casos de crianças desaparecidas estavam ‘resolvidos’. Isso interrompeu qualquer busca real pelo verdadeiro assassino, que permanece livre.”

Ainda sobre isso, afirma que o município de Guaratuba nunca foi marcado pela intolerância religiosa antes do caso: “não existia discriminação na cidade”. Ela descreveu o município onde pessoas transitavam livremente entre as crenças, frequentando a igreja aos domingos e participando de festas em centros de Umbanda durante a semana, como o festejo tradicional de Cosme e Damião.

Contudo, os autos revelam uma mudança de paradigma, com multidões armadas que se dirigiam ao fórum de Guaratuba para linchar os investigados pelos homicídios.

Sobre o Caso Evandro, ela diz se solidarizar com a família do menino, mas sustenta que a falta de uma solução real é consequência direta do fracasso do Estado em investigar corretamente o crime. “Ainda não sabemos o que aconteceu com aquelas crianças. Imagine um pai que não sabe o que aconteceu com seu filho a vida inteira”,

Diante desta jornada, conclui com a frase que ainda resume a ferida aberta por décadas:

Uma coisa que temos que lutar e ter em mente é que as violações de direito aconteceram com a minha família. Amanhã pode acontecer com a sua, com o meu vizinho, com qualquer um.

Confira o infográfico do Caso Evandro:

O Jornal Opção entrou em contato com os três órgãos paranaenses mencionados na reportagem ao longo da semana, mas não recebemos o retorno até a publicação desta reportagem. O espaço permanece aberto para futuros posicionamentos.