Excluídos do PMDB vão formar nova frente política em Goiás

Principais atores do novo bloco formado por PT, PSB e Pros devem protagonizar o processo eleitoral de 2016 com condições de derrotar Iris Rezende em Goiânia. Grupo se unirá para o pleito municipal, mas o objetivo maior é 2018

Iris Rezende vai abrir mão do PT para ter Ronaldo Caiado em seu palanque nas eleições 2016 em Goiânia | Fotos: Fernando Leite/Jornal Opção

Iris Rezende vai abrir mão do PT para ter Ronaldo Caiado em seu palanque nas eleições 2016 em Goiânia | Fotos: Fernando Leite/Jornal Opção

Frederico Vitor

A parceria entre Iris Re­zen­de (PMDB) e o se­na­dor Ronaldo Caiado (DEM), uma aliança que não abre espaço para o PT, vai provocar o surgimento de um novo grupo político. São forças excluídas dessa união entre o decano peemedebista e o líder do Democratas em Goiás. A nova frente, que poderá protagonizar o processo eleitoral municipal de 2016, com vistas a 2018, terá como principais aliados o PT do prefeito de Goiânia, Paulo Garcia, e o PSB do empresário Vanderlan Cardoso. O megaempresário José Batista Júnior, o Júnior Friboi, que foi expulso do PMDB nesta última semana, deve se juntar à nova frente já pensando na possibilidade de candidatura ao governo nas eleições de 2018.

O que transparecia ser uma parceria douradora, indivisível, entre PMDB e PT, há tempos vem apresentando fissuras, e tudo indica que a total separação se efetivará na medida em que vai se aproximando o processo eleitoral de 2016. Desde o final das eleições de 2014, o prefeito Paulo Garcia tem administrado a capital com mais autonomia e independência em relação a seu mentor político, o líder peemedebista Iris Rezende. O estilo solto do prefeito petista de governar Goiânia inaugurou uma nova fase em que o Paço cultiva boa relação com o governo estadual.

Na medida em que Paulo dialoga republicanamente com o governador Marconi Perillo (PSDB), Iris e Caia­do consolidam as bases de uma aliança entre PMDB e DEM, calcada em um discurso moralizador, que se inflama em cima do desgaste do PT a nível nacional e municipal. A retórica inflamada também tem outro alvo, o governador.

O distanciamento de Paulo de Iris não significa que o petista queira se distanciar do PMDB. Afinal de contas, o prefeito é cria do líder peemedebista e é leal a ele. Contudo, Iris não quer se aproximar de Paulo, e tem feito de tudo para se afastar da aliança com o PT, em prol do aprofundamento da parceria política com Caiado. Como se sabe, DEM e PT não podem subir no mesmo palanque e compartilhar do mesmo projeto político. A relação entre as duas legendas é como água e óleo, não se misturam. Noutras palavras, onde Caiado estiver, o PT não fica.

O senador do DEM surfa numa onda de popularidade em vista do momento delicado da política nacional. As intermináveis fases da Operação Lava Jato, desencadeada pela Polícia Federal que investiga esquemas de corrupção na Petrobrás, minam a imagem da presidente Dilma Rousseff (PT) e de seu partido. Dilma amarga baixos índices de popularidade e Caiado faz duras críticas a seu governo, sustentando um discurso moralizador que ganha cada vez mais eloquência no seio da sociedade. O líder do Democratas se divide entre a política nacional e a estadual. Ao mesmo tempo em que direciona sua metralhadora giratória ao governo do PT, ele também mira a gestão estadual e a Prefeitura de Goiânia, de Paulo Garcia.

Júnior Friboi garante estrutura em troca de apoio no pleito de 2018/ Vanderlan Cardoso quer PSB, PT e apoio de Friboi em Goiânia / PT de Paulo Garcia está cada vez mais distante do PMDB | Foto: Fernando Lite / Jornal Opção

Júnior Friboi garante estrutura em troca de apoio no pleito de 2018/ Vanderlan Cardoso quer PSB, PT e apoio de Friboi em Goiânia / PT de Paulo Garcia está cada vez mais distante do PMDB | Foto: Fernando Lite / Jornal Opção

Mas Iris não enxerga em Caiado somente popularidade e apelo eleitoral. Isto, o líder peemedebista já tem. Iris vislumbra no senador a possibilidade dele e de seu partido serem beneficiados pela onda moralizante que o líder do DEM inspira no consciente de considerável parcela do eleitorado. Da mesma forma que Iris vai necessitar de Caiado para se fortalecer em Goiânia, o PMDB estará dependente do senador do DEM para promover as candidaturas peemedebistas nos demais municípios do Estado. Em troca, o PMDB vai ter que apoiar uma possível candidatura de Caiado ao governo do Estado em 2018 — isto se ele não embarcar em um projeto nacional. Mas Iris não tem um bom histórico de cumprir acordos, na verdade, ele é um exímio demolidor de tratados.

Armando Vergílio deve voltar a se aliar a Iris e Ronaldo Caiado | Foto: Renan Accioly

Armando Vergílio deve voltar a se aliar a Iris e Ronaldo Caiado | Foto: Renan Accioly

Enquanto esta aliança segue seu curso natural, Iris e Caiado terão a companhia de uma terceira força já conhecida por ambos. Tra­ta-se do Solidariedade, do ex-deputado Armando Vergílio, que já compôs com os dois líderes nas eleições de 2014. Armando pode ser o vice de Iris na candidatura à prefeitura, garantindo à chapa uma forte estrutura para uma eleição que promete ser muito disputada. Por enquanto, o cacique do Solidarie­da­de é discreto. Ele, que garantiu a eleição a deputado federal de seu filho, o jovem empresário Lucas Vergílio, nunca economizou em suas campanhas, e sem dúvidas para 2016 não será diferente.

Fogo cruzado
Desenhado este cenário, não seria grande surpresa o fogo cruzado entre Caiado e Paulo nos últimos dias. O senador e o prefeito se estranharam em entrevistas cedidas ao Jornal Opção Online, que foi palco de troca de acusações e críticas mútuas. Tudo começou após uma reunião entre Caiado e a bancada do PMDB. O líder do DEM deu a aliança de sua legenda e o PMDB para 2016 como acertada, excluindo o PT do bloco. Em resposta, Paulo disse que o senador deveria “trabalhar mais e falar menos”. Caiado por sua vez chamou o prefeito de “inoperante” e a troca de farpas se seguiu.

Na semana passada, o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), oficializou seu rompimento pessoal com o governo federal. O fato comprova que também há frestas entre o PT e o PMDB a nível nacional. Claro que não há correlação do que ocorre em Brasília com Goiás. Mas existe alguma influência. Afinal, porque Caiado, que é uma figura nacional, se aliaria ao PMDB goiano? É preciso pensar que o líder do DEM trabalha com dois objetivos: um nacional e um estadual. Os dois são viáveis para ele.

Vanderlan tem no PT um aliado preferencial

Como para o bom entendedor meia palavra é o suficiente, está mais do que evidente que é impossível um acordo entre DEM e PT para as próximas eleições. Mais claro ainda é a preferência do PMDB em seguir com o DEM no ano que vem, restando ao PT a busca por um novo parceiro político que tenha capilaridade eleitoral tanto na capital quanto no interior. E este novo aliado já existe. Trata-se do ex-prefeito de Senador Canedo e presidente estadual do PSB, Vanderlan Cardoso.

O empresário já se tornou um velho conhecido do eleitorado goiano. Desde 2010, ele tem tentado, sem sucesso, ser eleito governador, após duas administrações bem sucedidas e muito bem avaliada no município de Senador Canedo, na região me­tro­politana da capital. Em 2010, quando ainda era filiado ao PR, Van­derlan foi o candidato do ex-go­vernador Alcides Rodrigues (à época no PP e atualmente no PSB) a sucessão estadual. Na­que­le pleito ele não passou do primeiro turno, terminado o processo como o terceiro mais bem votado.

Preterido por Iris

Passada a campanha, o empresário saiu do PR para desembarcar no PMDB, com a esperança de ter na legenda um porto seguro que o cacifasse para 2014, com chances reais de vencer as eleições ao governo. Porém, Vanderlan tinha esquecido que a sigla já tinha um dono que não negociava espaço. O empresário foi obrigado a deixar o partido. Depois de muita discussão e troca de acusações Vanderlan efetivou sua desfiliação do PMDB em junho de 2012.

Após passar um período sem integrar as fileiras de nenhuma legenda, Vanderlan herdou de Júnior Friboi a presidência regional do PSB. Nas eleições de 2014, mais uma vez ele se candidatou ao governo, encerrando o pleito de novo como terceiro mais bem votado — outra vez atrás de Marconi e Iris.

O resultado que, aparentemente po­deria ser interpretado como mais um fracasso do empresário nas urnas, na realidade revelou uma possibilidade interessante: a Prefeitura de Goiânia. Ao final do primeiro turno das eleições 2014, o candidato do PSB capitalizou mais de 170 mil votos, ou 24,30% do total. Este bom resultado, inserido ao momento atual da política, que sinaliza para uma tendência do eleitorado em buscar renovação, tem incentivado Vanderlan a entrar na disputa pela prefeitura com o maior orçamento de Goiás. Mas ele não pode se aventurar sozinho, há a necessidade do líder socialista compor com outro partido que tenha capilaridade na capital.

Petistas agregam capital político, e Friboi garante estrutura
Adriana Accorsi herdou capital político do pai em Goiânia / Edward Madureira atinge o eleitorado formador de opinião | Foto: Fernando Leite/ Jornal Opção

Adriana Accorsi herdou capital político do pai em Goiânia / Edward Madureira atinge o eleitorado formador de opinião | Foto: Fernando Leite/ Jornal Opção

Diante destes fatores, o mo­mento é propício para a formação de uma aliança entre PSB e PT. Neste período em que Paulo Garcia se desata de Iris, há espaço para que o prefeito e os dirigentes petistas iniciem conversações com outras forças políticas, como o PSB de Vanderlan. Ainda que exista queda da sua popularidade, o PT tem apelo eleitoral em Goiânia e cresceu no interior, conquistando 16 prefeituras nas eleições de 2012.

Tradicionalmente, a sigla do prefeito Paulo Garcia sempre manteve uma linha combativa na capital e, nos últimos 25 anos, conseguiu eleger três prefeitos: Darci Accorsi, Pedro Wilson e Paulo Garcia. Com a máquina municipal sob seu comando, o partido não vai abrir mão de entrar na disputa, nem que se limite a indicar o vice de um aliado, como Vanderlan. E nomes não faltam n o PT.

A deputada estadual Adriana Ac­corsi (PT), por exemplo, é um quadro importante em Goiânia e seria uma vice sob medida para Vanderlan. Filha e herdeira política do ex-prefeito Darci Accorsi, ela recebeu mais de 30 mil votos (do total de 43 mil) somente na capital. Outro nome a ser considerado é do ex-reitor da Universidade Fe­deral de Goiás (UFG) Edward Madureira Brasil. Embora tenha terminado as eleições de 2014 com derrota a deputado federal, o professor foi o terceiro mais bem votado em Goiânia com pouco mais de 32 mil votos.

Do mesmo modo que o presidente do PSB é conhecido como gestor eficiente, com administrações marcantes à frente da Prefeitura de Senador Canedo, Edward é reconhecido como o administrador que comandou de forma magistral a importante expansão da UFG. O ex-reitor agregaria a Vanderlan um capital político qualificado e formador de opinião.

Estrutura de Friboi

Se Vanderlan tem nome, o PT estrutura, o financiamento deste novo bloco em formação ficaria por conta de Júnior Friboi. O megaempresário tem uma trajetória parecida com a do ex-prefeito de Senador Canedo, no que se refere ao fracasso em tentar se estabelecer como liderança no PMDB. Friboi não deve galgar nada em 2016, mas sim em 2018. Ele deverá participar do processo do ano que vem como financiador e apoiador de candidaturas, com objetivo de pavimentar um projeto maior nas próximas eleições ao governo estadual.

O destino natural de Júnior Friboi é o Pros, sigla que ajudou a fundar. Aliás, a legenda já abriga ex-peemedebistas que entraram em choque com Iris, como Marcelo Melo. Pelo Pros, ele vai disputar o Executivo municipal de Luziânia, a maior municipalidade da região do Entorno do Distrito Federal. Como se nota, o novo bloco formado pelo PSB, PT e Pros, financiado por Júnior Friboi e capitaneado por Van­derlan Cardoso e o PT, tem condições de derrotar Iris Rezende em Goiânia. Não vão faltar a este novo bloco nome de peso, base eleitoral e, se Friboi aderir ao projeto, estrutura.

Marconi não quer assistir nova vitória de Iris em Goiânia
Marconi quer base aliada fortalecida para disputar a prefeitura da capital

Marconi quer base aliada fortalecida para disputar a prefeitura da capital | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Marconi sabe que está na hora de sua base aliada vencer as eleições em Goiânia. Desde 1996, quando Nion Albernaz derrotou o então peemedebista Luís Bit­tencourt, um tucano não coman­da o Paço municipal. A tarefa não será simples, mas o Palácio das Es­meraldas se anima com a ideia de ter um aliado na prefeitura da capital. Tradicionalmente, os candidatos do governo não conseguem ganhar eleições na maior cidade do Estado, e os cientistas políticos ainda não encontraram uma resposta satisfatória para o caso. Será chegada a hora de este tabu ser superado?

A missão principal de Marconi é não permitir que Iris vença na capital. Se o líder peemedebista conquistar de novo o maior co­légio eleitoral do Estado, ficará como séria ameaça ao grupo do go­vernador. Isto porque Iris se cacifa ao governo em 2018 ou transfere vo­tos para o já prestigiado Caiado. Um dos dois deve ser candidato ao governo daqui a três anos e serão du­ros adversários em um pleito em que Marconi não poderá ser candidato.

O nome mais ventilado do PSDB de Goiânia para disputar a pr­e­feitura é o presidente da Agên­cia Goiana de Transportes e Obras (Agetop), Jayme Rincón. Um workaholic, ou seja, incansável auxiliar do primeiro escalão do governo, a autarquia presidida por ele teve papel fundamental no êxito eleitoral de Marconi em 2014. A implantação, construção, reforma, ampliação e manutenção de rodovias, prédios e equipamentos públicos, notadamente em Goiânia, teve reflexo direto na figura do gestor Marconi, resultando em votos que lhe valeram a reeleição.

A base aliada tem outras opções para Goiânia, como os deputados estaduais Virmondes Cruvinel Filho (PSD) e Francisco Júnior (PSD). No próprio ninho tucano há os deputados federais Waldir Soares (Delegado Waldir) e Fábio Sousa. O primeiro foi recordista de votos no pleito do ano passado ao Legislativo federal e, somente em Goiânia, o polêmico delegado de polícia recebeu 178 mil votos do total de 274 mil. Já Fábio Sousa tenta pela terceira vez se firmar como candidato da base do governador, mas, desta vez, as possibilidades se tornaram muito mais difíceis em vista da grande quantidade e qualidade dos nomes que se apresentam.

Delegado Waldir tem eleitorado  / Jayme Rincón é uma aposta tucana | Fotos: Fernando Leite/ Jornal Opção

Delegado Waldir tem eleitorado / Jayme Rincón é uma aposta tucana | Fotos: Fernando Leite/ Jornal Opção

Pelo que se desenha, o novo bloco político em formação (PT, PSB e Júnior Friboi) faria um acordo com o candidato do governo à Prefeitura de Goiânia. Isto é, no primeiro turno seria cada um por si, para na segunda etapa se unirem contra a máquina eleitoral de Iris e de Caiado. O que está em jogo não é apenas a Prefeitura de Goiânia, mas sim a vantagem da hegemonia dos grupos políticos que medirão forças em 2018.

O PSDB não deseja avançar apenas em Goiânia. Das três maiores e mais importantes cidades goianas, atualmente, nenhuma é governada por um tucano ou aliado do governo. Aparecida de Goiânia, por exemplo, é administrada pelo peemedebista Maguito Vilela. Aná­polis segue com o PT. Con­si­derando a tática “se não posso com o inimigo, me alio a ele”, o PSDB anapolino pode compor a chapa de reeleição do prefeito João Gomes. No segundo mais rico município de Goiás, PSDB e PT não teriam problema em caminhar juntos (houve um caso antecedente em 2004), e há grandes chances do vereador tucano Fernando Cunha Neto compor a vice do petista João Gomes. Isso se Alexandre Baldy não entrar em cena com cartas na manga e anunciar candidatura com apoio do governador.

Seja qual for o desfecho da mo­vimentação dos partidos até junho do próximo ano, o radicalismo de Iris e Caiado, juntamente com a estrutura de Armando Vergílio, está empurrando o PT à busca por novos aliados, formando assim uma nova frente política. Se de fato o grupo for integrado pelo PSB, PT e Júnior Friboi, não resta dúvida de que este bloco terá plenas condições de vencer Iris em Goiânia, muito provavelmente com Vanderlan. Mais: a aliança terá peso considerável em 2018.

Até onde vale a pena o PMDB se desatar do PT para abraçar Caiado, dono de um partido de um “homem só”? Seja lá qual for a resposta, a queda de popularidade do PT em níveis nacional e local e a onda moralista encarnada por Caiado vão embaralhar o jogo político no Estado.

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Caio Maior

“Os Excluídos” é uma denominação adequada para determinados políticos num possível futuro próximo. Quem guiará Vanderlan numa peregrinação por Goiânia? Ele já conhece a cidade? E Friboi? Alguém na capital – além dos assessores – o conhece? Ele vota aqui? Em qual Zona Eleitoral? Sabe-se que esse empresário nunca sequer frequentou algum local público em Goiânia. Quanto a Paulo Garcia – com a “popularidade” a sua “gestão” desfruta… será divertido ver esse senhor pedir votos para qualquer candidato em Goiânia! Provavelmente esses serão os excluídos das urnas!

Denis Robson

Qualquer um que se aliar a esse PT,será derrotado!!!