Eleições? Brasileiro quer saber se Neymar será o craque da Copa

Na metade do primeiro tempo do jogo entre Brasil e Costa Rica, ruas e avenidas estavam vazias, nem parecia uma manhã de sexta-feira

Depois de fazer seu primeiro gol na Copa do Mundo na Rússia, Neymar desaba em lágrimas no gramado | Foto: Jamie Squire/FIFA via Getty Images

“Mimado, resmungão, dramático e trapaceiro”, dizia a im­pren­sa britânica. “Aquele gol significou muito para Neymar Júnior”, descrevia as fotos do jogador brasileiro emocionado ao final da partida um perfil de futebol no Twitter. “Irmãos gêmeos nascem na hora do gol de Neymar contra a Costa Rica: ‘inesquecível’, diz médica”, noticia o G1 de Porto Velho (RO). Mas o mais interessante é a informação que vem a seguir: “Antony e Arthur nasceram de parto cesárea no Hospital de Base de Porto Velho. Avó diz que gostaria de chamar um dos netos de ‘Antoneymar’”.

Há 105 dias – pouco mais de três meses – do domingo 7 de outubro, quando os brasileiros irão às urnas no primeiro turno das eleições para escolher seu presidente, governadores, senadores, deputados federais e estaduais, você acha mesmo que a grande preocupação da maioria das pessoas está em qual serão os gestores em 2019? Pelas discussões nas ruas vazias e nas redes sociais desde a estreia do Brasil na Copa do Mundo com um empate em 1 a 1 com a Suíça, no domingo, 10, o tema que mais tem tomado o tempo de amigos e familiares é outro: a busca pelo hexacampeonato da seleção brasileira na Rússia e as atuações de Neymar, que é chamado carinhosamente de “menino Ney” e de forma pejorativa como “cai-cai”.

Às 9h15 de sexta-feira, 22, enquanto os 11 jogadores do Brasil em campo pressionavam a retranca costarriquenha no gramado do Estádio São Petersburgo, na Rússia, as ruas em Goiânia fugiam de uma manhã habitual de sexta-feira. Trânsito quase raro de veículos em todos os bairros, que voltavam suas atenções nos bares e casas para assistir ao empate em 0 a 0 com um futebol ainda longe do esperado no primeiro tempo da partida. A vitória não veio na etapa inicial, o que rendeu uma onda de críticas ao craque Neymar na internet.

Considerado intocável para parte dos torcedores e alvo de xingamentos e reclamações de outros, o “menino Ney” seguia individualista e sem muito brilho na partida no segundo tempo enquanto a entrada de Douglas Costa no intervalo substituindo Willian aumentava a pressão do Brasil sobre a defesa da Costa Rica. Neymar tentou simular pênalti, xingou o árbitro, soltou um “não me toque” em inglês, ofendeu verbalmente jogadores da seleção adversária, resmungou, deu tapa na bola, reclamou excessivamente e levou um cartão amarelo. E não seria exagero se tivesse sido expulso em dois ou três momentos diferentes da etapa final do jogo.

O melhor jogador do Brasil até o momento na Copa, Philippe Coutinho, fez seu segundo gol na competição aos 46 minutos, já nos acréscimos do jogo, e abriu o placar para a seleção. Seis minutos depois, Neymar receberia livre uma bola fácil de Douglas Costa e voltaria a cair nas graças torcida com o fim da partida: Brasil 2 x 0 Costa Rica. O choro ao final do jogo do ídolo maior da equipe brasileira dividiu a interpretação de narradores, comentaristas, jornalistas e todos que assistiam ao jogo. Era o alívio pela pressão, os três meses parado pela contusão, o gol libertador, desequilíbrio emocional, exagero. Cena que, vista pela televisão, foi recebida com emoção, indiferença, risadas, deboche e até reclamação de que teria sido algo forçado.
Cada um com sua interpretação, as discussões sobre a atuação do Brasil e o desempenho e postura em campo de Neymar seguiram na rua, no trabalho ou no churrasco que continuava onde as pessoas foram assistir ao jogo na manhã de sexta. O Brasil ainda precisa vencer a Sérvia para buscar a primeira posição no grupo ou apenas se classificar com um empate com os europeus na partida das 15 horas de quarta-feira, 27. Os brasileiros não deveriam estar mais preocupados com o futuro do País e deixar de lado a ocupação tão grande de tempo com a Copa do Mundo, que parte da população adora definir como “pão e circo” nas redes sociais?

Debate errado?
É possível fazer as duas coisas. Ou até deixar cada uma para ser debatida em seu momento certo. O presidente Michel Temer (MDB) foi criticado no Twitter por ter comemorado os dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged). “Acabo de receber os números do Caged. Foram criados mais de 33 mil empregos formais no mês de maio no Brasil, com destaque para o Sudeste e Nordeste. No acumulado do ano, passamos de 380 mil novos postos de trabalho.” Apesar do tom otimista de Temer, o número sofreu queda se comparado com o mesmo mês de 2017 e representa o pior resultado do emprego formal neste ano. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), já são 4,6 milhões os desempregados desalentados no País, aqueles que desistiram de procurar trabalho.

A Copa do Mundo é um dos eventos esportivos mais importantes do mundo. E que dura apenas um mês. Seja pequena ou grande a relevância que cada brasileiro dá para o assunto em sua vida, o momento eleitoral ainda é de muita indefinição. Ainda não tivemos as convenções partidárias, responsáveis por definir os candidatos de cada partidos nos Estados e no âmbito nacional, que só serão realizadas nos primeiros dias de agosto. Outro fator que não pode ser esquecido é o grau de desilusão da população com a classe política. As manifestações de junho de 2013, que começaram por lutas contra o aumento da tarifa do transporte público em diversas cidades, e que depois se tornaram um movimento de deposição do governo petista da Presidência da República – o que dividiu o País. Depois percebeu-se que a corrupção não seria extinta com a Operação Lava Jato ou o próprio impeachment.

Alerta Tocantins
As pesquisas eleitorais tem revelado bem o descontentamento com o momento político. O primeiro alerta foi dado pelo resultado das eleições suplementares para o cargo de governador do Tocantins, que elegerá seu novo chefe do Executivo estadual neste domingo, 24. No dia 3 de junho, 30,14% de 1.018.329 eleitores tocantinenses preferiram não ir votar. Outros 2,06% votaram em branco, seguidos de 17,13% nulos. Somados, os brancos, nulos e abstenções chegam a 49,33% do eleitorado do Estado. O número é alarmante e demonstra o desinteresse da população em se manifestar com o voto.

O quadro trazido pela pesquisa Serpes/O Popular no dia 10 de junho revela que o momento eleitoral da população não é o mesmo das articulações dos partidos políticos. No levantamento estimulado, em que o nome dos pré-candidatos a governador é apresentado aos eleitores, os indecisos chegam a 23,1% e aqueles que anulariam seus votos ou não iriam votar é de 17,6%, que juntos representam 40,7% do eleitorado goiano. A pesquisa espontânea é ainda mais reveladora. São 75,8% em Goiás as pessoas que ainda não sabem em quem votar no primeiro turno. Nesse quadro, os 11,4% que preferem votar nulo ou nem comparecer ao colégio eleitoral no dia 7 de outubro fazem com que 87,2% dos eleitores do Estado sejam os ainda desinteressados no pleito há menos de três meses e meio da decisão.

A última rodada Datafo­lha/Fo­lha de S.Paulo, de 10 de junho, mostra que 46% dos eleitores brasileiros ainda não decidiram seu voto para presidente no levantamento espontâneo e varia de 21% no cenário estimulado com o ex-presidente Lula da Silva (PT) na disputa e de 33% a 34% quando o nome do Partido dos Trabalhadores é mudado para Fernando Haddad ou Jaques Wagner. Nulos e brancos na espontânea chegam a 23%, o que mostra que ainda temos 69% dos eleitores sem sabem ou não querer votar em nenhum dos pré-candidatos ao Palácio do Planalto.

Até a Copa do Mundo acabar, na tarde do domingo 15 de julho, saberemos se Neymar mostará em campo o futebol que sabe jogar, será ou não escolhido o melhor jogador da competição, ficará marcado como atleta mais mimado e reclamão do torneio e se o Brasil será hexacampeão ou precocemente eliminado – menos por um novo 7 a 1, por favor! Somente um mês depois, em 16 de agosto, os brasileiros terão contato com o início da campanha eleitoral. Mas apenas no dia 31 do mesmo mês começará a propaganda dos candidatos no rádio e na TV, que é quando o eleitor vê de fato quem está na disputa.

Até lá, assista aos jogos da Copa do Mundo, comemore as vitórias pouco ou muito convincentes da seleção brasileira e discuta com amigos, colegas de trabalho e familiares o desempenho do “menino Ney” ou o jogador “cai-cai”, com ou sem a camisa amarela da CBF. Se você acredita que futebol é o “pão e circo da população alienada”, desligue a TV e leia um livro, jogue xadrez, caminhe com o cachorro no parque, trabalhe, estude e xingue muito no Twitter. Com poucos ou muitos dias de análise das propostas, cada brasileiro avaliará da melhor forma possível e escolherá os nomes para o futuro do País e de Goiás no momento adequado. Até mesmo se optar por não votar. l

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Adalberto de Queiroz

O futebol é usado como uma das armas de “Invasão vertical dos bárbaros”, apesar de todos nós (aí me incluo!) não concordarmos inteiramente com o artigo do dileto repórter e do filósofo Mário Ferreira dos Santos, que disse no livro do texto epigrafado: “Alega-se ainda que o jogador de futebol é um herói nacional espontaneamente escolhido pelo povo, que podemos respeitar o esporte. Já escrevemos muito sobre o esporte e o exaltamos a um ponto que muito poucos dos seus seguidores alguma vez o colocaram. Mas quem pode negar que uma propaganda desmedida do futebolista, como do canto popular, ultimamente,… Leia mais