Efeito colateral amargo de medidas contra coronavírus, crise econômica gera preocupação

Suspensão de atividades comerciais contribui para o impedimento do avanço da Covid-19, mas, ao mesmo tempo, faz com que o dinheiro pare de circular

De acordo com o economista Nathan Blanche, além do coronavírus, impasses políticos são agravantes da crise econômica | Foto: Reprodução

Quando os primeiros relatos de contaminação pelo Sars-CoV-2 – ou o novo coronavírus, como é popularmente conhecido – começaram a vir à tona na China no início de janeiro, sensações de preocupação e ansiedade começaram a surgir em outros países. No Brasil não foi diferente. Entretanto, àquela época talvez ninguém fizesse ideia de que o “paraíso tropical sem terremotos e tsunamis” estaria prestes a entrar em uma de suas maiores crises de que se tem notícia. Com mais de 59 mil casos confirmados de Covid-19 e um total de mortes superior a de 4 mil até a noite de sábado, 25, o Brasil também experimenta o amargor de uma crise econômica que se forma como uma nuvem de tempestade cujos estragos são sentidos pela população há 60 dias.

Em âmbitos gerais, a economia já não estava exatamente numa situação primorosa, por assim dizer. Em 2019, o Brasil registrou um crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de 1,1%, o que representa 0,2% a menos em comparação aos anos de 2018 e 2017, quando o País lutava para se recuperar da grave crise econômica pela qual havia acabado de passar. Entretanto, os planos de recuperação e retomada do crescimento traçados pelos governos estaduais e federal parecem ter ido por água abaixo em 2020 depois que medidas de quarentena, o que inclui o isolamento social e o fechamento temporário do comércio, foram adotadas como armas contra o coronavírus.

Como uma espécie de efeito colateral de um amargo – mas eficaz – remédio, a suspensão de atividades comerciais consideradas não essenciais e a restrição do fluxo de pessoas contribuem para o impedimento do avanço da doença que tem deixado a população em pânico. Mas, ao mesmo tempo, faz com que o dinheiro pare de circular. Em Goiás, empresas dos mais variados segmentos têm assistido com preocupação a queda de suas receitas e, consequentemente, apelado a cortes de despesas e funcionários para continuar a funcionar.

Joel Moura, de 31 anos, é gerente de uma das unidades de uma tradicional loja de departamentos, com ênfase em papelaria e informática, de Goiânia. O funcionário explica que a empresa fundada há 36 anos em Goiânia – desde então em plena atividade – acatou prontamente as medidas de quarentena decretadas pelo governo estadual desde o primeiro dia e manteve as portas fechadas por 30 dias. Com a flexibilização de algumas áreas anunciadas no último decreto publicado pelo governador há sete dias, o gerente relata que a empresa pôde, enfim, reabrir, mas com alguns cortes e alterações no quadro de funcionários.

Durante o tempo em que a loja foi impedida de funcionar, o corpo gestor concedeu férias coletivas a todos os funcionários. Entretanto, cinco deles acabaram por ser demitidos. “O desligamento deles já estava sendo analisado desde antes da crise”, diz o gerente, mas os prejuízos sofridos pela empresa acabaram por forçar a batida do martelo. De acordo com Joel, o corpo gestor ainda fará uma contabilização minuciosa do quanto foi perdido. O funcionário adianta que a queda na receita gira em torno de 30%.

Antes de ser pega de surpresa pela crise gerada pelo novo coronavírus, a empresa preparava um plano de ação com investimentos e estratégias para o aumento da receita. Agora, conforme Joel, esse mesmo plano precisará ser adiado até que a crise seja ao menos abrandada. O cenário não se mostra animador. Mas Joel se mostra otimista: “Não vamos dar o braço a torcer”.

Com a pandemia, empresas enfrentam dificuldades em negociações e vendas

A crise pela qual o Brasil passa é inédita e “muito mais complexa do que a de 2008”. A conclusão é do economista e ex-presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Luiz Carlos Mendonça. Em uma entrevista recente, o especialista, que revelou nunca ter visto uma crise de dimensão global como a atual, afirmou também que por conta dos confinamentos “as empresas não conseguem manter as atividades de forma normal”, o que faz com que os trabalhadores tenham suas rendas impactadas.

Ao Jornal Opção, a jovem Milena Maciel, de 21 anos, gerente de vendas de uma empresa de Goiânia especializada em ferramentas e equipamentos de segurança e construção, dimensionou o impacto sofrido em razão da pandemia do coronavírus e as medidas adotadas para conter a ameaça invisível. Milena revela que a empresa, mesmo fechada por apenas um dia, já que se enquadra nas atividades essenciais – oferece insumos e produtos de segurança -, enfrenta uma situação delicada. Segundo a gerente, houve uma queda de 50% nas vendas. “Deu para ver uma diferença grande [entre o momento atual e o período anterior à crise] na procura dos clientes por equipamentos e ferramentas.”

Segundo a gerente de vendas Milena Maciel, medidas de restrição do comércio são necessárias, mas deixam incerteza no ar | Foto: Ton Paulo/Jornal Opção

Ainda de acordo com Milena, outro fator que impactou diretamente nas vendas foi a estagnação do setor de construção civil, uma vez que esse é um dos principais segmentos comerciais da empresa. “Nós atendemos muitas obras da construção civil. E muitas delas pararam. Só continuam as obras do governo. As vendas para algumas indústrias tiveram uma queda também, e isso nos afetou de certa forma”, revela.

Até quando as vendas são concretizadas, surgem empecilhos que evidenciam as dificuldades econômicas do setor de consumo. “Nós vendemos a prazo. Tivemos problemas em muitas das nossas vendas desse tipo com clientes que precisaram de um prazo maior, que precisaram de extensão do limite para pagamento”, conta Milena.

Apesar das dificuldades enfrentadas e da expressiva queda de receita – o que reflete a escassez de clientes -, a gerente de vendas garante que a empresa segue estável. Segundo Milena, o quadro de 27 funcionários segue intacto, sem demissões ou afastamentos de colaboradores enquadrados no grupo de risco do coronavírus. Alguns cortes de despesas precisaram ser feitos, como no setor de marketing. Mas Milena afirma que a empresa “está funcionando bem”. Mesmo ao concordar com as medidas adotadas pelo governo estadual por enxergá-las como essenciais, a gerente teme pelo futuro que se aproxima.

“Eu acho que são necessárias [as regras de isolamento social]. Se não chegasse nesse ponto, acredito que estaria pior do que agora. Sou a favor. Tem de ser assim por enquanto. Mas não sei como vai ser daqui para frente, não sei como vai continuar o decreto. Me preocupa não saber como agir nos próximos dias”, observa.

Cenário político agrava crise econômica, diz economista Nathan Blanche

Se a economia do País tem passado por maus bocados em razão do cenário calamitoso de pandemia do novo coronavírus, a situação pode se agravar ainda mais por desacertos e equívocos do governo federal.

Para o economista e sócio fundador da Tendências Consultoria Integrada, Nathan Blanche, que é considerado uma referência na análise de mercado, a linha de atuação da equipe econômica do governo Jair Bolsonaro (sem partido) e as reformas econômicas que foram implementadas no Brasil contribuíram para um início de recuperação do Brasil. Mas a crise do coronavírus e a postura do próprio presidente da República têm sido justamente os empecilhos, aponta Blanche. O economista afirma que Bolsonaro mostrou “não ter experiência, preparo técnico e intelectual” para o cargo que ocupa, o que reflete em todas as áreas, sobretudo a econômica, e sugere medidas a serem adotadas para que o estrago causado pela Covid-19 seja minimizado.

Segundo o economista Nathan Blanche, situação fiscal do Brasil traz risco de default | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

“Se estivesse na mão da equipe econômica, Roberto Campos Neto, do Banco Central, Paulo Guedes, do Ministério da Economia, Gustavo Montezano, presidente do BNDES, toda essa equipe de nova mentalidade, aí sim. Mas agora temos um inimigo invisível. Você tem de ser racional e ir fazendo esforço fiscal na direção de minimizar os impactos que isso está causando em termos de oferta e produção, esforço de não expansão fiscal e cumprimento somente do necessário em termos de subsídio.” De acordo com Blanche, o primordial agora seria preservar o “equilíbrio e suprir as necessidades primárias” para que seja evitado o pedido em massa de recuperação judicial por parte das empresas.

O economista explica que, apesar da boa posição cambial do Brasil, ao qual ele considerou continuar “de primeiro mundo”, a situação fiscal é preocupante a ponto de pairar o risco de default, que é quando incorre o incumprimento das obrigações legais ou condições de uma dívida. Blanche associa o agravamento da crise a um contexto negativo no âmbito político e cita, inclusive, a recente saída do ex-juiz Sergio Moro do Ministério da Justiça e da Segurança Pública.

Sobre o cenário negativo causado pela crise institucional, Blanche continua: “Vemos um agravamento da situação política, que está se desenrolando em um cenário muito pessimista. […] Com isso, o risco-país subiu para 370, isso é recorde do governo Bolsonaro. Pior do que isso só no governo Dilma Rousseff (PT). Houve mais uma ruptura na condução do quadro do Executivo com a saída do Moro. E piorou muito a situação, sinalizada por uma forte quebra na Bolsa. O dólar se valorizou acima de R$ 5,70”, descreveu.

Blanche também faz duras críticas ao programa de recuperação econômica Pró-Brasil, elaborado pela Casa Civil, que não tem atribuição nem competência técnica para isto. O plano, que visa a ampliação de gastos públicos para a retomada do crescimento econômico, foi apelidado de “Dilma 3” e é visto pelo economista como um programa sem embasamento técnico e econômico, representando um grande desperdício de recursos públicos. Segundo ele, “sem dúvida deve contribuir para um crescimento descontrolado do déficit público já a partir deste ano”.

“Nunca antes na história de um país isso ocorreu. Este plano não tem pé nem cabeça! De onde vão vir os recursos? Quais são os fundos pra isso? O governo está com um plano econômico que não tem nenhum fundamento técnico. É uma coisa muito genérica e que pega muito mal para a credibilidade do País. Sem dúvida é mais uma tirada de tapete do Ministério da Economia”, analisa.

O pacote de medidas para enfrentamento da pandemia anunciado pela equipe econômica em março, que é fundamentado na eficácia na aplicação dos recursos públicos, soma R$ 762,5 bilhões, sendo R$ 203,9 bilhões em novas despesas e R$ 558,6 bilhões em créditos e antecipação de despesas já previstas anteriormente, representando 10,3% do PIB. Com este pacote, a projeção da Tendências para o déficit fiscal primário em 2020 passará de 4,8% para 7,5% do PIB. Isso fará com que a dívida pública total – União, Estados e municípios – chegue a 87% do PIB ainda em 2020. Blanche alerta que se esta tendência persistir em 2021 o cenário mais provável será uma depressão econômica. Portanto, a situação ficará mais grave do que o desastre econômico promovido pelo governo Dilma, cujo resultado no biênio 2015/2016 foi uma queda de 8% no PIB.

Este cenário só pode ser evitado com a renúncia do presidente da República, que já tem protocolados contra Jair Bolsonaro um total de 25 pedidos de abertura de processo de impeachment. Na opinião de diversos cientistas políticos, a rápida mudança no comando do governo, com o general Hamilton Mourão (PRTB) na presidência, permitirá o retorno aos princípios da responsabilidade fiscal, harmonia entre os poderes e a retomada das reformas estruturais, como a tributária e a administrativa. Assim, estarão criadas as condições para a retomada do equilíbrio e do crescimento econômico a partir de 2022.

O que nos reserva o cenário pós-pandemia

Sem vacinas ou medicamentos específicos para o tratamento da ameaça invisível imposta pelo novo coronavírus, não resta para grande parte da população outra alternativa a não ser “parar as máquinas” e isolar-se. Entretanto, os impactos dessa realidade poderão ser tão fortes que acabarão por respingar nas próximas gerações.

Formada em Arqueologia pela Universidade do Porto e pela Universidade Autónoma de Barcelona, a portuguesas Joana Freitas é uma das que partilham dessa visão. Em entrevista ao Jornal Opção, a sócia do Centro de Pesquisas e Análises Heráclito (CPAH) afirma que “mesmo quando voltarmos a uma relativa normalidade, as pessoas estarão mais empobrecidas e a dinâmica econômica vai estagnar um pouco”.

Para Joana, a redução drástica da circulação de moeda e mercadoria poderá provocar uma falência em massa de pequenas empresas, uma vez que as reservas disponíveis para negócio local não são suficientes para suportar o período de duração indeterminado da crise. “Ninguém quer estipular datas para o controle da pandemia exatamente porque não existem certezas. Logicamente, até existir uma vacina a normalidade total não será restabelecida. A economia vai sofrer e o comércio de proximidade será o mais afetado. As pequenas empresas muitas vezes não têm fundos de maneio – capital de giro – que permitam sobreviver muito tempo com os seus negócios fechados.”

Realidade da população não será a mesma depois da pandemia, diz arqueóloga portuguesa Joana Freitas

De acordo com Joana, “se a confiança e o consumo diminuírem demasiado, muitas serão as empresas que terão de encerrar definitivamente, o que gerará aumento do desemprego e consequentemente um aumento no nível de pobreza”. “Tudo é uma bola de neve”, diz a arqueóloga.

Para a sócia do CPAH, o papel do Estado na recuperação econômica será determinante. Joana diz entender que a estrutura de governo deve propor medidas para facilitar o reaquecimento dos negócios. “Podem ser diversificadas: atribuições de créditos a juros baixos, criação de linhas de ajuda financeira destinadas a grupos específicos e atendendo às necessidades de cada um, criar condições que sejam aliciantes para os empresários contratarem novos funcionários, ajudar à dinamização do produto nacional e da economia interna”.

Todavia, Joana afirma que é preciso ter consciência de que “o Estado é um aliado, mas não deve ser o único a agir”. “O esforço tem que ser coletivo: Estado, setor bancário, financeiro, investimento e dinâmica individual. Tem de se adotar uma postura reformuladora em que cada um cumpre o seu papel visando um objetivo comum. O Estado tem o papel de planejamento e tem de ser participativo, responsabilizar e ser responsabilizado, e deve ser o elo entre mercado e sociedade, mas, obviamente, sem ferir, desrespeitar ou influenciar as liberdades individuais”, conclui.

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