E se você entendesse por que não precisaria ter perdido metade das pessoas queridas que a pandemia levou?

Depois de tanto tempo, a pergunta que fica é: qual a causa de tantas mortes evitáveis. A resposta está na má condução de todas as principais políticas sanitárias

Já são mais de 500 dias de pandemia. Cada um de nós tem sua própria história com ela. Tragédia, para todas as centenas de milhares de famílias esfaceladas pela perda de um ou mais entes queridos; drama, para os que convivem com a ansiedade e o medo de se contaminar ou de “curados” que enfrentam sequelas físicas limitantes; epopeia, para todos os profissionais da saúde; ou, enfim, ficção, para um seleto grupo que acredita que tudo isso que parece não passar, na verdade, não passa de conspiração.

Nesse último grupo encontra-se, infelizmente, o presidente da Nação. E isso, como veremos até o fim desta reportagem, foi crucial para que o número de vítimas brasileiras se tornasse surreal, ainda mais dadas as condições de estrutura do País em relação à maioria dos demais, inclusive muito mais pobres.

Enquanto o coronavírus iniciava sua trajetória mortífera e a pandemia ainda nem era considerada como tal, quando as primeiras vítimas se concentravam na China e no norte da Itália, Jair Bolsonaro (sem partida) também dava seus primeiros passos no negacionismo, seguindo assim a cartilha de seu guru, o então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Do lado de cá, uma estrutura que só não era considerada de primeiro mundo por conta do conjunto da obra chamada Brasil: o Sistema Único de Saúde (SUS) é uma das maiores engenharias de políticas públicas não só do País, mas do planeta. Não há nenhuma nação com mais de 200 milhões de habitantes que tenha a capilaridade, a universalidade e a gratuidade na saúde pública. Quer uma prova recente? Outro guru de Bolsonaro, o filósofo Olavo de Carvalho, engoliu seu próprio discurso e veio dos Estados Unidos para se tratar na ala pública do Instituto do Coração (Incor).

Juntamente com o SUS, também instituições como a Fundação Oswaldo Cruz (Rio de Janeiro), os Instituto Butantan (São Paulo) e Evandro Chagas (Belém), além das universidades e institutos federais. Uma verdadeira força-tarefa para antever e se preparar para o que poderia ser uma guerra contra o vírus então desconhecido. Mas ter o País seu maior governante, naquele momento, no mínimo desatento ao que viria fez com que o vírus encontrasse uma oportunidade como poucas teria pelo mundo para se disseminar.

De fato, como agora se sabe, está sendo uma guerra. Nas batalhas, os brasileiros perderam muita gente no front – mais profissionais de saúde morreram de Covid-19 por aqui do que na imensa maioria dos outros países – e também muito mais “civis” do que imaginaríamos.

Lá no começo, Bolsonaro poderia ter apenas deixado o então ministro da Saúde fazer seu trabalho sossegadamente, dando-lhe o suporte devido com as outras áreas. A máquina do SUS, trabalhando “abastecida” de recursos e com apoio institucional (por exemplo, por meio de campanhas de conscientização nas diversas mídias), faria um trabalho eficaz para minimizar as perdas.

Mas o presidente, pelo contrário, abriu guerra contra as medidas que Luiz Henrique Mandetta tentava implantar, guiadas pelas orientações científicas da Organização Mundial de Saúde (OMS). Temia que a crise sanitária afetasse a economia e, por consequência, seus planos de poder e de reeleição. Investiu abertamente contra o isolamento social, praticamente a única medida de contenção então existente – nem mesmo máscaras estavam naquele momento sendo recomendadas.

Bolsonaro editou uma medida provisória para guardar para si a determinação do que seriam serviços essenciais e poderiam permanecer abertos sem restrição. Na realidade, seria o fim de qualquer chance de quarentena. A coisa chegou a tal ponto que o Supremo Tribunal Federal (STF) foi provocado, por uma ação do PDT, para resguardar as medidas sanitárias. Veio a determinação do Judiciário, então, de que governadores e prefeitos teriam autonomia para impor ou retirar restrições.

Foi seu primeiro trabalho na contramão da pandemia: dono de, na época, pelo menos 40% do eleitorado, Bolsonaro e sua voz ativa diante dos seguidores minaram a execução de um isolamento no mínimo aceitável, a despeito da decisão judicial. A “gripezinha” virou morticínio e, numa extensão mais ampla do termo, genocídio, na visão de parte considerável da população.

O segundo desserviço presidencial foi no exemplo danoso em relação ao uso de máscaras. E aqui uma contradição em seu próprio discurso de salvação tanto da economia como das vidas: por que Bolsonaro, ao invés de desdenhar o uso da proteção facial, não tomou a causa das máscaras para si como forma de, utilizando modelos seguros – como as máscaras PFF2 –, se pudesse fazer os deslocamentos pelas cidades de forma a reduzir o contágio? Imagine-se, por exemplo, o transporte público com distribuição gratuita de máscaras que evitassem de forma eficaz: quantas vidas não teriam sido poupadas nesses 500 dias de pandemia?

Quantas vidas não teriam sido poupadas pelo “combo” de isolamento do maior número de pessoas pelo maior tempo possível – o que significava também um auxílio emergencial ao menos razoável, o qual o governo disponibilizou por apenas parcos meses – e uso massivo e correto de máscaras adequadas?

Vacinas
Por fim, o mundo inteiro corria atrás de uma vacina. Uma corrida tecnológica de ponta a que talvez só se compare, e ainda assim de longe, a disputa entre Estados Unidos e União Soviética pelo espaço, durante a Guerra Fria. Países e indústrias farmacêuticas se uniram em torno da busca pela salvação – que, no fundo, era, além do salvamento de vidas, também a luta pela viabilidade do próprio sistema. E ajudava o desenvolvimento do imunizante o fato de que já havia estudos em curso de vacinas para o Sars-CoV-1, o coronavírus da epidemia de Sars, na primeira década do século.

O que faria um grande líder preocupado com vidas e com o PIB, diante do cenário que se via promissor para o encontro de uma vacina em curto prazo? Ora, colocaria em ritmo de plantão seus melhores quadros e cavaria parcerias para que a população de seu país pudesse receber vacinas o mais rapidamente possível.

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João Doria segura um frasco da Coronavac: parceria com a vacina chinesa forçou o início do processo de vacinação no Brasil | Foto: Governo de SP

E foi isso que ocorreu no Brasil… pelas mãos de João Doria (PSDB). O governador de São Paulo estabeleceu uma parceria com a empresa chinesa Sinovac por meio do Instituto Butantan, centenário centro de pesquisas do Estado. Já em julho, o presidente da unidade, Dimas Covas, estipulava que a vacinação poderia ocorrer ainda em 2020.

Ex-aliado de Bolsonaro, agora desafeto, Doria é pré-candidato à Presidência. Um pacote perfeito para despertar o que há de pior no presidente. O candidato do BolsoDoria em 2018 tornou-se o principal alvo da ira do mandatário-mor no segundo semestre do ano passado. E foi dessa forma que a Coronavac, a vacina produzida em parceria sino-paulista e testada no Brasil, tornou-se também inimiga do bolsonarismo. O presidente chegou a desautorizar sua compra após seu terceiro ministro da Saúde durante a pandemia, o general especialista em logística Eduardo Pazuello, garantir a aquisição. Dias depois veio o já conhecido “um manda, o outro obedece” do militar, se sujeitando aos desejos do chefe.

Em meio a isso, vacinas eram negociadas mundo afora. A tecnologia de RNA-mensageiro para o imunizante, desenvolvida pela Pfizer era muito bem vista. De olho nas eleições, Trump investiu pesado no financiamento do produto, bem como também na Moderna, outra com a mesma solução.

A Pfizer tinha seus interesses, inclusive econômicos, e via no Brasil um grande potencial para seu produto. Fez testes da fase 3 por aqui e queria, como diz aquele meme em forma de vídeo, que fôssemos “vitrine para o mundo”. E mandou dezenas de e-mails querendo contato. Mas quem não queria era o governo brasileiro.

Já se sabe que a eficácia da Pfizer é mais alta que a das primeiras vacinas aplicadas no Brasil e bem mais eficaz do que a Coronavac, que foi aplicada na maioria dos idosos acima de 70 anos. Vamos supor que a Pfizer se somasse, a partir de janeiro, ao numerário de vacinas disponíveis. Veja bem, uma vacina mais moderna sendo aplicada simultaneamente às demais e, quem sabe, com prioridade aos mais idosos. Quantas vidas teriam sido salvas?

Vamos supor que a Coronavac não tivesse efeito algum. Que durante meses e meses toda a história da parceria do Instituto Butantan com a empresa chinesa Sinovac em torno de um imunizante para neutralizar o coronavírus fosse um blefe. Que tudo isso tivesse sido uma jogada política de João Doria (PSDB), para tentar se cacifar para as eleições presidenciais. O golpe de mestre seria combinar com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) um teatrinho para o qual fosse encenada uma autorização emergencial de uma vacina que equivaleria então a um placebo.

Ainda assim um suposto “golpe Coronavac” teria valido a pena somente pelo fato de ter adiantado em dois meses o planejamento (ou falta de) do governo federal para a vacinação. É bom sempre recordar que, semanas antes da divulgação da aprovação da vacina chinesa nos testes finais, o então ministro Pazuello havia divulgado que o calendário vacinal se iniciaria em março, baseando-se na oferta da AstraZeneca pela Fiocruz.

Com a aprovação da Anvisa, tanto da vacina entregue pelo Butantan como a da Fiocruz, no mesmo dia, o governo correu para comprar milhões de doses da AstraZeneca diretamente da fonte, na Índia.

Um governo que sempre reagiu, em vez de agir. Nesse descompasso, centenas de milhares de vidas foram perdidas em vão. Qual o nome de uma tragédia que mata e acaba potencializada por quem deveria combatê-la?

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