Demanda fora do perfil é desafio no início das atividades do maior hospital de Goiás

Primeiros dias de funcionamento da nova unidade hospitalar de emergência da capital foram marcados pela forte presença de pacientes do interior do Estado. Com apenas um terço de sua capacidade em operação, foi possível realizar cirurgias complexas e internações de vítimas de queimadura

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Frederico Vitor

Na tarde fria de quinta-feira, 9, o operador de máquinas Anésio Bispo Ferreira aguardava informações acerca do estado de saúde do pai na sala de atendimento do Hospital de Urgências Governa­dor Otávio Lage de Siqueira (Hugol), inaugurado três dias antes na região Noroeste de Goiânia. O aposentado Joaquim Bispo Ferreira, de 83 anos, sofreu uma trombose e um princípio de pneumonia em São Domingos de Goiás, município localizado na região Nordeste do Estado, distante 585 quilômetros da capital. Antes de receber atendimento, o paciente teve que enfrentar sete horas de ambulância, até chegar ao mais novo hospital de urgências de Goiânia.

Maior complexo hospitalar do Centro-Oeste do País, Hugol será referência no atendimento emergencial

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Apesar do desconforto da viagem, o aposentado foi atendido com rapidez ao desembarcar no Hugol e encaminhado a um leito de internação e encontrava-se até o final da tarde de quinta-feira, com estado clínico estável. O operador de máquinas Anísio Bispo Ferreira, que acompanhava o pai, não teve o que reclamar do atendimento recebido pelo pai. A todo o momento, uma assistente social vinha conversar e repassar as últimas informações acerca da situação do familiar.

De cadeiras de rodas, na sala de atendimento de emergência, a auxiliar de produção Silvana de Oliveira, 34, se preparava pa­ra receber alta do Hugol. Moradora do município de Palmeira de Goiás, ela tem sofrido com fortes dores nas articulações do joelho, o que a tem impedido de se locomover. Sem receber atendimento em sua cidade, ela teve que ser levada de ambulância ao novo hospital de urgências da capital. Após exames realizados na própria unidade hospitalar, que facilitaram o diagnóstico, ela terá agora que continuar o tratamento no Hugol, e o retorno está marcado para o dia 17 deste mês, quando terá uma consulta com um dos médicos ortopedista daquele hospital.

Este foi um pequeno retrato da primeira semana de atendimentos do Hugol. Como mostrado, não somente de pacientes de Goiânia, em especial da região Noroeste, têm buscado socorro neste hospital, que promete desafogar consideravelmente os gargalos da rede pública de saúde. Localizado às margens da GO-070, numa área total de 135 mil metros quadrados (equivalentes a 14 campos de futebol) e pouco mais de 71 mil metros quadrados de área construída, a nova unidade foi idealizada para ser referência em atendimentos de média e alta complexidade. Isto também inclui tratamento de queimaduras (o único do Estado para este tipo de atendimento pelo SUS) e serviços de emergências cardiológicas.

Atendimento humanizado

Silvana de Oliveira saiu de Palmeiras de Goiás para ser atendida no Hugol

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Com demanda estimada em 10 mil pacientes por dia, isto é, mais de 2 milhões ao ano, em regime de atendimento 24 horas, o novo hospital subordinado ao sistema da Secretaria Estadual de Saúde (SES) e gerenciado pela Or­ganização Social (OS) Agir, vai complementar o atendimento de urgência e emergência que até então era realizado apenas pelo Hospital de Urgências de Goiânia (Hugo). Desde sua idealização, o objetivo primordial deste hospital é oferecer serviços de saúde humanizados, sendo um centro de excelência em especialidades que não são atendidas pelo Hugo. O Hugol vai incorporar os atendimentos às vítimas de queimaduras graves, pacientes com crises cardíacas, infartos ou acidente vascular cerebral.

Apesar da unidade cardiológica ainda não estar com 100% de funcionamento, o corretor de imóveis Écio da Silva Ferreira foi atendido em caráter emergencial quando sentiu fortes dores no peito, o que poderia ser um princípio de infarto. Segundo sua mulher, Maria Elena de Melo, que aguardava informações na recepção geral de internação, o paciente foi internado na manhã de quarta-feira, 8, para dar início a um procedimento cirúrgico com possibilidade de colocação de uma ponte de safena. “Ele estava dirigindo seguindo para o trabalho quando passou mal, e conduziu o carro sob forte dores até o hospital. O atendido foi rápido e tudo com muita atenção, acho que isso fez a diferença”, contou Maria Elena.

Aníso Bispo trouxe o pai de São Domingos para receber socorro médico

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Segundo a direção hospital, a ala especializada em procedimentos cardíacos (o Hugol é o único hospital público do Estado com esta especialidade) ainda vai receber aparelhagem específica e, em breve — previsão é de até o final do ano —, estará com sua capacidade plena em funcionamento. O hospital já opera sua Unidade de Terapia Intensiva (UTI) pediátrica, o banco de coleta e transfusão de sangue e o centro cirúrgico da unidade de vítimas de queimaduras.

Além dos que procuram o hospital por conta própria, os atendimentos serão prestados preferencialmente para pacientes vítimas de trauma socorridas pelos Bom­beiros, pelo Sistema de Aten­dimento ao Trauma e às Emer­gências (Siate) e do Ser­viço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). Os encaminhados pelos Cais Campinas, Curitiba, Cândida de Moraes, Finsocial, Goiá e Guanabara também terão recepção preferencial. Além disso, também está prevista o atendimento da demanda oriunda de outros municípios goianos, notadamente São Luís de Montes Belos, Trin­dade, Inhumas, Goiás, Nerópolis e Iporá.

Estrutura monumental exigirá mais de R$ 100 milhões anuais
Recepção do Hugol não estava cheia nesta primeira semana, mas previsão é de aumento do fluxo de pacientes

Recepção do Hugol não estava cheia nesta primeira semana, mas previsão é de aumento do fluxo de pacientes

O Hugol conta ainda com consultórios de 16 especialidades médicas, para pacientes em retorno ou em caso de complicações pós-cirurgia. Com um corpo de médicos e enfermeiros especializados e auxiliados com aparelhagem de última geração, a estrutura hospitalar acomoda no total 510 leitos, dos quais 360 são de internação, 86 de UTI — sendo 20 leitos de pediatria e 7 para queimados — e dois blocos de emergência com 44 leitos de observação e 14 de atendimento. Já o complexo cirúrgico é formado por 21 salas de cirurgias.

Leitos de internação cirúrgica do Hugol estão aptos para grande demanda

Leitos de internação cirúrgica do Hugol estão aptos para grande demanda

A reportagem teve acesso a uma parte das dependências do hospital e a impressão foi a melhor possível. No piso 2 do prédio, que abriga as alas de internações cirúrgicas, médicas, especializada e de cardiologia, funciona a internação pediátrica. São duas alas de 60 leitos cada, totalmente equipada e preparada para receber os pacientes. O longo corredor é ornamentado com papel de parede com estampas de personagens infantis, formando um ambiente alegre, arejado e confortável para as crianças que necessitarem de atendimento emergencial. No momento da visita havia apenas uma paciente internada, recebendo apoio psicológico e o auxílio de uma equipe de atenciosas enfermeiras.

O piso 1, destinada à internação cirúrgica, também foi visitado pela reportagem, mais especificamente os leitos de isolamento. Não havia pacientes, por isso foi possível adentrar ao quarto que será ocupado por pessoas infectadas por vírus ou bactérias. O cômodo é espaçoso. A suíte para banhos é digna de qualquer hotel quatro estrelas.

Em relação ao quadro de servidores, no total serão 2.441 funcionários. Serão 497 médicos (a contratação está em curso), mais 296 profissionais da saúde, como enfermeiros, odontólogos, psicólogos e biomédicos. Além disto, o Hugol vai contar com um batalhão de servidores de apoio, dividido entre 463 profissionais de limpeza, logística e manutenção, mais 1.022 servidores administrativos e técnicos.

Operação gradativa

As alas de internação, ortopedia e traumatologia estão em plena operação

As alas de internação, ortopedia e traumatologia estão em plena operação

Apesar de os números serem monumentais, o Hugol foi inaugurado nesta última semana com apenas um terço de sua capacidade plena. Nesta primeira etapa de inauguração foram abertos apenas 163 (entre UTIs adulta e pediátrica) dos 500 leitos previstos, ou seja, 35% da capacidade total prevista. Até o final do ano, os outros 337 leitos vão entrando em operação gradativamente. A direção do hospital informou que esta abertura gradativa foi planejada para evitar problemas em razão das dimensões colossais desta nova unidade hospitalar, a maior do Centro-Oeste.

Manter em operação toda esta estrutura gigantesca demanda altas despesas. Por mês, o Hugol deve ter um custo de R$ 15 milhões aos cofres estaduais. O governo federal se comprometeu a ajudar na manutenção da unidade de saúde. De acordo com o ministro da Saúde, Arthur Chioro, que esteve em Goiânia para a inauguração do hospital, a União vai disponibilizar R$ 32 milhões, requisitados pelo Estado para esta primeira fase de funcionamento da unidade. Para os próximos anos, quando o funcionamento estiver completo, o governo federal deve destinar R$ 91 milhões anuais.

Estes recursos serão bem-vindos já que o pronto-socorro está capacitado para procedimentos considerados delicados e altamente especializados. Foi o caso da paciente Fabiana Aparecida de Barros, 40, moradora da região Noroeste de Goiânia, que deu entrada no Hugol na noite de terça-feira, 7, com fortes dores no abdome. Segundo a mãe da paciente, a servidora pública municipal Fátima Ana de Barros, por volta das 14 horas do dia seguinte, a filha foi encaminhada para um procedimento cirúrgico de remoção da vesícula biliar por meio de raio laser.

A técnica consiste numa espécie de microcâmara que é usada para mostrar a vesícula biliar, retirada através de uma pequena incisão abdominal de cerca de 1 centímetro. As vantagens são: pouca dor no pós-operatório, alta precoce, ótimo resultado estético e retorno quase imediato às atividades cotidianas. “Em 15 minutos ela foi atendida e, a todo o momento, tenho recebido informações. Está tudo perfeito, não tenho o que reclamar”, disse a mãe da paciente, que passa bem. A cirurgia foi um sucesso.

“Atendimento preferencial é para pacientes encaminhados pelos complexos reguladores”
Diretor-geral do Hugol, Hélio Ponciano: “O hospital é voltado para o atendimento de pacientes com casos de média e alta complexidade”

Diretor-geral do Hugol, Hélio Ponciano: “O hospital é voltado para o atendimento de pacientes com casos de média e alta complexidade”

Para o diretor-geral do Hugol, o médico Hélio Ponciano, nestes primeiros dias de funcionamento do hospital, o que mais tem preocupado é o grande fluxo e a crescente procura por atendimento de pacientes que não são do perfil da unidade hospitalar. A procura elevada de casos que foge ao perfil da unidade evidencia uma deficiência dos Cais e dos postos de saúde, responsáveis por atendimento básico.

A desinformação em relação ao Hugol também tem contribuído para a vinda de pessoas atrás de atendimento que não são a especialidade do hospital. O hospital deve atender preferencialmente pacientes encaminhados pelos complexos reguladores do Estado e da capital. Além disso, houve nestes primeiros dias uma grande presença de pacientes de outros municípios goianos, inclusive de regiões longínquas do Estado. Mesmo com apenas um terço da capacidade total em operação, o hospital tem suportado e atendido a todos, desde que para atendimentos de emergência ou de procedimentos de média e alta complexidade.

Outra questão que Hélio Poncia­no chama atenção é para a necessidade de doação de sangue para a unidade de coleta e transfusão. Pa­ra apoiar o aumento da demanda que é esperada para os próximos meses, a unidade de emergência espera doadores.

Nesta primeira semana era esperado este fluxo de pacientes e atendimentos, ou estava previsto uma entrada mais acentuada de pacientes?
Era esperado. Nestes três dias (a entrevista foi concedida na quinta-feira, 9) foram 208 pacientes. Nós estamos com 49 internados. Temos 15 na UTI adulta. Para apenas três dias é uma demanda considerável. O que nos preocupa mais não é o doente grave, mas sim aquele que não é o do nosso perfil, que fica na porta aguardando atendimento, mas que seu problema não será resolvido por conta do perfil do hospital. Nós já tivemos grávidas, crianças com diarreia e com febre, casos que não são do nosso perfil. Este é o problema nosso, e é isso que tumultua nosso atendimento. Realmente é um transtorno porque não estamos preparados para estes doentes.

Temos que esclarecer que o perfil do Hugol é para o atendimento de média e alta complexidade. O de baixa tem que ir para atenção básica, que são os Cais e os postos de saúde. Se lá eles avaliarem e verem que é do nosso perfil, estamos prontos para recebê-los.

O que está sendo feito com este paciente que não se enquadra na especialidade do Hugol?
Eles são avaliados e encaminhados novamente para os Cais e para referência. Nós já recebemos pacientes de Aparecida de Goiânia, Goia­ni­ra, Guapó, Bela Vista, Trinda­de, Ne­ró­polis, Itapuranga, Jussara, Itaberaí, São Domingos, Guapó, I­nhumas, São Miguel do Passa Qua­tro, Pal­meiras, Piranhas, Ivolândia, Abadia de Goiás e Santa Bárbara de Goiás.

Nesta primeira semana houve equipamento ou servidores, como médicos, enfermeiros, que ficaram ociosos?
Não. Em um hospital nunca ninguém fica ocioso, diria que há momentos de pico de demanda e horários mais tranquilos. Os horários de pico que digo é o começo da noite, quando há mais casos de acidentes de trânsito. Nosso pessoal está direcionado para atender a demanda destes pacientes.

O Hugol é o único hospital do Estado que atende o SUS para vítimas de queimadura. Como foram os primeiros procedimentos desta especialidade?
Nós já tivemos seis pacientes vítimas de queimadura internados. Destes, um já recebeu alta. Nossa capacidade de enfermaria é de seis leitos. Estes pacientes foram vitimados por queimadura de gasolina e pólvora.

Qual foi o procedimento cirúrgico mais complexo já realizado nesta semana?
Foram feitas cirurgias ortopédica, neurológica, urológica, cirurgias em geral, inclusive por vídeo, bucomaxilo e os pacientes vítimas de queimadura, já que cada paciente deste é um doente cirúrgico.

Foi informado que o Hugol está dotado de aparelhagem médica de última geração. Quais são?
Os aparelhos de anestesia, os de monitorização, temos dois tomógrafos, três aparelhos de ultrassom, ecocardiografia, enfim, o hospital está muito bem equipado. Em um futuro próximo, talvez possamos oferecer serviços de exames para a rede. Mas isso vai depender da demanda. Consultas não, já que por aqui é apenas para retorno de pacientes atendidos pelo Hugol. O objetivo aqui é que ele tenha um bom atendimento e a garantia de retorno a esta unidade até a melhora.

O Hugol tem como missão também atender a demanda da região Noroeste de Goiânia. Como o hospital tem recebido pacientes desta parte da capital?
A princípio nós temos recebido pacientes não só da região Noroeste, mas também de toda cidade e fora dela. Pela estatística que lhe repassei com a lista de pacientes de municípios do interior, Bela Vista, por exemplo, não deveria ser atendida aqui, e sim no Hugo. Ou seja, também estamos atendendo pacientes fora de nosso alcance em princípio, que era para atender casos desta região Norte e Noroeste. Este é o problema que temos, e na hora de sobrecarga, vai tumultuar. Há muita demanda por paciente em estado greve, que acaba se deslocando do interior por falta de atendimento adequado. Nós estamos com 49 internados, isso em três dias. Foram feitas 15 cirurgias, a maioria delas de alta complexidade.

Outra novidade que fará do Hugol uma unidade especial é o banco de sangue. Como tem sido a doação nestes primeiros dias de funcionamento?
Em um hospital deste tamanho, construído para receber doentes graves, precisamos disponibilizar sangue para estes pacientes, que normalmente, em sua grande maioria, são traumatizados, infecções graves. Para isso existe um banco de sangue aqui mesmo. Está ligado a Hemorrede e a Hemovida, mas nós também fazemos a captação aqui no Hugol. Pedimos para que a população se lembre deste hospital e venha doar sangue, porque vai beneficiar estes pacientes. Todos que vierem doar sangue serão muito bem-vindos.

Saiba Mais

Relatório de atendimentos do Hugol, de 06 a 10/07, até às 12 horas de sexta-feira:

Pacientes atendidos: 274
Goiânia: 176
Interior: 98
Pacientes internados: 56
Internação queimados: 4
UTI adulta: 18
Outras especialidades: 31

Cirurgias realizadas
Total: 39
Ortopedia: 18
Queimados: 7
Bucomaxilo: 2
Vascular: 1
Urologia: 3

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