Com mais de 72% dos eleitores sem qualquer interesse na campanha, convencimento esbarra na mesmice

Nesse momento, alto índice de eleitores que não sabem em quem votar não preocupa no cenário espontâneo, mas descrédito na classe política favorece nascimento de candidatos outsiders

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Rafael Oliveira

O grande número de eleitores indecisos até o momento dificulta as projeções dos candidatos e parte do conteúdo de campanha. Uma pesquisa do Instituto Grupom em Goiás reuniu dados sobre o desinteresse da população às campanhas eleitorais deste ano. Segundo a pesquisa, 40,3% dos entrevistados responderam não ter “nenhum interesse” acerca de candidatos ou qualquer assunto envolvendo política. Ainda neste questionamento, 31,8% dos entrevistados responderam ter “pouco interesse”. Dessa forma, 72,1% dos eleitores demonstraram pouco ou nenhum entusiasmo com o momento eleitoral deste ano. Sobre os eleitores indecisos, o índice bate na porta dos 70%.

O especialista em pesquisas eleitorais, Antonio Lorenzo, considera normal ter muitas pessoas que não vão votar em ninguém neste momento, especialmente em apurações no cenário espontâneo. “Esse alto índice não significa grande coisa na pesquisa espontânea porque pega o eleitor despreparado. Ele não lembra em quem vai votar ou não sabe ainda”, explicou Lorenzo. O professor indica o cenário estimulado para ter uma avaliação correta do comportamento do eleitor e explica que os indecisos ainda vão encontrar os seus candidatos. “Tem que se observar uma coisa: o indeciso não significa que ele não vai votar.”

Diante de um cenário eleitoral favorável aos candidatos outsiders, aqueles que não são políticos por vocação, Lorenzo dá indícios de como os homens públicos podem se aproximar destes indecisos: “O eleitor quer alguém simpático e claro nas suas ações”.

O pré-candidato ao governo de Goiás, deputado federal Daniel Vilela (MDB), reconhece a dificuldade para convencer esse eleitor. “A cada eleição a decisão de voto tem acontecido mais próximo do dia da votação. Por isso o alto índice de indecisos atualmente em Goiás, que chega a cerca de 70% do eleitorado”, avaliou o emedebista.

Antonio Lorenzo, especialista em pesquisas, afirma que o índice de indecisos nesse momento não é preocupante para os candidatos porque o eleitor está despreparado

Daniel espera conversar com esse cidadão através do programa eleitoral na televisão, uma das apostas da sua campanha. “Vamos atrair o voto dos indecisos na medida em que formos nos tornando mais conhecidos, e isso vai acontecer, principalmente, depois do início da campanha oficial e, em especial, depois do início do horário eleitoral na televisão. Hoje, o que as pesquisas têm avaliado é o mero conhecimento dos pré-candidatos. Por isso, e por termos o melhor projeto, temos a convicção de que atrairemos esse voto indeciso na medida em que nos tornarmos conhecidos”, confia o deputado.

Perguntado a respeito de quais fatores influenciarão a decisão do eleitor, Daniel entende como a soma de vários aspectos, mas principalmente o plano de governo e o conceito da eleição vão nortear as escolhas do eleitorado. “Além disso, estudos e pesquisas mostram que a maioria do eleitor decide e até mesmo muda o voto depois de conhecer essas propostas por diferentes meios, como uma conversa com amigos e familiares ou nas redes sociais, mas acredito que a televisão ainda é o maior fator de influência. É onde, na hora da decisão, o cidadão busca informações sobre quem está, de fato, mais preparado para governar o Estado”, disse o candidato.

Nesse momento, os políticos se preocupam muito com voto branco e indeciso, mas é normal existir essa grande quantidade, explicou o professor de Ciência Política da Universidade Federal de Goiás (UFG), Robert Bonifácio. Para ele, o momento é favorável aos candidatos não profissionais tentarem candidaturas. “Esse fenômeno de incursões na política começou em 2016 com João Doria concorrendo à Prefeitura de São Paulo e a vitória dele chamou a atenção.”

O professor vê o curso da campanha eleitoral sem novidades. Os candidatos continuam com as mesmas “armas” para encarar o eleitor indeciso: programa de televisão, rádio e fake news nas redes sociais; apesar da baixa confiabilidade que a população deposita no quadro político.

“Candidatos vão usar mesmas armas para se aproximar do eleitor: TV e rádio. Não tem muita novidade para esta eleição”, diz Robert Bonifácio

O deputado federal Daniel Vilela não dispensa o embate corpo a corpo com o eleitor durante a campanha eleitoral. O seu programa de governo foi desenhado a quatro mãos com a população goiana, segundo Vilela. “Por isso temos andado o Estado, nos últimos anos, apresentando nossas ideias e, principalmente, ouvindo as demandas da população para formular um projeto mais afinado com as demandas de cada região do Estado. Temos procurado ir a todos os municípios do Estado e esse trabalho vai ser intensificado na campanha”, adiantou Daniel.

Antonio Lorenzo concorda com o professor Robert Bonifácio sobre os meios de convencimento do eleitor. Ele simplificou ao dizer: “Temos a campanha eleitoral para convencer os indecisos”. E a mobilização de rua faz parte desse processo, afirma Lorenzo. “Não é o candidato em si que faz a campanha toda e sim os candidatos a deputados e senadores que fazem esse meio de campo. A tendência é o que os partidos maiores e as coligações maiores tenham mais condições de angariar votos por ter mais estrutura e conseguir um resultado eleitoral mais expressivo”, finalizou.

O candidato democrata ao governo de Goiás, senador Ronaldo Caiado, preferiu não opinar sobre o tema. O governador de Goiás, José Eliton (PSDB), não se manifestou até o fechamento desta reportagem.

Indecisos tendem a diminuir; mulheres não terão destaque com força eleitoral em 2018

Antonio Lorenzo aposta no amadurecimento eleitoral dos cidadãos com a chegada do pleito. “No meio de setembro o índice cai mais e deve ficar em torno de 15%. Mas sempre tem uma porcentagem, que fica em 5% dos que não votarão em ninguém”, explicou o especialista.

Os eleitores que não votam em ninguém também são tradicionais nas urnas, segundo Lorenzo. “Os que não votarão têm um problema mais complicado, que é ideológico”, analisou.
Esse movimento de buscar mulheres para compor chapa eleitoral não é novidade, de acordo com Robert Bonifácio. Ele conta que as mulheres de expressão política são interessantes para compor chapa, mas que isso ocorre independente do candidato ser homem ou mulher. “Em 2002, quando o ex-presidente Lula foi eleito, a vice-presidente na chapa do candidato tucano José Serra era mulher, a deputada federal Rita Camata. Isso é usual. Está consolidado na estratégia política. Ser mulher, no momento atual do Brasil, não empolga eleitoralmente.”

O México passou por uma revolução na representatividade feminina, em termos eleitorais, em sua última eleição. “As mulheres são 49% das deputadas federais e 61% de senadoras. Hoje, é o maior índice na América Latina.”

Ainda que o Brasil vivesse momento político parecido ao mexicano, Bonifácio chamaria a atenção ao aspecto qualitativo das eleitas. “Não vejo candidaturas femininas com destaque e mesmo que haja um incremento de eleitas, tem que olhar com atenção o aspecto qualitativo. Normalmente, a mulher eleita é o braço de um homem, como filha, mulher ou parente.”

As mulheres representam 52,5% dos eleitores, de acordo com censo do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), e também é um desafio aos candidatos: 80% delas ainda não decidiu em quem vai votar.

59% não sabe em qual dos nomes votar para presidente

A última pesquisa do Instituto Ibope revela 59% de eleitores ainda sem saber em quem votar ou não pretendem escolher ninguém para a Presidência da República: 31% dos respondentes disseram que anularão ou assinalarão branco na urna, enquanto 28% não sabem ou não responderam.

Eleitores entre 16 e 24 anos são os mais insatisfeitos com a gestão Michel Temer (MDB). Apenas 1% dos ouvidos nessa faixa etária avalia o governo como ótimo ou bom. Com a margem de erro, o percentual pode chegar à zero. E 82% dos jovens qualificam o governo como ruim ou péssimo. Entre os entrevistados com mais de 55 anos, Temer consegue seu maior percentual de ótimo ou bom: 5%. E 71% deles dizem que a gestão é ruim ou péssima.

Conforme o estudo do Gru­pom em Goiás, o desinteresse do eleitorado tem correspondência com os números de indecisos, brancos e nulos coletados nas amostras espontâneas para presidência, governo e Senado. Para presidente, 63% dos entrevistados responderam que podem não votar, para governador o número salta para 72,6% e para senador, o número se amplia para 76%.

Em relação às regiões do Es­ta­do, o número de eleitores desinteressados é maior no Entorno de Brasília, onde 53,9% não declararam voto em nenhum candidato. Na sequência está a Região Sul com 32,5%, assim como a Região Metropolitana, com a mesma porcentagem.

Já considerando os gêneros, a pesquisa aponta que as mulheres demonstram menos interesse pelo processo eleitoral do que os homens. Entre as eleitoras, 75,8% não estão animadas com o pleito, sendo que 42,8% declararam nenhum interesse e 33%, pouco interesse. Apenas 21,5% disseram ter entusiasmo, 11,8% afirmaram ter interesse e, 9,7% muito interesse. Entre os homens, 68,2% se declararam céticos, 37,7% disseram não ter “nenhum interesse” e 30,5%, pouco interesse.

Na avaliação das intenções espontâneas de voto para presidente, 88,9% das mulheres estão entre indecisas (64,9%) e tendendo para o voto branco/nulo (24%), enquanto nos homens este índice é bem menor (59,3%), sendo 42,1% indecisos e 17,2% para branco/nulo.

No pleito para governador, 82,6% do eleitorado feminino transite entre indeciso (63,8%) e branco/nulo (18,8%) contra 62% dos homens (47,7% indecisos e 14,3% branco/nulo). Na disputa das vagas pelo Senado, 95,2% das mulheres desinteressadas, 77,1% indecisas e 18,1% que pretendem votar branco/nulo. Entre os homens, 88,1% oscilam entre os indecisos (74,1%) e branco/nulo (13,4%).

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