Chuta que é cristão!

Pela internet, terroristas se comunicam, ativistas do ódio disseminam informações e aprendem a fazer bombas

O programador turco gay Orkut Buyukkokten: com o Orkut ele inaugurou a Era do Preconceito na internet | Divulgação/Linkedin/Orkut

O programador turco gay Orkut Buyukkokten: com o Orkut ele inaugurou a Era do Preconceito na internet | Divulgação/Linkedin/Orkut

Henrique Morgantini
Especial para o Jornal Opção

Em 2004, a primeira rede social realmente popular tomava conta do mundo. Era o Orkut, uma criação de um programador da Google que entrou em um projeto da empresa na qual recebia incentivos para desenvolver projetos que não estavam em suas atribuições de trabalho. Era dada a liberdade para se inventar qualquer maluquice e o Orkut inventou uma rede social que em meados daquele mesmo ano se tornou uma imensa febre no Brasil. O projeto era tão desimportante que, a ele, seu dono lhe concedeu o próprio e esquisito nome.

Orkut Buyukkokten, o programador turco, é gay. E em 2004 ele mal sabia que inaugurava junto com a popularização das redes sociais, também a Era do Preconceito na internet. Com a emoção de compartilhar fotos e momentos, além de participar de comunidades, gerava-se a oportunidade também de encontrar pessoas e formar grupos de ideias afins. Não demorou muito para serem criadas também comunidades antissemitas, ateístas, racistas, e de toda a horda, de teor discriminatório. Incluindo, é claro, comunidades de construção ao ódio em geral. As comunidades não queria debater, queria combater.

Orkut, que se casou com um homem em 2008, é responsável pela organização cibernética de pessoas que acordam pela manhã com a disposição de agredir ou matar alguém que não concorde com elas.

Com já falamos na semana passada, a internet não é culpada de nada, tampouco há efetiva culpa no turco Orkut ou no badalado Zuckerberg – o do Facebook – pela facilitação da associação de pessoas que se conheçam ou queiram se conhecer. Elas apenas permitem que ódios parecidos se encontrem.

Pela internet, terroristas se comunicam, ativistas do ódio disseminam informações e aprendem a fazer bombas, criar rotas de fuga para realizar ataques e convocam soldados numa guerra imbecil e antiga, mais ancestral que todos nós. O ódio pelo diferente nunca esteve tão na moda.

O nós contra eles nunca fez tanto sentido

Foi pela internet que Dylann Roof, de 21 anos, encontrou material fervoroso que o levou a disparar com armas de fogo contra uma igreja numa comunidade negra da Carolina do Sul. Em seu perfil no Facebook, Roof posa com uma jaqueta com as bandeiras do Apartheid e da Rodésia. Rodésia, o estado não reconhecido, que institui em sua criação leis racistas. Em seu perfil, Roof está cercado de perfis de jovens negros, que ele usou para se aproximar e criar um clima favorável ao seu covarde bote mortal.

Roof matou nove pessoas e foi preso horas depois do atentado. Ele é a décima vítima dele mesmo. E é mais uma das vítimas das informações inflamadas de segregação propagadas na internet, nas redes sociais, nos clubes secretos, os chamados “fóruns” que compartilham ideologias criminosas. Ele é a vítima murmurante do incentivo silencioso que sopra ao ouvido das pessoas a mensagem de “vá em frente, você está certo”.

No Brasil, uma menina de 11 anos levou uma pedrada porque vestia branco quando saía de uma cerimônia de Candomblé. Estava acompanhada da avó, que há 30 anos é mãe de santo. Um grupo liderado por dois homens ergueram bíblias e começaram a chamar o grupo de “Diabo”, informando aos gritos que Jesus estava voltando. Um deles começou a atirar pedras contra os candomblecistas. Uma delas atingiu a menina na cabeça.

Dois dias depois, a mesma menina saía do Instituto Médico Legal do Rio de Janeiro e foi cercada por jornalistas com câmeras, máquinas fotográficas e blocos de anotações quando um homem, ao ver aquela movimentação, começou a proferir gritos, afirmando que a menina e sua avó era “macumbeiras e deveriam queimar no inferno”. Segundo o mesmo agressor, que desapareceu na mesma velocidade que destilou sua intolerância, sua mulher havia morrido há poucos dias e ninguém da imprensa havia noticiado.

O homem considerou um absurdo uma macumbeira viva valer mais que sua mulher cristã morta.

A mãe da menina de 11 anos agredida é evangélica e ao lado dela e da avó foram até a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro para uma sessão que debateu o preconceito que a sociedade brasileira vem alastrando sejaas ruas, sejam pelas comunidades do Orkut ou pelas postagens do moderno Facebook.

O Orkut deu o tom em 2004, o Facebook aprimorou a facilidade, mas a origem do conteúdo gerado jamais foi criado num comando de programação: ele faz parte do DNA social do homem moderno que vive hoje para resgatar comportamentos da sociedade vitoriana. A sociedade de castas, sejam sociais, sejam religiosas.

Na política, a direita radical esconde sua fragilidade natural atrás da sombra dos conceitos sociais mais repugnantes como o cerceamento pela religião e uma espécie de pregação messiânica na qual há escolhidos e condenados. Com isto, movimentos religiosos que ostentam bandeiras de ideologias e crenças baseadas na recriminação e no preconceito se tornam baluartes políticos. E ganham descomunal força. Os políticos-pastores, querendo fazer leis para todos baseados em suas crenças pessoais; os políticos-que-defendem-a-família, que fiscalizam o que o outro faz na sua intimidade; nunca estiveram tão na moda. Nunca tiveram tanto campo e espaço. E nunca se sentiram com tanta razão.

Na internet, adubamos com “curtidas” e “compartilhamentos” um termo histriônico como a “cristofobia”, ou seja, a perseguição aos cristãos ou evangélicos de qualquer procedência.
Se isto ocorresse, seria a primeira vez que uma maioria opressora seria esmagada pela minoria oprimida.

Para se vitimizar e angariar mais força ainda, agora querem provar nas redes sociais que o rabo abana o cachorro.

A pregação de liberdade e respeito é uma balela risível. Cristãos ciberneticamente ativos vivem nas redes para discriminar, separar, apontar certos e excluir os errados. Ao pregar sua ideologia praticam a separação, o apartheid racial, social, ideológico, sexual, comportamental. Quem cita a Bíblia com suas literalidades nada mais faz que aderir ao ódio disseminado pela internet.

Uma das expressões mais usadas pela nova juventude brasileira para dizer que algo é ruim e que deve ser imediatamente afastado de suas vidas é: “chuta que é Macumba”.
Dizemos isto no trabalho, quando nosso chefe insinua que vamos ter que fazer hora extra ou trabalhar no final de semana.

Quando recebemos o anúncio de que talvez a nossa sogra venha passar os dias em casa.
Quando chega uma mensagem no whatsapp do ex-namorado dizendo que está com “saudades”.

Chuta que é macumba.

“Chuta que é macumba” dá o nome a pelo menos 30 grupos do Facebook. Pelo menos 30 porque ao chegar a três dezenas eu optei por parar de contar. Alguns deles tem mais de 20 mil pessoas.

“Pedrada nas macumbeiras que devem queimar no inferno”!

“É preciso defender a família tradicional brasileira e seus valores”!

“Esses veados foram longe demais”!

“Jean Willis está propondo mudanças no texto da Bíblia”.

“Direitos Humanos a Humanos Direitos”.

“A fome na África é herança da maldição dos povos que não seguiram Moisés”.

Estes são alguns axiomas político-religiosos difundidos como verdades e como conceitos a serem seguidos por bons cidadãos (o “cidadão de bem”) na sua busca pela excelência, através das redes sociais.

E se você defende isto, a sua mão também segurou aquela pedra. O seu dedo também esteve naquele gatilho na igreja episcopal da Carolina do Norte.

“Não vou frequentar igrejas chamando as pessoas para a festa de Exu. Se eu as respeito, por que não me respeitam?” – foi com esta sapiência que a menina agredida pela pedrada reagiu quando tentou explicar o inexplicável, ou seja, porque foi agredida por estar saindo de seu culto religioso e usar roupas brancas.

Seu nome é Kailane. Ela é filha de Logun Edé, orixá muitas vezes representado como uma criança na tradição do Candomblé. Ela tem 11 anos e pelo menos o dobro em pontos na cabeça, oriunda da intolerância e do ódio que disseminamos em mensagens, textos, conversas e orações.

Chuta que é cristão.

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