Chamar o eleitor de Bolsonaro de “burro” é um erro fundamental

Quase ninguém percebe como o termo “petralha” deu lugar a “esquerdista”. Deveriam dar mais atenção a isso

Marcelo Rizzo
Especial para o Jornal Opção

Há uma opinião geral de que o deputado federal Jair Bolsona­ro (PSC-RJ), pré-candidato à Presidência, surfa na onda da desconfiança contra os políticos tradicionais. Assim, os votos que angaria seriam um fruto da queda da política profissional no Brasil. Pode, então, se imaginar que algumas pessoas se perguntem por que políticos que surfaram nessa onda antes não conseguem tirar proveito do momento atual.

Marina Silva (Rede), que quase chegou ao segundo turno nas eleições de 2014, era a face da “nova política”. Passaram as delações da Operação Lava Jato e ela e seu partido recém-criado saíram incólumes. Bolsonaro enfrentou alguns problemas nessa frente. Pequenos, se comparados aos políticos tradicionais, grandes se comparados aos de Marina. Mas ela não deslancha como pré-candidata. Seria a falta de uma presença maior nas redes? Se fosse esse o problema, o ex-governador do Ceará e ex-ministro Ciro Gomes (PDT) seria um grande concorrente para 2018. É um candidato ubíquo nas redes sociais, sem problemas com a Lava Jato, desbocado como Bolsonaro e com um currículo muito mais recheado do que o ex-militar. Provavelmente, possui menos tempo em cargo público do que Bolsonaro, deputado desde 1990.

“Ah, mas Ciro trocou várias vezes de partidos”. Bolsonaro foi filiado ao PPR (1993-95), PPB (1995-2003), PTB (2003-2005), PFL (2005), PP (2005-2016),PSC (2016-2017) e desde julho de 2017 integra o PEN. Alguém poderia apontar para o problema fatal para esses dois candidatos a candidatos, Ciro e Marina: sua ligação com os governos do PT. É verdade, esse é um impeditivo forte para qualquer um hoje em dia, mas, voltemos para isso mais tarde. O outro candidato antipolítica é o prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB), sem Lava Jato nas costas, sem passado na política profissional e antipetista ferrenho. Mas tem só 10% de intenções de voto. Pode-se argumentar que ele é pouco conhecido ainda ou algo parecido. É uma meia verdade no mundo do Facebook e do WhatsApp, mas continua meia verdade. Mas, o que chama a atenção na porcentagem de Doria não são os 90% que não votam nele, mas os 10% que declaram que o farão. Por quê? Porque dificilmente você encontrará um eleitor de Doria que declare sua intenção em eleger um “gestor” sem que logo em seguida saia uma diatribe contra o PT.

Pronto, volta-se ao PT que derruba Marina e Ciro e vitamina a candidatura do prefeito de São Paulo. Quem costuma frequentar as caixas de comentários nos site de notícias ou os blogs liberais/con­servadores deve notar uma coisa estranha nos tempos da República de Curitiba. A grande maioria das críticas aos candidatos citados acima, exceto Bolsonaro, não é o fato de serem corruptos, politiqueiros ou algo parecidos, mas sim, o epíteto favorito é o de “esquerdista”. Sim, Dória não escapa disso. “Antiarmamentista”, “socialista Fabiano” e outras classificações sempre o associam à esquerda(!). Daí vem o perigo que as pessoas parecem não perceber. Talvez Doria seja mais radical que seu partido em uma Presidência (já demonstrou ser bastante abertos às pautas mais conservadoras da sociedade como demonstrou no caso do Museu de Arte Moderna (MAM). Talvez, Bolsonaro seja menos radical do que seus seguidores gostariam (como suas últimas tentativas de emplacar como liberal tem mostrado).

Mas é preciso lembrar que Bolsonaro passou décadas apontando para um inimigo imaginário. Ridicularizado, dependia da defesa dos direitos do militares para se eleger. Salários melhores, benefícios mais generosos para os homens fardados. A ideologia da segurança nacional era bônus. Não havia inimigo a se combater. Então, surgiu. Das maquinações do golpe gestado há um bom tempo, o inimigo foi sendo criado. O inimigo que Bolsonaro apontava há tanto tempo apareceu. Os corruptos sempre estiveram lá. Gilmar Mendes está há 20 anos no Supremo Tribunal Federal (STF), os parlamentares possuem os mesmos sobrenomes de décadas atrás, a corrupção dos Poderes nunca foi novidade para ninguém. O político ladrão é uma figura dos programas de comédia brasileira há tanto tempo quanto o corno e sua mulher lasciva e o gay caricato.

Não é a corrupção que gestou Bolsonaro. Ele sempre precisou de um inimigo, forneceram-lhe um. Entre o político ladrão, a mulher lasciva e o gay caricato, seus eleitores preferem o político ladrão. Desde que não seja de esquerda. A importância disso é monumental. O cargo de presidente já demonstrou não ter poder nenhum em tempos pós-golpe. Acreditar que qualquer força contrária aos poderes que o desferiram terá qualquer chance na eleição é um romantismo sem paralelo. Aqueles que viam a disputa entre Sylvio Frota e João Figueiredo sabiam que não tinham influência sobre o candidato dos militares, limitavam-se a observar e comentar. Muitos ainda não entenderam isso. Imagino que Lula e o PT não sejam tão ingênuos. Fazem o papel de um MDB denunciando a Lei Falcão. Mas, se quem será o presidente não importa, a maneira como se legitimam perante os eleitores importa e muito. Porque estes últimos importam. O motivo de seus votos importa. E o porquê da ascensão de Bolsonaro importa. Não importa se eleito ou não. Seus eleitores e simpatizantes continuarão aqui, vendo inimigos em todos os locais.

É por isso que chamar um eleitor de Bolsonaro de burro é um erro fundamental. Ele pode ou não ser burro, mas a burrice dele é diferente dos outros eleitores. Sua burrice enxerga um inimigo que não some no dia após a eleição. Os eleitores de PSDB e PT são enganados por seus partidos o tempo todo. Nunca cumprem o que diziam. Seus eleitores são burros em acreditar em suas promessas, mas é uma burrice democrática porque se contenta em reclamar de seu adversário. O petista era burro em acreditar em Lula; o tucano, um idiota ao cair no charme burguês de FHC.

De repente, algo mudou. O petista passou a ser sujo. Voto comprado. Ele não era mais o eleitor enganado, mas o eleitor que engana. Movimentos sociais, sindicatos e outras organizações eram todas parte de uma máquina corrupta. O inimigo foi surgindo. De repente, o PT não era mais acusado de ser igual aos outros, abandonar a esquerda, mas ele era o esquerdismo. A própria essência de algo que confronta os valores tradicionais. Uma das viradas mais surpreendentes no discurso político, a ser estudada – coisa que a esquerda não-petista ainda não entendeu. Quase ninguém percebe como o termo “petralha” deu lugar a “esquerdista”. Deveriam dar mais atenção a isso. Os recentes ataques aos museus mostram o que essa mudança significa. Com ou sem Bolsonaro no poder, ela parece ter chegado para ficar.

Marcelo Rizzo é historiador e doutorando em História Econômica pela Universidade Federal de Goiás.

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Bolsomito

Mito! Mito! Mito!

Rennê

Está na hora de endireitar o nosso país. Chega de mentiras, manipulações, corrupção e criminalidade com PT, PMDB, PP, PSDB e companhia. Não acredito em salvador da pátria, mas Bolsonaro é o que melhor representa a mudança que necessitamos neste momento. Que ele tenha sabedoria para montar uma boa equipe. Além de Bolsonaro, precisamos renovar nosso congresso. Vamos votar direito!

Zezão

Não discuta com comunistas,
Ataque e desmascare o canalha!
Para o Brasil endireitar
tem que radicalizar!
VIVA BOLSONARO!!!

Helio Teixeira

Fazia tempo que eu não lia um texto tão coerente e inteligente sobre politica.

Helio Teixeira

Fazia tempo que eu não lia um texto tão inteligente sobre política. A maioria é so fofoca e fakenews.

Wellington Santos

Esse pessoal realmente, consegue falar muito e não dizer nada! Amigo entenda uma coisa esse país é conservador, e vcs têm que respeitar isso,as pautas defendidas pela esquerda histórica, associada ao turbilhão de problemas em Brasília ,ecoa no espaço vazio, ou seja , no Brasil pós regime,as pessoas tinham vergonha de dizer que são conservadores,logo amigo, sou professor há 30 anos, quatro formação acadêmicas distintas e sou eleitor de Bolsanaro

Luiz Moreira

REALMENTE tu tens razao!! É um pais de miseráveis pobres que pensam ter numa direita canalha e ladrona seus defensores e iguais. Mas, a miséria vai atingir de tal modo, que estas canalhas da direita vão ter suas casas invadidas por BANDIDOS, mulheres estupradas e filhos degolados. É a FASE DO TERROR!!!

Bolsonaro2018

Que eu saiba você acabou de descrever a Venezuela, e ela não é de direita. Com posse de armas para o cidadão, duvido alguém invadir casas por aí, e se o fizer sairá delas em caixões.
Vá se tratar, veja o que sua doutrina vermelha fez mundo afora! Só miséria, mortes e destruição! O Brasil nunca será de vocês.

Hammer

Só rindo! Quer dizer que o eleitor de Bolsonaro prefere ladrão que esquerdista? Ora, ladrão e esquerdista são sinônimos. Todo esquetdista é ladrão. Nem todo ladrão é esquerdista. Visto os coronéis e corruptosdo PMDB.Huntos o trio PT PSDB PMDB, no poder há 32 anos bos conduziram a atual crise. Precisa inventar inimigo? Está claro! Esse trio inimigo, seus agentes, seu movimentos, emissoras e artistas serão todos destruidos pelo Povo Brasileiro e por seu lider Jair Bolsonaro.

Nelson Brockes

Podem Jair se acostumando, nós viemos para ficar e os responsáveis por isso são os esquerdistas que nos roubaram.