Aids: uma doença que, de tão presente, tornou-se esquecida

Dados apontam que os números de pessoas infectadas no Brasil voltaram a crescer. Isso mostra que o debate em torno do vírus HIV precisa ser retomado

Embora o nome seja fictício, a pessoa por trás de Paulo Mendes não é. E, como ele, há vários outros | Fernando Leite/Jornal Opção

Embora o nome seja fictício, a pessoa por trás de Paulo Mendes não é. E, como ele, há vários outros | Fernando Leite/Jornal Opção

Marcos Nunes Carreiro

À esquerda, caminha rapidamente de cima para baixo. Salta para cima e faz o trajeto invertido, do outro lado, à direita. Novo salto: desce pelo meio, antes de fechar o triângulo com um caminho curvo indo de um lado a outro. É como se estivesse desenhando um manto de Nossa Senhora. As únicas diferenças são que, no lugar da auréola, há um “X”; e exatamente no centro é possível ver um redemoinho alaranjado.

O dedo vai traçando aquilo que deseja mos­trar no amontoado de linhas brancas so­brepostas em um fundo verde. As linhas vão fazendo curvas aparentemente sem cui­dado algum, e só não continuam seu trajeto devido ao obstáculo proposto pela moldura, a eterna limitadora da imaginação.

— Essa é a Av. Araguaia, essa a Av. To­cantins, essa a Av. Goiás. Essa aqui é a Av. Pa­ra­naí­ba e aqui, no lugar desse “X”, deveria estar a Pra­ça Cívica.

— Meu marido é louco nesse quadro, mas, pra mim, é apenas um monte de linhas brancas. Não consegui ter essa sua visão.

— Sim, é Goiânia.

Paulo Mendes não é um grande apreciador de Goiânia, onde se estabeleceu há aproximadamente cinco anos quando se emancipou da casa dos pais, em Britânia (GO), para estudar na capital. Sofreu muito na nova cidade. Talvez seja esta a razão de não reconhecer o traçado original de Goiânia na pintura pendurada na parede da sala de sua casa.

O jovem de 22 anos, estudante de Direito, havia estudado por longas horas na noite anterior e, por isso, se permitiu ficar na cama até um pouco mais tarde. Foi obrigado a levantar pela mensagem de WhatsApp deste inconveniente repórter, pedindo para adiantar em alguns minutos a conversa marcada previamente.

“Inconveniência alguma”, disse ele ao responder aos pedidos de desculpas. “Costumo levantar cedo pra estudar, mas hoje não deu. Pode sentar no sofá, que é mais confortável”. Confor­tável era como os dois se sentiam naquela manhã ao tratar de um assunto geralmente abordado de maneira extremamente delicada pela sociedade: o HIV, vírus da aids.

Se Paulo Mendes prefere não revelar seu verdadeiro nome ou seu rosto nesta reportagem, são por motivos outros. Falar sobre o vírus que contraiu há pouco mais de dois anos não é um problema. Aliás, é uma motivação. “É preciso mostrar que a aids não tem cara. Pode estar em qualquer um”.

Casado há quase dois anos com um homem mais velho, Paulo conta que foi exatamente por causa do companheiro que descobriu ser portador de HIV. Antes de começarem a namorar, o hoje marido, a quem vamos chamar de N., pediu a ele que fizesse os exames para saber da saúde do futuro companheiro. A questão: N. descobriu ter o vírus da aids há oito anos e não queria transmitir a doença para Paulo, caso este não a tivesse.

Nos exames, Paulo descobriu que tinha o HIV, contraído em outro relacionamento, fruto de uma única transa sem camisinha. Porém, saber que tinha o vírus não o abateu como acontecem a muitos jovens, pois já estava familiarizado com este mundo, “que não é o bicho de sete cabeças como todos pensam”, como ele mesmo diz:

“Se a pessoa tomar os cuidados necessários, hoje não se morre mais por aids. E, por isso, não me desesperei. Obviamente, se pudesse escolher, eu não queria ter o vírus, porque o preconceito é muito grande. As pessoas, quando pensam em aids, lembram de morte: Cazuza, Renato Russo, Freddie Mercury, Caio Fernando Abreu. Não é assim”.

Mas, além do conhecimento, obviamente, a força dada por N. ajudou bastante, pois o desespero de muitos é devido à possível rejeição do parceiro. Paulo relata que os jovens com quem conversa sempre pensam: “Como meu parceiro vai reagir quando souber que sou soropositivo?”. De fato, ninguém reage muito bem, mas, para ele, é exatamente porque não conhecem.

À época em que se descobriu portador de HIV, Pau­lo tinha 20 anos. Foi ao Cen­tro de Tes­­ta­gem e A­con­se­lha­mento (CTA), próximo à rodoviária cen­­tral de Goiânia — centro de referência da cidade, juntamente com o Hospital de Doenças Tropicais (HDT) — e logo começou a tomar os medicamentos.

No início de 2013, o tratamento não foi obrigatório para Paulo (veja matéria ao lado), pois sua taxa de CD4, molécula celular usada para medir o nível do sistema imunológico, estava acima da média, que é de 500 células/mm³. Mesmo assim, ele quis fazer o tratamento por saber de sua importância, pois os remédios diminuem a carga viral, não deixando que o vírus se multiplique no organismo. Atual­mente, a carga viral de Paulo está indetectável e seu CD4 está acima de mil. “Minha saúde é provavelmente melhor que a sua”, afirma rindo. E não é de duvidar.

O mal como “fetiche” para a juventude de hoje

Mark Ruffalo vive o protagonista de “The Normal Heart”, produção norte-americana de 2013 que retrata  o início da epidemia de aids nos Estados Unidos, na década de 1980, e mostra: a doença não é brincadeira

Mark Ruffalo vive o protagonista de “The Normal Heart”, produção norte-americana de 2013 que retrata
o início da epidemia de aids nos Estados Unidos, na década de 1980, e mostra: a doença não é brincadeira

HIV não significa aids; é apenas o vírus que pode causar ou não a doença. Se controlado por meio de um rigoroso tratamento, o HIV vira algo possível de se conviver durante uma longa vida. Porém, isso não significa que a situação não requeira a atenção das várias esferas governamentais. É o que apontam Alexan­dre Grangeiro, Elen Rose Casta­nhei­ra e Maria Inês Battistella Nemes em artigo recém-publicado na revista “Interface”, periódico da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Botucatu.

No artigo chamado “A re-emergência da epidemia de Aids no Brasil: desafios e perspectivas para o seu enfrentamento”, os professores usam os últimos dados divulgados pelas Nações Unidas e pelo Ministério da Saúde que evidenciam contradições e suscitam interrogações. Segundo eles, na contramão do cenário mundial, os dados brasileiros apontam que a aids não apenas está longe de ser controlada, como atingiu seus piores indicadores nesses mais de 30 anos da doença.

Eles apontam: “Desde 2011, a bar­reira dos 40 mil casos novos anuais foi ultrapassada, sem sinais de que voltará a reduzir em um curto período de tempo. Voltou a crescer o número de casos entre homossexuais, acompanhado da maior concentração da epidemia nos centros urbanos e do aumento da razão masculino/feminino devido, especialmente, à redução da transmissão do HIV por uso compartilhado de drogas injetáveis e da desaceleração da transmissão heterossexual”.

De fato: segundo o último Boletim Epidemiológico HIV/Aids publicado pelo Ministério da Saúde, cerca de 734 mil pessoas vivem com o HIV no Brasil. Em 2014, 70.677 novos diagnósticos foram feitos até o mês de junho. Em 2013, foram 12,7 mil mortes em razão da aids. A maioria de homens jovens. Em Goiás, de acordo com dados da Secretaria Estadual de Saúde (SES), desde o início da epidemia nos anos 1980, a taxa de incidência de casos em jovens de 15 a 24 anos tem aumentado progressivamente, alcançando o pico em 2012, quando havia 19,2 infectados para cada 100 mil habitantes.

Além disso, como mostram os pesquisadores da Unesp, mes­mo que o nú­me­ro de heterossexuais com HIV seja superior, preocupa o novo aumento de casos da incidência do vírus entre ho­mos­sexuais: em 2004 eram 34,6%; em 2013 foram 43,2%, quase a metade. Tal quadro se repete em outros lugares do mundo, o que explicaria, por exemplo, o grande nú­mero de filmes feitos nos últimos anos retratando o início da epidemia de aids na década 1980, nos Estados Unidos, como “The Normal Heart” e “Clube de Compras Dallas”, ambos de 2013. Dez anos antes, fez muito sucesso “Filadélfia”, com Tom Hanks vivendo um advogado acometido ela doença.

Qual a razão?

Retomemos o encontro com Paulo Mendes, cuja história abre esta reportagem. Mesmo antes de se descobrir portador do HIV, ele já se envolvia na luta pelos direitos humanos. Com o vírus, engajou-se na Rede de Adolescentes e Jovens Vivendo e Convivendo com HIV/Aids, organização nacional, que atua na inclusão social dessas pessoas. Atualmente, Paulo é coordenador da Rede no Centro-Oeste.

Em Goiânia, há aproximadamente cem jovens participando e a Rede funciona com a ajuda de uma igreja, que disponibiliza o espaço para as reuniões realizadas uma vez por mês. “Fazemos um trabalho de acolhimento com o jovem que está na fase de aceitação e conhecimento sobre a doença. Somos muito preocupados com a questão da exposição. As reuniões são fechadas e a divulgação é feita, em grande parte, por médicos do HDT ou do CTA. Quando o paciente é diagnosticado, o médico dá um dos panfletos. Algo bastante discreto”, relata.

E é devido a essa atuação próxima a outras pessoas com HIV e ao trabalho preventivo feito pela Rede, que Paulo tem condições de responder à pergunta deste intertítulo: qual a razão para que os números de infectados pelo vírus da aids estejam aumentando no Brasil?
“A maior forma de transmissão é a relação desprotegida e, por isso, existem muitas campanhas governamentais para conscientizar os jovens sobre o uso da camisinha. Em todas as unidades de saúde têm preservativos gratuitos. É só ir lá e pegar. Todos os anos são distribuídos milhões de preservativos. Mas os jovens ainda veem o HIV distante, como algo que não o atingirá. Porém, se o atingir, mesmo assim ele não se importa, pois sabe que há medicamentos e que não vai morrer por causa da aids”, diz.

Essa é a resposta, de forma bastante sucinta. E ela não causa muito estranhamento. A surpresa fica por conta da última parte: mesmo as pessoas sabendo-se portadoras do vírus, continuam fazendo sexo sem camisinha, o que é, na visão de Paulo, uma irresponsabilidade muito grande. “Falta de caráter mesmo. Nós vamos a muitos lugares fazer trabalho de prevenção e os jovens que estão na balada dizem que não vão usar camisinha, simplesmente porque, se contraírem HIV, sabem que não vão morrer, devido às medicações existentes. Então, a aids virou um fetiche”.

Fetiche ritualizado em ações como os barebacks — prática sexual em que portadores do HIV infectam, propositalmente, outras pessoas. Isto é, fazem orgias para transmitir o vírus para quem não tem. E isso dá formação a uma cadeia. “Mas são coisas que nós, de movimentos ligados à questão”, observa Paulo, “não somos a favor, pois vemos isso como formas de propagar ainda mais o preconceito; de estigmatizar o vivendo (portador do vírus)”.

Também vem da falta de uso de preservativos outra questão: o aumento do número de casos de sífilis e gonorreia, doenças que tinham praticamente sido extintas.

Infectologista aponta: não houve aumento nem diminuição dos casos

Médico infectologista Boaventura Braz: “Se observarmos bem, desde 1984 os números são sempre semelhantes em todos os grupos, com poucas diferenças” | Foto: Fernando Leite

Médico infectologista Boaventura Braz: “Se observarmos bem, desde 1984 os números são sempre semelhantes em todos os grupos, com poucas diferenças” | Foto: Fernando Leite

O médico infectologista Boaven­tura Braz de Queiroz concorda com a visão de que os jovens não se cuidam, mas aponta para a seguinte questão: não houve aumento nem diminuição no número de casos de aids nos últimos anos. Sua explicação se baseia no seguinte: nos últimos 30 anos, apesar da informação e das inúmeras campanhas de educação feitas nesse período, é possível perceber, principalmente entre a população jovem, certo relaxamento dos cuidados.

Por isso, a quantidade de pacientes não aumentou. “Se observarmos, desde 1984, os números são semelhantes em todos os grupos. A diferença é que temos visto um crescimento proporcional na população acima dos 50 anos. E, para isso, temos outras explicações, pois as pessoas nessa faixa etária têm tido uma liberdade muito maior, sem contar que elas são a mesma geração que participou dos movimentos de liberação sexual nas décadas de 1970 e 1980”, analisa.

Por outro lado, há uma questão de política pública: Braz aponta para o Protocolo Clínico publicado pelo Ministério da Saúde em 2013. Desde outubro daquele ano, todas as pessoas diagnosticadas com o HIV positivo, independentemente dos indicativos, podem receber o tratamento antirretroviral.

O leitor atento há de se lembrar que à época em que Paulo Mendes, que abre a reportagem, foi diagnosticado como portador do HIV, ele não precisava se submeter ao tratamento, visto que sua taxa de CD4 estava acima da média, que é de 500 células/mm³. Após o protocolo do Ministério da Saúde, todas as pessoas, à revelia da taxa de CD4 têm direito ao tratamento.

Tal ação, consequentemente, fez com que muitas pessoas, mesmo sabendo ser portadoras do vírus, mas não notificadas pelo Estado, procurassem o tratamento. Logo, segundo o infectologista, isso, somado ao fato de que o tratamento tem sido cada vez mais eficaz, aumentando a sobrevida dos pacientes, fez com que o número de pessoas soropositivas tenha aumentado.

A questão é: os medicamentos de combate à aids são de alto custo. Por isso, são disponíveis pelo Sistema Único de Saúde (SUS) gratuitamente. Logo, as pessoas, mesmo estando com os níveis de CD4 acima da média, procuram o tratamento, o que é positivo. A estratégia do Ministério da Saúde foi fazer disso uma estratégia de combate à infecção do HIV.

Como? Tendo como foco as relações sorodiscordantes, isto é, entre uma pessoa com HIV e outra sem. Um exemplo: se na hora do sexo ocorreu um acidente, o preservativo rompeu e a pessoa que é soropositivo tem a carga viral muito alta, a chance de ela transmitir o vírus é muito maior. Se a carga está negativada, as chances são menores.

E só possível negativar a carga viral tomando os medicamentos. Então, o ministério viu isso como estratégia para diminuir a transmissão. Contudo, retomando toda a discussão anterior, é preciso que as pessoas se conscientizem e passem a se preservar mais com o uso do preservativo na hora da relação sexual.

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