Em Goiânia, músicos de diferentes gerações compartilham uma experiência parecida. Eles escrevem canções, gravam discos, lançam músicas nas plataformas digitais, participam de festivais, lotam pequenos shows e ajudam a manter uma das cenas musicais mais ativas do país. Ainda assim, para muitos deles, transformar a própria obra em sustento continua sendo um desafio diário.

A realidade atravessa artistas em momentos distintos da carreira. Alguns dividem o tempo entre apresentações e outras profissões. Outros conseguiram viver exclusivamente da música, mas encontraram estabilidade principalmente interpretando canções de terceiros em bares, eventos corporativos, casamentos e festas particulares. Há ainda quem mantenha projetos autorais há décadas sem depender financeiramente deles.

Em uma cidade que construiu uma forte tradição musical, revelou artistas para o país e abriga festivais que se tornaram referência nacional, músicos afirmam que ainda existe uma distância significativa entre produzir música autoral e conseguir transformá-la em uma atividade economicamente sustentável.

A percepção aparece em relatos de artistas que começaram nos bailes da década de 1970, em músicos que ajudaram a consolidar a cena independente goianiense nos anos 1990 e em representantes de uma nova geração que tenta conquistar espaço em meio aos desafios das redes sociais e da economia digital. Em comum, todos compartilham a mesma pergunta: como fazer com que a música criada em Goiânia seja capaz de sustentar quem a produz?

A questão ganha relevância em um Estado onde a economia criativa vem ampliando sua participação econômica. Dados do Governo de Goiás apontam que o setor representa cerca de 6% a 7% da economia estadual e envolve aproximadamente 300 mil trabalhadores em áreas ligadas à cultura, inovação, tecnologia e produção artística. Apesar da relevância econômica do segmento, artistas independentes afirmam que os desafios para transformar criação em renda permanecem presentes no cotidiano.

Uma cidade que aprendeu a produzir música

A força musical de Goiânia não surgiu por acaso.

Ao longo das últimas décadas, a capital construiu uma cena capaz de dialogar com diferentes públicos e estilos. Além dos grandes nomes que ganharam projeção nacional, a cidade se tornou referência para a música independente brasileira, especialmente a partir dos anos 1990.

Festivais como Goiânia Noise, Bananada, Vaca Amarela, Grito Rock e diversos outros eventos culturais ajudaram a consolidar um circuito que projetou artistas locais para além das fronteiras goianas. Casas de shows, centros culturais e iniciativas independentes contribuíram para transformar a cidade em um importante polo de circulação artística.

Mas, segundo os músicos, a existência de uma cena forte não significa necessariamente que ela seja suficiente para garantir a sustentabilidade dos artistas que a constroem.

Para o compositor e baixista Felipe Hermano, integrante da banda Malvin, esse continua sendo um dos principais gargalos do setor.

“Sem dúvidas seria a valorização maior dos artistas autorais. Goiânia é uma cidade extremamente rica musicalmente, com talentos incríveis em diversos estilos, mas, muitas vezes, o mercado ainda é muito fechado para novos projetos.”

Banda Malvin | Foto: Divulgação

Criada em 2025, a Malvin aposta em uma sonoridade que mistura MPB, pop rock, reggae e música brasileira contemporânea. Embora ainda seja uma banda recente, Felipe afirma que os desafios enfrentados pelo grupo são semelhantes aos vividos por diversos artistas independentes.

“Existe muito trabalho invisível por trás de cada lançamento e de cada apresentação.”

Viver de música nem sempre significa viver da própria música

Quando criança, o sonho de Mário Nacife era simples: viver exclusivamente de música.

O caminho até esse objetivo, porém, foi diferente do que imaginava.

Mário Nacife | Foto: Arquivo

Antes de se dedicar integralmente à carreira artística, formou-se em Engenharia Civil e trabalhou na área. Paralelamente, manteve bandas autorais e participou da cena independente local. Foi apenas após a pandemia que encontrou uma nova forma de estruturar sua vida profissional.

“Foi quando comecei a atuar mais fortemente como intérprete, tocando em bares, restaurantes, casamentos e eventos particulares.”

Hoje, Mário vive exclusivamente da música. Mas faz questão de destacar uma diferença importante.

“Enquanto a música autoral foi a base da minha formação artística e da minha identidade como músico, foi a interpretação que me permitiu transformar a música também em profissão.”

A fala resume uma realidade comum entre artistas independentes. Muitos conseguem viver da música, mas não necessariamente das próprias composições.

A produção autoral continua sendo parte central da identidade artística, mas a estabilidade financeira frequentemente surge através de apresentações em eventos privados, bares e celebrações sociais.

Isso não significa abandonar a criação. Significa encontrar formas de financiá-la.

“Hoje minha vida gira completamente em torno dela. Eu acordo pensando em música, trabalho com música, estudo música, faço shows, componho e planejo meus próximos projetos”, afirma.

Dos bailes aos algoritmos

Poucos artistas acompanharam tantas transformações da cena musical goianiense quanto Dema. Quem já foi ao Bar da Tia, no setor Leste Universitário, certamente já ouviu o som potente e a voz marcante do cantor. A banda Best Remember costuma tocar às sextas-feiras.

Músico há mais de cinco décadas, ele começou a tocar ainda adolescente, quando Goiânia possuía uma intensa vida noturna baseada em bailes, boates e apresentações ao vivo.

“Minha carreira profissional começou em bailes, quando tinha uns 12 a 13 anos.”

Ao longo da carreira, integrou diversas bandas e viveu momentos em que a música era sua principal fonte de renda.

“Já teve época que eu vivi só da música. Quando era vacas gordas, tinha muito trabalho.”

Hoje, no entanto, vê o mercado com mais cautela.

“A música em Goiás, principalmente aqui no cenário do rock, não é uma fonte confiável. É uma coisa muito incerta.”

Dema, da banda Best Remember | Foto: Arquivo

Sua trajetória ajuda a dimensionar o quanto o mercado mudou. Se antes a principal preocupação era encontrar apresentações, hoje muitos artistas precisam dividir atenção entre palco, gravação, produção audiovisual, marketing digital e redes sociais.

A mudança é observada também por Felipe Hermano.

“O músico precisa ser multifuncional hoje em dia, principalmente artistas independentes. Além de artista, você precisa entender de marketing, redes sociais, produção, gestão, audiovisual, planejamento, relacionamento e negócios.”

Para músicos da nova geração, a carreira passou a exigir competências que vão muito além da composição e da performance.

Quando o palco disputa espaço com o algoritmo

Para Armando, músico e produtor de 27 anos, uma das principais transformações recentes aconteceu depois da pandemia.

Segundo ele, a forma como os espaços culturais e estabelecimentos comerciais enxergam a música mudou.

“Acho que a grande dificuldade que a música goiana de modo geral encontra hoje é a valorização da música autoral, principalmente no pós-pandemia.”

Na avaliação do artista, a música deixou de ocupar, em muitos lugares, o papel central que exercia anteriormente.

“Eu percebo uma mudança no espaço da música: o que já foi, em muitos casos, o protagonista da noite e a motivação principal para que as pessoas saíssem de casa acabou se tornando um elemento de fundo.”

Armando, músico e produtor de 27 anos | Foto: Divulgação

A consequência, segundo ele, afeta diretamente os artistas independentes.

“A grande maioria das casas prefere apenas reproduzir um Spotify da vida a contratar um DJ, quem dirá uma banda ou artista autoral.”

Ao mesmo tempo, as redes sociais se tornaram praticamente obrigatórias para quem deseja divulgar trabalho próprio.

Armando vê vantagens nesse cenário, mas também ressalta os efeitos da lógica algorítmica.

“A pressão do algoritmo cria uma demanda artificial infinita, que prioriza a constância acima de qualquer outra métrica.”

Mário Nacife compartilha percepção semelhante: “Hoje o músico não é apenas músico. Muitas vezes ele também precisa ser criador de conteúdo, divulgador, gestor da própria carreira e responsável pela própria imagem.”

Uma cena construída pela persistência

Se a nova geração enfrenta os desafios das plataformas digitais, artistas que ajudaram a consolidar a cena independente goianiense também conhecem bem os obstáculos da carreira autoral.

Márcio Júnior, vocalista da banda Mechanics, acompanha esse processo há mais de três décadas.

Criada em 1994, a banda se tornou uma das referências do rock independente produzido em Goiânia e participou diretamente de momentos importantes da construção da cena local. Os Mechanics hoje são, além de Márcio Jr. no vocal, Katú Leão na guitarra, Nicolas Deretti no baixo e Pedro Brito na bateria.

Banda Mechanics | Foto: Divulgação

“A maior dificuldade de uma banda como o Mechanics é se manter relevante e interessante para si mesma.”

O som é intenso, sólido e pesado, com influências musicais que vão de Stooges e Melvins a MC5, Mudhoney e Dorsal Atlântica.

Três décadas de trabalho intenso levaram o Mechanics a tocar em diversos eventos e festivais pelo Brasil, dividindo os palcos com nomes nacionais e internacionais como Mudhoney, Sepultura, Paul Di’Anno (do Iron Maiden), Sérgio Dias (dos Mutantes), Nação Zumbi, Ratos de Porão, Marillion e Guitar Wolf.

Ao contrário do que muitos imaginam, a banda nunca foi a principal fonte de renda de seus integrantes. “Não é com a banda que a gente ganha a vida.”

Beto Cupertino, integrante da banda Violins | Foto: Arquivo

Mesmo assim, o grupo segue ativo após mais de 30 anos. “O difícil é não se acomodar. Continuar produzindo.”

Para Márcio, a permanência de uma banda independente por tanto tempo está diretamente ligada à capacidade de continuar criando.

Beto Cupertino conhece de perto os desafios de construir uma trajetória dentro da música independente goiana. Integrante do Violins, banda que se tornou uma das referências da cena alternativa local, ele afirma que um dos principais obstáculos para artistas autorais continua sendo ultrapassar os limites da própria cidade.

“A maior dificuldade para uma banda independente de Goiânia é sair da cidade e tocar pelo Brasil”, afirma. Segundo o músico, fazer a música circular nacionalmente exige muito mais do que talento ou boas composições.

Para ele, esse processo passa pela construção de redes de contato e pela participação ativa na cena independente. “Consegui isso através de bons relacionamentos com produtores, com a Monstro Discos, apresentando nossos discos, nosso show, nossas ideias, produzindo muitos álbuns”, explica.

Ao longo dos anos, essa articulação permitiu que o Violins participasse de festivais e apresentações em diversas cidades do país, ampliando o alcance do trabalho desenvolvido em Goiânia.

A experiência acumulada ao longo da carreira reforçou a percepção de que a cena musical goiana possui qualidade para dialogar com públicos de diferentes regiões do Brasil. Mesmo após décadas de atuação, Beto segue envolvido com novos projetos e mantém o desejo de continuar produzindo.

“Quero estar ainda envolvido pela música e com disposição para produzir coisas novas até meus últimos dias de vida”, afirma. Atualmente, o músico se prepara para entrar em estúdio e gravar um novo disco com o Violins, reafirmando o compromisso com a criação artística e com a música independente.

O momento mais marcante da carreira de Beto, segundo ele, foi a apresentação no show de 10 anos da banda no Auditório Ibirapuera em São Paulo.

Goiânia como elemento central da narrativa

Representando uma geração ainda mais recente, o cantor e compositor Teodoro aposta em uma sonoridade que mistura pop urbano, rap, R&B, funk, forró, reggaeton e brega. Em 2025, lançou seu primeiro álbum de estúdio, “Te Vi na Rua Ontem”, trabalho construído ao longo de três anos e fortemente inspirado pelas experiências vividas em Goiânia.

Natural de São Luís de Montes Belos e criado em Turvânia, o artista se mudou para a capital em 2013 e encontrou na cidade o ambiente necessário para desenvolver sua carreira.

No disco, Goiânia aparece não apenas como cenário, mas como elemento central da narrativa construída ao longo das 15 faixas.

“Minha intenção é conquistar aqui dentro para depois tentar lá fora”, afirma.

Cantor e compositor Teodoro | Foto: Divulgação

A fala resume um sentimento compartilhado por diferentes artistas da nova geração. Em uma cidade reconhecida nacionalmente pela força de sua produção musical, conquistar o público local continua sendo um passo importante antes de buscar voos mais altos.

O futuro ainda está em construção

Apesar das dificuldades relatadas pelos entrevistados, nenhum deles demonstra pessimismo em relação ao futuro da música produzida na cidade. Pelo contrário. O que aparece repetidamente nas entrevistas é a percepção de que Goiânia continua sendo um ambiente fértil para a criação artística.

Felipe Hermano sonha em ver a banda Malvin alcançando festivais nacionais.

Mário Nacife pretende continuar vivendo exclusivamente da música e ampliando o alcance de suas canções.

Armando deseja construir um público que acompanhe seu trabalho pela obra em si, independentemente das exigências da indústria cultural.

Beto Cupertino segue produzindo discos e planejando novos lançamentos.

Márcio Júnior continua apostando na renovação criativa de uma banda que atravessou três décadas.

Dema, depois de mais de 50 anos de estrada, ainda fala da música com o entusiasmo de quem continua realizando um sonho.

As trajetórias são diferentes. As gerações também. Mas existe um ponto de encontro entre todas elas: Goiânia consolidou uma das cenas musicais mais importantes do país. Formou bandas, revelou artistas, criou festivais e ajudou a escrever capítulos importantes da música brasileira contemporânea.

Ainda assim, para muitos músicos, o principal desafio permanece o mesmo: fazer com que a criação artística seja capaz de sustentar quem a produz.

O talento existe. As canções também. A pergunta que continua ecoando nos palcos, estúdios e bastidores da cidade é se haverá espaço suficiente para que seus autores consigam viver delas.

Os artistas que seguem ampliando as fronteiras da música goiana

Se para muitos músicos independentes o desafio ainda é transformar a produção autoral em sustento, alguns artistas da cena goianiense também mostram como a cidade continua formando projetos capazes de ultrapassar fronteiras e conquistar espaço em outros estados.

A trajetória da banda Red Sand King é um exemplo desse movimento. Formado em 2022, o grupo de indie rock e indie pop já acumula participações em alguns dos principais festivais de Goiânia, como Goiânia Noise, Vaca Amarela e Cidade Rock, além de apresentações em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba, Brasília, Ribeirão Preto e Piracicaba.

Para o baixista André Machado, a música sempre esteve ligada à necessidade de criação. Mesmo atuando profissionalmente no mercado publicitário, ele nunca conseguiu se afastar completamente da produção artística.

 Red Sand King | Foto: Eduardo Andrade/divulgação

“Esse momento de virada aconteceu quando eu parei. Durante a vida adulta, passei uns três anos longe da música, sem produzir nada. Esse afastamento me fez perceber de forma muito clara que eu preciso da música para viver.”

A banda também vem conquistando espaço fora de Goiás. O trabalho já recebeu destaque em veículos internacionais, programas de televisão e rádios especializadas. Ainda assim, André acredita que os desafios enfrentados pelos artistas autorais permanecem.

“O maior gargalo hoje é que as casas de show focam quase exclusivamente em bandas cover, deixando as autorais locais sem espaço.”

Segundo ele, a renovação da cena depende justamente da abertura de oportunidades para novos projetos.

“Uma cena só se sustenta se tiver renovação. A garotada só montará banda autoral se tiver onde tocar. Tem que fazer o cara sonhar em tocar naquele palco.”

A cantora, compositora e instrumentista Renata Servato compartilha uma percepção semelhante. Integrante da banda Synx e também do projeto experimental Downtown 70, ela faz parte de uma geração que ajudou a renovar a cena alternativa goianiense nos últimos anos.

Desde 2020, a Synx lançou singles, álbum, EP e live sessions, além de participar de festivais como Goiânia Noise, Grito Rock e Vaca Amarela. Em 2023, a banda passou a integrar o catálogo da Monstro Discos, um dos selos mais tradicionais da música independente brasileira.

Banda Synx | Foto: Divulgação

Apesar da trajetória ascendente, Renata afirma que a sustentabilidade financeira continua sendo um dos principais desafios.

“A maior dificuldade é conseguir manter o projeto autossustentável. Atuar no cenário independente nunca foi fácil, mas hoje a forma como a indústria dos streamings dita o mercado fonográfico torna impossível obter um retorno financeiro por meio dos ouvintes.”

Segundo ela, a estratégia tem sido fortalecer a relação com o público que acompanha o trabalho da banda.

“Na Synx, a gente tem focado em construir uma comunidade real, criando conexões com quem de fato acredita no nosso som e se identifica com a nossa arte.”

Renata também defende uma ampliação dos espaços voltados para a música autoral na cidade.

“Goiânia produz muita música boa, mas faltam casas de show de médio e pequeno porte que sejam realmente voltadas para o som autoral.”

Entre os nomes que conseguiram transformar a produção independente em circulação nacional está o músico e compositor Macloys Aquino, integrante do Carne Doce, uma das bandas goianas de maior projeção na música brasileira contemporânea.

Antes de viver exclusivamente da música, Macloys construiu carreira no jornalismo. A mudança aconteceu em 2017, quando a banda já possuía uma agenda consolidada em diversas regiões do país.

“A banda começou a dar certo, a tocar fora de Goiás e logo que se estabeleceu com uma agenda nacional, em 2017, eu decidi sair do jornalismo e focar na banda.”

Carne Doce | Foto: Rogério Watanabe

Mesmo após alcançar reconhecimento nacional, ele acredita que a pandemia representou um dos momentos mais difíceis para a música independente.

“Além dos danos econômicos que ela causou, fechando casas, encerrando festivais, tirando profissionais e artistas do meio, ela acelerou uma mudança de comportamento na forma de produzir e de consumir música.”

Para Macloys, o fortalecimento da cena depende também de políticas públicas voltadas à circulação cultural.

“Fomento público para estabelecer uma agenda cultural da cidade, com frequência de shows de artistas independentes brasileiros.”

Entre bandas que já percorrem o país, artistas que experimentam novas linguagens sonoras e músicos que começam a construir suas trajetórias, a cena goianiense segue renovando seus protagonistas. Em comum, todos carregam a mesma aposta: a de que a música produzida na cidade ainda tem muito a dizer para além das fronteiras de Goiás.

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