Doutora Jacira Rosa Pires

Goiânia fez noventa e dois anos. E ainda cresce sem parar.

Devo avisar a ela: vai com calma!

Às vezes parece que o tempo aqui corre em disparada, como se a cidade tivesse medo de perder o trem da modernidade que ela mesma ajudou a construir. Goiânia foi sonhada para ser o futuro, e de certo modo, nunca deixou de correr atrás dele. Mas agora, aos noventa e dois anos, o futuro já chegou – e o que ela precisa talvez não seja correr mais, e sim respirar.

Lembro do dia em que vi o sol bater nas fachadas Art Déco, como se cada linha, cada recorte geométrico, fosse uma lembrança viva do tempo em que tudo era projeto. Eram traços de esperança em concreto. Goiânia nasceu do traço de Attilio Corrêa Lima, cresceu sob as mãos de tantos outros e foi se tornando uma síntese de sonhos, trabalho e chão vermelho. Hoje, o que resta desse começo ainda pulsa – nas esquinas, nas sombras das sibipirunas, das mangubas, no cheiro das mangueiras antigas, nas histórias que o vento sopra nas varandas.

Mas, às vezes penso que a cidade anda com pressa demais para ouvir o próprio coração. As árvores se despedem sem cerimônia, os espaços se apertam, o trânsito se agita e o silêncio dos antigos quintais vira eco entre os prédios. Goiânia, menina de noventa e dois anos, ainda se comporta como adolescente: quer tudo ao mesmo tempo, se encanta com cada novidade, se expande sem se olhar no espelho.

Eu quero lhe dizer: siga crescendo pois é da sua natureza – as cidades crescem, mas é preciso estar atenta com a saúde, a beleza e qualidade dos seus espaços definidos pelas mãos do arquiteto autor – não perca isso.  É bonito amadurecer guardando o brilho no olhar – aquele mesmo que você tinha quando nasceu do concreto e do traço, no coração do Cerrado.

A sua beleza não está apenas nas avenidas largas ou nos novos edifícios que desenham o horizonte. Está no modo como as pessoas ainda se cumprimentam nas feiras, no cheiro de pamonha que insiste em atravessar a cidade inteira, na música que ecoa de um rádio antigo, na vizinha que oferece café com bolo de milho. Está na lembrança do tempo em que os nomes das ruas tinham sentido, e a gente ainda sabia quem morava nelas.

Goiânia, talvez você precise lembrar que crescer também é cuidar. Que não há progresso sem memória, nem modernidade que resista à perda de si. A pressa é inimiga da alma das cidades – e as cidades também têm alma, sabia? A sua, por exemplo, é feita de uma mistura rara de sonho e afeto, de calor, poeira e horizonte. É uma alma que pede sombra, que pede tempo, que pede calma.

Você, Goiânia, foi pensada como símbolo de um Brasil que nascia moderno – linhas retas, praças geométricas, avenidas generosas. Um sonho de cidade-jardim no coração do país. Mas o que era utopia virou urgência, e o que era sossego virou trânsito. Ainda assim, sob o concreto, o verde persiste. As antigas árvores da Avenida Goiás ainda tentam conversar com o céu, e as casas antigas – aquelas que sobraram – ainda contam, em silêncio, o quanto custou chegar até aqui.

Talvez o que você precise agora não seja crescer mais, mas se reencontrar. Voltar a ser cidade para as pessoas, e não apenas para os carros. Voltar a ter esquinas que convidam à conversa, bancos propiciem descanso, praças que abriguem o tempo, porque viver também é demorar-se.

Goiânia, você tem noventa e dois anos, mas mirando este vasto mundo de urbes, no fundo, é uma jovem cidade. Mas na sua juventude e crescimento acelerado é preciso ouvir o tempo. A sabedoria está em se permitir envelhecer com graça – reconhecendo o que deve mudar e o que deve permanecer. Deve preservar o que te faz única: o traço Art Déco, no setor Central e as casas modernistas, algumas poucas que se encontram por aí, as avenidas com ilhas embelezadas com coqueirais. Predicados, que te deram identidade e beleza. Um desenho urbano que te deu harmonia, e paisagem que te deu poesia.

Não tenha medo de parar um pouco. O mundo não vai embora se você respirar.
O progresso também precisa de pausas – e as pausas são o que permitem que a beleza se revele de novo.

Goiânia, cidade feita de sonhos, alvenaria, e da dureza do concreto, mas também de calor e acolhimento. Cidade de ruas largas e corações abertos. Cidade que, mesmo quando se perde, encontra caminhos. Aos noventa e dois anos, você merece mais do que obras novas. Merece cuidado. Merece escuta. Merece ternura.

Porque não há cidade sem memória, e não há futuro sem raízes e as suas estão no Cerrado, no traço de quem acreditou que o centro do país podia ser também o núcleo de um novo tempo. E que o interior podia ser capital, e que o verde podia coexistir com o urbano. Essa utopia ainda vive – basta que você se lembre de olhar para dentro. Veja o Setor Sul, um bairro residencial que nasceu junto ao Setor Central, onde está o centro cívico. É um bairro que tem um desenho especial que demorou a ser habitado/urbanizado. O Setor Sul é, talvez, o capítulo mais delicado e sofisticado da história de Goiânia. Sua concepção, baseada no ideário das cidades-jardim internacionais, traduz um urbanismo escultórico, orgânico, etéreo. Ruas curvas, conformadas pela topografia natural, parecem convidar o pedestre a caminhar. As calçadas, sombreadas por fileiras de árvores, constituíam espaços que mais parecem salas a céu aberto. O bairro não gritava modernidade — ele sussurrava e sussurra em seus detalhes. Ali, o espaço verde não é mero cenário; é estrutura urbana e por isso deve permanecer, deve ser conservado, respeitado como história, como traçado do bem viver. Um sonho que se tornou realidade.  

Então, Goiânia, eu repito: vai com calma.

Anda devagar para que a gente possa te acompanhar.

Fala mais baixo para que possamos te ouvir.

Não perca teus espaços verdes, não perca tuas ilhas, que organizam as pistas nas avenidas, sinalizando civilidade, pois cada espaço tem sua função e não podem ser desfeitos e nem eliminados (servem para drenagem, embelezam e cuidam da separação civilizada das pistas no transito…), são decisões técnicas e oficiais do plano original e histórico.

Abra espaço para que o vento volte a passar entre as árvores e as pessoas.

A pressa constrói, mas é o cuidado que sustenta.

E o amor – esse sim – é o que te mantém viva.

Que teus próximos anos sejam de reencontro, de pausa e de poesia.

Que o teu coração aprenda a bater no ritmo certo – nem tão rápido que te percas, nem tão lento que te apagues.

Vai com calma, Goiânia. O tempo ainda é teu. 

Jacira Rosa Pires. – Acadêmica da AFLAG

2ª titular

Cadeira: 19

Natural de Goiânia – Goiás. Escritora, pesquisadora, professora. Graduou-se em Arquitetura e Urbanismo (1974), PUC Goiás – Pontifícia Universidade Católica de Goiás. Seu foco é a preservação histórica e urbana de Goiânia. Carreira docente no Departamento de Arquitetura e Urbanismo da PUC/GO (1979-2018). Realizou doutorado na Universitat Politècnica de Catalunya – Barcelona/Espanha (2006). Publicou em 2009 o livro: “Goiânia – Cidade Pré-Moderna do Cerrado 1922- 1938” e várias outras publicações em coautorias. Sócia de várias instituições culturais, tais como IHGG – Instituto Histórico e Geográfico de Goiás; AFLAG – Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás, entre outras. Tem vínculo com instituições culturais de Salvador BA e Rio de Janeiro RJ e recebeu homenagens de várias instituições, tais como: 2020 – Comenda Municipal de Mérito Arquitetônico e Urbanístico Attílio Correa Lima; 2018 – Mulheres que engrandecem o Estado de Goiás entre outras. 

A coluna Prosas em Artes é uma colaboração de Andréa Luísa Teixeira e Dani de Brito.

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