Carta requiem por Múcio Teixeira
26 maio 2026 às 17h39

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Goiânia, 22 de maio de 1987.
Querido Múcio:
Acabo de saber que você se foi.
Coisa estranha. Nós, sem você, para sempre, e eu, de olhos secos, um nó na garganta, em vez de chorar, expresso a minha dor, escrevendo. Eu escrevo uma carta para você, no firme propósito de me portar serenamente, diante desta “patada” que recebo, justo no mês de meu aniversário (eu até cobrei de você meus parabéns semana passada, pelo D.D.D …)
Você disse que me amava, que amava a todos nós daqui de casa… que estava difícil … me deus os parabéns…
Você se foi e eu ainda o vejo (só consigo vê-lo assim) lá no seu “Santuário” – a chácara – o seu Campo Formoso – de bermudas, boné, chinelões, saracoteando de um lado para o outro liberto dos tão bem talhados ternos, feliz da vida com a água pura da mina, com as flores, com as plantas, as frutas, coisas simples, mas que lhe traziam tanta alegria, tanto orgulho!
Eu ainda não estou chorando. Estou com aquela tristeza funda, calma, curtindo as lembranças (só tenho boas) do Múcio simples, bem humorado, inteligente, afável, amigo de tanta gente, máquina de trabalhar!
Pra mim, você viajou de novo e deve ter sido a Leonor que veio de Goiás pra arrumar sua mala (você me disse que ela sabia fazê-la também, lembra?).
Você foi fazer uma viagem, tranquilo, sereno, como devem estar as pessoas que estão em paz com Deus e com os homens. Tenho para mim que você, apesar de ter lutado constante e bravamente contra a morte, também se preparava para o inevitável encontro de todos os mortais, com resignação, fé e sabedoria. Medo. Medo também você deve ter tido. Quem não tem? Mas os sábios sabem contorná-lo.
“A morte não surpreende o sábio. Ele está sempre prestes a partir”, disse La Fontaine.
Então você partiu e deve estar tudo melhor agora. As pessoas sempre dizem isso para se consolarem umas as outras, não é? Melhor encararmos assim.
Para as que creem, é agora que você começará sua nova vida, uma vida eterna. E que beleza de vida eterna será esta sua! Preparado, competente, tão próximo de Deus, tão piedoso, tão generoso e bom, há de ser maravilhoso para tê-lo aí tão próximo.
Não dá pra chorar em desespero, por que, se de um lado, sentiremos sua falta, de outro, tenho a certeza de que não gostaria, nenhum de nós gostaria de continuar assistindo ao seu sofrimento físico, amarrados, sem poder dar-lhe o alívio.
Verdade que os desígnios de Deus têm sua razão de ser e nem sequer significam o Mal, o Fim, como entendemos à primeira hora.
A natureza de onde você tirava tantos exemplos para extrair as lições de vida que me passava, é pródiga em reiterar esta verdade.
“Um casulo é o túmulo de uma borboleta
ou o berço para o nascimento de um novo
homem, é o princípio de uma nova e melhor vida”
(Marques de Maricá)
Múcio, eu aprendi com você durante aquela convivência lá na Secretaria do Governo de Goiás. Hoje sou mais diplomata, mais habilidosa nas colocações, tenho mais senso de oportunidade, sou mais política…
E aquela “lição do coqueiro” que você deu a mim e a Cordeiro numa daquelas nossas reuniões de trabalho?
Parece que foi ontem. Eu ainda me lembro de que você disse que nós temos que ser como o coqueiro, altos, saber verga, ser maleáveis, durante a tempestade para permanecermos vivos, altaneiros, depois que os ventos passarem. Os rígidos, em geral, restam partidas, porque não se comportam como o coqueiro. E alguma coisa mais ou menos assim.
Para que eu não me lembre do seu ponto-de-vista acerca dessa partida inevitável de todos nós.
Não sei ao certo o que ela lhe significava. A essas alturas, depois de uma vida tão bonita, sem dúvida plena, uma trajetória pública brilhante, uma realização tão bonita desse reencontro maravilhoso com Deus, depois desse sofrimento físico que o castigou tanto… não sei mesmo o que ele significava ir embora, parar com isso.
Sei que eu o via como um homem que realizou sua missão, que cumpriu o seu dever, que estava pronto, à disposição de seu Senhor, quando ele assim o entendesse.
Você merece a paz sonhada por todos nós.
Roubei, de Cruz e Souza os versos que a seguir transcrevo, por se ajustarem ao momento, a você (tão exigente que era com os escritos).
“Assim seja, fecha os olhos e morre, calmamente! / morre sereno do dever cumprido, como quem viveu um sonho / Irmão, se quer, o teu sentir latente.
Morre com teu Dever na alta confiança / de quem triunfou e sabe que descansa / desdenhando de toda a Recompensa.”
Você, por acaso, não era o homem invisível de Goiás? Não era a caneta responsável pelo sucesso de tantos? Não era a cabeça deles?
Era sim e nunca procurou aplausos. O importante era conseguir o que conseguia quase sempre. Até dinheiro de gringo para esses bobos desviarem. Mas você cumpriu o seu dever, muito exigentemente, anonimamente, às vezes, e por isso deve descansar, sem se importar com a recompensa.
Preciso continuar roubando texto alheio para continuar minha carta. Chego até ver a cara boa que você fazia quando eu escrevia o que você gostava. Daí eu precisar de ajuda para costurar este último texto para você. Caprichado.
É Antônio Nobre que vem em meu socorro. Ele fala da morte, do medo, do que eu gostaria de saber ver a esse respeito. Parece que vai falar para você. Veja só:
“Não tenhas medo. Morrer/ não custa nada, é viver. / Custa menos que se pensa. / O principal é ter crença. / Morre o corpo / a alma abre asas / E vai: é mudar de casa.”
Fica-me uma conclusão quase óbvia. O principal para a “mudança” você tinha. Fé. Daí, nós sabemos até o seu novo endereço. Vá e descanse. Espere por nós. Em paz. Como você gostava.
Deus deve ter muitos “Campos Formosos” por lá, precisando de administrador.
Um beijo
Sônia Marise
P.S. Obrigado por ter sugerido o meu nome, quando eu nasci. Nunca lhe disse, mas gosto muito dele. Agora estou chorando. De saudades.
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Palavras a um homem
Muitos heróis
(lendários ou não)
são homens:
PROMETEU, que desafiando ZEUS,
se apossou do fogo sagrado;
YCARO, que tentou voar;
JESUS, que é o filho do Pai;
JOSÉ, que multiplica tostão
pra comprar arroz, pra comprar feijão…
Todos os homens são escravos
são oprimidos,
são fortes...
Todos músculos mais sólidos,
sempre lhes será exigido
que carreguem fardos mais pesados…
Tendo barba,
é possível que despertem risos
quando tiverem necessidade de ternura.
E por serem homens, forte e escravos
de uma herança cultural,
receberão ordens para matarem
e serem cúmplices
transmitindo aos outros
a tirania instaurada nas cavernas.
Mas, apesar de tudo
e precisamente por tudo, ser homem deve ser
uma ventura maravilhosa,
tanto mais se,
sendo homem
for compreensivo com os fracos
feroz com os prepotentes
generoso para com os que lhe quiserem bem
Deve ser maravilhoso ser homem
tanto mais se, além de homem,
lhe for possível ser PAI!
Sônia Marise Teixeira Silva de Souza Campos
2ª Titular da Cadeira nº 4 da Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás
Sônia Marise Teixeira Silva de Souza Campos, ou simplesmente Sônia Marise, conforme artisticamente assina, é natural de Goiânia, Goiás, filha de artistas, mãe, pintora (Dag França) e pai, músico, (Atinil Silva).
Tomou posse no dia 08.08.2024.
É casada com Lázaro Campos, mãe de Paula Beatriz e Leonardo, e avó de Sophia, Gustavo, Maria Luísa e Rafael. Completou o ensino médio em Jataí, Goiás, nos Colégios Nestório Ribeiro e Nossa Senhora do Bom Conselho.
Graduou-se me Letras (português, francês e literaturas correspondentes), pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO) e em Direito pela Universidade Federal de Goiás (UFG), onde também cursou especializações em Direito Civil, Direito Penal e Direito Processual relativo às duas áreas.
Atuou profissionalmente na docência de língua portuguesa em estabelecimentos públicos e privados da capital e do interior, bem como em cursos profissionalizantes de língua portuguesa aplicada (SENAC e a então Escola Técnica Federal de Goiás, programa PIPMO, preparação de mão de obra especializada).
Como advogada, foi procuradora jurídica da então CELG – Centrais Elétricas de Goiás S.A, atuando no Contencioso cível amplo, e incluindo a área de pareceres.
Foi Conselheira da Ordem dos Advogados do Brasil, Seccional de Goiás, integrando importantes comissões, notadamente relativas à mulher e ao advogado empregado.
Escrevendo desde a adolescência, embora tendo seu texto reconhecido (conto e poesia), constantes de coletâneas locais, muitos deles premiados, sua publicação solo só aconteceu na maturidade. Iniciou-se com a Trilogia Escritos do Baú, com Guardados, Poemas (2005), Outros Guardados, prosa (2012) e Achados & Perdidos, prosa e poesia (2016), todos pela Cânone Editorial.
Em 2024 lançou Confissões de uma Caneta Sensível e Malcriada, seu mais recente título, pela mesma editora.
Atualmente segue trabalhando Cartas do Século Passado.
Integrante da UBE-GO (União Brasileira de Escritores), e da AGI – Associação Goiana e Imprensa, assina artigos para jornais e outras publicações. Escreveu, produziu, dirigiu, roteirizou e fez locução de produção audiovisual contextualizada (temáticas diversas) em episódios disponibilizados em seu canal do Youtube, criado por ocasião do isolamento social severo em razão da pandemia da COVID-19 – https://www.youtube.com/@soniamarise5784.
Divide seu tempo entre Goiânia, Palmas e Gurupi, no Tocantins, estado onde a família também tem residência, terra natal de seus netos que lá residem com seus pais, veraneando sempre que possível nas praias do maravilhoso Rio Tocantins, notadamente em sua margem esquerda, apaixonados que são pela Praia do Peixe, local que, por feliz coincidência, remete à ANA BRAGA, acadêmica e co-fundadora da AFLAG, patrona e titular da cadeira nº 4.
Tem habilidades na oratória e interpretação, ferramentas que utiliza, sobretudo, na concepção de personagens diversos, destinados ou não ao universo infantil.
Concilia a literatura com a música, tendo produzido e gravado um trabalho musical solo (CD), não comercial, para treinamento de língua italiana, idioma adotado pelo Coro Italiano Toscanelli da Associação Italiana de Goiás do qual é integrante.
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