Eurydice Natal e Silva… você conhece essa goiana?
12 maio 2026 às 18h12

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Eurydice Natal e Silva, nascida em 23 de novembro de 1883, na então capital do estado, a Cidade de Goiás, foi uma relevante intelectual goiana, reconhecida por sua carreira como educadora, escritora e promotora cultural, em um período marcado pela predominância masculina nas instituições culturais, levando o nome de Goiás para todo o Brasil. Ainda assim seu nome permanece desconhecido por muitos.
Eurydice recebeu educação refinada para os padrões da época, além da formação doméstica esperada para as meninas e moças daquele tempo, estudando inicialmente com seu pai. Posteriormente teve formação com os renomados professores: Manoel Caiado (Português e Latim), Augusto Rios (Francês) e Eckigrous (Inglês). Sua privilegiada formação educacional lhe proporcionou preparo consistente para atuar em diferentes campos do conhecimento e das artes.
Eurydice viveu em uma época em que a participação feminina na vida intelectual era, ainda, bastante limitada. Mas ela não se contentava ou se acomodava com a situação. Segundo depoimento de sua neta, Moema de Castro e Silva Olival, Eurydice foi responsável pela fundação de uma academia de letras em 1904, instalada na então capital goiana, no atual Palácio Conde dos Arcos, assumindo também sua presidência aos 19 anos.
O feito ganha ainda mais relevância quando se considera o contexto da época: as academias literárias, inspiradas no modelo da Académie Française, impunham restrições à participação feminina, realidade que também marcou as primeiras décadas da Academia Brasileira de Letras. Através do depoimento da neta Moema Olival, respaldado por registros acadêmicos e memória familiar qualificada, acredita-se que Eurydice tenha sido a primeira mulher do Brasil a fundar e presidir uma academia de letras. A referida instituição é, inclusive, considerada a primeira academia de letras em Goiás, sendo anterior à Academia Goiana de Letras. Em uma época em que poucas mulheres tinham acesso à formação intelectual e quase nenhuma alcançava projeção pública, sua trajetória desbravava caminhos para as vozes femininas.
A seguir, texto extraído do estudo Evolução Cultural de Goiás, de autoria de Jerônimo Geraldo de Queiroz, premiado ensaio no III Concurso Literário do Instituto Goiano do Livro em 1969 (pág.143):
Comprovando essa presença atuante e construtiva da mulher goiana, na mudança do contexto cultural de seu Estado e a existência de certo matriarcado na primeira década deste século, foi a aclamação, em 1904, de Eurydice Natal para presidente da Academia de Letras, então fundada. Trata-se da autora do conto “Ecidi”, escrito em 1904 e posteriormente publicado com outros, em 1939, em “Notas de Viagem ao Araguaia”. Cumpre acentuar que a Autora se coloca dentre as pioneiras do conto em Goiás, visto que “Irma”, de Matias da Gama, é de 1893; “Na Taverna”, de Joaquim Bonifácio Gomes de Siqueira, é de 1903; “Tragédia na Roça”, de Cora Coralina, só foi publicado em 1910, no “Anuário” do professor Ferreira, bem como datam também de 1910 os livros de contos do Pe. Zeferino de Abreu, e o de Crispiano Tavares.
Eurydice é autora do conto “Ecidi” (1904); publicou textos em “Notas de Viagem ao Araguaia” (1939) e é considerada uma das pioneiras do conto em Goiás.
Atuando na histórica Cidade de Goiás no final do século XIX, promovia saraus literários e musicais, reunindo intelectuais e artistas. Neles, a música, especialmente o canto e a execução instrumental, ocupava lugar de destaque, constituindo uma das principais formas de inserção feminina na vida cultural daquele período. Esses encontros funcionavam como espaços de formação cultural, circulação de ideias, sociabilidade da elite letrada e viabilização da participação feminina nas artes. Ela fomentava verdadeiros núcleos de pensamento e efervescência cultural.
Pesquisas recentes de Ana Guiomar Rêgo Souza e Natália Plaza Pinto Silva, publicadas na revista Contribuciones a las Ciencias Sociales, evidenciam que a atuação feminina exerceu papel fundamental no desenvolvimento da produção musical em Goiás. Segundo as autoras, do século XIX à consolidação de Goiânia no século XX, percebe-se uma continuidade das práticas culturais protagonizadas por mulheres, especialmente no campo da música e nos espaços de sociabilidade.
A artista vivenciou também o período de consolidação da nova capital, Goiânia. Mudou-se para a nova capital e em sua residência, na Alameda dos Buritis, realizava os encontros culturais ajudando a fortalecer a vida artística da nova cidade. Assim, sua presença conecta simbolicamente duas capitais goianas: a tradição histórica da Cidade de Goiás e o impulso moderno de Goiânia.
Dessa forma, delineia-se uma linha histórica consistente: dos saraus da Cidade de Goiás no século XIX à vida cultural contemporânea de Goiânia, as mulheres exerceram papel decisivo na produção e difusão da cultura. Eurydice Natal e Silva sobressai como figura pioneira nesse percurso, cuja influência, direta ou indireta, reverbera nas práticas culturais que permanecem vivas até os dias atuais. Eurydice, que tem sua trajetória conectada à antiga capital do estado – Cidade de Goiás, à construção cultural da nova capital do estado – Goiânia e ao desbravamento do espaço feminino na intelectualidade brasileira é vista, atualmente, como uma das figuras mais relevantes da história cultural goiana.
Mas então, por que pouco se fala sobre essa importante mulher goiana?
A centralização da historiografia no eixo Rio–São Paulo? A pouca circulação de documentos regionais antigos? A tradicional inviabilização histórica das mulheres? Talvez um pouco de tudo unido ao tempo, o senhor das horas que, por vezes cruel, afasta-nos das memórias mais valiosas e silencia vozes que jamais deveriam ser esquecidas.
Talvez a redução de seu reconhecimento tenha se esvaído com o passar do tempo, mas todo feito valoroso reencontra, algum dia, sua voz e importância para a humanidade.
Eurydice falece em 1970, após atravessar diferentes fases históricas de Goiás, romper barreiras de gênero e ocupar espaços tradicionalmente masculinos, além de imprimir, em nosso país, sua relevância como símbolo do protagonismo feminino na cultura goiana e nacional. Resgatar seu nome é corrigir silêncios e também resgatar parte da própria identidade cultural de nosso estado.
Daniela Rezende Seixo de Brito Mendes Fernandes (Dani de Brito)- Acadêmica da AFLAG
3ª titular
Cadeira: 3

Dani de Brito é autora, ilustradora e educadora. É graduada em Artes Visuais pela Universidade Federal de Goiás e Educação Física, especialista em Arte Educação Intermidiática e Dançaterapia para pessoas com demência ou doenças psiquiátricas.
Sua trajetória literária iniciou-se em 2008, com um projeto pessoal de histórias para seus filhos, João Vítor e João Gabriel, quando publicou suas primeiras quatro histórias ilustradas e inaugurou a Coleção Menino João. Desde então são 36 títulos publicados e adotados em redes municipais e privadas de vários lugares do Brasil. Algumas de suas publicações são:
- Lápis cor de pele?
- 24 de outubro… Nasce uma capital: Goiânia
- Ratofredo
- Cidade da bisa.
Em 2025 foi premiada no X Festival de Poesia de Lisboa, recebendo, como prêmio, a publicação de seu livro no Brasil e em Portugal: Suspiros póstumos de um poeta desgarrado.
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Narcisa Abreu Cordeiro
2ª Titular
Cadeira: 35
Natural de Goiânia, formou-se em Arquitetura e Urbanismo pela UCG, com especialização em Planejamento Regional pelo CNDU.

Também diplomou-se em Botânica pelo Departamento de História Natural da UCG. Atuou com projetos de urbanismo, paisagismo e fotografia, defendendo as áreas verdes de Goiânia em seminários e congressos.
Destacou-se como escritora, poeta, escultora, cantora e historiadora.
Como escultora, foi aluna da renomada professora Ana Maria Pacheco e realizou exposições nacionais e internacionais. Coordenou o Museu de Escultura ao Ar Livre, na Praça Universitária.
Integra treze instituições culturais no Brasil e no exterior, entre elas AFLAG, IHGG e União Brasileira de Escritores.
Possui trabalhos publicados em jornais, revistas e dicionários lítero-culturais.
Entre suas obras estão In Totum e estudos sobre o plano urbanístico de Goiânia.
Na música, lançou o LP Narcisa e o CD Oráculo, como compositora e soprano dramático.
A coluna Prosas em Artes é uma colaboração de Andréa Luísa Teixeira e Dani de Brito.
Leia também: O silêncio de mamãe


